
Os Monstros Também Amam
Será que até os monstros podem amar… sem destruir tudo ao redor?
Anderson Silveira aprendeu cedo que alguns sentimentos, quando expostos, podem virar armas contra quem os carrega. No ensino médio, ao confessar seu amor por Samanta Palmer, a garota ruiva que parecia iluminar corredores inteiros — ele foi exposto, ridicularizado e quebrado diante de todos. A humilhação deixou marcas profundas, e algo dentro dele mudou completamente.
A partir daquele dia, Anderson deixou de ser apenas um garoto tímido. Nas sombras do próprio peito, nasceu um monstro feito de raiva silenciosa, de impulsos que ele não compreendia e de uma escuridão que jamais pediu para sentir.
Anos depois, ele se tornou um homem disciplinado, respeitado e aparentemente em equilíbrio. Mas o passado, quando não é curado, apenas se disfarça.
E o dele estava prestes a bater novamente à sua porta — na forma de Samanta.
O reencontro deles reacende tudo o que ambos lutaram para enterrar.
Agora, os dois precisam atravessar suas sombras, enfrentar o que se tornaram e decidir se é possível construir algo onde antes só havia ruína.
Porque às vezes, amar não é sobre luz.
Às vezes, é sobre reconhecer a escuridão que existe em cada um — e, mesmo assim, permanecer.
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Chapter: EcosO silêncio no quarto já não era o mesmo. Enquanto, a atmosfera era denso, quase sufocante, carregada de medo, de incertezas que ninguém ousava nomear. Agora, era diferente. Ainda pesada, ainda cheio de coisas não ditas, mas atravessado por algo novo: incredulidade. Como se todos ali estivessem apenas esperando que alguém dissesse que aquilo não era real. Mas era. Anderson estava acordado. Ele ainda segurava a mão da mãe, os dedos firmes, como se houvesse aprendido tarde demais o valor daquele contato. A senhora Silveira não se movia. Tinha medo de qualquer gesto quebrar o momento. Ao lado da cama, Elise se apoiava na lateral do colchão, o desenho preso entre as mãos pequenas. Já havia mostrado três vezes. Já haviam elogiado três vezes. Ainda assim, ela sorria como se fosse a primeira. E, de certa forma, era. Anderson observou a cena em silêncio por alguns segundos. Então, com um esforço visível, deixou escapar um sorriso cansado. — A noiva já cortou o bolo? — o questionamento veio
Última actualización: 2026-03-22
Chapter: RevelaçãoO doutor Fernandes foi o primeiro a passar pela porta da sala de espera, o jaleco ainda marcado pela fragrância ácida do antisséptico. Ao lado dele, Palmer caminhava com aquela postura que Elise já reconhecia — firme demais para ser apenas confiança técnica, controlada demais para revelar qualquer coisa que não fosse esperança moderada. Mas era Joana que capturava a atenção da menina. A postura da mulher — braços levemente afastados do corpo, ombrizados num ângulo que sugeria prontidão para qualquer ameaça, era a mesma que Elise presenciara. A sala de espera parecia encolher. Ela estava sentada à pequena mesa projetada para a faixa etária dela, o giz azul reduzido a um fragmento curto entre os dedos — o mesmo giz com que desenhara o rosto do pai dezenas de vezes nas últimas horas, tentando fixar na memória cada linha antes que o sono a levasse. Joana permanecia junto à janela localizada atrás da garotinha, imóvel como uma sentinela, a luz cinzenta da tarde de inverno moldand
Última actualización: 2026-02-17
Chapter: EsboçoA irmã do soldado levou alguns segundos até encontrar voz. O olhar permanecia perdido em um ponto indefinido da sala de espera, como se cada cenário possível que se desenhava à sua frente fosse pesado demais para ser encarado de uma só vez. — Eu sei… — murmurou por fim, quase sem som. Hesitou, respirou fundo, e completou. — E é justamente isso que me assusta. Samanta manteve-se em silêncio. Sabia que, por mais cuidadosa que fosse, existiam dores que não se atravessavam com palavras. Havia limites humanos, emocionais que nem mesmo a melhor das intenções conseguia ultrapassar. — Anderson nunca falou sobre uma filha — continuou Joana, erguendo finalmente os olhos para a médica. Confusão e incredulidade se misturavam ao medo que agora se revelava sem disfarces. — Se meus pais descobrirem assim… desse jeito… eu não sei como vão reagir. Antes que Samanta pudesse responder, um gesto pequeno desviou a atenção das duas. Elise havia parado de desenhar. O lápis de giz azul permanec
Última actualización: 2026-02-11
Chapter: RevésAo alcançar o fim do corredor que conduzia à sala de espera, Samanta foi a primeira a reconhecer a postura rígida e o semblante fechado da chefe de cirurgia. Bastou aquele olhar profissional, contido e grave, para que ela soubesse: a espera por uma resposta havia, enfim, chegado ao fim. A médica aproximou-se em passos lentos, como se cada movimento precisasse respeitar o peso daquele instante. Ajustou o estetoscópio sobre os ombros e inspirou profundamente antes de falar — um gesto simples, porém suficiente para acelerar o coração de Samanta. Por dentro, ela torcia para que a atualização do quadro clínico fosse positiva; ainda assim, sua formação a mantinha consciente de que, diante de um estado crítico, qualquer desfecho era possível. — Sam… — chamou-a em um tom amigável, embora cuidadosamente controlado. — A cirurgia do soldado Anderson Silveira foi longa e extremamente delicada. A pequena Elise permanecia atenta, os olhos fixos na médica, absorvendo cada palavra na tentativ
Última actualización: 2026-01-28
Chapter: PausaA doutora Palmer sabia que cada palavra precisava ser cuidadosamente ponderada, visto que tanto a situação no hospital quanto seu histórico com a família Silveira já carregavam peso suficiente, e qualquer deslize poderia reacender feridas ainda abertas. A irmã do soldado, por sua vez, mantinha o olhar fixo em um ponto indefinido da parede em tons claros, uma tática infalível que aprendera a usar sempre que precisava conter a aflição e o desespero diante de situações caóticas. Por mais que o silêncio entre elas fosse intenso, repleto de episódios mal resolvidos e emoções reprimidas, ambas conseguiram manter uma conversa sociável, sem as famosas trocas de farpas. Visto que entre elas, havia uma espécie de trégua invisível, na qual ambas aguardavam o mesmo desfecho, compartilhavam a mesma angústia e o mesmo medo disfarçado de resistência. E, enquanto o tempo parecia se arrastar na cafeteria movimentada do hospital, Samanta compreendia que, independentemente do passado, aquele instante
Última actualización: 2026-01-26
Chapter: LaçosNo exato instante em que as duas mulheres se afastaram em direção ao outro pavilhão, a doutora Palmer foi surpreendida por bracinhos franzinos que se enroscaram com força inesperada em suas pernas. O impacto foi imediato. Samanta ficou estagnada no lugar. O ar lhe faltou por um segundo, e o coração quase perdeu o compasso antes mesmo que ela tivesse a coragem de abaixar o olhar. Os olhinhos castanhos, amendoados e atentos, a fitavam com uma familiaridade desconcertante, intensa demais para ser acaso. Havia algo naquele olhar que atravessava o tempo, como um fragmento vivo de um passado que ela jamais conseguira enterrar por completo. Um lembrete cruel… e, ao mesmo tempo, dolorosamente doce de seu grande amor. Ao lado dela, a noiva e a enfermeira da ala pediátrica permaneceram imóveis, como se aquela cena não pertencesse àquele corredor, àquele hospital, àquele presente. — Olá, princesa… — Samanta murmurou, ajoelhando-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-la des
Última actualización: 2026-01-20