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De repente dezembro
De repente dezembro
Author: Letícia Batista

I

Desespero, a palavra que usaria para determinar minha vida em milhares de situações.

Qualquer fio de esperança que percorria por minhas veias, havia secado lentamente causando dor e sofrimento, não somente para mim, mas também para meus irmãos.

Aquela luz no fim do túnel se apagou sem chances de se acender. Foi um ano tão amargo que nem o mel mais doce do mundo repararia os danos causados em nossas vidas.

Tudo começou numa linda tarde de início de inverno. Meus irmãos e eu resolvemos caminhar em volta da mansão e depois dar um mergulho no lago da família.

Ao observar cada árvore com meus olhos semicerrados, por causa do sol, era notável a vida e a alegria que transpareciam. O campo da propriedade era verde cercada de flores colorida.

Foram as melhores férias que alguém poderia ter. E eu não via a hora de poder montar no meu lindo cavalo!

Bom, eu ainda não tinha um, mas tinha certeza que meu pai me daria, pois eu o escutei falando ao telefone sobre alguma coisa relacionada a aniversário, presente e uma cela, e cá entre nós, que eu saiba, celas são para cavalos e meu aniversário estava chegando.

Minha animação para as férias de inverno era imensa, e eu não desejava uma grande festa de quinze anos com vestidos e uma valsa com o príncipe. A única coisa que eu realmente queria, era acampar em volta de uma fogueira com a minha família, e meu cavalo.

Depois de uma longa caminhada, brincamos de pega-pega, meu irmão do meio gritou fazendo todo mundo sair correndo.

- O último a chegar é mulher do padre! – Não pensamos duas vezes, minha irmã caçula e eu saímos correndo pela plataforma de madeira e pulamos no lago.

- Crianças, hora de almoçar. – Ouvimos mamãe gritar da porta do jardim.

- Vamos. – Ordenei. – Vocês sabem o que aconteceu da última vez né? – Da última vez ela nos castigou fazendo lavar toda a louça.

Apesar de podermos contratar qualquer serviço com nosso dinheiro, o único serviço que nunca poderia ser contrato, era o conhecimento, e isso fazia com que estudássemos muito, pois sabíamos que a sabedoria, dinheiro nenhum poderia comprar.

- Me ajuda Nãna. – Eu sei nome de cachorro, mas eu não resistia minha irmãzinha pedindo minha ajuda.

Ela sabia nadar, todos nós sabíamos, mas ela amava fazer um charminho. E aquele cabelo dividido em duas chuquinhas, ficava a coisa mais linda, sem contar o tutu vermelho que ela usava.

Desde sempre, mamãe e papai nos incentivavam a fazer muitas coisas, como nadar, correr, cantar, aprender outros idiomas e fazer coisas que outras pessoas não eram acostumadas a fazer. Assim, eu quis aprender a cavalgar, tudo bem que eu não tinha meu próprio cavalo, mas eu estava esperançosa.

Thomas preferiu esgrima e Sophie quis ballet. Eu me orgulhava deles, Thomas tinha sete anos e Sophie tinha cinco. Éramos bem de situação e estudávamos em escola pública, pois como meus pais sempre disseram, "a escola pública cria o nosso caráter", pois assim não somos melhores do que ninguém, mas utilizamos as mesmas oportunidades de estudo. Deste modo, eu me esforçaria ao máximo para entrar na faculdade de Direito, sendo uma grande advogada, assim, como minha mãe e meu pai.

Faltavam exatos dois anos e meio para começar minha vida de universitária. Meu sonho logo se realizaria.

Durante o jantar conversávamos sobre nossas vidas e nosso futuro.

A nossa frente havia uma mesa enorme, onde foi centralizada uma panelada de macorronada com queijo. Meu preferido. E todos sabiam!

- Papai, o que o senhor vai me dar de presente de aniversário? – Perguntou Sophie com aqueles olhos claros brilhando esperançosa, enquanto batucava seus dedos na mesa. Thomas revirou os olhos ao bebericar seu suco.

- Querida, seu aniversário é somente daqui há três meses. – Ele riu e colocou uma garfada de macarrão na boca.

- Ah. – Sophie fez uma carinha triste, inchando aquelas bochechas gordinha ao fazer biquinho.

- E o que o senhor vai dar para Nancy? – Antes que papai pudesse responder, mamãe entrou na sala de jantar com um bolo de aniversário decorado com quinze velinhas cor-de-rosa por cima do chantilly azul.

Logo o bolo estava a minha frente, a sala de jantar pouco iluminada, os olhos de meus irmãos brilhando em êxtase, papai sorriu batendo palmas e mamãe esperava ansiosa para cortar o bolo. Com certeza aquele foi um dia incrível.

Ao fechar os olhos, desejei que aquele inverno fosse inesquecível, assoprei as velinhas e comi o primeiro pedaço de bolo, claro que eu não saberia para quem dar, então fiz esse favor à sociedade. De nada!

- Obrigada por tudo. – Sorri apertando a mão de mamãe com leveza.

- De nada meu amor. – Ela sorriu de volta ao passar a mão em minha cabeça.

- Hora do meu presente. Querida, pega a venda. – Disse meu pai ansioso.

- Venda? – Perguntei hesitante, quando me dei conta meus olhos estavam vendados à espera do presente. Caminhamos por um curto tempo, podendo ouvir o balançar as árvores, então percebi que estávamos no jardim perto do lago.

- Três. Dois. – Meus pais contavam em contagem regressiva. – Um. – Quando a venda foi retirada, meus olhos não podiam acreditar no que via.

A ansiedade passava por todo meu corpo deixando meu coração acelerado de empolgação e alegria.

E mais uma vez eu estava certa. Meu lindo cavalo de presente de aniversário a minha frente, a minha espera. Meu queixo caiu não acreditando no que via.

Meu próprio cavalo!

- Não acredito. Obrigada. Obrigada. Obrigada. – Corri abraçando meu cavalo. Ele era preto de pelo macio e grandes bolas de gude no lugar de seus olhos. O acaricie com uma alegria extrema. – Eu não fazia ideia! – Não me julguem.

- Eu preferia uma boneca que anda e fala. – Resmungou Sophie sentando na grama brincando com uma boneca de pano.

- Ele é bem grande. – Comentou Thomas hesitante. – Quero cavalgar! – Sorriu colocando os braços para trás balançando seu corpo num movimento de vai e vem.

- Nem pensar. Eu vou primeiro. – Fiz impulso para subir nele e escorreguei, foi então que senti a mão de meu pai me ajudando a subir.

Tudo bem que isso não era muito comum, mas eles permitiram que eu aprendesse a cavalgar, o que seria óbvio me deixarem subir nele sem pedir permissão, ou então não teria dado ele pra mim de aniversário!

A vista de cima era tão diferente, tudo a minha volta parecia tão pequeno, inclusive Thomas, que se achava o incrível Hulk! É mole?

- Não vá se machucar. – Revirei os olhos para mamãe, mas sorri em seguida para papai que usava uma camisa azul e uma bermuda jeans, sem contar que estava descalço.

- Mãe... – Ela levantou as mãos dando um passo para trás.

Cara, eu não acreditava que tinha meu próprio cavalo.

- Podemos levá-lo para casa? – Perguntou Thomas fazendo beicinho.

- Claro que não. Onde você quer colocá-lo? No seu nariz? – Mamãe bateu o dedo indicador na ponta do nariz de Thomas, no qual fez uma careta bem engraçada.

Quase não estou consigo lidar com meus pensamentos por causa da situação, então se não entenderem o resto da história... Apenas continuem lendo.

- Posso dar uma volta? – Perguntei esperançosa.

Já disse, não me julguem!

- Só não vá muito longe...

Não consegui esperar meu pai terminar de falar e bati os pés segurando a rédea. O cavalo começou a cavalgar de devagar acelerando o passo em seguida.

Segurei com firmeza para não cair. Quando percebi que estávamos indo longe demais, puxei a rédea para trás o fazendo parar.

- Calma, calma. – Acariciei seu pelo para que não se assustasse. Quando meus olhos circularam a propriedade, automaticamente franzi o cenho apreensiva.

Ouvi um barulho vindo das árvores que cercava o local, quase uma floresta para ser mais exata. Aproximei-me lentamente puxando a rédea para que ele me acompanhasse. Vi um vulto passar correndo por meus olhos, onde pude ouvir passos de galhos e folhas secas se quebrando, parecia estar se aproximando.

Olhei para todos os lados e não vi ninguém, hesitante decidi voltar para minha família.

- Sério. Esse é o melhor presente que alguém poderia me dar. – Abracei meu pai e depois minha mãe, onde retribuíram com todo amor.

- Logo vai escurecer, melhor entrarmos. – Mamãe pegou Sophie e Thomas e os levou para dentro. Papai me ajudou a colocar o cavalo no estábulo.

Sim, tínhamos um estábulo, então imagine o tamanho do lugar.

- Obrigada. – Agradeci mais uma vez sorrindo ao passar a escovinha nos pelos escuros do cavalo, que não recuou nenhuma única vez.

- Acho que ele gostou de você. – Sorri sem dizer nada. – Já decidiu um nome? – Papai fechou e trancou a portinha para que ele não fugisse.

- Pipoca. – Papai caiu na gargalhada batendo as mãos no joelho, me obrigando a franzir a testa.

- É sério? – Ergui uma sobrancelha. – Um cavalo desse porte e você vai colocar nome de comida?

- Ou Max. – Um sorriso amável surgiu em seus lábios imediatamente. E eu sabia que tinha escolhido o nome perfeito para ele.

Conversamos durante nossa caminhada de volta. Conversamos quer dizer que eu falei e ele escutou sem me interromper, o que me deixou mais empolgada para continuar a falar.

- Ainda bem que voltaram. Ouvi no rádio que vai chover bastante essa noite. Acho melhor dormirmos na sala, também procurar as velas e lanternas. Não quero ninguém procurando por algo nessa casa enorme caso a energia acabe.

- Vai chover? O tempo está tão bonito. – Minha mãe deu aquele olhar de preocupação, aquele olhar de advogada que nunca estava errada, nem mesmo se estivesse errada, ela não estaria errada.

- Eu ajudo. – Ofereci subindo as escadas de dois em dois degraus na frente.

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