FAZER LOGINA Fuga pela Mata
O som dos tiros na quadra começou a ser substituído pelo estalar de galhos secos e pelo som da respiração descompassada. Arthur me puxava com uma força que quase deslocava meu ombro, subindo por uma trilha íngreme que poucos conheciam. A mata era fechada, escura, e o cheiro de terra molhada se misturava ao suor frio que escorria pelo meu corpo. — Abaixa! — Arthur sibilou, me empurrando para trás de uma árvore de tronco largo. Lá embaixo, luzes de lanternas táticas cortavam a escuridão como sabres de luz. Os cães da polícia ladravam ao longe, um som que parecia cada vez mais perto. — Eles estão cercando a trilha principal. O pai do Rafael não é burro, ele sabe que a gente ia tentar a crista do morro — Arthur sussurrou, verificando o fuzil. — Vamos ter que descer pelo despenhadeiro do lado leste. — Arthur, eu não consigo... é muito alto, eu vou cair! — Minhas pernas tremiam tanto que eu mal conseguia me manter em pé. Ele se virou para mim, segurando meu queixo com força para que eu olhasse nos olhos dele. — Olha para mim, Helena. Esquece o Direito, esquece a faculdade. Agora é instinto. Ou você desce aquele despenhadeiro comigo, ou você vira a prisioneira pessoal daquele desgraçado que você chama de sogro. O que você escolhe? Eu engoli o choro e assenti. Descemos a encosta quase deslizando na lama. Em um momento, um clarão de lanterna passou a centímetros de nós. O som de uma rajada de fuzil cortou o ar, atingindo as folhas acima de nossas cabeças. — ALI! MOVIMENTO NA ENCOSTA! — O grito veio de um dos policiais. — CORRE, HELENA! NÃO OLHA PARA TRÁS! — Arthur gritou, virando-se para dar cobertura e disparando contra os vultos que subiam. Corri como se minha vida dependesse de cada passo, sentindo os espinhos rasgarem minha pele e o vestido que eu tanto escolhera virar farrapos. O som dos disparos de Arthur ecoava como trovões atrás de mim até que, finalmente, chegamos a uma gruta camuflada por trepadeiras. Entramos e ele selou a entrada com uma placa de metal escondida. O silêncio dentro da gruta era absoluto, interrompido apenas pelo som das nossas respirações pesadas. A luz de uma lanterna pequena foi acesa por ele, iluminando o ambiente úmido e apertado. Arthur encostou o fuzil na parede e desabou no chão, ofegante. — Estamos seguros? — perguntei, abraçando meus próprios joelhos, tremendo de frio. Ele não respondeu de imediato. Tirou o colete, revelando uma camisa preta colada ao corpo pelo suor. — Por enquanto. Eles não conhecem esse ponto. O Mago preparou isso aqui para emergências. Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que a raiva começou a substituir o medo em mim. — Você sabia, não sabia? Sobre o pai do Rafael. Arthur me olhou de soslaio, limpando o sangue do corte no rosto. — Eu sabia que o Coronel Moreira tinha um filho estudando Direito fora do estado. Só não imaginei que o playboy ia ter a audácia de vir pescar logo no nosso aquário. — O Rafael não sabia de nada! Ele me ama! Ele estava em casa... — tentei defender, mas minha voz falhou. Arthur deu uma risada amarga e pegou o rádio, sintonizando uma frequência que ele tinha capturado da polícia durante a fuga. O som saiu chiado, mas a voz era clara. Era Rafael. — Pai, eu vi a Helena saindo da quadra com o Coringa. Eles foram para o setor norte. Por favor, não atira na direção dela, eu preciso que ela saia ilesa para o plano funcionar. O rádio ficou mudo. Eu senti como se o chão tivesse desaparecido. Rafael não estava em casa. Ele estava monitorando a operação. Ele estava ajudando o pai a me caçar. — Plano? Que plano, Arthur? — perguntei, a voz quase sumindo. Arthur se levantou e caminhou até mim, ficando tão perto que eu podia sentir o calor que emanava do corpo dele após a luta. — O plano deles nunca foi só prender o seu pai, Helena. Eles querem o controle do morro sem dar um tiro oficial. Se eles te pegam, o Leonardo entrega as chaves de ouro para o Estado só para te ver livre. O Rafael não é seu namorado. Ele é o seu carcereiro. Eu cobri o rosto com as mãos, soluçando. Toda a minha vida "perfeita" no asfalto era uma mentira montada por um policial e o filho dele. Senti a mão de Arthur, surpreendentemente suave dessa vez, tocar o meu ombro. — Eu avisei, princesa. O amor é um luxo que a gente não tem aqui em cima. Mas agora... agora você sabe quem está do seu lado. Ele se inclinou, o rosto perto do meu, e o ódio que eu sentia por ele começou a se misturar com uma necessidade desesperada de proteção. — Se quiser chorar, chora agora. Amanhã, você vai ter que decidir: se volta para o braço do traidor, ou se assume o seu lugar como a Herdeira que vai me ajudar a enterrar o Coronel e o filho dele.8 meses depois...Leonardo e Emily: O Porto SeguroNa varanda da casa, Leonardo observava o horizonte com um copo de vinho. Ele, que passou anos temendo pela vida da filha nos tribunais e no morro, finalmente sentia a paz de um pai que sabe que o perigo ficou para trás. Emily estava ao seu lado, com a mão em seu ombro. O casal, que quase se perdeu durante o exílio de Helena, agora vivia uma renovação. Leonardo era o consultor jurídico oculto da nova "empresa" da família, garantindo que o império fosse intocável legalmente.Amanda e Vítor : Eles cuidavam de uma horta orgânica nos fundos da propriedade. Vítor , o homem que sempre quis o filho fora do crime, via em Coringa um homem que finalmente honrava o nome da família de forma diferente. Amanda não carregava mais o terço por medo, mas por gratidão. Ela olhava para o filho e não via mais o "Rei do Morro", mas o pai que ela sempre soube que ele poderia ser.Laura e TH: O Bebê Arco-ÍrisPerto da piscina, Laura exibia um barrigão de oito
O galpão na parte baixa do morro estava imerso em uma escuridão que cheirava a mofo e ferro velho. No centro, sob a luz amarelada de uma única lâmpada pendurada por um fio, Vanessa estava amarrada a uma cadeira de metal. O rosto dela, antes cheio de arrogância e futilidade, agora era uma máscara de terror puro.A porta de ferro rangeu e a silhueta de Coringa surgiu. Ele caminhava com uma calma que era muito mais assustadora do que qualquer grito de fúria.— ... por favor... foi um erro! — Vanessa soluçou, a voz trêmula. — Eu não queria acertar o menino, eu queria ela! Ela roubou minha vida!Coringa parou a poucos centímetros dela. Ele não gritou. Ele apenas sacou a faca que carregava no cano da bota e começou a limpar as unhas, olhando para ela com uma indiferença gélida.— Você tocou no meu filho, Vanessa. Você tentou apagar a luz da única coisa pura que eu ainda tinha — ele sussurrou, a voz saindo das profundezas de sua alma sombria. — O erro não foi o tiro. O erro foi você achar qu
O hospital do morro se transformou em uma zona de guerra silenciosa. Enquanto médicos lutavam pela vida de Matteo lá dentro, o exército de Coringa cercava o prédio, transformando cada esquina em uma barreira de fuzis. Helena não saiu da porta do centro cirúrgico; ela parecia uma estátua de mármore, as mãos ainda manchadas com o sangue seco do filho. Após seis horas de agonia, o cirurgião saiu, retirando a máscara com um suspiro que parecia carregar o peso do mundo. Coringa levantou-se num salto, os olhos vermelhos de quem não chorava, mas queimava por dentro. — A bala perfurou o pulmão e passou a milímetros do coração — explicou o médico, a voz cansada. — Houve uma hemorragia massiva, e ele parou na mesa por dois minutos. Mas ele voltou. É um milagre. O menino lutou como um gigante. Ele está estável. Helena desabou na cadeira, as lágrimas finalmente correndo, lavando o rosto que estava endurecido pelo ódio. Coringa caiu de joelhos ao lado dela, escondendo o rosto nas mãos da esposa
No dia seguinte... A manhã na praia foi um refúgio surreal. Ver Coringa — o homem que fazia o asfalto tremer — carregando boias coloridas e correndo atrás de Matteo na areia branca era uma imagem que Helena guardaria na alma. Por algumas horas, eles não eram a "Patroa" e o "Rei"; eram apenas um pai, uma mãe e um filho sob o sol, longe da fumaça dos fuzis. — Ele está feliz. — Helena comentou, ajustando os óculos escuros enquanto observava Matteo gargalhar ao ser atingido por uma onda pequena. — Ele merece isso, Helena. E eu vou garantir que ele tenha muito mais — Coringa respondeu, a voz carregada de uma promessa que ele pretendia cumprir. A volta para o morro foi tranquila, com o carro blindado subindo as ladeiras sob o pôr do sol alaranjado. Matteo, exausto de tanto brincar, começou a pedir pela avó. — Pai, quero dormir na vovó Amanda hoje! — o menino insistia, com a voz sonolenta. Helena e Coringa se olharam. A casa de Dona amanda ficava em uma área de transição, um pouco mais
O café da manhã seguia em um silêncio cortante, interrompido apenas pelos talheres de prata contra a porcelana. Matteo comia sua fruta, alheio ao campo minado que a mesa tinha se tornado. Coringa observava Helena, tentando ler em seu rosto o que ela planejava, mas ela era uma esfinge de seda branca.Helena pousou a xícara de café com uma lentidão deliberada. Ela olhou para Matteo e fez um sinal para JJ.— Leve o Matteo para casa de Amanda, TjO segurança obedeceu instantaneamente, retirando a criança do cômodo. Quando a porta se fechou, Helena se inclinou para frente. O clima mudou: a mulher que tinha se entregado a ele na noite anterior havia dado lugar à estrategista fria.As Exigências da Patroa— Acabou o tempo de sermos uma facção que se sustenta apenas pelo medo e pelo sangue — Helena começou, a voz cortante. — Eu passei dois meses fora. Eu vi como o mundo lá fora funciona. Dinheiro no morro agora só entra de forma limpa, ou minimamente invisível.Coringa tentou interromper, mas
O vidro da varanda, gelado e rígido, contrastava com o calor abrasador que irradiava dos corpos colados. O morro, lá embaixo, continuava sua rotina de violência e música, alheio ao que acontecia no topo da fortaleza.Coringa a virou com uma brusquidão possessiva, forçando-a a se apoiar contra o vidro que separava o quarto do abismo noturno. Ele a pegou por trás, as mãos grandes e calejadas segurando os quadris dela com uma firmeza que beirava a dor. Helena arqueou as costas, a cabeça tombando para trás, deixando que a renda preta da lingerie fosse quase rasgada pela tensão dos movimentos dele.Cada estocada era um lembrete do poder que ele ainda tentava reivindicar, uma tentativa desesperada de marcar território em uma mulher que, na sua mente, ele estava perdendo. A respiração de Coringa era um rosnado constante no ouvido dela, uma súplica misturada a uma ordem.— Você é minha — ele sussurrou, a voz carregada de um desejo sombrio, quase violento, enquanto a segurava com mais força. —