INICIAR SESIÓNO cheiro de café velho e papel impresso sempre me dava a mesma sensação: guerra iminente.
A sala de reuniões da equipe de crime organizado nunca era apenas uma sala. Era um campo de preparação. Um lugar onde vidas eram colocadas em jogo com a frieza de quem já perdeu demais para hesitar. As paredes carregavam ecos de decisões que não tinham volta. Algumas custaram carreiras. Outras, enterros.
Eu estava sentada à mesa, costas retas, mãos cruzadas sobre a pasta fechada à minha frente. Por fora, controle absoluto. Por dentro, um turbilhão silencioso que eu não ousava deixar transparecer. Aprendi cedo que emoção visível era fraqueza — e fraqueza, naquele meio, custava caro.
Delegado Nilo entrou sem cerimônia, como sempre. Alto, grisalho, olhar duro de quem já enterrou colegas demais para acreditar em finais felizes. Ele nunca perdia tempo com gentilezas. Gentilezas criavam ilusões.
— Vamos direto ao ponto — disse, sem se sentar. — Mirtes, essa missão não tem margem para erro.
Assenti.
— Eu sei, senhor.
Ele apoiou as mãos na mesa, inclinando o corpo para frente, como se quisesse garantir que cada palavra atravessasse minha pele.
— Você vai entrar sozinha. Sem reforço visível. Sem proteção direta. Qualquer passo em falso pode te colocar na linha de fogo de um dos homens mais perigosos da América Latina.
Perigoso.
A palavra soou quase irônica.
Se ele soubesse.
— Heitor Castro não é apenas um empresário com negócios suspeitos — continuou Nilo. — Ele é frio, calculista e extremamente controlador. A casa dele funciona como uma extensão do império. Cada pessoa ali é observada. Avaliada. Testada.
— Por isso vocês me escolheram — respondi, mantendo a voz neutra. — Ninguém seria melhor que eu para essa missão, senhor.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, como se tentasse enxergar algo além da agente treinada.
— Exatamente. Você sabe se adaptar. Sabe observar sem chamar atenção. E, acima de tudo, sabe esperar.
Meus dedos se fecharam um pouco mais sobre a pasta.
Esperar nunca foi meu problema.
O problema sempre foi o que a espera despertava em mim.
— Mas eu preciso que entenda uma coisa — Nilo continuou. — Lá dentro, você não é agente. Não é polícia. Não é Mirtes Valença. Você é só uma babá. Qualquer reação fora do papel pode te denunciar.
— Entendido.
A palavra saiu automática. Ensaiada. Como tudo na minha vida nos últimos anos.
Jorge pigarreou ao meu lado.
Ele estava diferente. Mais tenso que o normal. O notebook aberto à frente, gráficos e linhas de código na tela, mas era evidente que sua atenção estava em outro lugar. Em mim.
— Os protocolos de comunicação continuam os mesmos — disse ele, finalmente. — Check-ins diários, horários alternados, palavras-código se algo sair do controle.
— Eu sei — respondi, mais seca do que pretendia.
Ele me olhou de lado, o maxilar rígido.
— Não é pessoal, Mirtes. Eu só… — hesitou. — Eu não gosto dessa missão.
Nilo ergueu uma sobrancelha.
— Algum motivo técnico, Jorge?
— Nenhum técnico — respondeu rápido. — É instinto.
Ignorei.
Ou tentei.
Instinto era algo que eu havia aprendido a desconfiar. O meu, pelo menos, sempre me levava para o perigo.
— A identidade está pronta — continuou Jorge, virando a tela para mim. — Nome: Valentina Cruz. Formação em psicopedagogia, cursos de primeiros socorros, referências sólidas. Histórico limpo.
— Limpo demais — comentou Nilo.
— É o que passa confiança — respondi.
O delegado assentiu.
— Você entra na casa amanhã à tarde. Abel Arruda fez a indicação. Isso te dá uma vantagem enorme. Confiança prévia.
O nome não significava nada para mim.
Apenas mais um homem orbitando o poder de Heitor Castro.
Mais um fio invisível me puxando para um passado que eu fingia não existir, mas que nunca deixou de me definir.
— Mirtes — Nilo chamou, sério. — Se em algum momento você sentir que perdeu o controle da situação, você sai. Não existe heroísmo aqui.
Olhei direto para ele.
— Eu sei sair quando preciso.
Mentira.
Eu nunca soube.
A reunião terminou pouco depois. Protocolos revisados. Rotas de fuga mapeadas. Riscos calculados como números frios em uma tela. Vidas resumidas a probabilidades.
Quando todos começaram a se levantar, Jorge ficou para trás.
— Você vai mesmo fazer isso? — perguntou, baixo, quase pessoal demais para aquele ambiente.
— Já estou fazendo.
— Eu não confio nele — disse. — Heitor Castro não é só perigoso. Ele é… imprevisível.
Engoli em seco.
Se ele soubesse o quanto.
— É por isso que preciso estar lá dentro — respondi.
Ele suspirou, derrotado antes mesmo da missão começar.
— Só… não desaparece, tá?
Assenti, sem prometer nada. Promessas eram coisas frágeis demais.
Voltei para casa com a mente em alerta. A preparação física já estava feita há anos. Treinos, simulações, controle emocional. O que vinha agora era outra coisa. Algo que nenhum manual ensinava a administrar.
Entrei no apartamento, tranquei a porta e deixei a máscara cair.
O silêncio me atingiu como um soco.
A mulher no espelho não era a agente. Era a sobrevivente. Olhos marcados por noites sem sono. Cicatrizes invisíveis que ninguém no departamento conhecia.
Abri a mala sobre a cama. Separei roupas simples, em tons neutros. Nada chamativo. Tecidos confortáveis. A versão de mim que precisava existir para ele.
Babá.
A palavra ainda parecia irreal. Quase ofensiva. Mas, ao mesmo tempo, perfeita.
Peguei o celular e abri o dossiê mais uma vez. Heitor Castro. Fotos recentes. A postura confiante. O terno caro. O olhar duro que eu reconheceria em qualquer lugar.
O homem que me ajudou na academia.
O homem que me fez acreditar.
O homem que me abandonou grávida aos dezessete anos, sem explicações, sem despedidas, sem culpa.
O homem que roubou minha juventude, minha família, minha história.
E seguiu a vida como se eu tivesse sido apenas um detalhe descartável.
Eles não sabiam.
Nenhum deles sabia.
Que essa missão não era só profissional.
Que cada passo meu naquela casa seria movido por algo muito mais antigo do que justiça. Mais visceral do que dever.
Era vingança.
Fechei o arquivo e respirei fundo, tentando conter o tremor nas mãos.
Eu não contei à equipe que Heitor Castro não era apenas um alvo. Não contei que ele tinha sido o centro da minha queda. Que tudo o que eu perdi começou com ele.
Porque isso mudaria tudo.
Eles tentariam me tirar da missão. Me afastar. Me proteger de mim mesma.
E eu não permitiria.
Deitei na cama, encarando o teto escuro.
Logo, logo eu entraria na casa dele.
Na vida dele.
No território dele.
Como uma estranha, alguém inofensiva.
Ele não fazia ideia de quem eu era.
E eu usaria isso até o fim.
Porque, dessa vez, eu não era a garota do sertão. Não era a adolescente abandonada. Não era a mulher quebrada que ele deixou para trás.
Eu era o erro que ele nunca viu chegando.
E quando Heitor Castro finalmente percebesse quem eu era…
Já seria tarde demais.
Eduardo Arruda O sol da manhã na Costa Rica parecia ter sido polido para o dia de hoje. O céu era um manto azul infinito, sem uma única nuvem para ousar fazer sombra ao meu casamento. Eu estava parado diante do espelho, ajustando o colarinho da minha camisa de linho branco. Minhas mãos, que nunca tremeram em um campo de batalha, agora insistiam em uma leve vibração. — O grande capitão está nervoso? — a voz de Heitor ecoou na porta. Olhei pelo reflexo e vi meu pai, usando camisas e calças de linho azul claro. — Mais do que quando saltava de paraquedas em zona de guerra, pai. É uma sensação diferente. É como se meu coração estivesse fora do peito. — Isso se chama amor, Eduardo. E é a única coisa que realmente vale a pena proteger com a vida — ele disse, colocando a mão no meu ombro. Caminhamos juntos até o altar montado sob um arco de orquídeas brancas e folhagens tropicais, bem onde a areia se encontrava com o mar. A música começou a tocar, uma melodia suave que parecia flutuar
Heitor Arruda Eu estava ali, sentindo o balanço suave das águas do Caribe, mas meu interior ainda rugia como as tempestades de areia do sertão de Pernambuco. Eu observava o horizonte, onde o céu começava a sangrar os primeiros tons de um laranja carregado. Ali, naquele convés manchado de pólvora, eu vi o reflexo de quem eu fui e de quem o meu filho se tornou. Vim de longe. Saí do solo rachado do Brasil, fugindo de uma sina que eu não compreendia, deixando para trás a Mirtes. Deixei a mulher que amava com o ventre crescendo, carregando o Eduardo, porque me senti pequeno diante das chantagens. Naquela época, eu era apenas um peão no tabuleiro de um homem frio, sem saber que aquele monstro era o meu próprio pai. Fui covarde. Escolhi a fuga, acreditando que a distância protegeria quem eu amava, enquanto os entregava aos lobos. Mas o destino é um moinho que tritura o orgulho. Anos depois, a vida me deu a chance de reencontrar Mirtes e conhecer o meu verdadeiro destino. Hoje, olhando
Eduardo Arruda O mar das águas caribenhas, que costumava ser um espelho de paz, agora fervia sob o impacto dos motores de alta performance e da iluminação fria das lanchas de combate. Dante Mancuso não veio para brincar. Ele trouxe o peso da máfia italiana, um arsenal que fazia a lancha de Bashir parecer um brinquedo de plástico à deriva. Adam Foster — o nome real do Bashir. Dessa vez seria aniquilado e nunca mais iria traficar vidas — estava encurralado, asfixiado pelo poder dos Arruda. Eu estava na proa da lancha líder, o vento cortante batendo no meu rosto, sentindo o peso do fuzil nas mãos e a fúria pulsando nas têmporas. Ao meu lado, meu pai, Heitor, mantinha o olhar fixo no alvo. Ele não era mais o pai protetor de momentos antes; era o executor implacável. Abel operava os controles táticos nos fundos, coordenando os drones que agora sobrevoavam a embarcação de Bashir como abutres eletrônicos. — Ele está sem saída, Eduardo — Abel anunciou pelo rádio. — O motor principal de
Eduardo Arruda Aquele desgraçado Bashir não vai destruir a paz que conquistamos aqui. Quantas vidas ele tem? Vou manter minha família segura e ele não tocará um sedo na Melina. Eu estava na varanda, observando o movimento dos drones de patrulha do tio Abel, enquanto minha mente voltava para o passado. Lembrei-me de quando fui enviado para aquele internato na Europa. Meu pai queria me proteger de Beatriz e das sombras que rondavam os Arruda. Eu era apenas um garoto confuso, sentindo o peso do abandono, até que a vi pela primeira vez nos jardins daquela instituição. Melina. Ela era um raio de sol em meio à rigidez daquele lugar. Sua amizade foi o bálsamo que me impediu de sucumbir à solidão. — Você está com aquele olhar de quem está carregando o mundo nas costas, meu filho — a voz doce de minha mãe me trouxe de volta. Mirtes aproximou-se, colocando a mão em meu ombro. Senti o calor do seu toque, algo que me fez sentir, por um segundo, o garoto de anos atrás. — Eu não devia ter es
Abel Arruda Eu curtia o sol e o clima do Caribe na varanda da casa principal, mas a coisa mudou no instante em que meu telefone via satélite tocou. Era um canal criptografado que poucas pessoas no mundo possuíam. Dante, o novo rei da máfia italiana e latina, não ligava para jogar conversa fora. — Abel. Temos um problema cruzando o Atlântico — a voz de Dante veio fria, sem preâmbulos. — Diga, Dante. Estou ouvindo — respondi, fazendo um sinal para Heitor, que estava por perto, se aproximar. — Meus informantes na Sicília confirmaram. Bashir Danjuma está vindo para o seu quintal. Senti um calafrio que não tinha nada a ver com a brisa do mar. O nome Bashir era sinônimo de pesadelo no submundo. — Ele é o maior traficante de carne humana da Europa e África. Por que ele viria até aqui? — perguntei, já sentindo o sangue ferver. — Ele não quer dinheiro, Abel. Ele quer a garota que está com seu sobrinho. Melina. Ele a vê como propriedade privada. Desliguei o aparelho e encarei Heitor.
Eduardo Arruda O sol da Costa Rica era o bálsamo que nossas almas precisavam. Após o casamento duplo, a ilha mergulhou em uma calmaria que parecia saída de um sonho. Meus pais e os tios partiram para uma lua de mel curta, mas necessária, deixando a responsabilidade da ilha e dos meus irmãos em nossas mãos. Era um teste de fogo para o que estava por vir. Eu e Melina, cuidando de Alice, Pedro e do pequeno Lion, como se fôssemos ensaiar para a nossa própria família. — Eles finalmente dormiram — Melina sussurrou, surgindo na varanda com os cabelos levemente úmidos e o rosto iluminado pelo luar. — Alice tem energia para três exércitos — rí baixo, puxando-a para sentar-se no meu colo, sentindo o calor do seu corpo contra o meu. — Ela me lembra você, Eduardo. Teimosa, decidida e com um coração que não cabe no peito. Acariciei seu ventre, um gesto que se tornou meu vício nos últimos dias. A ideia de que havia uma vida ali, nossa, era o que me mantinha são. — Jack ligou hoje cedo. Nada