LOGINDepois de uma despedida rápida e cordial com Paulo, Cecília e eu nos preparamos para deixar a fábrica. Ele fez questão de nos acompanhar até a porta da rua, acenando até que entrássemos no carro para então voltar ao trabalho. Assim que as portas se fecharam, Cecília quebrou o silêncio. — Gustavo, agora que você já tem a receita nas mãos e a fábrica garantida, quais são os seus próximos passos? — Perguntou ela, virando-se para mim com o olhar carregado de curiosidade.— Claro que o foco é erguer o meu império. Já que decidi entrar de cabeça nesse jogo, preciso construir algo grande e deixar a minha marca no mercado. — Respondi, sem a menor sombra de hesitação. Os contratos já estavam em fase de elaboração, e cada peça do quebra-cabeça começava a se encaixar no lugar certo. No entanto, eu ainda precisava voltar para Oeiras e resolver toda a burocracia do empréstimo bancário. Afinal, aquele patrimônio de pouco mais de cem milhões daria conta de apenas um terço de toda a operação!— E a
— Então ficamos combinados assim. — Concluí, ajeitando a postura na cadeira. — O Laboratório Teixeira cuidará da produção dos remédios para insônia, enquanto o Laboratório Leal ficará responsável pela linha de anti-inflamatórios naturais. Por enquanto, focaremos apenas nesses dois compostos. Quanto às fórmulas...Ao mencionar as receitas, virei o rosto para Cecília e notei que ela me encarava de um jeito fixo, quase hipnotizada. — Por que você está me olhando desse jeito? — Perguntei, sem entender a sua distração.— O quê? Não, não é nada! As fórmulas, certo? Vou passar tudo para o papel agora mesmo! — Respondeu Cecília, o rosto dela corando com intensidade de uma hora para a outra. Ela abaixou a cabeça às pressas, pegou uma caneta e um bloco de notas sobre a mesa e começou a rabiscar. A verdade é que a postura séria de Gustavo negociando valores altos a havia deixado impressionada. Ela simplesmente não conseguiu desviar o olhar. Com o coração palpitando e a mente avoada, Cecília ac
O som seco do tapa ecoou pelo ar no segundo seguinte. Paulo não hesitou em desferir um bofetão com toda a força no rosto de Flávio. — Seu idiota cego! — Esbravejou o gerente, com o rosto retorcido de raiva. — O senhor Gustavo te deu uma chance de ouro e você simplesmente jogou no lixo! Tentando controlar a respiração ofegante, Paulo puxou o ar com força antes de prosseguir com uma frieza cortante: — Ele não veio aqui implorar por emprego, seu imbecil. O senhor Gustavo veio fechar uma parceria de trezentos milhões com a nossa fábrica! Você não ganharia esse dinheiro nem se vivesse cem vidas! Quem você acha que é para desprezá-lo desse jeito? Um inútil, é isso que você é! Quer saber a verdade? Quando percebi que você era parente dele, minha intenção era te promover a vice-gerente hoje mesmo. Mas, pelo visto, você fez questão de destruir o próprio futuro com as próprias mãos. A partir de agora, você não é nem líder de equipe. Pegue suas coisas e vá embora, você está no olho da rua.Sem
Para os ouvidos de Flávio, porém, aquela sinceridade soou como deboche, como se eu estivesse dificultando as coisas de propósito.— Gustavo, não brinca com o perigo! — Ameaçou ele, com o rosto sombrio de ódio. — Você duvida que, com uma única palavra minha, eu te chuto para fora desta fábrica agora mesmo?— Flávio, somos família. Tem certeza de que quer fazer esse barraco todo? — Perguntei, enrugando a testa. "Esse idiota não cansa de cavar a própria cova?", pensei comigo mesmo.— Família o cacete! O meu pai passou a vida inteira desprezando o inútil do seu pai, e eu vou passar a vida inteira desprezando você!Ao perceber que não ia conseguir o contato de Cecília de jeito nenhum, Flávio se convenceu de que eu estava fazendo ele de palhaço e perdeu de vez as estribeiras.— A família de vocês vai ser sempre o fundo do poço, entendeu? Vai ser pobre até morrer! Saiam daqui agora, senão eu vou chamar os seguranças! Uma corja de fracassados e lascados querendo emprego na minha fábrica... Vo
No instante seguinte, Cecília começou a caminhar na minha direção, mas Flávio, que ainda estava ali parado, achou que ela ia ao seu encontro.— Oi, linda, tudo bem? Sou o supervisor da linha de produção aqui da fábrica. — Disse ele, abrindo um sorriso que julgava ser puro charme. — Engraçado, nunca te vi por aqui. Veio procurar emprego? Passa seu número, vamos trocar uma ideia no WhatsApp. Tenho muita influência lá dentro, garanto a sua vaga num instante. Sem contar que eu ganho muito bem, mais de dez mil por mês, e acabei de tirar um carro zero...Ele já ia sacando o celular, todo confiante, e deu um passo na direção dela. Cecília, porém, o ignorou por completo. Ela passou direto por ele como se o homem fosse invisível, sem sequer desviar o olhar, e veio parar bem do meu lado.O sorriso de Flávio congelou no rosto. A tensão no ar quase podia ser cortada com uma faca.— Vamos continuar dando uma volta, Gustavo? — Sugeriu ela, voltando para perto de mim com um leve sorriso.— Vamos. Eu
Sem querer perder tempo com o celular, desisti de ligar e chamei Cecília para darmos uma volta pelas instalações do Laboratório Leal. O Paulo já tinha avisado o pessoal da segurança sobre a nossa visita. Dessa forma, tínhamos autorização para circular por quase todos os ambientes, com exceção da área de manipulação química mais restrita.Demos boas voltas pelo terreno e, de modo geral, o ambiente não deixava nada a desejar em comparação com o Laboratório Teixeira.— As duas opções parecem excelentes. Vou deixar o contrato dos remédios para dormir com o Laboratório Teixeira e fechar a produção do anti-inflamatório com o Laboratório Leal. — Falei em voz alta, tomando a decisão ali mesmo.Peguei o celular com a intenção de ligar para a Juliana e pedir que ela preparasse a documentação. Enquanto isso, Cecília aproveitou o momento de pausa para ir ao banheiro. Foi bem naquele intervalo que dei de cara com uma pessoa que jamais imaginaria encontrar naquele lugar.— Você é o Gustavo? Quem di