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Capítulo 22 – Entre Presentes e Flechas

Autor: A.C. Borges
last update Fecha de publicación: 2025-06-08 05:28:55

O sol batia com força na laje da ONG, como se quisesse abençoar o novo ciclo que nascia ali. O dia amanheceu com cheiro de pão assando e tinta fresca — sinal de que as melhorias estavam a todo vapor. As encomendas haviam chegado logo cedo: caixas e mais caixas rotuladas com brasões da polícia federal e de empresas civis que apoiavam discretamente os carregamentos de Isis. Livros, materiais de escritório, alimentos, brinquedos novos, kits de primeiros socorros e — o que mais emocionou Isis — ver
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  • A Dona do Morro   Epílogo

    Um ano depois... O sol banhava o Morro com uma luz nova, quente e generosa. O ar, antes pesado com o cheiro de pólvora e medo, agora carregava o aroma de bolo de fubá vindo da cozinha comunitária, o som de risadas de crianças a ecoarem na quadra e a batida de um pagode suave que vinha do salão de Neumitcha. As paredes, antes marcadas por balas, agora ostentavam murais coloridos, pintados pela turma do grafite liderada por um Bê completamente recuperado. A queda do General Torres fora o escândalo do século. As provas irrefutáveis, amplificadas pela voz da comunidade, levaram a uma condenação exemplar. O sistema, forçado a confrontar a sua própria podridão, teve que cortar na própria carne. E o morro, pela primeira vez, assistiu à justiça a ser feita, não a ser negociada. Na quadra, Bê, sem mancar, corria atrás de uma bola com os meninos do projeto de futebol. A sua risada era o som mais puro da vitória. Jade, da lateral, o observava com um amor sereno, a mão a pousar discretament

  • A Dona do Morro   Capítulo 100: O Amanhecer

    Algumas semanas depois... O Morro respirava um ar diferente. A tensão, aquela eletricidade constante que fazia todos andarem com os ombros curvados e o olhar atento, havia se dissipado. No seu lugar, havia um burburinho de vida, de construção. O medo dera lugar a um orgulho teimoso. A história da invasão, do General caído e da aliança dos morros havia se tornado uma lenda urbana no asfalto, o maior escândalo político-militar do ano. A ONG Raízes do Morro, antes um ponto de resistência anônimo, agora era um símbolo nacional. Doações, voluntários e pedidos de ajuda chegavam de todos os cantos do país. Mas para quem vivia ali, a verdadeira vitória não estava nas manchetes. Estava nas pequenas coisas. No coração da ONG, o "Salão de Beleza Neumitcha", antes uma sala improvisada, agora era um espaço vibrante, com espelhos grandes, cadeiras coloridas e paredes cobertas de grafites de flores e coroas. Neumitcha, com um turbante dourado e um vestido esvoaçante, ensinava a um grupo de j

  • A Dona do Morro   Capítulo 99: O Julgamento do Morro

    A manhã seguinte nasceu diferente. O sol que raiava sobre o Morro da Kerosene não trazia o peso da incerteza, mas a luz de um novo começo. No pequeno barraco na laje, Isis acordou nos braços de Theo. Pela primeira vez em muito tempo, o sono havia sido um refúgio, não uma fuga. Ele a observava em silêncio, os dedos a desenharem caminhos suaves no seu ombro. As cicatrizes da guerra, visíveis e invisíveis, estavam em ambos. Mas ali, naquele silêncio, eles eram apenas um homem e uma mulher que haviam sobrevivido ao inferno para se encontrarem. — Eu achei que nunca mais ia ver esse sol. — a voz de Theo era um sussurro rouco, cheio da maravilha de quem ganha uma segunda chance. Isis se virou para ele, o rosto a poucos centímetros do dele. — O sol aqui sempre nasce, Theo. Às vezes, ele só demora um pouco mais pra aparecer. Mas ele sempre vem. O beijo que se seguiu não tinha a urgência da batalha, nem a fome da saudade. Tinha o sabor da paz. Um gosto novo, que ambos estavam a aprender a s

  • A Dona do Morro   Capítulo 98: De Volta para Casa

    O comboio subiu as vielas do Morro da Kerosene não com a urgência da fuga, mas com a solenidade de uma procissão. À medida que avançavam, as luzes das casas se acendiam, uma a uma, como velas a saudar o regresso. Não havia gritos de festa, não havia fogos de artifício. Havia algo mais poderoso: um silêncio respeitoso, uma comunidade que esperava em vigília. Quando os carros pararam em frente à ONG Raízes do Morro, a multidão já estava formada. Eram mães, crianças, idosos, os meninos do corre, a turma do samba. Todos ali, em silêncio, os rostos iluminados pela luz quente que emanava do pátio. A porta da van se abriu. Corvo desceu primeiro, o seu rosto um misto de exaustão e dever cumprido. Ele estendeu a mão para Isis, que desceu em seguida. E então, ele apareceu. Theo. Ele parou na porta do veículo por um instante, a luz da ONG a banhar o seu rosto magro e cansado. Ele viu a sua gente. A sua comunidade. As pessoas que, por causa dele, quase perderam tudo, mas que agora o recebiam

  • A Dona do Morro   Capítulo 97: O Último Soldado

    O corredor de metal era uma garganta estreita, um funil para a morte. De um lado, a equipe de resgate, com a liberdade a poucos metros de distância. Do outro, o Sargento Matos, a personificação da lealdade cega, uma muralha de um homem só. — Vocês não vão passar. — A voz de Matos era desprovida de emoção, um som metálico que ecoava no corredor. Seus olhos estavam fixos em Theo, ignorando todos os outros. — O General foi traído. A honra dele exige reparação. E você, Capitão... você é a mancha que precisa ser apagada. Theo deu um passo à frente, colocando-se instintivamente na frente de Isis. Ele não via um monstro, via um homem quebrado, um reflexo do que ele mesmo poderia ter se tornado. — Matos, acabou. — disse Theo, a sua voz calma, mas firme. — O General mentiu para você. Ele mentiu para todos nós. A honra que você defende foi construída com o sangue de inocentes. — MENTIRA! — gritou Matos, o seu corpo a tencionar-se sobre o fuzil. — Ele é um herói! E você... você se vendeu par

  • A Dona do Morro   Capítulo 96: A Tempestade

    A madrugada era uma tela escura, prestes a ser rasgada. No QG da aliança, o ar crepitava com uma energia contida — a calma que antecede o rebentar da barragem. Isis estava de pé diante dos líderes dos complexos aliados. A sua voz não era de quem pedia, mas de quem coordenava. A rainha estava no comando do seu exército. — O plano mudou. — disse ela, os olhos a percorrerem cada rosto à sua volta. — A gente não vai mais se infiltrar. A gente vai entrar pela porta da frente. Com as informações arrancadas de Torres, ela desenhou a operação, uma obra-prima de estratégia e ousadia. — Equipe Alfa, a Invasão: eu e Corvo vamos liderar. Usaremos os códigos de acesso do Torres num veículo não marcado. Um cavalo de Troia. A nossa missão é clara: extrair o Theo. Sem desvios. — Equipe Bravo, a Distração: Zóio, o caos é seu. Ataques simultâneos nos portões norte e oeste. Carros incendiados, bombas de fumaça, rojões. Façam parecer uma insurreição em massa. Puxem toda a tropa de resposta para as bo

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