Compartilhar

Capítulo 3

Autor: CANLI
last update Data de publicação: 2025-04-02 02:37:03

AIYANA

O amanhecer estava perto de chegar, mas eu já estava de volta à beira da floresta, caminhando devagar. Meu corpo cansado ainda sentia os efeitos da noite mal dormida, e minha mente estava um turbilhão. A caverna onde passei a noite, embora já fosse um lugar familiar para mim, não me trouxe a paz que eu procurava. Dormir na floresta já não era tão fácil quanto antes. 

As árvores começaram a clarear com os primeiros raios de sol, mas o ar ainda estava frio, e eu sentia meu corpo arrepiado, não só pela temperatura, mas também pela inquietação. Meu coração batia mais rápido a cada passo que dava em direção à aldeia. Eu não sabia o que iria enfrentar lá, mas sabia que não podia continuar fugindo. Eu precisava voltar.

De repente, alguém me pegou pela cintura, puxando-me com força para fora da trilha. Antes que pudesse reagir, uma mão cobriu minha boca, abafando meu grito. Meu corpo entrou em pânico, mas não pude fazer mais nada além de tentar me soltar. Estava sendo arrastada, forçada a caminhar em direção ao curral. O cheiro de feno e madeira me invadiu, misturado ao som de respirações pesadas e rítmicas.

Quando finalmente consegui virar o rosto para encarar quem me segurava, meu coração quase parou. Era ele. Maxim.

Os olhos verdes, penetrantes, estavam fixos nos meus com uma intensidade fria, rígida, como se eu fosse algo que ele não queria, mas não podia evitar. Sua pele bronzeada parecia brilhar ao primeiro toque de sol, e o cabelo loiro areia estava mais bagunçado do que de costume, com as laterais curtas e o topo liso, dando-lhe um aspecto selvagem, mas ainda assim imponente. Ele era alto, muito mais alto do que eu me lembrava, e seus músculos, visíveis mesmo sob a camisa de tecido grosso, pareciam estar prontos para explodir a qualquer momento.

Ele parecia um predador, o olhar fixo, como se eu fosse uma presa, uma ameaça a ser controlada, e a raiva em seu rosto, agora parecia ainda mais acentuada.

Maxim raramente sorria, e hoje não era diferente. Seu rosto, embora másculo e atraente, estava distorcido pela frieza, pela tensão, como se estivesse lutando contra algo. 

Fiquei paralisada por um momento, incapaz de dizer qualquer coisa. O que ele queria de mim agora? Por que estava me seguindo?

Maxim me olhou, seu olhar frio e distante, mas por um instante, eu vi algo diferente. Algo mais profundo, algo que não consegui compreender.

— Você fugiu ontem — ele murmurou, sua voz baixa, quase desinteressada, mas eu podia sentir a raiva em cada palavra. — Pensou que poderia se esconder da alcateia, de mim?

Eu não consegui responder imediatamente, o choque ainda tomando conta de mim. Mas a raiva se ergueu dentro de mim, e com isso veio a necessidade de falar, de expor tudo o que estava entalado em minha garganta.

— Não sou sua responsabilidade, Maxim — sussurrei com raiva, tentando me soltar de seu aperto. — Você não quer isso, não é? Foi o que você disse ontem. Então por que está aqui? Por que me seguiu, Max?Você me rejeitou.

— Não sei o que você é, Aiyana. Mas a chama não erra. — Ele parou, como se se arrepende-se de cada palavra que disse, seu olhar ficando ainda mais distante. — Não importa o que eu queira, a verdade é que não há como escapar disso.

Maxim me soltou lentamente, mas a tensão no ar permanecia.

O que ele queria de mim? 

Maxim virou o rosto para o lado, como se tentasse se afastar emocionalmente de tudo, mas seus olhos ainda estavam fixos em mim. E, antes de se afastar, ele disse em voz baixa, quase como se não quisesse que eu ouvisse:

— Não espere que eu aceite isso tão facilmente.

Maxim parou por um momento, a distância entre nós tornando-se ainda maior. Ele respirou fundo, como se estivesse pesando cada palavra que estava prestes a dizer.

— Eu amo Isabela, Aiyana. E não vou deixar isso. Não importa o que a chama tenha dito, ou o que você pense que isso signifique. Ela é a pessoa que eu escolhi, e eu não vou mudar de ideia. Não vai ser você que vai me fazer abrir mão dela.

Eu senti uma pontada no peito, mas fiz questão de manter os olhos firmes nos dele. Ele não estava falando para me agradar, e as palavras dele me cortavam como facas, mas eu não ia demonstrar fraqueza. Não diante dele.

— Eu sei disso — murmurei, a voz baixa, tentando não deixar transparecer o desconforto que sentia

— Você não deve esperar que eu pare de viver a minha vida, Aiyana. Não vou desistir dos meus sonhos. Não vou mudar por causa de uma chama idiota e de uma escolha que não faz sentido para mim. Eu não te amo, e nem quero você. Não espere que eu faça isso.—Maxim continuou, seu tom ficando mais ríspido, como se estivesse despejando tudo o que sentia. 

Eu não abaixei o olhar, embora suas palavras estivessem ferindo não apenas meu ego.

— Longe de mim pensar que o príncipe largaria sua princesa, nenhuma expectativa aqui.

Seu olhar estreitou e tive que revirar os olhos.

— Não seja mal-humorado, você está agindo como se eu quisesse isso. Mas eu não quero, fui pega de surpresa tanto quanto você. 

Seus olhos eram frios e duros, e cada palavra parecia ser mais uma muralha erguida entre nós. Mas, quando ele bufa impacientemente e chuta um pedaço de feno, um silêncio pesado se instala. 

— Eu nunca te vi como mulher, Aiyana. Nunca vi.

Aquelas palavras foram como um golpe no estômago. Eu tentei me manter firme, mas uma onda de calor subiu para minha face, e fez querer me encolher. Senti como se meu corpo estivesse em chamas, não de forma quente e reconfortante, mas de uma forma fria e cortante. Como se ele tivesse arrancado o pouco de dignidade que ainda restava.

Eu queria gritar, retrucar, dizer algo rude, mas as palavras ficaram presas na minha garganta.

Tudo o que eu consegui fazer foi recuar, o suficiente para que ele visse a angústia em meu rosto.

Mas ele não parecia se importar. Não com nada disso.

Ele virou-se para ir embora, sem mais uma palavra, me deixando ali, sozinha.

—Idiota! —gritei.

As palavras de Maxim ecoavam na minha mente, como um eco cruel e incessante. Eu simplesmente comecei a andar, sem rumo, como se o corpo soubesse para onde ir, mesmo quando minha mente estava completamente em caos.

Cheguei em casa e entrei pela porta, sem olhar para trás.

Fechei a porta do quarto com um estalo, trancando-me para o mundo lá fora. Não queria ver ninguém. Não queria ouvir ninguém. O que ele disse estava martelando na minha cabeça, e a dor que eu sentia era algo que eu não sabia como lidar.

Eu me atirei na cama, sem forças para fazer nada mais. O choro começou a tomar conta de mim, algo incontrolável, e eu simplesmente não conseguia parar. Lágrimas quentes e amargas escorriam pelo meu rosto, e eu me permiti chorar até que o cansaço tomasse conta de mim.

No silêncio do meu quarto,  meu corpo cedeu ao exaustão. Eu não sei quando, mas adormeci, mergulhando em um sono profundo e pesado, onde os sonhos pareciam distantes demais para alcançar.

Mas o sono não me trouxe paz.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A ESCOLHIDA   Epílogo

    AIYANASe alguém me dissesse há alguns anos que eu estaria grávida e prestes a descobrir o sexo do meu bebê em uma festa organizada pelo Icarus, eu teria provavelmente rido na cara da pessoa. Mas ali estava eu: com a barriga já começando a aparecer, cercada por bexigas, confetes, e uma mesa de doces que parecia saída de um pesadelo açucarado de um desses programas de competição culinária. – Eu fiz tudo com minhas próprias mãos. –Icarus disse com orgulho, apontando para um bolo que claramente tinha afundado no meio.– Você comprou tudo pronto, amor – murmurei.– A curadoria foi minha. – respondeu, ofendido e dei-lhe um beijo no rosto para compensar. Ele piscou e me puxou para um beijo mais profundo, envolvendo língua e mãos. Eles estavam empolgados com a minha gravidez e todas as mudanças no meu corpo, mas Icarus desenvolveu uma obsessão pelos meus seios, ele os apertava até o leite vazar todas as noites.Max estava de braços cruzados, usando uma camisa com “Time Menina” escrito com gl

  • A ESCOLHIDA   Final

    AIYANATrês anos depoisO som das minhas botas ecoou pelo corredor enquanto eu jogava a mochila no ombro com mais força do que o necessário. Os músculos doíam da aula de hoje, aquele treino de jiu-jitsu me deixou com vontade de morar numa banheira de gelo por tempo indefinido. Mas, no fundo, eu adorava a dor. Era sinal de que eu estava viva, forte… e adaptada.Estágio na academia de bairro pela manhã, faculdade à tarde, treino no fim do dia. Era uma rotina humana. Com horários, fila de micro-ondas e gente suando em cima de colchonetes. E, de alguma forma, me fazia bem. Me fazia normal. Ou quase.Suspirei ao empurrar a porta de casa e ouvir, claro, gritos vindos do andar de cima.— Você só fala isso porque perdeu. — reconheci a voz de Max, irritado e perdendo claramente o controle.— Eu perdi? Eu deixei você ganhar, seu patético!Deixei as chaves na mesinha da entrada com um baque alto. Rolei os olhos antes mesmo de subir os degraus.Era sempre isso.Icarus e Max viviam em guerra fria,

  • A ESCOLHIDA   Capítulo 106

    AIYANAAcordei com um calor familiar deslizando entre minhas pernas. Meus dedos se entrelaçaram nos lençóis enquanto o toque de Icarus me puxava de volta para o corpo, para o agora. Abri os olhos lentamente e o encontrei ali, com um sorriso safado nos lábios e o olhar cravado em mim, como se não existisse mais nada no mundo.Minha loba se sentia envaidecida pela atenção e dedicação.O som do chuveiro corria ao fundo, abafando meu suspiro.— Olá — murmurei, a voz rouca da manhã e do prazer.Ele ergueu o rosto apenas o suficiente para me lançar um olhar travesso.— Oi, querida — respondeu com aquela voz arrastada, provocante. — Dormiu bem?Eu não consegui responder. Ele voltou a me provocar, com lábios e língua, exatamente como sabia fazer. Meu corpo arqueou por reflexo.— Será que eu consigo te fazer gozar antes dele voltar? — ele murmurou, os olhos brilhando com desafio.Mas o destino tinha outro plano.O chuveiro se desligou. Um segundo depois, a porta se abriu com o ranger suave de m

  • A ESCOLHIDA   Capítulo 105

    AIYANAMax tossiu com força, o corpo ainda trêmulo, como se tivesse acabado de emergir de um pesadelo submerso. Seus olhos piscaram várias vezes, tentando ajustar-se à luz suave da floresta. Por um momento, ele pareceu confuso, perdido.— Max... — sussurrei, sentindo a garganta apertada.Os olhos dele finalmente encontraram os meus, e foi como se o mundo tivesse parado. O susto desapareceu, substituído por algo primal e urgente. Em um segundo, ele se lançou para frente, os braços me envolvendo com força quase desesperada.— Você tá viva... você tá aqui... — ele murmurou contra meu pescoço, o rosto pressionado entre meus cabelos. — Deuses... seu cheiro... achei que tinha perdido.

  • A ESCOLHIDA   Capítulo 104

    AIYANASynx manteve o olhar em Max por um instante, como se o peso de tudo que dissera ainda estivesse ancorado ali. Mas então, lentamente, seus olhos se voltaram para mim e eu senti como se ela estivesse tentando me transmitir uma mensagem oculta.— Você me escolheu? Por quê? — indaguei, atraída pelo azul dos seus olhos.— Durante anos, eu observei. Avaliei cada descendente de Helion. Mas nunca senti que podia confiar em nenhum deles... até você, Aiyana.Minha respiração vacilou. Icarus imediatamente ficou mais alerta ao meu lado, os olhos desconfiados.— Por quê? — ele murmurou, num tom entre ceticismo e instinto protetor.Synx assentiu, a voz mai

  • A ESCOLHIDA   Capítulo 103

    AIYANA— Synx... — o nome mal tinha saído dos meus lábios.Ela sorriu.Como se me conhecesse.Como se estivéssemos continuando uma conversa antiga, que eu nunca ouvi começar.Seus olhos dançaram de mim para Icarus, como se o analisasse. Depois, enfim, pararam no corpo imóvel em meus braços.Max.Ela inclinou levemente a cabeça, como quem avalia um quadro. Um leve suspiro saiu de seus lábios antes de perguntar, com uma calma quase debochada.— Você precisa de ajuda com isso?Icarus se ergueu num salto, o corpo tenso, os olhos como lâminas negras. Colocou-se entre nós, protegendo meu corpo com o dele.— Cuidado com o que diz. — rosnou, sem esconder a ameaça na voz.Mas Synx apenas sorriu, indiferente ao perigo que ele representava.— Eu disse ajuda, não ameaça — respondeu, com uma tranquilidade que soava como veneno em frasco de perfume. Eu não tinha certeza se deveria confiar nela.Ela caminhou. Sem pressa e sem medo. Como se governasse tudo ao redor.Parou diante de mim, seus olhos br

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status