INICIAR SESIÓNO som suave do choro de Enzo me desperta, invadindo o silêncio gostoso daquela manhã de sábado. Sinto o calor do braço de Santino em volta da minha cintura, pesado, possessivo, como se mesmo dormindo ele quisesse me manter ali, colada nele. Viro o rosto e olho o rádio-relógio na mesinha de cabeceira. Oito horas.Santino se aninha mais em mim, me apertando pela cintura, e deposita um beijo lento, preguiçoso, no meu pescoço, exatamente no ponto que sabe que me faz arrepiar. Sua voz rouca, quebrada de sono, desliza pelo meu ouvido.— Pode trazê-lo aqui... enquanto você faz a mamadeira... — boceja, ainda de olhos fechados.Sorrio, acariciando o dorso da mão dele que repousa sobre meu ventre.— Hoje é sábado... Eu o levo para a sala. Lúcio já deve estar acordado e Lola... ah, Lola já deve estar falando pelos cotovelos. — Dou uma risadinha. — Eles vão amar ficar com ele. Dorme mais um pouquinho.Ele se espreguiça, roçando o corpo no meu.— Pode trazê-lo... — diz, segurando minha mão e levan
Eu me levanto, respiro fundo. Minhas pernas tremem enquanto caminho até a porta. Cada passo é um desafio. Me apoio na parede, depois no corrimão da escada.No meio da descida, meu olhar encontra Santino. Ele está de costas, olhando pela janela, as mãos nos bolsos da calça. Meu coração dispara, bate tão forte que parece ecoar no peito.Aperto a mão contra o corrimão, buscando algum controle sobre meu corpo que treme inteiro. Seguro a respiração. Desço, um degrau de cada vez, até alcançar o chão da sala.Ele se vira.Nossos olhos se encontram.Por um instante, tudo some. Só existem aqueles olhos negros, intensos, que parecem atravessar minha alma.Ele veste uma jaqueta preta sobre uma camiseta branca de linha. A calça de sarja, também preta, está mais folgada do que eu me lembrava. Meu olhar o percorre inteiro… mais magro, visivelmente mais magro. Onde antes tudo caía sob medida, agora sobra tecido.Sofreu por mim? Cada detalhe grita isso. O olhar, a expressão cansada, a presença dele
SantinoDesde que Marina foi embora, trabalhar virou um martírio. Me arrasto pelos dias, fingindo ser um arquiteto funcional, quando na verdade... estou quebrado. Encaro o trânsito caótico à minha frente, enquanto luto, mais uma vez, contra a vontade irracional de checar o celular. Talvez, só talvez, ela tenha me mandado uma mensagem. Uma ligação. Qualquer coisa.Nada.Apenas uma mensagem da Lola: "Papai está bem."Aperto o celular na mão, sentindo aquele buraco no peito abrir ainda mais. O coração lateja pesado, como se tentasse, desesperadamente, me manter de pé. Abro, quase sem pensar, aquele perfil fake no Facebook — o único meio que encontrei de ainda me sentir perto dela, mesmo que ela não saiba.A única foto nova? Ela. Na piscina de casa. Sorrindo. Rodeada de amigos. Linda. Deslumbrante. E tão longe de mim que chega a doer.Solto o ar, pesado. A angústia me sufoca. Amo Marina. Amo tanto que chega a ser físico, visceral, cruel. A parte racional grita que eu preciso esperar, que
Lola assente e se senta no sofá.— Ah, desculpe. Esta é Carol Blake. Ela é filha do doutor Ryan. Carol, essa é Marina Baker, nossa filha adotiva.Sorrio com simpatia para Carol. A menina é linda, parece uma boneca de tão perfeita, com cerca de catorze anos.Cabelos castanhos, sedosos… olhos azuis que agora me encaram com intensidade.Ela deve ter me reconhecido… com certeza sonha em ser modelo.— Eu me lembro de você — diz ela, enfática.Dito e feito.Sorrio, mas volto minha atenção ao médico que chama Lola no corredor. Me levanto, apreensiva, prestes a ir ao encontro deles, quando a menina diz:— Você é a garota do acidente.Paro. A encaro, curiosa.— Como sabe?— Eu estava lá com meu pai. Estávamos do outro lado da calçada quando aquele caminhão cheio de produtos químicos avançou o farol vermelho… e o carro de vocês se chocou contra ele.As palavras dela aguçam ainda mais a minha curiosidade. Eu mesma não vi o acidente acontecer. Só me lembro de estar sorrindo para Santino… e então,
MarinaPela manhã, desperto totalmente consciente de que Santino não está ao meu lado. O espaço que antes ele ocupava permanece vazio, frio. Trago o travesseiro até o rosto, inalando os últimos vestígios do perfume dele impregnados no tecido.Graças a Deus, não sinto os enjoos matinais. Lola e Lúcio ainda não sabem da minha gestação. Carrego comigo a convicção de que o pai deve ser o primeiro a saber: Santino.Sinto-me mal-humorada. Saio de debaixo das cobertas e me preparo para, mais uma vez, enfrentar o dia sem ele. Já se passou uma semana desde que nos afastamos, sem qualquer contato.No último final de semana, ele não voltou para casa. Está respeitando o tempo que eu pedi.A loja segue de vento em popa. Heitor alugou um apartamento aqui na região e acompanha de perto toda a reforma e montagem.Viro-me na cama, relembrando a conversa que tive com Lola e Lúcio logo que cheguei…Suspiro…Eles ficaram tristes com o que aconteceu entre mim e Santino. Mas, ao mesmo tempo, compreenderam
Levanto-me, abro a porta, olho para seu rosto angustiado.—Não há nada para explicar por que você não pode explicar isso.—Eu posso… se você me der uma chance.—Saia do meu caminho —me viro para passar, mas ele me bloqueia, tentando me segurar pelos ombros.—Não me toque! Saia da minha frente!—Vamos conversar!O desamparo nele, me forçando a ficar na sua frente, faz minha raiva aumentar.—Não há nada para dizer diante da sua atitude EGOÍSTA! Você não pode mudar isso. Saia do caminho!Tento empurrá-lo, mas ele não se move. Ele me abraça, eu começo a socar seu peito, tentando lhe causar dor, mas ele não me solta.Fico ali, agitada violentamente contra ele, batendo mais forte, gritando para ele se mover. Então consigo lhe dar um tapa forte no rosto.Ele dá um passo para trás, perplexo. Gosto da sensação de lhe causar dor física, como se isso pudesse remover a dor que estou sentindo.Seus olhos ficam vermelhos com lágrimas não derramadas. Parece magoado e, ao mesmo tempo, se esforça para