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Vamos, Santino?

last update Data de publicação: 2025-05-30 19:23:15

Meus olhos encontram os dele, e eu sinto meu coração acelerar. Não de reconhecimento — porque não há. Não existe uma lembrança sequer dentro de mim desse homem. Mas há... algo. Um peso. Uma tensão que aperta meu peito de um jeito desconfortável.

E eu não faço a menor ideia do que fazer com isso.

—Marina, minha querida. Que agradável surpresa! Por que não me chamou quando chegou? Teria evitado todo esse mal-entendido. —A voz de Lola vem como um alívio, doce, acolhedora, tentando varrer para debaixo do tapete o caos absoluto que se formou no quarto.

Forço um sorriso. Porque se tem uma pessoa aqui que não merece meu colapso interno, é ela. Minha fada madrinha. Minha salvadora desde o dia em que acordei no hospital, perdida, quebrada, sem passado, sem memória, sem identidade.

—Quando cheguei, já passava de meia-noite, Lolita. — Respondo com aquele tom carinhoso, usando o apelido que só eu me atrevo a usar. —E, bem... toda vez que te visito, fico com este quarto. Você sabe disso. — Ergo uma sobrancelha, olhando para ela, depois para... ele. —Não imaginei que Santino viria hoje. E, pelo visto... você também não.

Lola solta aquela risadinha nervosa que, sinceramente, deveria ser patenteada. —Bem... isso é verdade. — Seu olhar vai de mim para ele, e volta para mim, visivelmente desconfortável. —Já é de madrugada, e Santino... deve estar cansado. Eu... eu vou levá-lo até a sala, enquanto você pega suas coisas e leva para outro quarto.

E é aí que meu corpo inteiro grita internamente: Sério isso?

Tento não olhar diretamente para Santino, mas é impossível. Porque a presença dele ocupa todo o espaço. É sufocante, intensa, magnética de um jeito desconfortável.

Ele não é mais o garoto das fotos que me mostraram. Não. Agora ele parece um homem esculpido em granito, com músculos tensos, ombros largos, braços fortes... e aquele olhar. Um olhar que poderia, facilmente, fazer qualquer ser humano reconsiderar todas as escolhas da própria vida.

Um gladiador. Um guerreiro. Um homem que carrega no corpo a prova de que sobreviveu ao próprio inferno.

E então, ele fala.

—Nada disso! — A voz dele preenche todo o quarto, grave, cortante, cheia de um poder que faz até os quadros nas paredes quererem fugir.

Meus joelhos ameaçam dobrar, mas eu me forço a erguer o queixo. Não. Eu não vou recuar. Não agora.

Seus olhos queimam nos meus, duros, hostis. Um tom que eu nunca vi — ou pelo menos não lembro de ter visto.

—Deixe-a aqui. — diz, com uma firmeza que soa mais como uma ordem militar. —Ela já está instalada. Eu vou para outro quarto.

Silêncio.

Silêncio absoluto.

Eu piscava, atordoada, encarando-o como quem encara um tornado vindo na sua direção, segurando... um guarda-chuva.

Meu cérebro espera, ainda nutrindo uma esperança ingênua de que ele vá completar com algo civilizado. Talvez um: "Perdoe-me por invadir seu quarto no meio da madrugada. Que situação, hein? Que saudade de conversar sobre a vida, Marina."

Mas não. Nada disso. Nem um mísero resquício de educação básica.

Ele simplesmente me olha como se eu fosse um problema que ele não teve escolha a não ser tolerar.

Lola percebe o tamanho do desastre e intervém apressadamente, forçando um tom que nem ela acredita: —Então... se está tudo resolvido... boa noite, Marina. — se vira para ele. —Vamos, Santino.

Vamos, Santino?

Quase abro os braços. Tipo... sério isso? É isso? Ninguém vai sequer fingir que isso é minimamente civilizado?

Ele se vira, indo em direção à porta, ignorando completamente minha existência como se eu fosse, sei lá, um móvel mal posicionado na sala.

—Onde estão suas malas? — pergunta Lola, tentando desesperadamente preencher o silêncio constrangedor.

—Na sala. Estava tão cansado que nem me dei ao trabalho de subir com elas. — responde ele, no mesmo tom, meio arrastado, meio entediado, meio "quero desaparecer do planeta."

E, pronto. Saem.

Simples assim.

Eu fico ali. No meio do quarto. De boca entreaberta. Lençol agarrado no peito.

Pisco.

Pisco de novo.

Separo os lábios, ainda atordoada com o fato deles saírem com tanta pressa do meu quarto. 

Suspiro, talvez ele estivesse cansado. Sua irritação devia ser devido a isso também. Sei lá...

—Perfeito. — Falo para mim mesma. —Tudo indo exatamente como planejado.

Porque, veja bem... acordar no meio da madrugada, com um homem meio despido, meio furioso, meio traumatizado, surgindo no meu quarto, só para me lembrar que ele foi embora para a África e me apagou da vida dele... é exatamente o que toda garota sonha.

Sério. Isso vai ser maravilhoso.

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Último capítulo

  • A Fera que Me Amou   EPÍLOGO

    O som suave do choro de Enzo me desperta, invadindo o silêncio gostoso daquela manhã de sábado. Sinto o calor do braço de Santino em volta da minha cintura, pesado, possessivo, como se mesmo dormindo ele quisesse me manter ali, colada nele. Viro o rosto e olho o rádio-relógio na mesinha de cabeceira. Oito horas.Santino se aninha mais em mim, me apertando pela cintura, e deposita um beijo lento, preguiçoso, no meu pescoço, exatamente no ponto que sabe que me faz arrepiar. Sua voz rouca, quebrada de sono, desliza pelo meu ouvido.— Pode trazê-lo aqui... enquanto você faz a mamadeira... — boceja, ainda de olhos fechados.Sorrio, acariciando o dorso da mão dele que repousa sobre meu ventre.— Hoje é sábado... Eu o levo para a sala. Lúcio já deve estar acordado e Lola... ah, Lola já deve estar falando pelos cotovelos. — Dou uma risadinha. — Eles vão amar ficar com ele. Dorme mais um pouquinho.Ele se espreguiça, roçando o corpo no meu.— Pode trazê-lo... — diz, segurando minha mão e levan

  • A Fera que Me Amou   Reencontro

    Eu me levanto, respiro fundo. Minhas pernas tremem enquanto caminho até a porta. Cada passo é um desafio. Me apoio na parede, depois no corrimão da escada.No meio da descida, meu olhar encontra Santino. Ele está de costas, olhando pela janela, as mãos nos bolsos da calça. Meu coração dispara, bate tão forte que parece ecoar no peito.Aperto a mão contra o corrimão, buscando algum controle sobre meu corpo que treme inteiro. Seguro a respiração. Desço, um degrau de cada vez, até alcançar o chão da sala.Ele se vira.Nossos olhos se encontram.Por um instante, tudo some. Só existem aqueles olhos negros, intensos, que parecem atravessar minha alma.Ele veste uma jaqueta preta sobre uma camiseta branca de linha. A calça de sarja, também preta, está mais folgada do que eu me lembrava. Meu olhar o percorre inteiro… mais magro, visivelmente mais magro. Onde antes tudo caía sob medida, agora sobra tecido.Sofreu por mim? Cada detalhe grita isso. O olhar, a expressão cansada, a presença dele

  • A Fera que Me Amou   Desistir de você? Nunca!

    SantinoDesde que Marina foi embora, trabalhar virou um martírio. Me arrasto pelos dias, fingindo ser um arquiteto funcional, quando na verdade... estou quebrado. Encaro o trânsito caótico à minha frente, enquanto luto, mais uma vez, contra a vontade irracional de checar o celular. Talvez, só talvez, ela tenha me mandado uma mensagem. Uma ligação. Qualquer coisa.Nada.Apenas uma mensagem da Lola: "Papai está bem."Aperto o celular na mão, sentindo aquele buraco no peito abrir ainda mais. O coração lateja pesado, como se tentasse, desesperadamente, me manter de pé. Abro, quase sem pensar, aquele perfil fake no Facebook — o único meio que encontrei de ainda me sentir perto dela, mesmo que ela não saiba.A única foto nova? Ela. Na piscina de casa. Sorrindo. Rodeada de amigos. Linda. Deslumbrante. E tão longe de mim que chega a doer.Solto o ar, pesado. A angústia me sufoca. Amo Marina. Amo tanto que chega a ser físico, visceral, cruel. A parte racional grita que eu preciso esperar, que

  • A Fera que Me Amou   Revelações do dia do acidente

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  • A Fera que Me Amou   Uma semana depois...

    MarinaPela manhã, desperto totalmente consciente de que Santino não está ao meu lado. O espaço que antes ele ocupava permanece vazio, frio. Trago o travesseiro até o rosto, inalando os últimos vestígios do perfume dele impregnados no tecido.Graças a Deus, não sinto os enjoos matinais. Lola e Lúcio ainda não sabem da minha gestação. Carrego comigo a convicção de que o pai deve ser o primeiro a saber: Santino.Sinto-me mal-humorada. Saio de debaixo das cobertas e me preparo para, mais uma vez, enfrentar o dia sem ele. Já se passou uma semana desde que nos afastamos, sem qualquer contato.No último final de semana, ele não voltou para casa. Está respeitando o tempo que eu pedi.A loja segue de vento em popa. Heitor alugou um apartamento aqui na região e acompanha de perto toda a reforma e montagem.Viro-me na cama, relembrando a conversa que tive com Lola e Lúcio logo que cheguei…Suspiro…Eles ficaram tristes com o que aconteceu entre mim e Santino. Mas, ao mesmo tempo, compreenderam

  • A Fera que Me Amou    Eu não estou em condições de te perdoar agora...

    Levanto-me, abro a porta, olho para seu rosto angustiado.—Não há nada para explicar por que você não pode explicar isso.—Eu posso… se você me der uma chance.—Saia do meu caminho —me viro para passar, mas ele me bloqueia, tentando me segurar pelos ombros.—Não me toque! Saia da minha frente!—Vamos conversar!O desamparo nele, me forçando a ficar na sua frente, faz minha raiva aumentar.—Não há nada para dizer diante da sua atitude EGOÍSTA! Você não pode mudar isso. Saia do caminho!Tento empurrá-lo, mas ele não se move. Ele me abraça, eu começo a socar seu peito, tentando lhe causar dor, mas ele não me solta.Fico ali, agitada violentamente contra ele, batendo mais forte, gritando para ele se mover. Então consigo lhe dar um tapa forte no rosto.Ele dá um passo para trás, perplexo. Gosto da sensação de lhe causar dor física, como se isso pudesse remover a dor que estou sentindo.Seus olhos ficam vermelhos com lágrimas não derramadas. Parece magoado e, ao mesmo tempo, se esforça para

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