INICIAR SESIÓNUm vagão havia sido reservado para eles.
Depois que todas as crianças estavam acomodadas e mais calmas, Selena sentou-se ao lado da freira. — É bom ser criança… — disse, com o coração apertado. — Para elas, tudo é festa. Nem sabem o que as espera. — Selena, procure não ser negativa — respondeu a freira, com suavidade. — Essa mudança será boa para todos. Inclusive para você. — Talvez esteja certa. — Selena suspirou. — Mas me sinto frustrada por não saber nada sobre mim. Não sei onde estão meus registros, não sei de onde vim. A única coisa pessoal que tenho é esta medalha em forma de lua… — retirou-a de dentro da roupa e mostrou à freira. — Mas não sei de onde veio. A freira observou o objeto com atenção. — Deve ser algo de família. — Fez uma pausa. — Você sabe como passou a ter esse artefato? — Não. Nunca descobri nada. Só sei que ele esteve comigo desde que me lembro. — Então guarde bem. Pode ser a chave para encontrar sua família. Talvez seja um brasão… quem sabe? — Talvez… — murmurou Selena. Seu olhar voltou-se para as crianças, que brincavam animadas pelo vagão. Preocupada, levantou-se. — Crianças! Não corram, alguém pode se machucar. — Aproximou-se, ajudando-as a voltar para seus lugares. — Daqui a pouco o café será servido. Fiquem sentadas, está bem? Após colocar ordem no vagão, retornou ao assento ao lado da freira. — Tomara que se acalmem depois do café — comentou, com um leve sorriso. A freira a observou com carinho. — Você gosta das crianças como se fossem seus próprios filhos. Selena assentiu, com o olhar distante. — Sim… Eles são a minha alegria. A diretora apenas os recebia, mas quem cuidou de cada um fui eu. — Sua voz suavizou. — Eles são o contraste da minha vida fria. Com eles, eu tenho… vida. O café foi servido, e Selena ajudou na distribuição. Depois que todos estavam acomodados, sentou-se para se alimentar. Outra freira assumiu os cuidados das crianças e, ao passar por ela, falou com ternura: — Não tenha pressa. Estamos aqui para ajudar. Tente relaxar um pouco. — Tentarei — respondeu, mordendo um pedaço de pão. A viagem seguia tranquila. Com o passar das horas, algumas crianças adormeceram; outras permaneciam distraídas, observando a paisagem pela janela. A freira que acompanhava Selena afastou-se por alguns minutos para o momento de oração. Selena permaneceu cuidando do vagão. Quando a freira retornou, Selena se levantou. — Preciso lavar as mãos. Você se importa de cuidar das crianças por um instante? — Nem precisa perguntar. Vá — respondeu com um sorriso. — Aproveite e refresque o rosto. Está quente, e você está um pouco vermelha. Selena saiu sorrindo. Ao fechar a porta do pequeno banheiro, lavou o rosto e respirou fundo. Encostou-se na parede e levou a mão à medalha que sempre a acompanhara. Apertou o objeto contra o peito e fez uma prece silenciosa. Que este medalhão possa realmente mudar a minha vida. Mal terminou o pensamento, sentiu o corpo ser lançado violentamente contra a parede. Tudo aconteceu rápido demais. O espaço pareceu girar. Seu corpo foi arremessado de forma brusca dentro do pequeno banheiro. Tentou se firmar, mas, ao bater a cabeça, uma dor intensa explodiu. Antes que apagasse de vez, ouviu o som de ferragens se chocando, seguido por gritos distantes. Depois, apenas silêncio. E escuridão. Selena abriu os olhos, ofegante. O ar parecia pesado. O espaço ao redor era estranho — silencioso demais, como se o mundo estivesse suspenso. — Onde estou? — perguntou, a voz falha. — Filha da lua e do destino — ecoou uma voz profunda. — Sua jornada ainda não terminou. O coração de Selena disparou. — Que lugar é este? — insistiu. — Por que me trouxe aqui? — Este é o meu espaço. Minha morada. Nosso espaço agora. — Por quê? — A palavra saiu carregada de medo. — Por que eu? Houve uma pausa breve, densa. — Porque você voltará — respondeu a voz. — E não estará vazia. O ar pareceu vibrar. — Você retornará sem saber tudo — continuou Pandora. — Os dons despertarão quando forem necessários. Não antes. Não por vontade. Mas por necessidade. Selena sentiu um arrepio atravessar o corpo. — Estarei com você — a voz prosseguiu. — Sou a herança que lhe foi deixada. Sou Pandora. Antes que pudesse reagir, um espelho surgiu diante dela. O reflexo era exato. Era ela. Então as imagens começaram a se romper — rápidas, fragmentadas, cruéis. Gritos. Ferro retorcido. O caos. Quando cessaram, Selena recuou, o desespero estampado no rosto. As lágrimas vieram sem controle. — A escolha não é sua — disse Pandora, agora distante. — Volte. Uma força invisível a empurrou. O corpo perdeu o peso. Caiu — afundando na escuridão. O ar invadiu seus pulmões de uma só vez, queimando por dentro. Selena inspirou com violência, como se tivesse sido arrancada do fundo de um rio. Tentou se mover, mas o corpo não respondeu. Vozes surgiram, distantes. — O que você acha? — Está enganada. O comandante deve ter ficado com pena da garota. Da lista que recolheram… somente ela sobreviveu. — Tem razão. Vai ser um choque quando acordar. Já identificaram a causa do acidente? — Ainda não. Estão investigando. Vamos, temos outros quartos para verificar. Depois voltamos para vê-la… As vozes se afastaram. Selena tentou dizer que estava acordada, mas a garganta não respondeu. Com esforço, abriu os olhos. Estava sozinha. As paredes gastas do quarto entraram em foco. Duas lágrimas escorreram lentamente por seu rosto. A porta se abriu. Um jovem de uniforme entrou, e seus olhares se cruzaram. — Você acordou! — disse ele, aliviado. — O que aconteceu? Onde estou? — perguntou Selena, com a voz fraca. Ele se aproximou da cama. — Não se preocupe agora. Você precisa se recuperar. Outro rapaz entrou apressado. — Comandante! Estão procurando o senhor. — Espere um momento — respondeu, sem tirar os olhos dela. — Descanse mais um pouco. Vou ver o que querem e volto para conversarmos. Sou o comandante Adam. Não tenha medo. Você está segura. Está em um hospital. O colega percebeu que Selena estava acordada. Sem graça, pediu licença e saiu. Selena fechou os olhos por um instante.Selena deixou escapar um pequeno sorriso, mais pela ironia da situação do que por alegria.— Paulo, muitas coisas eu já consigo entender agora — disse com calma. — Mas ainda falta informação para que tudo fique realmente claro.Paulo balançou a cabeça devagar, demonstrando certo pesar.— Infelizmente não posso ajudar muito mais. Como eu disse… ficamos sem sinal por muito tempo.Selena apoiou levemente os cotovelos sobre a mesa, pensando por um instante antes de continuar.— Me diga uma coisa. Eu descobri que desbloqueei todos os caminhos… mas preciso ativar a chave do sistema. Você sabe como faço isso?Paulo ergueu os olhos para ela e, por um instante, sua expressão mudou completamente. Uma surpresa genuína surgiu em seu rosto.— Verdade? — perguntou, impressionado. — Eu não esperava por isso…Selena assentiu.— Sim… mas ainda não sei o que fazer com essa informação. Então… e a chave?Paulo passou a mão pelo rosto, pensativo.— Isso eu realmente não sei — admitiu. — Apenas quem possui
Selena chegou ao encontro com Paulo mais calma do que imaginava que estaria. Durante o caminho, sua mente havia organizado boa parte do que acontecera no dia anterior. A confusão ainda existia, mas já não era um caos. Agora restavam perguntas — poucas, porém importantes. E, se alguém poderia ajudá-la a respondê-las, talvez fosse ele.Paulo a viu assim que ela entrou e acenou com um sorriso tranquilo, daqueles que pareciam sempre carregar um pouco de compreensão silenciosa. Selena se aproximou devagar. Quando se sentou à mesa, observou por um instante o rosto bondoso dele, tentando medir o quanto daquele homem ainda era apenas o Paulo que ela conhecia… e o quanto fazia parte de algo maior.— Como está? — ele perguntou com simpatia.Selena mexeu lentamente o café que acabara de ser servido. O som da colher tocando a xícara era suave, mas dentro dela os pensamentos se moviam com muito mais força. Depois de alguns segundos, levantou o olhar e o encarou com firmeza.— Paulo… me diga. Qual
Pela primeira vez, a armadura de Selena rachou. O controle que ela sustentou com tanto esforço desapareceu, e seus olhos começaram a arder. Antes que pudesse evitar, uma lágrima solitária escapou e correu pelo seu rosto. Ela a enxugou rapidamente, num gesto brusco, mas o mundo ao seu redor pareceu girar. Uma tontura forte a atingiu, obrigando-a a se segurar no encosto da cadeira para não cair.Respirando fundo, ela encarou Souza e Irene com um olhar vazio. — Preciso sair — disse ela, a voz falhando levemente. — Continuem a conversa de vocês.Sem esperar por uma resposta ou pelos protestos do pai, Selena saiu do escritório. Suas pernas pareciam pesadas; ela precisou se apoiar nos móveis do corredor até alcançar o quarto. Assim que fechou a porta atrás de si, encostou a mão no rosto, sentindo o coração disparado. — O que está acontecendo comigo? — sussurrou para a penumbra.O silêncio ali dentro era diferente. Não era o silêncio pesado do escritório, mas algo leve, quase artificial. De
O peso do dia finalmente pareceu atingir Selena. Seus ombros cederam levemente e, mudando a expressão de desafio para uma exaustão profunda, ela se sentou.— Souza, vamos deixar esse papo furado de lado — disse ela, a voz mais baixa, mas carregada de autoridade. — Responda-me uma coisa. Vamos esclarecer tudo hoje. Se você responder às minhas perguntas com honestidade, eu prometo te ouvir.Os olhos de Souza brilharam com uma centelha de má intenção. Ele se inclinou para frente, vendo ali uma oportunidade. — Jura? Vai realmente me ouvir, Selena?— Sim. Mas eu saberei se estiver mentindo — avisou ela, desarmada pela própria fadiga, mas com o olhar atento como o de um falcão.Souza ajeitou-se na cadeira, sentindo que tinha o controle novamente. — Certo. Diga... o que deseja saber?Selena respirou fundo, lançando a pergunta que queimava em seu peito há anos: — Por que você se casou com a minha mãe se já tinha a Irene? Ela engravidou na mesma época que a minha mãe, não estou certa?O silênc
O clima no escritório tornou-se sufocante após as últimas palavras de Selena. A provocação dela pairava no ar como um desafio invisível, e foi Alana quem perdeu o controle primeiro. Endireitando-se na cadeira, ela deixou transparecer uma irritação que já não conseguia mais mascarar.— Isso é ridículo! — disparou Alana, a voz subindo um tom. — Meu casamento não tem nada a ver com os negócios do meu pai.Selena voltou o olhar para a meia-irmã com uma calma que beirava o insulto. Ela a observou por longos segundos, como se estivesse dissecando cada reação nervosa da outra.— Não? — respondeu Selena, com uma tranquilidade cortante. — Achei que todos aqui estivessem desesperados para salvar a família.Souza limpou a garganta, visivelmente acuado. Seus dedos começaram a batucar de forma rítmica sobre a mesa de mogno, um som seco que denunciava a inquietação que ele tentava, sem sucesso, esconder.— A Alana já tem a vida dela, os projetos dela — justificou ele depressa, as palavras saindo atr
Souza olhou de escanteio para Irene, um comando silencioso que ela captou no mesmo instante. Irene ajeitou a postura, suavizando a voz para tentar retomar as rédeas da situação.— Selena, podemos manter uma conversa tranquila, sem essas provocações? — pediu Irene, com uma calma estudada. — Afinal, você é filha do Souza. Pode não ter sido criada aqui, mas tem o mesmo sangue.Selena soltou um riso curto, carregado de desprezo.— Irene, eu não tenho nada com essa família. E sangue? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Se for por isso, os pernilongos também são meus parentes. Olha só, o que eu queria descobrir nesta casa, não descobri no lugar certo. Então, já não tenho mais motivo para ficar aqui.A menção de Selena sobre ir embora fez o ar no escritório gelar. Souza percebeu que o tempo estava acabando e resolveu abrir o jogo, a voz soando quase desesperada.— Selena! Eu realmente preciso falar com você. Nossa família... ela depende da sua ajuda — confessou ele, entregando a vulnerabilidade