INICIAR SESIÓNSelena e Adam seguem até a recepção para assinar a retirada dos pertences.
Ela registra o nome. Adam entra em uma sala ao lado. Minutos depois, um jovem se aproxima. — Senhorita, o comandante pediu que aguarde um momento. Ele se afasta. Selena se senta. O peso da realidade se impõe de uma vez: ao atravessar aquela porta, estará sozinha. Sem apoio. Sem dinheiro. Respira fundo. Quando Adam surge pelo corredor, ela se levanta de imediato. — Comandante. — Desculpe a demora — diz ele. — Precisei assinar a autorização final… dos seus pertences. — Não se preocupe. Não quero atrapalhar seu trabalho. Adam indica a cadeira à sua frente. — Sente-se, por favor. Selena obedece, atenta. — O que pretende fazer agora? — pergunta ele, direto. — Talvez eu possa ajudar. Ela o observa por um instante, avaliando. — Perdoe minha franqueza — diz, com firmeza contida —, mas por que está me ajudando? Qual é a sua intenção? Adam parece genuinamente surpreso. — Intenção? — Ele inspira fundo. — Acho que você está tirando conclusões precipitadas. Estou apenas retribuindo um gesto. — Retribuindo… o quê? — Gratidão. Selena franze levemente a testa. — Três anos atrás — continua Adam —, minha equipe sofreu uma emboscada perto do orfanato Destino. Estávamos feridos, sem comunicação, esperando socorro. Ela permanece em silêncio, alerta. — Talvez não se lembre — ele diz, com um leve sorriso contido —, mas uma jovem apareceu. Trouxe água. Pão. Se não fosse por isso… não estaríamos vivos. Algo se move dentro dela. — Depois, procurei por nossa benfeitora no orfanato — continua Adam. — A diretora disse que não havia nenhuma moça ali. Apenas crianças. Selena desvia o olhar. — Quando cheguei ao local do acidente… eu a reconheci. Só fiquei surpreso ao saber que vinha daquele lugar. — Ele hesita. — Por que escondeu que vivia lá? Selena entrelaça os dedos no colo. — Eu não escondi. — A voz sai baixa, mas firme. — É regra do orfanato. Ao completar quinze anos, eu deveria ter ido embora. A diretora apenas… adiou isso. Ela respira fundo. — Fiquei porque era útil. Trabalhava. Cuidava das crianças. Não recebia nada por isso. — Seus olhos se umedecem, mas ela não desvia o olhar. — Nunca imaginei que alguém fosse me procurar. Ou se lembrar de mim. Ergue o rosto, decidida. — Sei que o que aconteceu lá é errado. Sei que é crime. Se coloquei o senhor em alguma situação… peço perdão. Adam permanece em silêncio por alguns segundos. — Você não nos prejudicou — diz, por fim. — Nos salvou. Selena o encara, um pouco sem graça. — O senhor perguntou o que eu pretendo fazer… — hesita. — A verdade é que não sei. Talvez procurar trabalho em alguma casa de família. Sei fazer um pouco de tudo. Adam inspira fundo antes de responder. — Você não conhece este lugar. — Faz um gesto vago. — Não é uma cidade. É uma vila de passagem. Ponto de apoio para fazendeiros e transporte de mercadorias. Não há empregos fixos. Ela permanece em silêncio, assimilando. — Talvez seja melhor seguir para o seu destino — continua ele. — Apesar do acidente, sua passagem está garantida. Pode partir quando quiser. Selena abaixa o olhar por um instante, depois o ergue. — Isso… — a voz sai baixa, mas firme — é algo que não pretendo continuar. Adam a observa com atenção. Há algo definitivo naquela recusa. Ele cruza os braços, pensativo. — Como comandante responsável pela operação de resgate, respondo por todos os sobreviventes até que estejam, oficialmente, fora de risco e em local seguro. — Pausa breve. — Você acabou de sair de um trauma grave, não tem apoio imediato nem recursos. Liberá-la agora seria… negligência. Selena ergue o olhar, surpresa. — A médica recomendou repouso — continua ele, agora em tom mais objetivo. — Vou providenciar um lugar para você ficar por alguns dias. Não é um favor pessoal. É responsabilidade. Ela demora um instante, mas assente. — Obrigada. Adam se afasta, deixando-a sozinha na recepção. Selena recosta a cabeça no encosto da cadeira. O cansaço pesa. Enquanto espera o retorno do comandante, acaba cochilando. Quando Adam retorna, desacelera os passos ao vê-la dormindo. Por um momento, hesita. Selena, porém, sente a presença antes mesmo de abrir os olhos. Endireita o corpo, ainda sonolenta. Adam pigarreia, visivelmente desconfortável. — Não temos — pausa, escolhendo as palavras — nenhuma pousada ou lugar adequado por aqui. Ela assente, sem surpresa. — Consegui uma barraca com minha equipe — continua. — Fica no mesmo terreno onde estamos alojados. É simples, mas seguro. Pelo menos até você decidir o que quer fazer. Selena permanece em silêncio, avaliando. — Quando esta missão terminar, partiremos daqui — diz ele. — Você pode nos acompanhar até o centro de comando. O capitão já foi informado. Ele se dispôs a ajudar você a encontrar trabalho. Há cuidado na voz. E limites claros. Selena inspira fundo. — É mais do que eu esperava — responde, sincera. — Obrigada. Adam faz um leve aceno de cabeça, como se aquele agradecimento o deixasse sem resposta. — Vamos. Está esfriando. Selena se levanta, o corpo cansado, a mente desperta. O acampamento fica a poucos quilômetros do acidente. O solo é irregular, instável, mas tudo está em ordem: barracas alinhadas, equipamentos organizados, rádios ativos. Não é abrigo. É operação. Adam caminha ao lado dela. — Vou deixá-la com um recruta — diz. — Ainda temos trabalho no local. Faz um sinal. Um jovem se aproxima, rígido demais para esconder o nervosismo. — Recruta Elias. Ela fica sob sua responsabilidade. — Sim, senhor. Adam se volta para Selena. — Retorno mais tarde. — Obrigada, comandante. Ele se afasta. — Posso mostrar onde a senhorita ficará — diz Elias. No caminho, passam pela área de alimentação improvisada. Poucos mantimentos. Panelas prontas, mas ninguém ali para cuidar disso. Selena para. — Posso ajudar? O alívio dele é imediato. Ela organiza, corta, prepara. Movimentos rápidos, precisos. Elias cuida do fogo. — Já fez isso antes? — ele pergunta. — Muitas vezes. Quando termina, se afasta sem chamar atenção. Elias a conduz até uma barraca simples, afastada do fluxo. — Qualquer coisa, estarei ali. Selena entra e fecha o zíper. O silêncio não pesa. Ela se deita. O chão é duro, a lona balança. Ainda assim, é seu espaço. Leva a mão ao peito. Um calor suave se espalha. — Você atravessou o limite — murmura uma voz dentro dela. Selena prende o ar. — Pandora… — Este é um campo de transição — a voz responde — Assim como você. Descanse. O calor cessa. Selena adormece. E, mesmo com o ruído distante do trabalho, dorme sem medo.Selena deixou escapar um pequeno sorriso, mais pela ironia da situação do que por alegria.— Paulo, muitas coisas eu já consigo entender agora — disse com calma. — Mas ainda falta informação para que tudo fique realmente claro.Paulo balançou a cabeça devagar, demonstrando certo pesar.— Infelizmente não posso ajudar muito mais. Como eu disse… ficamos sem sinal por muito tempo.Selena apoiou levemente os cotovelos sobre a mesa, pensando por um instante antes de continuar.— Me diga uma coisa. Eu descobri que desbloqueei todos os caminhos… mas preciso ativar a chave do sistema. Você sabe como faço isso?Paulo ergueu os olhos para ela e, por um instante, sua expressão mudou completamente. Uma surpresa genuína surgiu em seu rosto.— Verdade? — perguntou, impressionado. — Eu não esperava por isso…Selena assentiu.— Sim… mas ainda não sei o que fazer com essa informação. Então… e a chave?Paulo passou a mão pelo rosto, pensativo.— Isso eu realmente não sei — admitiu. — Apenas quem possui
Selena chegou ao encontro com Paulo mais calma do que imaginava que estaria. Durante o caminho, sua mente havia organizado boa parte do que acontecera no dia anterior. A confusão ainda existia, mas já não era um caos. Agora restavam perguntas — poucas, porém importantes. E, se alguém poderia ajudá-la a respondê-las, talvez fosse ele.Paulo a viu assim que ela entrou e acenou com um sorriso tranquilo, daqueles que pareciam sempre carregar um pouco de compreensão silenciosa. Selena se aproximou devagar. Quando se sentou à mesa, observou por um instante o rosto bondoso dele, tentando medir o quanto daquele homem ainda era apenas o Paulo que ela conhecia… e o quanto fazia parte de algo maior.— Como está? — ele perguntou com simpatia.Selena mexeu lentamente o café que acabara de ser servido. O som da colher tocando a xícara era suave, mas dentro dela os pensamentos se moviam com muito mais força. Depois de alguns segundos, levantou o olhar e o encarou com firmeza.— Paulo… me diga. Qual
Pela primeira vez, a armadura de Selena rachou. O controle que ela sustentou com tanto esforço desapareceu, e seus olhos começaram a arder. Antes que pudesse evitar, uma lágrima solitária escapou e correu pelo seu rosto. Ela a enxugou rapidamente, num gesto brusco, mas o mundo ao seu redor pareceu girar. Uma tontura forte a atingiu, obrigando-a a se segurar no encosto da cadeira para não cair.Respirando fundo, ela encarou Souza e Irene com um olhar vazio. — Preciso sair — disse ela, a voz falhando levemente. — Continuem a conversa de vocês.Sem esperar por uma resposta ou pelos protestos do pai, Selena saiu do escritório. Suas pernas pareciam pesadas; ela precisou se apoiar nos móveis do corredor até alcançar o quarto. Assim que fechou a porta atrás de si, encostou a mão no rosto, sentindo o coração disparado. — O que está acontecendo comigo? — sussurrou para a penumbra.O silêncio ali dentro era diferente. Não era o silêncio pesado do escritório, mas algo leve, quase artificial. De
O peso do dia finalmente pareceu atingir Selena. Seus ombros cederam levemente e, mudando a expressão de desafio para uma exaustão profunda, ela se sentou.— Souza, vamos deixar esse papo furado de lado — disse ela, a voz mais baixa, mas carregada de autoridade. — Responda-me uma coisa. Vamos esclarecer tudo hoje. Se você responder às minhas perguntas com honestidade, eu prometo te ouvir.Os olhos de Souza brilharam com uma centelha de má intenção. Ele se inclinou para frente, vendo ali uma oportunidade. — Jura? Vai realmente me ouvir, Selena?— Sim. Mas eu saberei se estiver mentindo — avisou ela, desarmada pela própria fadiga, mas com o olhar atento como o de um falcão.Souza ajeitou-se na cadeira, sentindo que tinha o controle novamente. — Certo. Diga... o que deseja saber?Selena respirou fundo, lançando a pergunta que queimava em seu peito há anos: — Por que você se casou com a minha mãe se já tinha a Irene? Ela engravidou na mesma época que a minha mãe, não estou certa?O silênc
O clima no escritório tornou-se sufocante após as últimas palavras de Selena. A provocação dela pairava no ar como um desafio invisível, e foi Alana quem perdeu o controle primeiro. Endireitando-se na cadeira, ela deixou transparecer uma irritação que já não conseguia mais mascarar.— Isso é ridículo! — disparou Alana, a voz subindo um tom. — Meu casamento não tem nada a ver com os negócios do meu pai.Selena voltou o olhar para a meia-irmã com uma calma que beirava o insulto. Ela a observou por longos segundos, como se estivesse dissecando cada reação nervosa da outra.— Não? — respondeu Selena, com uma tranquilidade cortante. — Achei que todos aqui estivessem desesperados para salvar a família.Souza limpou a garganta, visivelmente acuado. Seus dedos começaram a batucar de forma rítmica sobre a mesa de mogno, um som seco que denunciava a inquietação que ele tentava, sem sucesso, esconder.— A Alana já tem a vida dela, os projetos dela — justificou ele depressa, as palavras saindo atr
Souza olhou de escanteio para Irene, um comando silencioso que ela captou no mesmo instante. Irene ajeitou a postura, suavizando a voz para tentar retomar as rédeas da situação.— Selena, podemos manter uma conversa tranquila, sem essas provocações? — pediu Irene, com uma calma estudada. — Afinal, você é filha do Souza. Pode não ter sido criada aqui, mas tem o mesmo sangue.Selena soltou um riso curto, carregado de desprezo.— Irene, eu não tenho nada com essa família. E sangue? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Se for por isso, os pernilongos também são meus parentes. Olha só, o que eu queria descobrir nesta casa, não descobri no lugar certo. Então, já não tenho mais motivo para ficar aqui.A menção de Selena sobre ir embora fez o ar no escritório gelar. Souza percebeu que o tempo estava acabando e resolveu abrir o jogo, a voz soando quase desesperada.— Selena! Eu realmente preciso falar com você. Nossa família... ela depende da sua ajuda — confessou ele, entregando a vulnerabilidade