Mag-log inOs portões da fortaleza haviam sido trancados, as sentinelas ocupavam as muralhas e, pela primeira vez desde o início da batalha, o silêncio parecia mais forte que o aço. Do lado de fora, a neve continuava a cair sobre os pátios devastados, cobrindo pegadas, sangue e cinzas com um manto branco. Dentro do quarto do Supremo, porém, o fogo alto da lareira lançava uma luz dourada sobre tudo o que a guerra não conseguira destruir.Ruby permanecia junto à janela, envolta em um manto leve, observando os flocos perderem-se na escuridão. Não usava armadura. Tampouco Kaelen. Sem o peso do metal, das insígnias e das responsabilidades, os dois pareciam subitamente menores diante da vastidão do que haviam sobrevivido — e mais verdadeiros do que jamais tinham permitido ser.Kaelen fechou a porta atrás de si. O clique da tranca soou baixo, definitivo. Ele a fitou por alguns instantes, como se temesse que qualquer palavra pudesse quebrar aquela paz recém-nascida. Seus olhos azuis, habitualmente firme
O cerco final fechou-se ao cair da tarde, quando as últimas faixas de luz desapareceram atrás das montanhas. O céu, antes pálido, tornou-se cinzento como ferro antigo, e uma neve fina começou a descer sobre as encostas congeladas. Em algum ponto dos vales, lobos uivaram. O som atravessou a escuridão, multiplicou-se entre os paredões e alcançou as torres do Castelo Imperial da Névoa como um aviso de guerra.Nas encostas, as tropas das Sombras avançavam em ondas negras. Seus corpos pareciam feitos de fumaça comprimida, cobertos por armaduras sem brilho, enquanto os renegados marchavam entre elas com machados, lanças e escudos roubados. Muitos conheciam os caminhos secretos da montanha. Sabiam onde a neve escondia precipícios, onde o gelo se partia sob o peso de um cavalo e quais muralhas eram mais antigas.— Eles estão dividindo o ataque em três frentes — disse Ruby, observando o movimento inimigo do lugar mais alto. O vento agitava seus cabelos vermelhos, e seus olhos acompanhavam cad
A paz no Castelo Imperial da Névoa durou menos que a chama de uma vela diante do vento.Ao cair da noite, os sinos de alerta tocaram três vezes, e as portas internas foram fechadas com barras de ferro. Guardas ocuparam as escadarias, as pontes suspensas e até os corredores que levavam às cozinhas. A névoa, antes uma muralha protetora ao redor da fortaleza, rastejava pelas janelas estreitas e se infiltrava pelas frestas, cobrindo o chão de pedra com um manto pálido.Ninguém falava alto. Criados interrompiam conversas quando um soldado passava. Mensageiros eram revistados antes de atravessar qualquer arco. Nos pátios, os cavalos batiam os cascos contra as pedras, inquietos com o cheiro de fumaça e metal que vinha das muralhas.Os planos de defesa haviam vazado. Não apenas uma rota ou uma senha, mas horários, pontos cegos e a posição das patrulhas. Os renegados tinham atacado a Colina da Névoa exatamente durante a troca de guarda, quando os homens cansados deixavam seus postos e os subst
Kaelen não estava apenas retirando ordens antigas; estava, no fundo, reconhecendo a forma como havia usado a própria proteção como um meio para controlar cada movimento dela. O lobo dentro dele pareceu finalmente aquietar-se, tomado por uma paz estranha e profunda, satisfeito não por tê-la conquistado ou dobrado à sua vontade, mas por vê-la permanecer verdadeiramente livre.Ruby caminhou devagar em direção à mesa e colocou a insígnia de prata ao lado da chave de metal escuro, observando os dois símbolos de poder refletirem a luz pálida da manhã.— Você está tentando deixar de ser o homem que me feriu — disse ela, com a voz cortante e desprovida de qualquer ilusão.Kaelen fitou-a diretamente nos olhos, assumindo o peso daquela acusação sem pestanejar:— Estou tentando deixar de repetir o homem que meu pai criou.— Isso não significa que conseguirá — apontou ela.— Eu sei — admitiu ele, sem tentar se defender.— E talvez eu nunca consiga confiar em você — continuou a loba, medindo cada
Kaelen abriu a porta e encontrou-a sentada próxima à janela. A luz pálida da manhã envolvia seu perfil e destacava o vermelho dos cabelos, presos de qualquer maneira na altura da nuca. Sobre a mesa, os documentos antigos estavam organizados em pilhas meticulosas. Havia mapas, registros de matilhas, folhas soltas e uma pequena caixa de madeira que Kaelen nunca tinha visto antes.Ruby não ergueu os olhos imediatamente.— Veio buscar o pergaminho?— Não.— Então veio me dar outra ordem?— Também não.Só então ela o encarou.Kaelen carregava uma bandeja nas mãos. Não havia criados atrás dele, nem guardas esperando no corredor. Apenas ele, vestido com simplicidade incomum, e uma refeição quente protegida por uma tampa de prata.Ruby lançou um olhar para a bandeja e depois para o rosto dele.— O que é isso?— Seu desjejum.— Há servos para fazer isso.— Eu sei.— Então por que trouxe?Kaelen se aproximou apenas o suficiente para deixar a bandeja sobre uma mesa próxima, sem tentar invadir o
Kaelen se ergueu lentamente, afastando a cadeira com um ruído seco. Caminhou até a janela, mas não viu a noite lá fora; viu apenas o reflexo de si mesmo na superfície escura do vidro. Um homem alto, de postura impecável mesmo quando quebrado por dentro. Um rei treinado para esconder o abismo atrás do controle.E, naquele reflexo, também viu o rosto do pai.Gideon.A lembrança do antigo líder trouxe não carinho, mas uma tensão fria. Gideon sempre falara como se o poder justificasse tudo. Sempre tratara alianças como ferramentas, afetos como distração, e vidas como moeda. Se Ruby representava um risco ao regime, Gideon teria preferido enterrá-la antes que sua existência ameaçasse a estrutura do trono.Kaelen nunca quis ser igual ao pai.Mas havia momentos em que havia sido.Essa constatação o fez fechar a mão contra o peitoril da janela até os nós dos dedos arderem.A culpa não era apenas emocional.Era moral.Era histórica.Era de sangue.Ele carregava nas mãos a dor de Ruby porque hav







