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Capítulo 5: O Ritual dos Colares Divinos

Autor: M.R Silva
last update Data de publicação: 2026-07-26 10:47:47

Aos treze anos, Ruby saiu da escola ajustando a touca de lã na cabeça, tentando ignorar os olhares de reprovação que recebia nos corredores. Em vez de ir para casa, avisou Scarlett que atrasaria para o almoço por causa de um trabalho escolar e seguiu direto para a biblioteca da cidade.

Ela passou horas folheando livros antigos, poeirentos, buscando desesperadamente uma resposta para a sua origem e para a cor do seu cabelo. Mas os registros não mostravam nada parecido. Os livros falavam apenas dos lobos acinzentados da matilha do Sul de Solver, dos lobos de pelagem amarelada do Leste, e de outros grupos com fios marrons e pretos. Não havia menção a nenhuma matilha nas redondezas com traços vermelhos. Nem mesmo misturas entre Alfas explicavam aquela cor.

— Eu sou uma aberração... — murmurou Ruby para si mesma no corredor silencioso da biblioteca. — O ódio que a Deusa libertou para se vingar.

Convicta de que não havia solução para a sua existência, ela mudou a pesquisa para as leis de banimento. Depois de ouvir conversas escondidas entre os adultos, Ruby queria entender o motivo de tanto pavor. Foi ali que ela descobriu o terrível destino dos renegados: quem era exilado para o deserto de gelo perdia a proteção, o teto e o respeito da alcateia, sendo abandonado no frio rigoroso para morrer sem direito a socorro ou água.

A garota também entendeu, de uma vez por todas, que não tinha o sangue dos Silver. Na sua mente jovem e machucada, Ruby passou a acreditar que não era um presente divino, mas sim uma maldição enviada pela Deusa Lua para punir a Matilha Solver.

Fechando o último livro pesado sobre as mesas da biblioteca, Ruby engoliu o choro e tomou uma decisão firme. Ela não iria fugir. Fugir não resolveria nada e só colocaria a vida da única pessoa que a amou em perigo. Ela ficaria ali, lado a lado com Scarlett Silver, a mulher que a acolheu e a protegeu desde o primeiro dia.

Para garantir a segurança de Scarlett a todo custo, Ruby fez uma promessa silenciosa a si mesma: jamais desobedecer às regras criadas por Kylen. Usaria aquela maldita touca faça chuva ou faça sol, no frio congelante ou no calor escaldante. Não se importaria mais com os olhares de reprovação do povo da cidade, nem com os cochichos e o deboche dos colegas na escola.

Se carregar aquele peso na cabeça era o preço para evitar que Scarlett fosse arrastada para o deserto de gelo, Ruby pagaria sem hesitar.

Aos quinze anos, chegou o dia do ritual. O evento aconteceu no Templo do Luar, um santuário sagrado ao ar livre, cercado por colunas de pedra antiga no ponto mais alto da matilha.

O local estava lotado. Os líderes e anciões, incluindo Gideon e Kiara, líderes Supremos de todas as quatro regiões (Leste, Sul, Norte e Oeste) transforma a Matilha Solver em um império de lobos, tornando o herdeiro deles a figura mais poderosa, respeitada e cobiçada de todo o território. Cercavam o templo com postura imponente. Os jovens herdeiros, como o filho de Gideon, o Kaelen Solver ( o jovem Alfa cujo poder os quatro domínios temiam e respeitavam).” Não estavam presentes; a tradição proibia a presença dos rapazes para que a aura deles não interferisse na bênção dos colares.

Famílias orgulhosas vestiam suas melhores roupas. As jovens lobas albinas estavam impecáveis. Scarlett fez questão de costurar um vestido lindo para Ruby e uma touca elegante para cobrir seus cabelos. Ainda assim, as pessoas ao redor olhavam com estranhamento e cochichavam, achando uma falta de respeito a garota cobrir a cabeça diante da divindade. Mas Ruby não podia tirar o tecido; Kylen estava lá, e ela sabia que expor os fios vermelhos seria a ruína de Scarlett.

A iluminação da lua cheia anunciou a chegada da Deusa Lua e de seus guardiões.

As garotas se alinharam em fila. Uma a uma, a Deusa Lua entregava o colar sagrado. Assim que colocavam a jóia no pescoço, o acessório brilhava em uma luz intensa, e a alma da loba interior de cada jovem se manifestava, fazendo com que a multidão as ovacionado com gritos e palmas.

Chegou a vez de Ruby.

A Deusa Lua parou em frente à garota. Estendeu o colar e o entregou nas mãos de Ruby. Com as mãos trêmulas, a menina colocou o cordão no pescoço.

Nada aconteceu.

Não houve luz. Não houve brilho. E a sua loba interior não apareceu.

O silêncio tomou conta do templo. A Deusa Lua não disse uma palavra; apenas fixou seus olhos profundos em Ruby, deu as costas e foi embora acompanhada pelos anciões.

As lágrimas de Ruby caíram no chão. A vontade da garota era gritar e questionar a Deusa, mas ela não tinha voz para isso. Sabia que, se arranjasse confusão ali, seria decapitada ou exilada na hora, colocando Scarlett em perigo. Sem dizer nada, Ruby retirou o colar apagado do pescoço e o guardou no bolso do vestido.

Enquanto as outras meninas eram abraçadas e celebradas por suas famílias, Ruby desceu os degraus do templo de cabeça baixa. Kylen já tinha ido embora, incapaz de encarar a vergonha de ver a família afundar ainda mais diante de todos da matilha.

Os cochichos maldosos começaram a tomar conta da multidão. Vendo o desespero nos olhos da filha, Scarlett a abraçou forte e disse bem alto para quem quisesse ouvir:

— Ela só estava nervosa... foi só o nervosismo que impediu a loba de aparecer.

Sem dar espaço para mais comentários, Scarlett segurou a mão de Ruby e as duas saíram apressadas do Templo do Luar, deixando para trás os olhares de desprezo e a certeza de que a vida de Ruby na matilha nunca mais seria a mesma.

​Caminhando encolhida ao lado da mãe, Ruby não resistiu e olhou para trás por sobre o ombro uma última vez.

​Lá no alto do altar, viu as garotas albinas sorrindo orgulhosas, abraçadas às suas famílias. As joias no pescoço delas brilhavam com cada vez mais intensidade, soltando faíscas de luz sob o luar. Algumas das meninas perceberam o olhar de Ruby e responderam com risinhos debochados e olhares de absoluto desdém.

Aquele desprezo silencioso encheu o coração de Ruby de uma tristeza profunda. Com o colar apagado escondido no bolso do vestido, ela virou o rosto para a frente, apertou a mão de Scarlett e apertou o passo na noite fria, sabendo que a sua verdadeira batalha estava apenas começando.

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