MasukAos treze anos, Ruby saiu da escola ajustando a touca de lã na cabeça, tentando ignorar os olhares de reprovação que recebia nos corredores. Em vez de ir para casa, avisou Scarlett que atrasaria para o almoço por causa de um trabalho escolar e seguiu direto para a biblioteca da cidade.
Ela passou horas folheando livros antigos, poeirentos, buscando desesperadamente uma resposta para a sua origem e para a cor do seu cabelo. Mas os registros não mostravam nada parecido. Os livros falavam apenas dos lobos acinzentados da matilha do Sul de Solver, dos lobos de pelagem amarelada do Leste, e de outros grupos com fios marrons e pretos. Não havia menção a nenhuma matilha nas redondezas com traços vermelhos. Nem mesmo misturas entre Alfas explicavam aquela cor. — Eu sou uma aberração... — murmurou Ruby para si mesma no corredor silencioso da biblioteca. — O ódio que a Deusa libertou para se vingar. Convicta de que não havia solução para a sua existência, ela mudou a pesquisa para as leis de banimento. Depois de ouvir conversas escondidas entre os adultos, Ruby queria entender o motivo de tanto pavor. Foi ali que ela descobriu o terrível destino dos renegados: quem era exilado para o deserto de gelo perdia a proteção, o teto e o respeito da alcateia, sendo abandonado no frio rigoroso para morrer sem direito a socorro ou água. A garota também entendeu, de uma vez por todas, que não tinha o sangue dos Silver. Na sua mente jovem e machucada, Ruby passou a acreditar que não era um presente divino, mas sim uma maldição enviada pela Deusa Lua para punir a Matilha Solver. Fechando o último livro pesado sobre as mesas da biblioteca, Ruby engoliu o choro e tomou uma decisão firme. Ela não iria fugir. Fugir não resolveria nada e só colocaria a vida da única pessoa que a amou em perigo. Ela ficaria ali, lado a lado com Scarlett Silver, a mulher que a acolheu e a protegeu desde o primeiro dia. Para garantir a segurança de Scarlett a todo custo, Ruby fez uma promessa silenciosa a si mesma: jamais desobedecer às regras criadas por Kylen. Usaria aquela maldita touca faça chuva ou faça sol, no frio congelante ou no calor escaldante. Não se importaria mais com os olhares de reprovação do povo da cidade, nem com os cochichos e o deboche dos colegas na escola. Se carregar aquele peso na cabeça era o preço para evitar que Scarlett fosse arrastada para o deserto de gelo, Ruby pagaria sem hesitar. Aos quinze anos, chegou o dia do ritual. O evento aconteceu no Templo do Luar, um santuário sagrado ao ar livre, cercado por colunas de pedra antiga no ponto mais alto da matilha. O local estava lotado. Os líderes e anciões, incluindo Gideon e Kiara, líderes Supremos de todas as quatro regiões (Leste, Sul, Norte e Oeste) transforma a Matilha Solver em um império de lobos, tornando o herdeiro deles a figura mais poderosa, respeitada e cobiçada de todo o território. Cercavam o templo com postura imponente. Os jovens herdeiros, como o filho de Gideon, o Kaelen Solver ( o jovem Alfa cujo poder os quatro domínios temiam e respeitavam).” Não estavam presentes; a tradição proibia a presença dos rapazes para que a aura deles não interferisse na bênção dos colares. Famílias orgulhosas vestiam suas melhores roupas. As jovens lobas albinas estavam impecáveis. Scarlett fez questão de costurar um vestido lindo para Ruby e uma touca elegante para cobrir seus cabelos. Ainda assim, as pessoas ao redor olhavam com estranhamento e cochichavam, achando uma falta de respeito a garota cobrir a cabeça diante da divindade. Mas Ruby não podia tirar o tecido; Kylen estava lá, e ela sabia que expor os fios vermelhos seria a ruína de Scarlett. A iluminação da lua cheia anunciou a chegada da Deusa Lua e de seus guardiões. As garotas se alinharam em fila. Uma a uma, a Deusa Lua entregava o colar sagrado. Assim que colocavam a jóia no pescoço, o acessório brilhava em uma luz intensa, e a alma da loba interior de cada jovem se manifestava, fazendo com que a multidão as ovacionado com gritos e palmas. Chegou a vez de Ruby. A Deusa Lua parou em frente à garota. Estendeu o colar e o entregou nas mãos de Ruby. Com as mãos trêmulas, a menina colocou o cordão no pescoço. Nada aconteceu. Não houve luz. Não houve brilho. E a sua loba interior não apareceu. O silêncio tomou conta do templo. A Deusa Lua não disse uma palavra; apenas fixou seus olhos profundos em Ruby, deu as costas e foi embora acompanhada pelos anciões. As lágrimas de Ruby caíram no chão. A vontade da garota era gritar e questionar a Deusa, mas ela não tinha voz para isso. Sabia que, se arranjasse confusão ali, seria decapitada ou exilada na hora, colocando Scarlett em perigo. Sem dizer nada, Ruby retirou o colar apagado do pescoço e o guardou no bolso do vestido. Enquanto as outras meninas eram abraçadas e celebradas por suas famílias, Ruby desceu os degraus do templo de cabeça baixa. Kylen já tinha ido embora, incapaz de encarar a vergonha de ver a família afundar ainda mais diante de todos da matilha. Os cochichos maldosos começaram a tomar conta da multidão. Vendo o desespero nos olhos da filha, Scarlett a abraçou forte e disse bem alto para quem quisesse ouvir: — Ela só estava nervosa... foi só o nervosismo que impediu a loba de aparecer. Sem dar espaço para mais comentários, Scarlett segurou a mão de Ruby e as duas saíram apressadas do Templo do Luar, deixando para trás os olhares de desprezo e a certeza de que a vida de Ruby na matilha nunca mais seria a mesma. Caminhando encolhida ao lado da mãe, Ruby não resistiu e olhou para trás por sobre o ombro uma última vez. Lá no alto do altar, viu as garotas albinas sorrindo orgulhosas, abraçadas às suas famílias. As joias no pescoço delas brilhavam com cada vez mais intensidade, soltando faíscas de luz sob o luar. Algumas das meninas perceberam o olhar de Ruby e responderam com risinhos debochados e olhares de absoluto desdém. Aquele desprezo silencioso encheu o coração de Ruby de uma tristeza profunda. Com o colar apagado escondido no bolso do vestido, ela virou o rosto para a frente, apertou a mão de Scarlett e apertou o passo na noite fria, sabendo que a sua verdadeira batalha estava apenas começando.Antes da primeira luz, quando a alvorada ainda era apenas uma promessa escondida atrás das montanhas, o vale aprendia a respirar em silêncio. O vento descia pelas encostas carregando o gosto das cinzas, e os lobos uivavam para uma lua que parecia conhecer todos os nomes da perda. Naquele tempo, ninguém atravessava as fronteiras sem levar a mão ao punho da espada, ao amuleto da linhagem ou à memória de um morto.Os Lobos Vermelhos e os Lobos Brancos viviam separados não apenas por rios, pedras e trilhas esquecidas, mas pelo medo. Entre eles permaneciam as feridas do massacre que o tempo não conseguira fechar. Cada família guardava uma versão da tragédia; cada criança crescia ouvindo que o outro lado era feito de dentes, traição e sangue. E, sobre tudo, pairava a sombra de Gideon, não como um homem, mas como a forma escura que a culpa assumia quando ninguém ousava pronunciar seu nome.O vale se isolara do mundo, cercado por montanhas antigas e por uma desconfiança ainda mais antiga. As
Ao amanhecer, a comitiva chegou ao território neutro, onde as pedras claras da praça se estendiam entre as fronteiras dos povos. Ruby caminhava ao lado de Kaelen; Rubélia vinha logo atrás, com os registros protegidos contra o peito. O guerreiro da cicatriz, Nara, Kiara, Peterson e Garth formavam o círculo de testemunhas que atravessaria com eles a última porta do passado. Ao redor, sobreviventes, anciãos e representantes das grandes matilhas aguardavam em silêncio. Não era uma recepção. Era um julgamento.No centro da praça, o conselho ergueu o documento antigo. O pergaminho afirmava que uma criança nascida de duas linhagens permitiria a tutela temporária do vale, até que as matilhas julgassem seguro devolvê-lo aos seus habitantes. A cláusula, lida em voz grave pelo porta-voz do Norte, transformava o vínculo de Ruby e Kaelen em pretexto para uma nova ocupação. O vale seria colocado sob supervisão coletiva, suas fronteiras abertas às tropas e suas decisões entregues a mãos estrangeiras
Alguns dias haviam passado desde a alvorada no vale, mas ninguém se permitia chamar aquilo de paz. A palavra parecia grande demais para as casas ainda cobertas de poeira, para as vigas que os carpinteiros substituíam sob o olhar atento dos jovens, ou para os curadores que continuavam tratando Ruby dos efeitos do ritual. Ela se cansava com facilidade, sentia o corpo atravessado por ondas de calor e silêncio, e mesmo assim recusava repousar enquanto as trilhas permanecessem sob vigilância.Nas montanhas, os observadores das grandes matilhas ainda se escondiam entre as pedras e os pinheiros. Não atacavam. Não partiam. Apenas esperavam, como se o futuro do vale pudesse ser medido pela quantidade de medo que ainda restava em seus habitantes.Rubélia convocou a assembleia na praça ancestral ao cair da tarde. Os Lobos Vermelhos chegaram sem gritos de celebração, trazendo bancos, lanternas e a memória de quem não podia mais ocupar lugar algum. A anciã ergueu o bastão diante da pedra central:
O silêncio ainda reinava na câmara sagrada quando Kaelen e Ruby atravessaram o limiar e saíram juntos à luz do sol. Ele trazia a mão firmemente entrelaçada à dela; Ruby mantinha o ventre protegido contra o peito do rei, como se o próprio corpo pudesse formar um escudo entre a criança e tudo o que ainda ameaçava nascer daquela manhã.À frente do santuário, a aldeia inteira aguardava. Mães seguravam os filhos pelas mãos. Anciãos permaneciam junto às pedras antigas. Curadores, jovens e guerreiros observavam o casal com a cautela de quem contempla uma ponte recém-construída sobre um abismo. O Teste das Cinzas reconhecera a legitimidade do vínculo, mas não apagara os crimes do passado, nem transformara Kaelen em soberano dos Lobos Vermelhos.A alvorada atravessava a névoa em fios dourados. Tocava os estandartes vermelhos, fazia brilhar o símbolo prateado das duas linhagens gravado na pedra ancestral e revelava, pouco a pouco, os rostos que a noite havia escondido. A chama da vingança não d
Kaelen já havia atravessado as passagens estreitas e alcançado o santuário quando as últimas labaredas rubras desapareceram. Chegou no instante exato em que o ritual se encerrou: as cinzas se aquietaram, transformadas em brasas serenas, e o primeiro raio de sol tocou a pedra ancestral, revelando nela o símbolo entrelaçado das duas linhagens. Sobre a marca antiga, uma pequena linha de luz prateada acendeu-se como uma respiração.A comitiva reduzida permaneceu do lado de fora, sem estandartes de guerra. Kiara acompanhava os curadores, que carregavam água, ervas e tecidos limpos. Garth mantinha a guarda de elite afastada, imóvel sob as árvores. Peterson controlava as trilhas e impedia que representantes das grandes matilhas interrompessem aquele momento. Kaelen entrou sozinho, sem coroa, armas ou símbolos de autoridade. Entrou apenas como homem, companheiro e pai.Ruby estava de pé diante da pedra, embora o cansaço lhe tornasse os ombros pesados. A gravidez já havia transformado seu corp
As cinzas estremeceram antes que qualquer voz pudesse atravessar o santuário. Suspensas entre Ruby e Kaelen, elas se abriram como um enxame de estrelas mortas, e as brasas antigas sob a pedra ancestral despertaram uma a uma.Labaredas rubras subiram ao redor dos dois, contornando seus corpos, envolvendo a pedra, sem tocar a pele. O fogo parecia vivo. Antigo. Atento. Não havia maldade em sua fome; havia propósito. Ele não procurava carne para consumir, mas intenções para revelar.O medo percorreu a comunidade. O guerreiro da cicatriz apertou a arma, e os rebeldes recuaram até as paredes do santuário. Do lado de fora, as grandes matilhas se agitaram, vozes atravessando as entradas estreitas enquanto seus representantes tentavam interpretar o ritual antes que ele terminasse, como se cada centelha pudesse ser transformada em decreto, ameaça ou argumento político.Rubélia ergueu o bastão, embora sua mão tremesse:— A chama branca e a chama rubra já reconheceram a legitimidade do vínculo. M







