INICIAR SESIÓNCaio Draven não gostava de receber notícias ruins, mas nos últimos dias parecia que o mundo inteiro tinha decidido entregá-las em sua mesa como se fossem relatórios comuns.
O escritório dele ficava no último andar da torre Draven, cercado por vidros escuros que refletiam a cidade iluminada lá embaixo e impediam que qualquer um visse o que acontecia do lado de dentro. Era um lugar silencioso demais, elegante demais, frio demais para parecer humano, com estantes de madeira negra, uma mesa larga no centro e o cheiro forte de couro, chuva e café sem açúcar impregnado no ar. Caio estava parado diante da janela, com as mãos nos bolsos da calça social, olhando para as luzes distantes como se pudesse enxergar através delas tudo que tentavam esconder dele. Atrás, André permanecia em silêncio havia tempo suficiente para qualquer outro homem se sentir desconfortável, mas seu Beta não era qualquer homem.
André sabia esperar.
— Fale logo — Caio ordenou, sem se virar.
André respirou fundo.
— O informante dentro da mansão Vasconcelos confirmou. Leonardo finalmente terá um filho.
O silêncio que veio depois pareceu deixar o clima no escritório ainda mais pesado.
Caio virou apenas metade do rosto, e a luz da cidade tocou seus olhos de um jeito estranho, revelando um brilho quase animal, sanguinário, mas André fingiu não perceber. Fingir não perceber certas coisas era uma habilidade necessária para qualquer um que trabalhasse tão perto dele, principalmente quando a Fera da Lua Negra se mexia por baixo da pele do Alfa como uma sombra faminta.
— Helena engravidou?
— Não.
Caio ficou imóvel.
— Então quem?
— Isadora, a amante dele. Pelo que o informante ouviu, ela também era amiga próxima da esposa.
Uma risada baixa escapou de Caio, sem humor nenhum. Aquela família sempre conseguia descer um pouco mais, não era? Os Vasconcelos tinham o dom nojento de transformar crueldade em tradição, traição em estratégia e covardia em bom senso. Leonardo nunca despertou como lobo de verdade, nunca sustentou o próprio sangue, nunca passou de um animal incompleto tentando imitar poder com dinheiro, mas ainda assim se achava no direito de destruir pessoas como se fossem móveis velhos que podiam ser jogados fora quando perdiam utilidade.
— E Helena?
— Assinou o divórcio hoje.
Caio finalmente se virou por inteiro.
— Hoje?
— Há poucas horas, na verdade. O informante disse que ela saiu do prédio sozinha, sem escândalo, depois os cartões dela foram cancelados.
A mandíbula de Caio endureceu.
— Leonardo fez isso?
— Sim, e tem mais.
André deu alguns passos até a mesa e colocou uma pasta fina sobre o vidro escuro. Caio não a abriu de imediato, apenas olhou para ela como se já soubesse que ali dentro havia algo capaz de mudar o rumo daquela noite. Talvez porque a maldição dentro dele andasse inquieta demais desde a tarde, arranhando seus ossos, empurrando sombras para os cantos do escritório, deixando sua paciência menor do que o normal. A próxima lua cheia estava perto, o conselho estava impaciente. E quando essas duas coisas aconteciam ao mesmo tempo, nada de bom costumava nascer disso.
— Leonardo penhorou uma propriedade no nome dela — André continuou. — A casa do pai de Helena, pretende deixar o banco tomar o imóvel.
Caio abriu a pasta.
— Onde fica essa casa?
— Rua das Acácias. Área antiga, perto da mata norte, uma construção simples, isolada, quase abandonada. O registro original está no nome da família Duarte.
A mão de Caio parou sobre a página.
Por um instante, André viu algo raro no rosto dele. Não medo, porque Caio Draven não parecia feito de uma matéria que permitisse sentir medo como homens comuns. Mas reconhecimento, uma atenção súbita, fria, perigosa, como se alguma peça antiga finalmente tivesse se encaixado no lugar certo e revelado a imagem que todos procuravam havia tempo demais.
— Repita o endereço.
André repetiu.
Caio fechou os olhos por um segundo, e as sombras do escritório pareceram respirar junto com ele, se movendo pelos cantos de uma forma que fez os pelos do corpo de André se arrepiarem de medo, mas ele manteve a postura. A Rua das Acácias, a mata norte... A velha casa construída sobre raízes enterradas, escondida do mundo humano e esquecida por quase todos os lobos. A casa do pai de Helena Duarte não era uma casa comum, era um túmulo, um altar, uma mentira coberta de poeira e madeira velha. Debaixo dela estava a Raiz Primordial, o tronco morto da árvore sagrada que a última Luna Primordial tocou antes de ser assassinada cem anos atrás.
— Alfa? — André chamou, baixo.
Caio abriu os olhos.
— O Conselho exige uma candidata antes da próxima lua cheia.
— Sim. Se o senhor não apresentar uma mulher capaz de conter a Fera, eles vão usar isso para pedir sua deposição.
— Eles não vão pedir nada. Eles já decidiram. Só estão esperando uma desculpa perfeita para parecerem justos.
— A casa pode ser essa desculpa também, se eles descobrirem.
Caio fechou a pasta com calma demais.
A profecia do xamã voltou à sua mente como uma lâmina antiga sendo retirada da bainha. A Raiz despertaria quando a verdadeira Luna se aproximasse. Uma folha nasceria do tronco morto, e a fera marcada pela noite encontraria sua dona antes de devorar o próprio Alfa. Era ridículo, impossível, na verdade, mas era a única esperança que ele tinha antes de ser enjaulado pelo resto de uma vida que já durava mais do que deveria.
— Prepare o carro.
André não pareceu surpreso.
— Vai até a mansão Vasconcelos?
— Vou buscar Helena Duarte.
— Para protegê-la?
Caio pegou o sobretudo escuro jogado sobre a poltrona.
— Para oferecer um contrato.
— ALFA!O grito de Kaia veio do lado de fora.Caio se levantou imediatamente e colocou Helena atrás de si. Um segundo depois, André apareceu na entrada do porão avisando que tinham companhia. Helena guardou a caixa e acompanhou os dois até a parte externa da casa, onde encontrou Kaia diante de sete homens desconhecidos, todos usavam roupas escuras e pareciam magros e mal cuidados.Errantes.Renegados.E no meio deles estava Mirela.A antiga guerreira parecia completamente diferente da mulher arrogante que Helena conheceu. Estava mais magra, os cabelos desgrenhados e a cicatriz no rosto parecia ainda mais evidente. Quando viu Helena, abriu um sorriso que não tinha absolutamente nada de amigável.— Finalmente encontrei você.Caio avançou um passo.— Você foi banida, Mirela.— E você acha que eu me importo com isso agora? — ela respondeu, rindo. — Passei minha vida inteira servindo aos Draven. Fiz tudo que mandaram, suportei aquela desgraçada de humana ocupando o lugar que deveria ser me
A casa continuava praticamente igual desde a última visita, exceto pelas pequenas folhas verdes que agora brotavam do tronco, antes morto, no porão. Helena sentiu a marca esquentar assim que entrou, mas ignorou o chamado da Raiz e caminhou diretamente para a escada. Caio a acompanhou, enquanto André e Kaia verificavam os arredores antes de entrarem. A pedra estava no mesmo lugar, escondida sob um dos degraus. Helena se ajoelhou com algum cuidado por causa do ombro ainda dolorido e conseguiu removê-la depois de algumas tentativas, revelando uma caixa de metal escurecido que parecia estar ali havia muitos anos.— Meu Deus... — ela murmurou, puxando a caixa.Dentro havia documentos amarelados, um pingente de prata com símbolos que não reconheceu, algumas folhas cobertas por nomes escritos numa língua estranha e duas cartas dobradas cuidadosamente. Helena reconheceu a letra da mãe imediatamente, era a mesma caligrafia arredondada dos bilhetes que encontrava na geladeira quando chegava da
Helena continuava olhando para o prontuário, tentando entender o que aquele símbolo estava fazendo nos documentos de sua mãe. O círculo cortado ao meio era exatamente igual à marca que os Errantes haviam deixado sob sua janela, a mesma encontrada ao lado do corpo do sentinela assassinado na fronteira Draven. Aquilo não podia ser coincidência, não depois de tudo que tinha acontecido desde que Caio apareceu em sua vida. Ela passou os dedos pela data mais uma vez, sentindo um aperto desconfortável no peito enquanto André mexia no computador, procurando alguma coisa nos arquivos que tinha conseguido recuperar da clínica.— Minha mãe estava sendo perseguida? — perguntou, finalmente levantando os olhos. — É isso que você está tentando me dizer?André respirou fundo.— É uma possibilidade, Helena. Mas encontrei alguém que talvez possa esclarecer algumas coisas.Ele pegou o celular sobre a mesa e procurou um número, colocando a ligação no viva-voz enquanto Helena se aproximava. Caio permanece
A comemoração continuou depois da cerimônia, mas Helena mal conseguiu respirar durante a primeira hora. Pessoas se aproximavam para cumprimentá-la, crianças queriam olhar o diadema de perto e Sena aparecia a cada dez minutos chorando outra vez porque alguém tinha acabado de parabenizá-la pela nova posição.Foi só quando as fogueiras já estavam mais baixas que Caio segurou a mão de Helena.— Vem comigo.Ela estreitou os olhos.— Para onde?— Você faz perguntas demais.— Vladmir falou a mesma coisa, péssima comparação.Caio fez uma careta.— Vem logo.Ele a levou para uma parte mais afastada do jardim, perto de uma árvore onde ainda conseguiam ouvir a música e as conversas, mas ninguém estava perto o suficiente para escutar o que diziam. Helena achou estranho quando percebeu que Caio estava nervoso.Nervoso de verdade.— O que aconteceu?— Nada.— Você está com cara de quem vai me contar que existe outro Conselho secreto dentro do Conselho.— Não existe.— Você demorou para responder.—
Contar para os outros foi quase pior.André ficou em silêncio por três segundos antes de abrir um sorriso enorme e abraçar Caio, que reclamou imediatamente. Sena começou a chorar antes mesmo de Helena terminar a frase e perguntou se podia abraçá-la. Kaia olhou para a barriga, depois para Helena, depois para Caio e anunciou com naturalidade que os treinos continuariam, apenas adaptados a nova condição da Luna.— Ela não vai lutar grávida — Caio respondeu.Kaia cruzou os braços.— Vai sim, precisa aprender a se proteger.— Não vai.— Alfa, gravidez não transforma as pernas dela em vidro e nem deixa ela doente.— Kaia.— Caio — Helena repetiu no mesmo tom.André virou o rosto para esconder o riso.Caio olhou para todos.— Ninguém aqui leva minha posição a sério.— Finalmente percebeu — Kaia respondeu.A leveza durou pouco.Bento explicou que a gravidez não poderia sair daquela sala, se dois filhos carregassem a linhagem Primordial de Helena e o sangue de Caio unido pelo vínculo de mão du
Bento voltou menos de vinte minutos depois acompanhado de uma mulher que Helena já tinha visto algumas vezes na enfermaria, uma loba mais velha chamada Maura, de cabelos grisalhos presos num coque e mãos pequenas que pareciam delicadas demais para alguém acostumada a fechar feridas de lobos. Helena continuava sentada na cama exatamente como ele a deixou, com uma das mãos apoiada sobre a barriga sem nem perceber que fazia aquilo, enquanto tentava entender que diabos significava ouvir três pulsos lunares dentro de uma pessoa. Caio tinha aparecido cinco minutos antes, ainda com alguns ferimentos sendo tratados, e só não arrancou a porta do quarto quando Bento proibiu que ele entrasse até terminar o segundo exame.— Se vocês não falarem alguma coisa agora, eu juro que vou começar a imaginar doenças muito piores do que qualquer coisa que vocês possam dizer.Maura lançou um olhar repreensivo para Bento.— Você falou dos pulsos antes de confirmar?— Eu me surpreendi.— Você tem mais de sesse







