Compartilhar

Capítulo 5

Autor: Evy
last update Data de publicação: 2026-06-23 00:23:01

Caio Draven não gostava de receber notícias ruins, mas nos últimos dias parecia que o mundo inteiro tinha decidido entregá-las em sua mesa como se fossem relatórios comuns.

O escritório dele ficava no último andar da torre Draven, cercado por vidros escuros que refletiam a cidade iluminada lá embaixo e impediam que qualquer um visse o que acontecia do lado de dentro. Era um lugar silencioso demais, elegante demais, frio demais para parecer humano, com estantes de madeira negra, uma mesa larga no centro e o cheiro forte de couro, chuva e café sem açúcar impregnado no ar. Caio estava parado diante da janela, com as mãos nos bolsos da calça social, olhando para as luzes distantes como se pudesse enxergar através delas tudo que tentavam esconder dele. Atrás, André permanecia em silêncio havia tempo suficiente para qualquer outro homem se sentir desconfortável, mas seu Beta não era qualquer homem.

André sabia esperar.

— Fale logo — Caio ordenou, sem se virar.

André respirou fundo.

— O informante dentro da mansão Vasconcelos confirmou. Leonardo finalmente terá um filho.

O silêncio que veio depois pareceu deixar o clima no escritório ainda mais pesado.

Caio virou apenas metade do rosto, e a luz da cidade tocou seus olhos de um jeito estranho, revelando um brilho quase animal, sanguinário, mas André fingiu não perceber. Fingir não perceber certas coisas era uma habilidade necessária para qualquer um que trabalhasse tão perto dele, principalmente quando a Fera da Lua Negra se mexia por baixo da pele do Alfa como uma sombra faminta.

— Helena engravidou?

— Não.

Caio ficou imóvel.

— Então quem?

— Isadora, a amante dele. Pelo que o informante ouviu, ela também era amiga próxima da esposa.

Uma risada baixa escapou de Caio, sem humor nenhum. Aquela família sempre conseguia descer um pouco mais, não era? Os Vasconcelos tinham o dom nojento de transformar crueldade em tradição, traição em estratégia e covardia em bom senso. Leonardo nunca despertou como lobo de verdade, nunca sustentou o próprio sangue, nunca passou de um animal incompleto tentando imitar poder com dinheiro, mas ainda assim se achava no direito de destruir pessoas como se fossem móveis velhos que podiam ser jogados fora quando perdiam utilidade.

— E Helena?

— Assinou o divórcio hoje.

Caio finalmente se virou por inteiro.

— Hoje?

— Há poucas horas, na verdade. O informante disse que ela saiu do prédio sozinha, sem escândalo, depois os cartões dela foram cancelados.

A mandíbula de Caio endureceu.

— Leonardo fez isso?

— Sim, e tem mais.

André deu alguns passos até a mesa e colocou uma pasta fina sobre o vidro escuro. Caio não a abriu de imediato, apenas olhou para ela como se já soubesse que ali dentro havia algo capaz de mudar o rumo daquela noite. Talvez porque a maldição dentro dele andasse inquieta demais desde a tarde, arranhando seus ossos, empurrando sombras para os cantos do escritório, deixando sua paciência menor do que o normal. A próxima lua cheia estava perto, o conselho estava impaciente. E quando essas duas coisas aconteciam ao mesmo tempo, nada de bom costumava nascer disso.

— Leonardo penhorou uma propriedade no nome dela — André continuou. — A casa do pai de Helena, pretende deixar o banco tomar o imóvel.

Caio abriu a pasta.

— Onde fica essa casa?

— Rua das Acácias. Área antiga, perto da mata norte, uma construção simples, isolada, quase abandonada. O registro original está no nome da família Duarte.

A mão de Caio parou sobre a página.

Por um instante, André viu algo raro no rosto dele. Não medo, porque Caio Draven não parecia feito de uma matéria que permitisse sentir medo como homens comuns. Mas reconhecimento, uma atenção súbita, fria, perigosa, como se alguma peça antiga finalmente tivesse se encaixado no lugar certo e revelado a imagem que todos procuravam havia tempo demais.

— Repita o endereço.

André repetiu.

Caio fechou os olhos por um segundo, e as sombras do escritório pareceram respirar junto com ele, se movendo pelos cantos de uma forma que fez os pelos do corpo de André se arrepiarem de medo, mas ele manteve a postura. A Rua das Acácias, a mata norte... A velha casa construída sobre raízes enterradas, escondida do mundo humano e esquecida por quase todos os lobos. A casa do pai de Helena Duarte não era uma casa comum, era um túmulo, um altar, uma mentira coberta de poeira e madeira velha. Debaixo dela estava a Raiz Primordial, o tronco morto da árvore sagrada que a última Luna Primordial tocou antes de ser assassinada cem anos atrás.

— Alfa? — André chamou, baixo.

Caio abriu os olhos.

— O Conselho exige uma candidata antes da próxima lua cheia.

— Sim. Se o senhor não apresentar uma mulher capaz de conter a Fera, eles vão usar isso para pedir sua deposição.

— Eles não vão pedir nada. Eles já decidiram. Só estão esperando uma desculpa perfeita para parecerem justos.

— A casa pode ser essa desculpa também, se eles descobrirem.

Caio fechou a pasta com calma demais.

A profecia do xamã voltou à sua mente como uma lâmina antiga sendo retirada da bainha. A Raiz despertaria quando a verdadeira Luna se aproximasse. Uma folha nasceria do tronco morto, e a fera marcada pela noite encontraria sua dona antes de devorar o próprio Alfa. Era ridículo, impossível, na verdade, mas era a única esperança que ele tinha antes de ser enjaulado pelo resto de uma vida que já durava mais do que deveria.

— Prepare o carro.

André não pareceu surpreso.

— Vai até a mansão Vasconcelos?

— Vou buscar Helena Duarte.

— Para protegê-la?

Caio pegou o sobretudo escuro jogado sobre a poltrona.

— Para oferecer um contrato.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 34

    Bento chegou no quarto num segundo e, enquanto exami8nava a marca de Helena e a de Caio, seus lhos ficavam cada vez mas serios. Depois olhou para Caio como se tivesse visto algo impossível.— É um vínculo de mão dupla.André, parado atrás dele, ficou sério.— Isso é comum?Beto balançou a cabeça.— Isso não acontece desde os Alfas Supremos, eu mesmo nunca vi um pessoalmente. Acontece quando os dois tem uma ligação concretizada antes mesmo de sere marfcados, foi a energia dela que fez isso. — Então... O que fazemos agora? — o alfa perguntou, desviando os olhos de Beto para Helena e voltando para Beto de novo. — A marca dela mudou, e agora isso.— Não é algo perigoso. A marca dela mudou por causa da lua cheia, ao menos é o que eu acho. E a sua só mostra que o vinculo de vocês é verdadeiro, é uma conexão de alma, alfa. ***No café da manhã, enquanto todos se reuniam no grande salão, Gregor percebeu que algo não estava certo.Caio estava com o primeiro botão da camisa aberto quando che

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 33

    Os beijos ficaram desesperados. As mãos exploravam com fome: ele apertou a bunda dela e a puxou para a beira do parapeito, abrindo as pernas dela em volta da cintura. Os dedos dele voltaram para entre as coxas, dois invadindo de uma vez, curvando-se para dentro, entrando até o fundo. Helena gemeu alto demais, a cabeça caindo para trás.Ele tirou os dedos, levou à boca, lambeu, com um sorriso puramente malicioso, depois alinhou a cabeça do pau na entrada dela e empurrou.Devagar no começo, porque ela era humana, porque ele era grande e porque mesmo a fera sabia a diferença entre fazer amor e machucar alguém. Helena segurou os ombros dele, soltando um gemido tremulo contra a boca dele enquanto ele abria caminho, centímetro por centímetro, até estar enterrado até o fim.O corpo dela tremeu em volta dele, apertado, quente, pulsando.Caio parou.A respiraç&

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 32

    Quando o jantar terminou, Caio levou Helena ao terraço no terceiro andar.A noite estava fria, a lua quase cheia iluminando as montanhas e as luzes do território brilhando lá embaixo. Helena apoiou os braços no parapeito de vidro enquanto Caio ficou ao lado dela.— Minha mãe estava grávida quando aconteceu o massacre com o qual você sonhou — ele disse de repente.Helena virou.Caio olhava para a floresta.— O cahcina não aconteceu tão perto da nossa alcateia, mas quqando a arvore e a ultima luna primordial morreu... As sombras entraram nela. A voz dele estava calma demais.— Quando eu nasci, já estavam dentro de mim.Helena ficou em silêncio.— Minha mãe me amava — continuou. — Mas tinha medo, meu pai nem tentava esconder. Cresci ouvindo gente me chamar de monstrinho quando achava que eu não entendia.As mãos dele fecharam.— Crianças eram proibidas de brincar comigo. Guerreiros eram colocados perto de mim durante refeições. Meu pai mantinha prata no quarto para proteger a todos.Hel

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 31

    Caio segurou Helena nos braços antes mesmo que ela terminasse de recuperar o fôlego.Ela ainda tremia, sentada na cama, a marca brilhando no pulso enquanto tentava separar o sonho da realidade. O quarto estava escuro, a respiração pesada dele perto de seu rosto e as sombras já começavam a se agitar pelas paredes, respondendo ao medo que crescia dentro do Alfa. Helena agarrou a camisa dele, ainda vendo a mulher de cabelos prateados, a taça e o líquido negro derramando como se estivesse vivo.— Me conta tudo — Caio pediu. — Exatamente como viu.Helena respirou fundo.— Gregor estava lá. Eu vi a taça do rito, aquela que você usa na lua cheia. Tinha alguma coisa preta dentro, Caio... Não parecia vinho, parecia… sei lá, parecia escuridão. E ela falou comigo.— A mulher?Helena assentiu.— Disse que vão envenenar a fera.As sombras atrás de Caio avançaram pelas paredes.— Gregor.— Também acho.— Vou expulsar ele daqui agora mesmo!Helena segurou seu rosto antes que ele se levantasse.— E v

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 30

    Gregor deu um passo na direção dela, e o rosto elegante finalmente perdeu parte da calma.— Você é uma humana entrando em assuntos que existiam antes do nascimento de seus avós.— E mesmo assim você parece preocupado demais comigo.Um som baixo e ameaçador saiu da garganta de Gregor.E Caio se moveu na mesma hora, parando protetoramente na frente de sua companheira. As sombras explodiram atrás dele como fumaça negra, movendo-se perigosamente e assustando todos ao redor.— Rosne para ela de novo — Caio disse, baixo. — Só mais uma vez... E sabe o que farei com você.Gregor encarou o Alfa.— Está ameaçando um emissário oficial?— Estou avisando um homem dentro do meu território que, se ousar desrespeitar minha companheira, vai pagar caro.A palavra atingiu Helena de uma forma estranha de novo, como se algo dentro dela adorasse aquele som, aquelas letras, a forma como Caio falava aquilo.Companheira.— Helena está sob minha proteção e que não vou aceitar uma armação contra ela.— Isso não

  • A Luna que não estava no contrato   Capítulo 29

    O sol mal tinha terminado de nascer quando as presas começaram a juntar todos nos jardins.Helena ainda estava acordada, depois da descoberta do quarto revirado, ninguém tinha conseguido dormir direito. Sena permaneceu com ela até quase amanhecer, enquanto Caio, André e dois homens da segurança vasculhavam os corredores, checavam câmeras, interrogavam guardas e tentavam descobrir como alguém tinha entrado na ala do Alfa sem ser visto. A escova de cabelo, a blusa usada e a fotografia dos pais continuavam desaparecidas. Nada de valor financeiro foi tocado, nada que um ladrão comum levaria, só coisas pessoais demais, íntimas demais, carregadas do cheiro, do sangue ou da memória dela.Então, quando as presas começarama pedir que todos fossem aos jardins, Helena já sabia que aquele dia começaria mal.— O que é isso? — perguntou, saindo do quarto.Sena apareceu no corredor alguns segundos depois.— Convocação geral.— Caio sabe disso?Sena balançou a cabeça.— Não sei, mas as presas estão j

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status