FAZER LOGINDante não conseguiu segurar a raiva dentro de si e eu vi no rosto dele aquela máscara de puro ódio. Eu sabia que se ele não fosse punido por isso, ele teria me atacado ali mesmo, me batido para que eu deixasse Lídia em paz e me casasse com o príncipe, mas ele não podia. Então, ele se conteve e eu fui embora.
Eu subi para o meu quarto com a mesma determinação que os homens vão à guerra. Eu tinha passado 25 anos sofrendo naquela maldita mansão da família Shannet e agora era a porcaria da minha chance de resolver as coisas. Lídia e Dante se casariam e seriam felizes? Eu até que esperava que sim, porque eu desejava que dessa vez, Lídia fosse feliz, mas aquela maldita família? Não. Eles não podiam ter um destino tão bom. Eles mereciam ter o nome deles enterrado na lama., mas Eu fechei a porta do quarto e sentei na minha cama como sempre fazia quando mais nova e embaixo do meu travesseiro, onde sempre havia estado, eu peguei o meu diário de quanto eu tinha meus 17 anos. Ele era um caderninho pequeno, azul claro com folhas que tinham pequenas tulipas pintadas a mão. Um trabalho lindo. Um presente do meu pai. Encarei aquelas páginas. Tantas em branco. E sem demora, comecei a trabalhar.
Uma pena em uma mão, sentada na escrivaninha que eu usava para escrever cartas para Dante; agora eu estava sentada, escrevendo tudo que eu me lembrava. Palavra por palavra eu despejava os acontecimentos, os eventos de que Dante se orgulhava, as mentiras que ele esconderia do mundo, os segredos dos Shannet que eu havia descoberto enquanto era humilhada e maltratada por eles.
Eu não ia me esquecer. Eu não ia deixar as coisas como estavam e mesmo que esse Dante de agora não tivesse feito todas aquelas coisas comigo, ele era capaz de fazer e isso era mais do que suficiente para me fazer odiá-lo e querer a cabeça dele servida em uma bandeja. E se Lídia não for como ele, ela certamente ficará ao meu lado quando souber de tudo que eu sei.
Quando terminei de escrever as coisas das quais me recordava, o diário estava praticamente no seu fim e a noite já havia caído. Eu sabia que havia perdido a hora do jantar e o fato de nenhuma empregada vir me chamar, deixava bem claro que minha madrasta (que agora era a marquesa) e Lídia, tinham se empenhado em planejar seu casamento repentino com Dante, durante o jantar. Meu pai provavelmente pensou que eu estava sendo dramática, trancada em meu quarto em um acesso de menina mimada, desapontada e chateada pelo que tinha sido “forçada” a escolher, mas depois de tantos anos passando fome ou sendo forçada a comer as sobras dos criados na mansão Shannet, eu não ia morrer de passar uma noite sem comer.
— Melhor assim — disse a mim mesma, fechando meu diário, amarrando com a fita azul claro que estava presa a ele e o enfiando dentro da gaveta com chave que havia em minha penteadeira, eu a tranquei e guardei a chave em uma correntinha que coloquei no pescoço. Meus olhos encararam meu reflexo no espelho. Jovem. Doce. Gentil. Um rosto lindo e delicado, sem os sinais da velhice que me atingiu 25 anos no futuro, sem sinais dos maus tratos sofridos por duas décadas e meia.
— Estou linda outra vez — murmurei para mim mesma tocando meu cabelo sedoso e brilhante, e me despi em frente ao espelho, apenas para conferir. Apenas para garantir que não havia nenhuma marca, nenhum hematoma. E não havia. Eu já não era a esposa de Dante. — Está tudo bem agora.
Aquela afirmação era para mim. Para meu coração e minha mente, porque agora, eu teria que ficar bem.
Coloquei meu pijama e me deitei na cama, porque sabia bem que aceitar o casamento com o príncipe herdeiro queria dizer que eu partiria em breve. Eu iria ao palácio e lá eu iria ser preparada para o casamento. A mesma preparação pela qual Lídia teria que ter passado antes de se tornar princesa herdeira, antes de ir ao altar e ser assassinada pelo príncipe herdeiro na frente de todos os convidados.
Ela não tinha ido ao palácio porque queria tentar me fazer mudar de ideia, evitou a preparação. Evitou o príncipe. Morreu.
Eu começaria diferente, eu iria ao palácio, eu faria as aulas, e mesmo que o príncipe fosse dito como louco, eu daria um jeito de não acabar morta, como Lídia. Esse era o plano, e ele daria certo, teria que dar, eu faria dar certo. Então, eu fechei meus olhos e eu adormeci. A escuridão foi gentil por um tempo, até me levar de volta à cela. Ao lugar onde Dante me encarava de cima, me assistia acorrentada ao chão, gemendo de dor, com os pulsos em carne viva.
— Você merece isso — ele dizia com desdém — merece muito mais pelo que fez a Lídia.
Eu não fiz nada. Era o que eu queria dizer. Eu nunca quis que ela morresse. Eu queria gritar, mas não dava. Não quando uma máscara de ferro tampava minha boca, não quando minha língua havia sido queimada.
— Isso dói? Você sente dor, Alanis? — Ele me perguntou enquanto abria a porta da minha cela e eu chorei, as lágrimas rolavam pela minha bochecha — eu soube que minha mãe queimou a sua língua com um ferro em brasas. Dói? — Aquela pergunta vinha cheia de malícia — eu imagino que deve doer… porque o príncipe fez isso com Lídia, sabia? Ele queimou a língua dela na frente de todas as pessoas que estavam presentes no maldito casamento.
Me desculpa! Eu queria gritar, as lágrimas caiam compulsivamente pelo meu rosto mas nem sequer uma única palavra saia da minha boca, e a imagem de Dante a minha frente, se desfez em uma névoa cinzenta. Eu saltei na cama, acordando do maldito pesadelo, e enquanto o sol surgia pela janela, eu me sentei, suada e amedrontada com o passado que ainda me assombrava.
Eu estava viva. Eu estava inteira. Eu estava livre de Dante.
E eu teria certeza que dessa vez, as coisas continuariam assim.
ALANIS ARCHMe peguei surpresa encarando aquele armário completamente cheio de vestidos e uma parte minha se sentiu injustiçada, porque mesmo quando Lídia era a “vítima” ela era “amada”. Encarei tudo aquilo que na minha vida anterior tinha sido dela e me perguntei se havia algo de errado comigo. O contraste era tão grande com a realidade que eu recebi na mansão Shannet, que chegava a doer, mas ainda assim, eu engoli em seco e vi a empregada passar a mão entre os cabides como uma criança que se divertia com a ideia de encontrar algo bonito para vestir em mim, como uma menina que brincava de boneca.— A senhorita tem uma pele tão bonita, e seu tom de cabelo é tão escuro que eu tenho certeza que ficaria perfeita em todas as peças que temos aqui — ela continuava a tagarelar, e eu apenas assenti, como uma boa garota enquanto sentia a inveja e o rancor dentro de mim, se revirarem em meu estômago.— Obrigada — foi tudo que consegui dizer e enquanto ela andava de um lado ao outro, eu apenas a
ALANIS ARCHO príncipe herdeiro não era nada do que eu imaginava, mas quando saí do jardim e voltei para o meu quarto, me perguntei o quanto eu realmente sabia do mundo real, do mundo fora da órbita de Dante e do passado horrível que eu tive que encarar depois das minhas escolhas ruins.Eu ainda não sabia bem como eu tinha tido essa segunda chance e conversar com um sacerdote sobre voltar no tempo ou sonhos proféticos do futuro, era tudo menos natural. As leis sagradas deixavam bem claro o que era permitido, e o tempo, assim como a morte, era uma coisa a ser respeitada. Mesmo que a Deusa tivesse me dado uma segunda chance, eu não seria bem vista pelas pessoas que acreditavam no sagrado, nas leis naturais que regiam o nosso mundo. O problema era que saber disso não apagava as memórias que ainda estavam dentro de mim. Eu me lembrava muito bem dos eventos que havia sofrido, das humilhações e principalmente de como eu odiava o homem que em outro momento, amei de forma profunda e sincera.
SYLAS VERITAMeus olhos ardiam depois de ficar em claro por praticamente duas noites seguidas, e por um segundo, eu me permiti adormecer. Foi só um segundo, eu tenho quase certeza disso, quase, porque quando voltei a abrir meus olhos, a cama onde Lucien deveria estar dormindo, estava vazia.— Puta merda… a mamãe vai me matar — resmunguei jogando a almofada que estava abraçado, no chão.Eu tinha ficado responsável por cuidar do fodido, e agora, eu tinha deixado ele sair por aí, andando sozinho em um palácio gigantesco onde ele podia facilmente cair como uma donzela indefesa e ser atacado por qualquer maníaco. Me levantei o mais rápido que pude e endireitando o robe que eu vestia, comecei a procurar. Biblioteca, sala de música, o ateliê do quarto marido, o templo escondido que o pai de Lucien tinha criado como refúgio para ele, mas não, ele não ia facilitar. Não estava em nenhum lugar. Então, eu desci, sabendo que era sempre a pior opção. O jardim.O lugar frio. Cheio de olhos por todos
ALANIS ARCHDepois de ser escoltada pelo herdeiro de um plano infernal, me sentei na minha cama e encarei a porta do meu quarto como encararia um portal para outro mundo. Eu sabia que estava no palácio imperial, mas isso não tornava tudo simplório como deveria ser qualquer outro noivado. Era muito diferente da minha vida anterior, onde fiquei presa a mansão do ducado, como uma mera empregada que vez ou outra servia de senhora da casa para o público. Bom, isso até que Dante se cansasse de bancar o bom marido e resolvesse assumir de vez o papel de viúvo de Lydia. Eu sempre me perguntei como meu pai, um marquês, nunca se opôs ao tratamento que eu recebia publicamente dos Shannet, mas com o tempo, me acostumei com a ideia de que não podia esperar nada daquele homem. Nem mesmo o mínimo.Agora eu tinha que encarar uma outra realidade, uma onde eu não seria morta por Dante, mas ainda teria que lidar com um príncipe possivelmente psicótico. Todos sabiam dos boatos que circulavam pelo império
ALANIS ARCHPor conta de tudo que eu tinha tido o desprazer de passar na minha vida anterior, tudo que eu queria era ir embora de uma vez, mas o meu pai insistiu que eu ficasse ao menos mais três dias malditos. Ele não parecia querer ter a imagem de um pai que vende a filha por medo de retaliação do príncipe, então quis fingir que éramos uma grande família feliz, nos despedindo e me preparando para o futuro que me aguardava, só que no fim, era apenas três dias aturando a mulher que ele escolheu como esposa, preparando o casamento tão sonhado de Lydia.Ele tentou me convencer do contrário enquanto me chamava para jantar ou tomar café em família, só que os anos que eu havia tido o desprazer de viver ao lado de Dante, me deu a sagacidade de entender a culpa e a procura por um perdão que alivia a consciência e eu não daria isso a ele. A nenhum deles na verdade.A carta foi enviada ao príncipe herdeiro no dia em que aceitei, os três dias se arrastaram como se fossem uma verdadeira tortura
LUCIEN MILLARDEu ainda estava ansioso, andando de um lado para o outro enquanto minha mãe suspirava, como se isso fosse algo sem sentido.— Querido, você vai afundar o chão desse jeito — ela disse com aquele tom condescendente que usava sempre que queria me fazer parar, mas dessa vez tinha sido diferente.— Ela não me respondeu. Não respondeu ao meu pedido e todo o reino sabe que ela é apaixonada por aquele-... — Aquele imprestável — meu pai completou o que eu não consegui concluir e eu assenti.— Exato! Aquele imprestável que herdou um ducado falido e usou dos piores meios para se reerguer. — Sibilei enquanto deslizava os dedos por entre os fios acobreados que herdei do meu pai — ela sequer deve fazer ideia disso, mas o persegue por aí e…— E ela seria uma completa idiota se recusasse um casamento com você — minha mãe concluiu como se fosse a coisa mais simples do mundo, mas não era.Eu sabia como as pessoas me viam, o que elas diziam por aí, como se referiam a minha família e se e







