FAZER LOGINNa hora combinada a campainha tocou, Elizabeth já sabia quem era, Raul Spolaor o advogado.
Ela abriu a porta e o convidou a entrar, como da outra vez, ele entrou fazendo cara de poucos amigos, desdenhando com o olhar a humildade da casa. - Sente - se por favor, quer um café? - Aceito, sem açúcar por favor. Ela trouxe o café para ele em uma caneca branca com a foto de sua mãe. Detalhe que não passou despercebido por Raul. - Então senhorita qual a sua resposta? - Eu tenho algumas dúvidas. - Diga, se for de meu conhecimento eu responderei - disse ele dando um gole no café que lhe pareceu delicioso, quente e forte. - Está escrito que tenho quatro meses para engravidar, se eu conseguir antes, posso voltar antes para casa ou preciso ficar os 12 meses lá? - Voltará assim que der a luz, se for antes, volta antes. - Poderei telefonar para minha mãe enquanto estiver confinada? - Você fala como se estivesse indo para a prisão. - Sim ou não? - Sim, mas não poderá dizer nada a ela. - Eu sei, eu entendi essa parte. Eu precisava saber ao menos um pouco sobre esse homem. - Não posso, é confidencial. - Senhor Raul, por favor, ao menos a idade? - Não posso. - Eu sou virgem! - Nós sabemos. Elizabeth se assustou ao ouvir a confirmação da boca do advogado. Isso era algo íntimo, não tinha como alguém de fora saber sobre isso. - É justamente por isso que o meu cliente te escolheu. - Tipo um fetiche? Coroa tirando a virgindade de garotinhas? - Não Elizabeth, tipo segurança, você é jovem, não terá problemas de saúde, a probabilidade do parto ser tranquilo é grande, você não teve parceiros sexuais o que diz que também não corre o risco de ter doenças venéreas. A sua voz era seca, sem paciência, Raul se perguntava por que entre tantas garotas, aquela era a escolhida. - Por que tem que ser natural? Por que não pode ser inseminação artificial? - Inseminação artificial pode gerar gravidez múltipla, além de precisar de uma preparação como a coleta de óvulos e esperma, a espera pelo desenvolvimento celular e somente após será inseminado, e mesmo assim podendo não ter sucesso. - Mas essa margem de erro também pode ocorrer no natural, né? - Você tem sete dias por mês para conseguir a concepção. No artificial não. - Você está me dizendo que durante sete dias nós transaremos? - Exato. E por isso você vai fazer exames antes, para saber exatamente o seu ciclo todo. - É melhor eu engravidar logo então… - Não fique pensando muito nisso, não será tão ruim quanto pensa. Pense apenas na mudança que terá em sua vida e na vida de sua mãe após isso. - O senhor tem razão, tudo pela minha mãe. Elizabeth pegou os papéis e assinou, com uma lágrima solitária que escorria em seu rosto, pensava que seu sacrifício teria uma causa nobre, sua mãe. Ela entregou o papel nas mão de Raul que logo guardou em sua pasta. - Eu precisarei também de cópias dos seus documentos. - Por que? - Para o plano de saúde, para abrir a conta bancária, burocracia. - Está certo. Ela foi até a sua mochila e pegou em sua carteira seus documentos. - Aqui estão. - Você tem cinco dias para se despedir de sua mãe e arrumar suas coisas. Apesar de saber que você não vai usar suas roupas habituais. - Por que não? - Você vai para um lugar quente, seus bens e moletons não serão úteis. - Entendi, achei que ficaria aqui em São Paulo mesmo. - Não querida, sairemos do estado. - Aposto que também não posso saber onde é né? - Você é uma garota esperta. Raul se dirigiu a porta por onde entrou e assim que Elizabeth abriu ele deu o último aviso. - Cinco dias, esteja pronta. Passarei aqui no mesmo horário. - Você virá me buscar? - Eu serei sua sombra a partir de agora, até você parir, sou seu responsável legal. - Mas eu sou maior de idade, tenho 18 anos já. - Mas eu responderei por tudo. Por isso sou advogado. Ele se despediu e saiu. Mais uma vez, Elizabeth ficou sozinha em sua casa. Começaria a arrumar suas coisas para a mudança. Deixaria suas roupas pesadas para trás, levaria somente o leve, já que Raul avisou que iriam para um lugar quente. Na manhã seguinte ela foi ver sua mãe, contou que tinha aceito a proposta e que em quatro dias partiria. Ela iria deixar a maioria das roupas que não usaria e também ligaria sempre para a mãe. - Mas eu não tenho um celular filha. - Eu vou deixar o meu mãe, e assim que eu chegar lá eu compro outro para falar com a senhora. - Está bem filha, sem problemas. - A hora da visita está acabando mãe, eu vou indo. Amanhã estarei aqui novamente. - Te esperarei filha. Os dias seguintes se passaram rapidamente, e Elizabeth se sentia triste por deixar a mãe só durante tanto tempo. Rezava a Deus para que sua mãe a esperasse voltar. Organizou a casa toda, retirou alimentos da geladeira e do armário, doou para os vizinhos, limpou a casa toda e cobriu seus móveis com lençóis. Mesmo sabendo que quando voltasse teria dinheiro para comprar tudo novo, tinha zelo pelas coisas que sua mãe lutou tanto para ter. No último dia, ela se despediu de Lúcia e deixou o celular, como combinado. Durante a tarde se encontrou com sua amiga Olivia, a amiga da escola que supostamente indicou ela para o trabalho. Estavam no shopping, Elizabeth queria dar uma repaginada no visual, e com o dinheiro de seu último trabalho, fez tudo o queria, se depilou, cortou o cabelo, hidratou, fez massagem e comprou algumas peças novas de roupa. Contou para Olívia a mesma história quê contou para a mãe, mas dizendo que foi contratada pessoalmente. E pediu para a amiga confirmar se algum dia Lúcia lhe perguntasse algo. Pediu também para que ela ficasse de olho na mãe e ligasse se qualquer coisa acontecesse. Disse que assim que tivesse dinheiro, mandaria para a mãe e para o tratamento dela. As duas se despediram na porta do shopping e Elizabeth voltou para casa. Às sete da noite, Raul tocou a campainha. Elizabeth já a aguardava com duas malas nas mãos, algumas roupas, cremes e objetos pessoais estavam dentro. Sua bolsa estava a tira colo, munida de documentos e mais algumas pequenas bugigangas como lenço, batom, escova de dentes e um pente de cabelos. Por uma última vez, ela olhou para seu lar se despedindo da pequena casa que viveu toda a sua vida. - Até ano que vem casinha, se cuide! E então a porta fechou atrás de si, como se ali, o tempo parasse à espera do retorno de Elizabeth e Lúcia.A gravidez transformou a casa inteira.Não apenas pelos pequenos detalhes que começavam a surgir aos poucos, roupas delicadas dobradas em gavetas novas, brinquedos espalhados em catálogos sobre a mesa da sala, o quarto sendo cuidadosamente preparado, mas pela forma como todos pareciam viver em torno daquela nova vida que crescia. Principalmente a vovó feliz e ansiosa pela chegada do novo neto.Elizabeth sentia isso principalmente à noite.Depois do banho, quando o silêncio finalmente tomava conta da casa e Davi já estava dormindo, Theodoro sempre a fazia sentar na cama enquanto buscava o pequeno frasco de óleo corporal.Virou um ritual noturno, um momento só deles.Naquela noite, a chuva caía suave do lado de fora enquanto a iluminação amarelada do quarto deixava tudo mais aconchegante. Elizabeth usava apenas um robe leve aberto sobre a barriga já bastante evidente.Theodoro ajoelhou-se diante dela na cama com aquele olhar atento
A casa nova ainda tinha cheiro de tinta fresca misturado ao perfume suave das flores que Elizabeth insistia em colocar em cada cômodo. Pela manhã, a luz dourada atravessava as grandes janelas da cozinha, aquecendo os detalhes simples daquela nova rotina que, para ela, parecia um sonho impossível alguns anos antes.Agora eram só os três.Sem confusão, sem despedidas dolorosas no fim do dia, sem medo constante.Apenas uma família.Theodoro saía cedo na maior parte dos dias, sempre impecável, mas havia algo diferente nele desde o casamento. O homem rígido e calculista parecia mais leve. Mais humano. E isso ficava evidente nos pequenos gestos.Como naquela manhã.Elizabeth terminava de prender o cabelo em um coque desajeitado enquanto tentava convencer Davi a tomar o café.— Eu não quero mamão.— Ontem você queria.— Mas hoje eu não quero mais.— Então coma o pão.— Também não quero. Quero bolinho de chocola
Paris os recebeu coberta por uma chuva fina e elegante. As ruas brilhavam sob os reflexos dourados dos postes antigos, enquanto o carro atravessava lentamente avenidas cercadas por construções históricas e cafés iluminados. Elizabeth observava tudo pela janela com encanto silencioso, absorvendo cada detalhe daquela cidade que parecia existir apenas em romances. Theodoro, sentado ao seu lado, observava menos Paris e mais ela. A maneira como seus olhos brilhavam. O sorriso pequeno e constante. A delicadeza com que os dedos dela tocavam o vidro da janela como se quisesse guardar a cidade nas mãos. Quando o carro finalmente parou diante do hotel, Elizabeth ergueu os olhos para a fachada luxuosa. — Theo… Ele sorriu discretamente. — Ainda nem viu a melhor parte. Assim que entraram na suíte, Elizabeth parou completamente. As enormes portas de vidro levavam
O sino da pequena capela tocava suavemente, espalhando pelo ar uma melodia delicada que parecia acompanhar a respiração ansiosa dos convidados. O perfume das flores brancas misturava-se ao aroma da madeira antiga dos bancos e ao leve cheiro de chuva que vinha das janelas entreabertas daquela tarde fria.A capela era pequena, mas absurdamente elegante. Velas douradas iluminavam o altar em luz morna, enquanto arranjos de lírios, rosas claras preenchiam o ambiente com uma sofisticação discreta. Não havia exagero. Apenas beleza. Havia murmúrios discretos, olhares curiosos e comentários inevitáveis sobre o casamento mais inesperado daquele círculo social.Theodoro Matarazzo finalmente iria se casar. E não seria com uma herdeira tradicional da elite paulista.E então Elizabeth apareceu e o murmúrio cessou imediatamente.Ela entrou sozinha, segura de si e radiante.O vestido tomara que caia moldava seu corpo com delicadeza aristocrática. A
A viagem para Paraty terminou deixando marcas suaves no coração de Elizabeth.Boas marcas.Daquelas que aquecem por dentro.Durante todo o caminho de volta, ela observou discretamente a aliança em sua mão inúmeras vezes, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquilo era real.Tudo parecia bonito demais para alguém como ela.Talvez fosse por isso que uma pequena parte sua ainda estivesse esperando o momento em que algo daria errado.Mas, pela primeira vez, essa sensação não era forte o suficiente para estragar sua felicidade.Quando chegou ao apartamento no fim da tarde, Olivia praticamente abriu a porta antes mesmo que Elizabeth tocasse a campainha.— Finalmente! Você sumiu o fim de semana inteiro!Ela parou abruptamente com seus olhos caindo diretamente na mão direita de Elizabeth.Depois arregalaram.— NÃO.Elizabeth começou a rir imediatamente.— Olivia…
Os últimos dias tinham sido estranhamente tranquilos.Depois de tudo o que aconteceu com Camila, depois das mentiras, dos confrontos e do julgamento que parecia ter sugado todas as forças deles, a vida finalmente começava a encontrar equilíbrio. A paz ainda era delicada, como vidro fino, mas estava ali. E Elizabeth conseguia sentir isso todas as vezes que olhava para Theodoro.Mesmo assim ele estava diferente, agindo misteriosamente nos últimos dias.Distraído em alguns momentos, atento demais em outros. Recebia ligações e se afastava. Trocava mensagens escondendo a tela do celular. Fazia perguntas aleatórias sobre coisas que ela gostava, lugares que queria conhecer, músicas favoritas, comidas preferidas.E toda vez que Elizabeth perguntava o motivo, ele apenas sorria daquele jeito irritantemente bonito.— Você anda muito desconfiada.— E você anda muito suspeito — ela respondia, estreitando os olhos.Mas diferente de antes,







