Compartir

Capítulo 3

Autor: Leticia lima
last update Fecha de publicación: 2026-01-29 09:11:30

Continuação.

A chuva caía como uma sentença sobre mim. Meus pulsos ainda doíam pelo que tentei fazer, e o grande portão à minha frente trazia lembranças cruéis de tudo o que vivi naquela família. Olhei para trás, mas não havia mais nada ali para mim.

Andei por ruas e avenidas sem destino, encharcada, sem ter para onde ir. Em uma parada de ônibus, com as mãos trêmulas, peguei o celular e resolvi ligar para Dona Luiza — a antiga empregada da casa de papai, a única que sempre cuidou de mim de verdade.

(Ligação)

— Eu preciso da senhora…

Bastaram aquelas palavras. Ela não fez perguntas, não pediu explicações. Veio ao meu encontro sem hesitar. E foi assim que acabei acolhida em sua casa simples, onde morava com a filha, Estela.

[…]

— Você sofreu tanto, minha filha… — Dona Luiza dizia enquanto me enxugava com uma toalha quente.

Estela apenas me encarava, os braços cruzados.

— Que cuzão! — ela soltou, cerrando os dentes.

— Olha os modos, menina! — Dona Luiza repreendeu.

— Ele simplesmente cortou todos os laços comigo… se é que algum dia existiram — falei, a voz embargada. — Nem sequer olhou para mim. Só disse palavras duras e me expulsou de casa. Ele tirou até a faculdade de mim… — um soluço escapou antes que eu pudesse conter.

— Você pode ficar aqui — Dona Luiza disse, puxando-me para o peito num abraço apertado.

— A senhora tá louca, né? — Estela se levantou do sofá. — A gente mal tem pra nós duas. Como vamos sustentar mais uma?

— A gente dá um jeito — respondeu firme. — Não vou jogar essa menina na rua.

— Eu posso ir embora… — murmurei, levantando devagar. — Não quero incomodar.

— Ei — Estela bufou e voltou a se sentar. — Eu não quis ser grossa. Também não sou tão ruim a ponto de completar sua desgraça.

— Obrigada… — disse, sentindo o peso no peito aliviar um pouco. — Eu prometo que vou procurar um emprego e ajudar.

No instante em que falei aquilo, a expressão de Estela mudou. Os olhos dela brilharam de um jeito estranho enquanto me analisava dos pés à cabeça, como se estivesse calculando algo. Mas não disse nada.

Por sorte, papai já tinha pago aquele mês da faculdade. Os próximos, porém, eram um abismo à minha frente. Eu precisava arrumar um emprego. Precisava comprar o mínimo para sobreviver. O pouco dinheiro que eu tinha guardado não daria para tudo.

Nos dias seguintes, saí de casa antes do sol nascer e só voltava quando ele já tinha ido embora. Entreguei currículos em lojas, mercados, farmácias, bares. Sorri mais do que devia, engoli respostas secas, ouvi promessas vazias.

— A gente liga.

Nunca ligavam.

Quando finalmente consegui um emprego, foi como atendente em uma lanchonete pequena, escondida entre duas ruas movimentadas. O uniforme era apertado, o horário puxado e o salário… ridículo.

No primeiro pagamento, fiz as contas sentada na cama estreita do quarto que dividia com caixas e silêncio. O dinheiro mal dava para ajudar Dona Luiza em casa, pagar passagem e comprar o básico. A mensalidade da faculdade parecia uma piada cruel escrita em números grandes demais para minha realidade.

Trabalhava cansada, com os pés doendo, as mãos cheirando a gordura e desinfetante. Mesmo assim, não faltei às aulas. Não podia. Aquela era a única coisa que ainda me fazia sentir alguém.

Na faculdade, os olhares começaram rápido demais.

Alguns curiosos.

Outros de pena.

E os piores… de julgamento.

Sussurros atravessavam corredores quando eu passava. Comentários velados sobre minha roupa simples, meu cabelo preso de qualquer jeito, meu atraso constante. Eu já não pertencia àquele lugar — e eles faziam questão de me lembrar disso todos os dias.

— Ela não era filha do empresário? — ouvi uma vez, fingindo procurar algo na mochila.

— Deve ter feito alguma coisa errada…

— Essas sempre fazem.

Engoli seco e segui andando.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • A noite que ele nunca Esqueceu    Fim!

    Lis Narrando. A volta para a mansão dos Lucchese foi carregada de emoção. Ele estava de volta, e eu sentia, finalmente, que nossa vida seria feliz e sem guerras. Os pais de Saulo o abraçaram com fervor enquanto ele retomava seu posto como líder da família. — Eu sempre soube que você era a pessoa certa — Saulo disse, enquanto eu colocava o bebê para dormir. — Você colocou nossa casa em ordem e ainda me deu dois herdeiros. — Eu sabia que você voltaria! Todas as noites eu me deitava confiando que, um dia, você cruzaria aquela porta. — Eu sei... — Ele me abraçou por trás. — Estou de volta. Três meses se passaram voando. Eu deixara o posto de braço direito dos Mendonça, e Diego assumira meu lugar. Eu sabia que ele era capaz; agora, ele estava à frente dos negócios enquanto Maria e Paulo viajavam em lua de mel. Eu me sentia, enfim, preparada para ver minha mãe. Nervosa, cheguei à mansão dos Mendonça carregando meu bebê no colo e com Matias agarrado à minha saia. Assim que entrei no ja

  • A noite que ele nunca Esqueceu    99

    Continuação. Outro menino, Saulo — Maria disse, com um sorriso fraco em meio ao cansaço. — Outro homenzinho forte como você. Matias agora tem um irmão. Eu olhei para o pequeno Lucchese nos braços da minha irmã. Ele era pequeno, mas o choro era vigoroso. A sensação de ver Maria ali, cuidando da minha esposa e do meu filho enquanto eu estava "morto", me deu um nó na garganta. — Obrigado, minha irmã — murmurei, tocando a mão dela por um segundo antes de olhar para Lis. — Se não fosse por você... — Não me agradeça agora — Maria me cortou, recuperando a postura firme que herdamos do nosso pai. — Lis está apenas exausta. O parto foi brutal, Saulo. Ela lutou como uma leoa. O desmaio é o corpo dela pedindo trégua, nada mais. Ela vai acordar e vai querer ver você. Eu beijei a testa de Lis, que dormia um sono pesado, e depois encostei meu dedo na mãozinha do meu novo filho. Lis Narrando. Eu estava sonhando. Pelo menos foi o que pensei quando abri os olhos lentamente. Tudo parecia

  • A noite que ele nunca Esqueceu    Capítulo 98

    Uma semana se passou. Cada passo que eu dava era acompanhado por uma dor latente e uma claudicação persistente. Minha perna nunca mais seria a mesma; aquela era a marca eterna da minha guerra com Magnus, um lembrete físico de que o inferno tinha deixado cicatrizes. — Silas, não tem nenhum celular por aqui? Alguma forma de comunicação? — perguntei, observando o velho organizar algumas ferramentas. — Aqui no vale não pega nada, meu jovem. Só na cidade, lá no alto, onde o sinal alcança. Eu vou para lá agora buscar alguns suprimentos, se quiser, pode vir comigo. No momento da partida, vi Magnus parado perto do cercado, acenando para nós com aquele olhar vazio e pacífico. O ódio subiu pela minha garganta. Era humilhante vê-lo ali, "esquecido" de suas atrocidades, vivendo uma vida simples enquanto eu carregava o peso de tudo o que ele destruiu. Mas eu tinha uma promessa a cumprir com Elara. Virei o rosto e subi na carroça. Assim que chegamos à pequena cidade, a primeira coisa que fi

  • A noite que ele nunca Esqueceu    Capítulo 97

    O ranger das tábuas da varanda me tirou dos meus devaneios sobre Lis. Eu não estava sozinho. Elara estava ali, envolta em um xale pesado, com os olhos refletindo a luz pálida da lua. Ela não parecia surpresa em me ver de pé, nem com o meu olhar de ódio voltado para o canto onde Magnus dormia. — Você se lembrou, não foi? — a voz dela era um sussurro quebrantado. Eu não respondi de imediato. Apenas apertei o cajado com mais força. — Meu pai... ele é um homem de muita fé, Saulo. Ele acredita na vida acima de tudo — ela continuou, aproximando-se do parapeito. — Mas eu não sou cega. Quando os tiramos do rio, vocês não tinham apenas ossos quebrados. Vocês dois tinham ferimentos de bala. Um no ombro dele, outro perto da sua costela. Parecia que tinham tentado se matar antes mesmo da queda. Ela parou ao meu lado, e vi o brilho das lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Eu sei que vocês eram inimigos. Sei que o que quer que tenha acontecido naquele rio foi o fim de uma guerra sangrent

  • A noite que ele nunca Esqueceu    Capítulo 96

    O cansaço físico finalmente venceu minha guarda alta, e eu apaguei. Mas o sono não trouxe descanso, trouxe fantasmas. No sonho, o cheiro de mofo da cabana deu lugar ao perfume de jasmim que ela sempre usava. Lis estava lá, com aquele sorriso que iluminava até os meus dias mais sombrios. Ela tocava meu rosto, e o calor da sua mão parecia tão real que meu coração disparou. — Saulo... — ela sussurrou, a voz suave como a brisa de um fim de tarde. — Você precisa voltar. Eu tentava alcançá-la, mas minhas pernas pesavam como chumbo. Ela começou a se afastar, envolta em uma névoa fria, e o desespero tomou conta de mim. A saudade apertou meu peito de uma forma tão violenta que eu acordei num sobressalto, com o nome dela preso na garganta. A cabana estava silenciosa, apenas o som da respiração pesada de Magnus no canto oposto e o estalar baixo das brasas na lareira. Olhei para o teto, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Onde ela estaria agora? Será que ela pensava que eu estava mor

  • A noite que ele nunca Esqueceu    Capítulo 95

    Saulo.. Meus olhos estavam pesados, mas fui recobrando a consciência aos poucos. O cheiro de mofo misturava-se a um bafo de ar quente próximo a mim. Tentar abrir as pálpebras parecia um sacrifício cruel; minha cabeça latejava e a garganta estava tão seca que acabei tossindo. Quando finalmente venci a resistência e abri os olhos, senti mãos tocarem as minhas e uma voz exclamar: — Ele acordou! A primeira visão foi a de um teto simples, de madeira. Olhei ao redor e vi um senhor e uma jovem. — Quem são vocês? — perguntei, tentando me levantar no impulso. — Calma, você não pode se mexer assim. Passou muito tempo dormindo — a moça me ajudou com cuidado e logo gritou: — Pai! Ele está bem! Olhei para a porta e, para minha surpresa, Magnus apareceu atrás do velho. Fiquei alerta instantaneamente. — Pensei que você não voltaria. Passou nove meses em coma — explicou o senhor. — Além da perna quebrada, você teve uma fratura no crânio. Esse aqui também estava com você quando os achamos

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status