INICIAR SESIÓNAntes do amanhecer, a mansão Moretti já estava desperta.
Empregados caminhavam em absoluto silêncio pelos corredores. Homens armados se revezavam na segurança da propriedade. Cada pessoa conhecia seu lugar. Cada tarefa era executada sem atrasos.
Naquela casa, o tempo obedecia apenas a um homem.
Laura, porém, não havia dormido.
Passou a noite inteira acordada, sentada na cama, abraçando os próprios joelhos. Sempre que fechava os olhos, via novamente o momento em que presenciara o assassinato no hotel. Depois, o rosto impassível de Vincenzo surgia em sua memória.
O medo era constante.
Pouco depois das sete da manhã, ouviu o som da chave girando na fechadura.
Seu corpo enrijeceu.
A porta se abriu.
Uma senhora de aproximadamente sessenta anos entrou empurrando um carrinho com o café da manhã. Atrás dela, dois homens armados permaneceram de guarda.
A mulher tinha os cabelos grisalhos presos em um coque impecável. O uniforme preto e branco denunciava seus muitos anos de serviço naquela casa.
Ela colocou a bandeja sobre a mesa sem dizer uma palavra.
Laura a observava com esperança.
Talvez aquela mulher pudesse ajudá-la.
— Por favor...
A governanta parou por um instante.
Laura deu um passo à frente.
— Minha mãe deve estar desesperada. Eu só preciso que alguém avise que estou viva. Não precisa dizer onde estou... apenas diga que estou bem.
Os olhos da governanta demonstraram um breve lampejo de compaixão.
Durou menos de um segundo.
Ela abaixou a cabeça.
— Sinto muito, senhorita.
Sua voz era baixa.
— Nesta casa, ninguém desobedece às ordens do Don.
Ela saiu imediatamente.
A porta tornou a ser trancada.
Laura permaneceu imóvel.
Até a única pessoa que parecia ter um pouco de humanidade tinha medo dele.
No andar térreo, Vincenzo tomava café da manhã sozinho.
A enorme mesa de madeira maciça tinha lugares para mais de vinte pessoas.
Mesmo assim, apenas um prato estava servido.
Ele lia relatórios enquanto bebia café.
Não havia televisão ligada.
Não havia conversa.
O silêncio era parte da rotina.
Matteo aproximou-se discretamente.
— Don.
Vincenzo não levantou os olhos.
— Fale.
— Ela passou a noite acordada.
Nenhuma tentativa de fuga.
Comeu pouco esta manhã.
Pediu novamente para avisarem a mãe.
Vincenzo virou lentamente a página do relatório.
— A resposta foi a mesma?
— Sim.
— Ótimo.
Matteo hesitou.
— A governanta disse que ela parecia muito abalada.
Vincenzo fechou a pasta.
Seu olhar encontrou o de Matteo.
Frio.
Impenetrável.
— Ela está viva.
Recebe comida.
Recebe um quarto.
Recebe atendimento médico se precisar.
Não confunda isso com gentileza.
Matteo permaneceu em silêncio.
— Enquanto eu não descobrir quem realmente é Laura Bianchi, ela continuará sendo uma prisioneira.
Nem mais.
Nem menos.
Naquele instante, um dos homens da segurança entrou apressado na sala.
— Don.
Encontramos o carro usado pelos homens que atacaram o hotel.
Vincenzo levantou-se imediatamente.
Sua expressão não mudou.
Mas seus olhos tornaram-se ainda mais frios.
— Reúna dez homens.
Quero o local cercado antes que qualquer vestígio desapareça.
— Sim, Don.
Ele vestiu o paletó enquanto caminhava em direção à saída.
Laura desapareceu completamente de seus pensamentos.
Para Vincenzo Moretti, pessoas podiam esperar.
Uma pista sobre seus inimigos, não.
E, em algum lugar da cidade, alguém ainda acreditava que havia conseguido desafiar o homem mais temido da máfia italiana.
Esse erro custaria muito caro.
O comboio de carros pretos deixou a propriedade às oito da manhã.
Nenhuma sirene.
Nenhum alarde.
Apenas motores potentes rompendo o silêncio da estrada.
No banco traseiro do primeiro veículo, Vincenzo permanecia imóvel.
As pernas cruzadas.
Um tablet repousava sobre seu colo, exibindo imagens do carro encontrado.
Carbonizado.
Abandonado em um antigo galpão industrial na periferia de Milão.
Um trabalho limpo.
Profissional.
Quem havia planejado a emboscada conhecia os procedimentos da máfia.
Sabia exatamente quais rastros apagar.
Ao lado dele, Matteo quebrava o silêncio apenas para transmitir novas informações.
— A perícia encontrou vestígios de sangue.
Vincenzo continuou olhando as fotografias.
— Identificaram a quem pertence?
— Ainda não.
— Armas?
— Nenhuma.
— Cápsulas?
— Recolheram todas.
Vincenzo desligou a tela do tablet.
— Foram treinados.
— Também acredito nisso, Don.
Ele não respondeu.
Seus pensamentos voltaram para a noite do hotel.
Nada naquela operação parecia improvisado.
Os atiradores conheciam a rotina.
Sabiam o horário.
Sabiam a saída.
E, acima de tudo...
Sabiam exatamente onde ele estaria.
Isso significava apenas uma coisa.
Havia alguém observando seus passos.
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Enquanto isso, na mansão, Laura permanecia no quarto.
O relógio marcava pouco mais de nove horas.
Ela caminhava de um lado para o outro, incapaz de permanecer parada.
A sensação de estar presa entre aquelas quatro paredes tornava o ar pesado.
Tentava imaginar uma saída.
Uma janela.
Uma porta destrancada.
Um momento de distração dos seguranças.
Qualquer coisa.
Mas nada existia.
A porta permanecia vigiada.
As janelas davam para um jardim cercado por homens armados.
Mesmo que conseguisse escapar da casa, jamais atravessaria a propriedade.
Ela voltou a se sentar na cama.
Respirou profundamente.
Não podia se desesperar.
Precisava pensar.
Foi então que ouviu novamente a chave girando na fechadura.
A governanta entrou.
Desta vez trazia roupas limpas.
Vestidos discretos.
Casacos.
Sapatos.
Tudo novo.
Laura olhou para as peças sem entender.
— São para mim?
A mulher apenas assentiu.
— O Don não permite que seus hóspedes usem roupas sujas.
A palavra "hóspedes" fez Laura sentir um aperto no peito.
Aquilo era tudo, menos hospitalidade.
— Eu não sou uma hóspede...
A governanta desviou o olhar.
— Também não cabe a mim decidir isso.
Ela começou a organizar as roupas no guarda-roupa.
Laura observava cada movimento.
Precisava tentar novamente.
— Há quanto tempo trabalha aqui?
A senhora demorou alguns segundos antes de responder.
— Muitos anos.
— Então conhece o senhor Moretti...
Ela parou por um instante.
— Conheço o suficiente.
Laura respirou fundo.
— Ele sempre foi assim?
A governanta fechou lentamente a porta do armário.
Depois olhou diretamente para Laura.
Havia tristeza em seus olhos.
Uma tristeza antiga.
— Aprenda uma coisa, menina.
Ela falou em voz baixa.
— Nunca faça perguntas sobre o Don.
Laura permaneceu em silêncio.
— E nunca espere misericórdia dele.
Aquelas palavras fizeram um frio percorrer sua espinha.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a mulher saiu do quarto.
Mais uma vez, a porta foi trancada.
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No galpão abandonado, Vincenzo caminhava lentamente entre os destroços do veículo incendiado.
Os homens mantinham distância.
Ninguém tocava em nada sem sua autorização.
Ele agachou diante do automóvel.
Passou os olhos pelo assoalho completamente queimado.
Depois pelas marcas de pneus deixadas na terra úmida.
Havia mais de um veículo.
No mínimo três.
Levantou-se.
— Eles trocaram de carros aqui.
Matteo aproximou-se.
— Também acredito.
Vincenzo apontou para o chão.
— Não.
Acredito não.
Tenho certeza.
Um dos homens da perícia aproximou-se.
— Don...
Encontramos isto.
Era um pequeno botão metálico parcialmente queimado.
Parecia insignificante.
Vincenzo o pegou entre os dedos.
Observou durante alguns segundos.
Depois sorriu.
Um sorriso discreto.
Frio.
Quase imperceptível.
— Finalmente.
Matteo franziu a testa.
— Reconhece?
— Sim.
Ele entregou o objeto novamente ao perito.
— Não pertence aos homens que nos atacaram.
Pertence ao uniforme de segurança do Hotel Bellavista.
Matteo arregalou discretamente os olhos.
— Um funcionário?
— Ou alguém usando um uniforme.
Vincenzo permaneceu alguns segundos olhando para o carro destruído.
As peças começavam a se encaixar.
Muito lentamente.
Mas começavam.
— Quero a lista completa de todos os funcionários que trabalharam naquela noite.
Seguranças.
Recepcionistas.
Camareiras.
Manobristas.
Todos.
Sem exceção.
— Inclusive Laura?
Vincenzo respondeu sem qualquer emoção.
— Principalmente Laura.
Matteo hesitou.
— Ainda acredita que ela esteja envolvida?
Vincenzo caminhou em direção ao carro.
— Não acredito em inocência.
Apenas em provas.
Entrou no veículo e fechou a porta.
Enquanto o comboio deixava o galpão, seus pensamentos voltaram, inevitavelmente, para a jovem presa em sua mansão.
Ela parecia frágil.
Assustada.
Mas aparências nunca significaram nada para ele.
Anos antes, um velho aliado fingira lealdade durante quinze anos antes de traí-lo por dinheiro.
Outro jurara amizade enquanto vendia informações aos inimigos.
Desde então, Vincenzo aprendera a única regra que realmente importava.
Confiar era uma sentença de morte.
Se Laura fosse inocente, descobriria.
Se estivesse mentindo...
Ela desejaria nunca ter cruzado o caminho de Vincenzo Moretti.
Vincenzo permaneceu no escritório por mais alguns minutos, tentando convencer a si mesmo de que precisava apenas terminar o trabalho.Mas não conseguia.Seus olhos percorriam os documentos sobre a mesa, enquanto sua mente insistia em voltar para o jardim.Laura sentada naquele banco.Sozinha.Com os olhos cheios de lágrimas.Ele fechou os olhos por um instante.Por que aquilo o incomodava tanto?Era uma pergunta simples.E, ainda assim, Vincenzo não conseguia encontrar uma resposta que considerasse aceitável.Ele já havia visto pessoas chorarem antes.Muitas.Homens implorando pela própria vida.Mulheres desesperadas.Famílias destruídas pelas consequências de decisões que ele mesmo havia tomado.Nada daquilo costumava afetá-lo.Ele observava.Tomava suas decisões.E seguia em frente.Então por que as lágrimas de Laura permaneciam em sua cabeça?Vincenzo abriu os olhos e encarou a escuridão do lado de fora da janela.— Isso é ridículo... — murmurou para si mesmo.Passou a mão pelos ca
Vincenzo permaneceu alguns segundos em silêncio, olhando para Laura.Ele não perguntou o que havia acontecido.Os olhos marejados dela já diziam o suficiente.Vincenzo aproximou-se devagar.Parou diante dela e segurou seu rosto delicadamente, fazendo com que levantasse os olhos.— Olhe para mim.Laura obedeceu.Ele examinou seu rosto por alguns segundos.— Você está bem?Ela hesitou.— Agora estou.Vincenzo sustentou o olhar dela por mais alguns segundos.Então estendeu a mão e segurou a dela.Seus dedos se entrelaçaram aos dela.Só depois virou-se para a mulher.Ela ainda estava parada alguns passos atrás.Vincenzo caminhou até ela sem pressa.Parou diante dela.A mulher tentou manter a postura.— Vincenzo...Ele a observou por alguns segundos.— Você passou dos limites.A mulher respirou fundo.— Eu apenas—— Não precisa se justificar.A voz dele era baixa e firme.— O que aconteceu aqui não deveria ter acontecido.Ela abaixou os olhos por um instante.— Talvez eu tenha sido um pouc
A noite terminou tranquila.Depois de tudo o que havia acontecido, Laura finalmente conseguiu descansar.Ela e Vincenzo permaneceram no mesmo quarto. Laura adormeceu primeiro, exausta, enquanto Vincenzo ficou algum tempo acordado, perdido nos próprios pensamentos.A gravidez ainda era uma novidade difícil de assimilar.Não para ele, que já sabia desde o dia anterior, mas para a própria vida que agora começava a tomar uma direção diferente.Na manhã seguinte, Vincenzo despertou cedo.Ainda sonolento, virou o rosto e encontrou Laura dormindo ao seu lado.Permaneceu imóvel.Não a acordou.Apenas ficou ali, observando-a.Os cabelos espalhados pelo travesseiro, o rosto tranquilo e uma das mãos repousando sobre o ventre.Vincenzo desviou os olhos para aquela mão.Ainda não havia nenhuma mudança visível.Mas ele sabia que seu filho estava ali.Seu herdeiro.Aquela mulher lhe daria um filho.Por alguns instantes, Vincenzo se permitiu apenas observá-la.Laura parecia tão vulnerável enquanto do
Vincenzo subiu novamente para o quarto depois de terminar de dar as ordens aos funcionários.Precisava sair.Havia assuntos da organização que não podiam simplesmente ser deixados de lado, mesmo diante de tudo o que acontecera naquela manhã.Entrou em seu quarto, trocou a roupa que usara no hospital e vestiu uma camisa preta, deixando os primeiros botões abertos. Colocou o relógio no pulso e pegou o paletó.Antes de sair, porém, seus passos o levaram até o quarto de Laura.A porta estava entreaberta.Ele parou.Laura estava sentada sobre a cama, encostada na cabeceira.Permanecia completamente perdida em seus pensamentos.Uma das mãos repousava sobre o próprio ventre.Seu olhar estava distante.Vincenzo ficou alguns segundos observando-a.Ainda era estranho pensar que havia uma criança ali.Seu filho.A notícia continuava ecoando em sua mente.Ele entrou.Laura percebeu sua presença, mas não levantou os olhos.— Vou sair.Nenhuma resposta.Vincenzo caminhou até a porta.— Não devo dem
O silêncio permaneceu no quarto.Laura continuava com a mão sobre o ventre.Seus olhos estavam fixos em algum ponto à frente, como se ainda tentasse compreender o que acabara de ouvir.Grávida.Pouco mais de um mês.A palavra parecia não pertencer à sua realidade.Então, de repente, o rosto dela se desfez.As lágrimas começaram a cair.Primeiro algumas.Depois muitas.Laura levou as duas mãos ao rosto e começou a chorar.Não era um choro silencioso.Era um choro profundo, desesperado, carregado de tudo o que havia acontecido nos últimos dias.A morte da mãe.O casamento.A vida que havia perdido.Aquela casa.Vincenzo.E agora uma criança.Seu filho.Uma criança que ela ainda nem conhecia, mas que já carregava dentro de si.— Não...Ela balançou a cabeça.— Não pode ser.O médico permaneceu próximo à cama.— Laura, tente respirar.Ela não conseguia.— Eu não posso...Sua voz falhou.— Eu não posso estar grávida.Vincenzo permaneceu parado.Por fora, não demonstrava absolutamente nada.
Vincenzo entrou no quarto algum tempo depois.Laura continuava dormindo.O rosto estava tranquilo agora, embora ainda carregasse as marcas do cansaço e das lágrimas dos últimos dias.Ele fechou a porta atrás de si e permaneceu parado.Por alguns segundos, apenas observou.Os aparelhos ao lado da cama marcavam o ritmo constante da respiração dela.Vincenzo caminhou até a cadeira e se sentou.Seu olhar permaneceu sobre Laura.Aquela mulher havia conseguido fazer algo que ninguém jamais fizera.Entrar em sua cabeça.Permanecer nela.Mesmo quando ele não queria.Mesmo quando tentava se convencer de que ela era apenas uma responsabilidade.Apenas a consequência de uma situação que precisava ser resolvida.Uma testemunha de um crime.Era assim que tudo havia começado.Laura havia visto demais.Sabia demais.E, por causa disso, tinha se tornado um problema para Vincenzo.Naquela época, ele não havia pensado duas vezes antes de usar a única coisa que poderia controlá-la.A mãe.A mulher estav







