FAZER LOGINAnos atrás
A pequena Sophia chorava a morte da mãe, vítima de um câncer que lhe roubou alguns anos ao lado da sua família. Foram ardo três anos, tentando se livrar de um mal que só a consumia com o tempo. A pequena Sophia passou todo aquele tempo ao lado da mãe, sem entender por que Margareth, sempre tão irritada com as pessoas ao redor, mantinha distância dela, mesmo quando estavam próximas. A menina ansiava pelo dia em que a mãe finalmente corresse com ela pelos gramados do jardim do palácio, uma cena que imaginava com frequência, mas que raramente se concretizava. Quando Margareth saía de seus aposentos, fazia-o apenas para observar Sophia de longe, sem jamais se unir a ela nas brincadeiras. O fim chegou de forma fria e abrupta, e foi o irmão de Margareth, o Duque, quem assumiu a responsabilidade de criar a menina. No entanto, o que o Duque ignorava era que sua irmã, a rainha, já havia traçado um plano para a filha, tratando-a como uma mercadoria nas mãos de outro homem. Claro, ela não entregaria Sophia aos 10 anos de idade, mas, no futuro, a rainha sabia que o destino da garota não seria uma questão de escolha. Naquele dia, ao colocar a mão no ombro de Sophia, Margareth sentiu a fragilidade e pureza que a filha transmitia. A menina, de pele pálida, cabelos escuros e olhos verdes, lembrava uma boneca de porcelana, frágil e moldável. Margareth abaixou-se, aproximando-se do rosto da garota, e observou o olhar doce que reluzia. Nele, viu um potencial que poderia ser lapidado a seu gosto. - Não se preocupe, criança – A mulher usou seu tom mais doce, mesmo que esse não fosse seu estilo. A rainha aprendeu a ser dura, mesmo com sua família. Coração era o que lhe faltava. Tudo o que a rainha via eram negócios. – Vou cuidar de você. - Ela nunca mais vai voltar. – Murmurou a menina, limpando as agrimas do rosto. – Isso não é justo. Mesmo sentindo certa pena, Margareth não se deixou abalar com a cena. A menina acabará de perder a mãe, isso deveria atingir a mulher em cheio, já que tem filhos, contudo, o gelo no peito da rainha não lhe permitia sentir nada além de pena. - A morte não tem volta, deve aprender isso agora. – Margareth se levantou, forçando Sophia a olhar para cima. – Limpe o rosto – Exigiu, deixando de lado a sua falsa doçura. – Sentimentos assim nos tornam fracas. - Mas eu não sou forte. – Argumentou a menina, chorosa. - Se tornará – Estendeu a mão para que ela a pegasse. – Vou cuidar de você e do seu futuro. Margareth, implacável, trancou Sophia em seu castelo, garantindo que a garota tivesse tudo de luxo que uma criança pudesse imaginar: um quarto grandioso, roupas de grife, joias valiosas, e uma educação particular com os melhores tutores. Mas esses eram apenas adornos para mascarar sua verdadeira prisão. Sophia não era livre; era uma mercadoria cuidadosamente guardada, preparada para obedecer cegamente. Margareth, sem qualquer afeto ou flexibilidade, afastava qualquer possibilidade de infância. Aos dez anos, Sophia deixou de ser uma menina para se tornar um objeto da realeza, lapidado para servir aos interesses de sua tia. Cada dia era preenchido com estudos rigorosos. Sophia aprendeu sobre a história de Galles, da linhagem dos Nikolai, e de todos os detalhes que, segundo Margareth, eram essenciais para conquistar um rei. Ela seria o cavalo de Troia da rainha, treinado e moldado em todas as artes da nobreza. Mas a princesa não tinha amigos; suas únicas companhias eram as criadas, e mesmo elas estavam proibidas de brincar ou arrancar um sorriso dela. A cada nova habilidade — tocar piano, cantar, dançar, se portar com elegância diante dos rígidos cortesãos — Sophia construía uma casca dura, uma proteção contra o vazio emocional e a ausência de afeto. Os piores momentos, no entanto, vinham quando ela cometia algum erro. Desde cedo, Sophia buscava uma fuga, uma forma de se distrair, mesmo que por breves momentos, na vastidão de sua prisão dourada. Mas Margareth, sempre vigilante, não perdoava. As punições eram severas: desde um dia sem comida até trancá-la no quarto, às vezes recorrendo a castigos físicos. Contudo, a rainha tinha o cuidado de nunca deixar marcas permanentes. Uma mercadoria, afinal, deveria permanecer intacta. Esse regime impiedoso fez Sophia nutrir um ressentimento profundo por Margareth, misturado a um respeito forçado e um medo constante. Ela odiava a mulher e, ao mesmo tempo, torcia para nunca mais ter que cruzar seu caminho. Quinze anos depois, Sophia se encontrava novamente sob os olhos de Margareth, prestes a ser apresentada como a futura noiva de Nikolai, agora rei de Galles. Ela sempre pensou que se casaria com o príncipe, que o tempo a favor seria longo até que ele assumisse o trono. Mas a doença do rei acelerou o processo, e agora Nikolai teria o poder de aceitar ou recusar a aliança. Um "não" significaria a ruína de Sophia e um imenso golpe para Margareth. A rejeição da pupila pela realeza seria uma ofensa imperdoável para a rainha. Sophia caminhava numa linha tênue, dividida entre a aversão pela ideia de seduzir o rei e o desespero de não retornar para casa sem se tornar sua esposa.Meses se passaram desde o casamento e a coroação. O peso da coroa sobre minha cabeça se tornara familiar, mas nada—nada—se comparava ao peso mais precioso que eu já carreguei nos braços.Nosso pequeno príncipe nasceu.Não havia palavras suficientes para descrever a felicidade que me inundava. Eu o segurava contra o peito, sentindo seu corpinho quente e frágil, ouvindo suas risadas cristalinas ecoarem pelo quarto como uma melodia mágica. O mundo, antes tão vasto e cheio de preocupações, agora parecia pequeno comparado ao amor avassalador que eu sentia por aquele garotinho.Nikolai estava radiante. Ele, que sempre fora contido, que aprendera a esconder emoções desde cedo, agora não conseguia mais disfarçar sua felicidade. O orgulho em seus olhos era evidente, como se segurar nosso filho fosse a prova de que, finalmente, a tempestade havia passado. Olhávamos um para o outro, sabendo o que havíamos superado antes do casamento—os desafios, os jogos de poder, os sacrifícios. Mas nada dis
Hoje é o meu grande dia. Ou pelo menos, o dia que o mundo inteiro escolheu para ser meu grande dia. A verdade é que, para mim, já era uma formalidade vazia. Eu e Nikolai já estávamos casados, oficialmente e legalmente. No entanto, para os olhos atentos da política internacional, ainda faltava o espetáculo, o show de cortinas douradas e alianças cintilantes, que selariam, diante de todos, a união dos dois países mais influentes do mundo.Desde que pisei aqui, as coisas mudaram de forma drástica. Eu tinha uma ideia muito clara sobre quem Nikolai era: um homem frio, calculista, o tipo de pessoa que sempre tem uma jogada na manga. E eu não estava exatamente errada. Mas com o tempo, com a convivência e os pequenos detalhes que ele tentava esconder, percebi que minha visão sobre ele era mais superficial do que eu imaginava. Ele era irritante? Sim. Arrogante demais? Também. Mas, curiosamente, essa arrogância passou a me agradar. Apimentava a relação. E, o mais importante, eu sabia exatament
A chegada da minha tia era como uma tempestade iminente, o tipo de coisa que você sabe que vai acontecer, mas ainda assim torce para que não seja tão ruim quanto parece. Eu achei que, com tudo planejado para o casamento, estaria a salvo de mais provocações, mas ela chegou antes, como quem diz: Eu sempre terei o controle.Quando ouvi o som do carro estacionando em frente ao palácio, meu coração disparou. Algo entre medo e irritação se misturava dentro de mim, mas me obriguei a respirar fundo. O poder que ela tinha sobre mim havia acabado. Era o que eu repetia a mim mesma como um mantra. Eu havia cumprido o acordo, dado a ela o que queria. Não havia mais espaço para receios ou críticas. Ainda assim, como uma tola, corri até a janela da sala de leitura, tentando parecer indiferente para os outros, mas curiosa o suficiente para ver aquele momento: ela saindo do carro.Meu pai, sentado ao fundo, soltou uma risada baixa, o que, por incrível que pareça, trouxe alívio. Tê-lo ali era um báls
Com a decisão de Alice de se incorporar à nossa causa, tudo finalmente começou a se encaixar. Depois de tanta espera, de tantas noites em claro tentando decifrar os enigmas do destino, as coisas começaram a se normalizar. Melhor ainda, com Alice fora dos corredores do palácio, aquele lugar finalmente parecia meu. Não havia mais aquela presença falsa e traiçoeira pairando sobre nós. Claro, ela fez questão de dizer que sua escolha tinha algo a ver com Nikolai, e só de ouvir isso meu coração ardia de ciúmes e raiva. Mas, de todas as mentiras que já saíram daquela boca, por que eu deveria acreditar nessa? Não, eu não deixaria que nada disso atrapalhasse a minha felicidade.Alice, no entanto, surpreendeu ao religir uma longa nota, expondo tudo. Desde o início, ela entregou nomes, planos e até os desejos mais sórdidos daqueles que traíram a coroa. Nem mesmo seu pai foi poupado. Para mim, não foi nenhuma surpresa. Ele sempre foi um traidor, e a única coisa que faltava eram provas. E ironica
Eu estava extremamente cansado, preocupado. Não conseguia nem sentir a felicidade que deveria vir com a chegada de um filho. Um filho real, não fruto de mentiras e manipulações. Uma mentira que só existia para me enlouquecer, me fazer sofrer, me humilhar. Que tipo de amor é esse?Sim, eu já errei. Continuo errando. E, com certeza, vou errar novamente. Mas não neste caso. Não vou permitir que me enredem novamente em armadilhas como essa. Não quando há alguém ao meu lado que merece minha lealdade. Que me ama verdadeiramente, sem jogos, sem intenções ocultas. Sophia. Ela é a única coisa que importa. Se o mundo inteiro deixasse de existir, seria tão mais fácil. Porque tudo o que eu preciso está nela.O mundo lá fora já não faz sentido. Mas todas as vezes que estou no meu escritório ou atravesso os corredores, sinto o peso das pessoas que dependem de mim. Ser herdeiro nunca foi simples. Ser rei ou príncipe é um fardo que só eu carrego. Não tive irmãos para dividir isso. Era apenas eu. Se
Sophia não queria trazer Alice de volta, mas sabia que era necessário. O plano não terminava ali, nem de perto. Mesmo com a farsa do bebê desmascarada, havia um caos a ser resolvido. E, já que Alice foi a responsável por iniciar tudo, seria ela quem terminaria.Ao retornar ao palácio, Sophia garantiu que Alice fosse acompanhada por uma escolta de seguranças. Não havia espaço para fugas ou surpresas. Alice, por outro lado, sentia-se sufocada pela presença constante. Deveria ter dito não, pensava agora. Poderia ter escapado, ter se pronunciado publicamente, mas na hora certa, o nervosismo a dominou e um “sim” escapou de seus lábios. Agora, ela estava ali. Perdida, como seu último trunfo, e com medo do que viria.O corredor do palácio parecia ainda mais longo do que ela se lembrava. O som de seus passos ecoava nas paredes frias, misturado com os dos seguranças que a acompanhavam. Ao chegar a um salão discreto, Sophia se virou para ela, os olhos determinados, mas quase impassíveis.— V







