LOGINExistem lugares sofisticados como esse que oferecem um ambiente de total discrição, lembrando a sensação de frequentar um clube privado britânico com muito estilo.
— Sentado no banco do carona, fecho a porta com firmeza, balançando a cabeça em sinal de reprovação antes de indagar: — E qual é exatamente a minha conexão com essa insanidade toda? Por que eu preciso ir junto? — Você não tem conexão direta nenhuma com o leilão em si, mas vai comigo pelo menos para conhecer o local, espairecer e assistir ao movimento — argumenta ele, virando a chave na ignição. — Depois que você assinar os papéis do casamento e estiver oficialmente laçado, eu sei muito bem que você jamais voltará a olhar para outra mulher na vida, então considere isso apenas como uma última noite de liberdade controlada, funcionando quase como um rito de passagem simbólico antes de iniciar esse novo capítulo definitivo da sua vida familiar. — Eu não sou esse tipo de homem fútil, Ricardo, não preciso desse tipo de estímulo tacanho — retruco com frieza. — Eu sei perfeitamente que você não é, meu caro — responde ele, mantendo um sorriso divertido no rosto enquanto manobra o carro para fora do aeroporto. — Mas convenhamos que você merece uma despedida que marque de verdade essa transição antes de vestir a aliança, como se fosse um último brinde cerimonial à sua longa vida de solteiro convicto. Permaneço em silêncio absoluto por alguns segundos prolongados, fitando o vidro da janela e observando a paisagem urbana de Curitiba passar rapidamente, até decidir retomar o assunto que, por mais absurdo que pareça, começa a despertar a minha curiosidade analítica. — E como diabos você ficou sabendo sobre a existência desse leilão e desses detalhes íntimos? — questiono, estreitando os olhos. — Uma acompanhante sofisticada com quem costumo sair de vez em quando em minhas viagens ao Brasil me contou tudo nos mínimos detalhes — responde ele sem o menor pudor. — Ela se chama Sabrina, é uma mulher lindíssima, extremamente agradável e inteligente. Foi exatamente ela quem mencionou que uma grande amiga sua está enfrentando uma situação financeira dramática e desesperadora. A família dessa garota está à beira de perder a única casa onde moram devido a dívidas acumuladas, e a jovem tomou a drástica decisão de leiloar a própria virgindade para conseguir levantar o dinheiro necessário para salvar a família, uma escolha extrema que infelizmente muitas garotas em situações de vulnerabilidade acabam adotando em busca de uma solução milagrosa. Volto a virar o rosto para encarando Ricardo profundamente chocado com o teor da revelação. — Então ela vai se prostituir friamente por dinheiro? É isso? Ricardo balança a cabeça lentamente, demonstrando certa ponderação. — Eu não vejo as coisas de uma forma tão simplista e cruel como você disse. Imagine que uma jovem de família simples, colocada contra a parede por um desafio financeiro colossal, como a iminência de ver os pais idosos e os irmãos despejados na rua sem um teto, decide fazer um sacrifício físico supremo para proteger a família? Não se trata de promiscuidade vulgar ou busca por luxo vaidoso; é uma escolha trágica baseada puramente na necessidade absoluta de sobrevivência. — É quase como se uma mãe, perdida no meio de uma tempestade de dificuldades, optasse por vender a última e mais valiosa joia de família que possui, apenas para garantir que os filhos tenham o que comer em casa. Muitas jovens enfrentam dilemas semelhantes ao tentarem assegurar o bem-estar de seus entes queridos. — No caso da amiga da Sabrina, segundo me asseguraram, será um ato único, a primeira e a última vez que ela pisará naquele lugar. Apoio pesadamente o braço na moldura da porta do carro, absorvendo as palavras dessa história com muito mais atenção e peso emocional do que gostaria de admitir publicamente. — E essa tal de Sabrina não se importa em expor a própria amiga a esse tipo de abismo? — perguntou, incrédulo. — Sabrina é apenas uma acompanhante com quem me divirto ocasionalmente, não sou dono da vida dela — responde de forma casual, focando no trânsito. — E pelo que me contou, a amiga dela é um caso completamente à parte, uma garota de índole totalmente diferente. Segundo os relatos, essa jovem é extremamente recatada, estudiosa e certinha, destoando completamente das mulheres que costumam frequentar esse meio. — A própria Madame Edith, a francesa sofisticada que gerencia a mansão, manifestou o desejo de que a garota ficasse contratada permanentemente, pois reconhece que o potencial estético dela é deslumbrante. No entanto, a garota deixou claro como a luz do dia que seu único e exclusivo objetivo é juntar a quantia exata para quitar a hipoteca da casa da família e sumir daquele ambiente para sempre, jogando suas últimas fichas em um jogo perigoso e desafiador. — Enquanto escuto, sinto um incômodo estranho alojar-se no fundo do peito, percebendo como histórias de desespero humano conseguem se infiltrar até mesmo nos círculos mais elitistas e frios da sociedade. — E você realmente planeja dar um lance financeiro nessa garota durante o leilão? — inquiro, com tom analítico. Ricardo sorri de canto, exibindo um brilho de desafio nos olhos. — Planejo, sim, desde que os lances dos outros milionários não subam a patamares absurdos e inacessíveis. A Sabrina fez questão de me garantir que a amiga é um verdadeiro espetáculo da natureza: possui um rosto angelical de boneca combinado com um corpo de deusa grega. — Estou extremamente curioso para ver de perto essa beleza rara reunindo toda a inocência e atração magnética, lembrando aquelas heroínas clássicas de romances cuja presença parece destinada a romper todas as regras do comum. Solto um longo suspiro frustrado, sentindo-me dividido entre o mais profundo desagrado moral e uma curiosidade mórbida e involuntária que começa a corroer as minhas defesas. — Tudo bem, eu vou com você para essa tal mansão — cedo, balançando a cabeça em sinal de derrota. — Mas deixo claro de antemão que não prometo participar de nada, muito menos pretendo comprar ou tocar em ninguém; afinal, tenho um compromisso sagrado com a minha noiva e jamais cometeria a loucura de traí-la na véspera do nosso casamento. Ricardo lança-me uma olhada lateral carregada de pura diversão e provocação. — Ah, meu caro amigo, mas quem é que consegue resistir quando a tentação está diante dos olhos? — diz ele, piscando de forma cúmplice. — Isso é o que vamos descobrir esta noite; afinal, você mesmo já passou horas repetindo aos quatro ventos que as mulheres brasileiras possuem uma beleza inigualável — argumento. — E o fato é incontestável! Já viajei o mundo inteiro fechar negócios, mas garanto que as brasileiras possuem a genética mais impressionante do planeta — gaba-se. — É como se cada detalhe do corpo delas tivesse sido esculpido milimetricamente pelos deuses para enfeitiçar qualquer homem, com curvas que parecem carregar um propósito secreto, um chamado magnético e irresistível impossível de ignorar. Ricardo irrompe em uma gargalhada franca, preenchendo o interior do veículo com sua alegria contagiante. — Então está rigorosamente decidido! Vou te deixar no hotel de luxo para tomar um banho e descansar da viagem. Assim que anoitecer, voltarei para te buscar, e vamos ver se o seu famoso autocontrole suíço é realmente tão inabalável quanto você gosta de pregar aos quatro ventos. — Não me dou ao trabalho de responder à provocação, limitando-me a voltar o rosto para a janela escura, fitando as luzes trêmulas de Curitiba que desfilam velozmente do lado de fora.UM ANO DEPOISUm ano inteiro se passa desde o nascimento abençoado do nosso pequeno, e quando paro para olhar para tudo o que aconteceu na minha vida desde o dia em que conheci o André nos corredores da empresa, às vezes tenho a nítida sensação de que vivi várias vidas completas dentro de uma só. — Neste momento, nós estamos nos Estados Unidos, passando uns dias maravilhosos de férias na casa da Nina e dos nossos amigos, e existe uma paz e uma leveza no meu peito que são muito diferentes de tudo o que eu conhecia antes. — Não é que seja uma vida perfeita ou sem problemas, porque nenhuma vida real é assim, mas agora tenho ao meu redor pessoas queridas que escolhi amar e que também escolheram permanecer na minha vida para sempre.A Márcia está grávida, radiante, e o Ricardo parece simplesmente incapaz de esconder o orgulho e o amor que sente quando olha para ela.— Observo os dois conversando no jardim e me recordo com carinho daquela ligação desesperada em que ele pediu a nossa ajud
Olho para o André e vejo os seus olhos se arregalarem em choque. — Ainda existem fichas burocráticas sendo preenchidas no balcão, perguntas sendo feitas e toda a papelada do hospital que parece ter escolhido justamente aquele segundo de correria para existir. — Meu marido olha desesperado para a minha mãe e praticamente implora com as mãos juntas:— Dona Alda, pelo amor de Deus, venha terminar de preencher essas fichas por mim! Eu preciso ir ver o meu filho nascer agora mesmo!Meu pai observa a cena toda com o peito cheio de orgulho e sorri para o André, visivelmente emocionado com a atitude do genro.— Vai lá com a sua esposa, meu filho, você vai ser um pai maravilhoso. Um homem que faz questão de estar presente em cada segundo do nascimento já está começando a paternidade do jeito mais bonito e certo. É assim mesmo que tem que ser, André não precisa ouvir mais nenhuma palavra. Ele vem correndo comigo pelo corredor, e saber que meu marido estará exatamente ao meu lado durante tod
SABRINAAndré está dormindo profundamente ao meu lado, completamente alheio ao fato de que a nossa vida está prestes a mudar drasticamente mais uma vez. — Eu, ao contrário dele, já não consigo pregar os olhos há algum tempo. — Minha bolsa estourou no meio da madrugada, as primeiras contrações rítmicas começaram a dar os seus sinais e, enquanto meu marido continuava entregue a um sono pesado e tranquilo, consegui me levantar devagar, me arrumar com calma, conferir cuidadosamente as bolsas maternidade com as coisas que precisamos levar para a maternidade e avisar meus pais por telefone de que finalmente chegou o momento que todos nós estamos esperando ansiosamente há longos meses. — Agora, encostada na cabeceira, olho para o relógio digital no criado-mudo e vejo que já são cinco horas da manhã. Respiro fundo, prendendo o ar quando mais uma onda forte de contração vem cortando o meu ventre e, assim que ela passa me dando uma trégua, volto minha atenção para o homem adormecido ao meu l
Olho para Sabrina sem reação, depois baixo o meu olhar para a sua barriga que agora parece tão evidente aos meus olhos, e volto a olhar para o pequeno papel que continuo segurando firmemente na mão, tentando entender como quatro meses inteiros se passaram sem que eu me desse conta de que o nosso filho já estava caminhando conosco.— Durante todo esse tempo, desde os primeiros dias, ele esteve ali, silencioso, crescendo e se fortalecendo dentro dela enquanto nós dois seguíamos a nossa rotina diária de trabalho, fazíamos os nossos corre do dia a dia, fazíamos planos para o futuro e conversávamos sobre os nossos projetos sem que eu sequer imaginasse que a parte mais sagrada desse futuro já estava sendo gestada com tanto amor.— Nesse mesmo segundo, a lembrança viva da nossa lua de mel dos sonhos em Fernando de Noronha surge imediatamente na minha memória. — Recordo-me perfeitamente de Sabrina olhando nos meus olhos na praia e dizendo com toda a certeza da alma que queria envelhecer ao
ANDRÉChego em casa no fim do dia e basta olhar para Sabrina para perceber que existe alguma coisa completamente diferente no ar.— Minha esposa está com aquela expressão que já aprendi a reconhecer muito bem ao longo do nosso tempo juntos: uma mistura perfeitamente visível de ansiedade, felicidade pura e uma tentativa quase inútil e engraçada de parecer natural. — É exatamente a mesma cara que ela faz quando está aprontando alguma surpresa ou quando tem um segredo guardado e quer desesperadamente que eu descubra sozinho, embora tente se controlar com todas as forças para não entregar o jogo antes da hora.— Fico observando seu rosto radiante por alguns segundos e quase pergunto imediatamente o que aconteceu, porque conheço Sabrina o suficiente para saber que aquela mulher intensa não consegue esconder por muito tempo quando está transbordando de empolgação com alguma coisa.Ela saiu mais cedo da empresa no resort hoje, mas durante todo o meu caminho de volta para casa não imaginei
Olho para a Márcia e percebo o quanto toda aquela situação violenta mexeu com as emoções dela.— A minha vontade imediata é abraçar e proteger de tudo, mas sei que não adianta transformar a minha revolta pessoal em mais uma voz alterada dizendo o que ela deve ou não fazer. Aproximo-me devagar, pego suas mãos trêmulas e seguro seus dedos com carinho.— Márcia, olha para mim, você está bem?— Estou, Sabrina, só estou muito nervosa com tudo isso. Eu realmente não esperava que ele aparecesse do nada e fizesse esse escândalo todo.— Eu imagino perfeitamente, mas quero que você entenda uma coisa muito importante, Márcia: — você não precisa fazer absolutamente nada porque ele quer.— Não precisa voltar, não precisa dar explicações, não precisa conversar se não quiser e muito menos se sentir culpada porque escolheu seguir a sua vida em paz. — A decisão final é única e exclusivamente sua.Ela respira fundo, tentando conter o tremor na voz, antes de responder com firmeza.— Eu não quero vo







