INICIAR SESIÓNOs dias que se seguiram ao meu desmaio foram um teste à minha capacidade de atuação e adaptação. A princípio, os Lobos Brancos me trataram com uma mistura de cautela e curiosidade. Eu era um enigma: uma menina perdida, aparentemente frágil, que havia surgido misteriosamente em seu território. Mas meu treinamento militar e minha familiaridade com a natureza selvagem me permitiram disfarçar a surpresa e o medo genuíno, mantendo a persona da menina assustada e perdida.
Fenris, oO dia da partida começou antes mesmo de o sol dar as caras no horizonte. A névoa espessa da manhã ainda cobria o pátio do castelo quando o som de cascos de cavalos, metal se chocando e ordens sendo gritadas no tom firme dos sargentos tomou conta de tudo. A mansão ducal de Renatus, que passara três longos meses de inverno mergulhada em um silêncio quase sepulcral, parecia agora uma colmeia furiosa prestes a transbordar. Eu estava parada perto das escadarias de pedra da entrada principal, ajustando as luvas de couro macio nas mãos enquanto observava o caos organizado da arrumação. Dalila estava ao meu lado, segurando uma capa de viagem pesada e resmungando baixinho a cada baú que os servos carregavam com dificuldade para a traseira das carruagens. — Se levarem mais um baú de vestimentas da Lady Sofia, os cavalos vão ter que ir arrastando as patas no chão, minha senhorita — comentou Dalila, fingindo ajeitar a gola do meu vestido só para disfarçar o riso. — Parecia até que a moça não ti
As semanas seguintes à chegada de Sofia viraram uma verdadeira maratona para tentar manter a minha sanidade em dia. O inverno no Ducado de Renatus parecia não querer ir embora nunca. Foram três longos meses de neve caindo lá fora, deixando a gente trancada dentro do castelo. O tempo passava devagar para o mundo, mas para mim parecia que os dias voavam na minha frente, me empurrando direto para aquilo que eu mais temia: a abertura da temporada social na capital do Reino de Fênix. Meu objetivo principal durante todo esse inverno foi um só: manter a Sofia o mais longe possível do prado leste e do pessoal do Feryr. Só de imaginar a minha prima perto dos Lobos Brancos meu estômago já dava nós. Então, eu fiz o que qualquer pessoa desesperada faria: joguei o jogo dela. Arrastei a menina para os salões internos, mostrei joias antigas que a minha mãe emprestou com o coração aberto para ela ajeitar as roupas velhas, e passei horas ouvindo o falatório dela sobre a nobreza da cidade.
A noite que se seguiu ao meu encontro com Feryr no prado leste trouxe consigo um silêncio denso e quase antinatural, daqueles que antecedem a ruína ou a redenção. Dormir fora um luxo ao qual meu corpo se recusara; cada vez que fechava os olhos, o cheiro de fumaça e o som de lâminas colidindo voltavam a ecoar na minha mente com a precisão de uma memória entalhada a ferro quente. No entanto, quando a alvorada de um novo dia finalmente rompeu a névoa fria do Ducado de Renatus, trazendo o aroma acre da terra molhada e do carvalho úmido, algo no ar parecia ter mudado. O sol de meio-dia já começara a declinar quando os portões de ferro do castelo ducal rangeram pesadamente sobre suas dobradiças de bronze. Do alto da minha janela, apoiando as mãos no peitoril de pedra fria cuja aspereza raspava a palma das minhas mãos, vi a comitiva se aproximar. À frente do contingente de cavaleiros trajando armaduras prateadas com o brasão de Renatus, cavalgava meu pai. O Duque de Renatus, Lorde Theron
O pôr do sol tingia o céu de um roxo profundo e denso, quase como uma ferida aberta sobre as montanhas. A custo de muito esforço, consegui descer até o prado leste para supervisionar o acampamento dos Lobos Brancos, que se erguia passo a passo diante dos meus olhos. Meu pai cedera a contragosto — mais pela insistência da minha mãe e por sua carta de advertência, longa e cirúrgica, cravando a ameaça de que eu poderia simplesmente desaparecer em prol das minhas ideias de salvar o ducado. Ainda montada, sentindo a vibração quente e arfante do meu cavalo entre as pernas, observava Feryr. Ele ajudava a erguer as grandes tendas de couro cru. Suas vestes cobriam apenas a parte inferior do corpo, o que, para os bons costumes do nosso povo, beirava a afronta. O suor espesso escorria por seus ombros largos, brilhando sob a réstia de luz solar que se esvaía. Seus músculos se contorciam em movimentos rápidos e precisos enquanto ele erguia e descia o machado, cortando estacas no chão. Ele par
◆◇ 12 ◇◆Os portões grandes de madeira e ferro se abrem vagarosamente. Os soldados a postos pularam de alegria ao ver Hugo. Mesmo que já tivessem enviado um mensageiro avisando da bandeira branca, todos estavam com os nervos à flor da pele. Sorrio pela janela da carruagem para os guardas, que batem continência assim que passamos pelo posto.— Mesmo pequena desse jeito, é bem respeitada. — Estreito os olhos na direção de Feryr, que parece conter o riso. Ele acha essa situação atual engraçada?— Eu sou a futura Duquesa dessas terras, obviamente eles me respeitam. — Sou orgulhosa por ter pessoas a quem demonstrar minha legitimidade. Antes, quase não havia mais ninguém da minha terra vivo. E os poucos que eu encontrava morriam um a um por conta dos planos de Milton.— Ainda falta muito para ser a duquesa. — Sei que ele não fala por mal, mas ainda sinto um certo aperto no peito. Fico em silêncio observando as ruelas cheias; a vida dentro das grandes muralhas não parece parar nunca. Ainda v
◆◇ 11 ◇◆Observando a tenda já organizada, o contraste era absoluto. O luxo da tenda ducal, com seus tapetes orientais e mapas de pergaminho, colidia com a presença rústica dos Lobos Brancos. Meu pai, sentado na ponta da mesa larga e longa, revelava um rosto cansado, e o líder dos Lobos Brancos também tinha uma expressão de exaustão extrema.Faz pelo menos quinze minutos que estamos em um impasse entre acreditar ou não em minhas palavras sobre os acampamentos mercenários contratados pelo atual herdeiro para atacar pontos do ducado e colocar a culpa nos Lobos Brancos.— Só me escutem...— Kendra, vamos conversar sério agora. Essa é uma acusação muito grave. Como obteve essas informações? — Não consigo levantar o olhar, mas também não posso deixar que aquela tragédia aconteça de novo. Sinto minha espinha arrepiar e meus olhos marejarem ao mesmo tempo. Como cheguei a esse ponto?— Eu vi em meus sonhos — sussurro. Não quero ser julgada como louca, mas não há como ficar nesse debate para s