Compartir

CAPÍTULO 2

last update Fecha de publicación: 2025-11-23 06:42:37

MORGAN

Eu nunca imaginei que minha vida pudesse se transformar num campo de silêncio — daqueles que pesam, que esmagam, que deixam marcas invisíveis no corpo.

Mas desde que Delila fechou aquela porta atrás de si, meses atrás, tudo dentro desta casa se tornou barulhento demais e, ao mesmo tempo, insuportavelmente quieto.

—O choro de Louise ecoava pelos corredores, uma súplica aflita que eu não sabia como acalmar.

E quando ela finalmente se exaustava, quando caía em meus braços e adormecia agarrada à minha camisa, o resto da casa parecia um mausoléu.

Nesta manhã, o choro dela começou ainda antes do sol nascer. — Acordou assustada, soluçando, chamando por mim com aquela voz miudinha que se parte em cacos quando está nervosa.

—Eu a trouxe para o escritório, sentei-a no meu colo e tentei embalá-la, mesmo com o laptop aberto, reuniões atrasadas e contratos que eu deveria ter lido há três dias.

— Papai… eu quero ir trabalhar com você… — ela sussurrou, escondendo o rosto no meu pescoço.

Aquela frase, que deveria ser doce, pesou como chumbo no meu coração. Minha filha de cinco anos estava tão desesperada para não ficar sozinha que preferia vir para uma sala cheia de papéis, telas e silêncio, só para não precisar enfrentar o vazio que ficou desde que a mãe dela foi embora.

A porta bateu duas vezes. Eu já sabia o que era. A quinta vez em seis meses.

— Senhor Alpert… — a babá começou, hesitante, segurando a bolsa contra o corpo. — Eu… eu preciso ir embora.

Senti Louise endurecer nos meus braços, como se pudesse pressentir o abandono antes mesmo de ouvir o motivo.

— Não é nada pessoal… — continuou a mulher, claramente constrangida. — Mas eu não consigo mais. A Louise não me deixa sequer me aproximar. Ela chora sem parar. Não me permite tocar, nem cuidar dela. Eu sinto muito, senhor, mas eu não tenho condições de continuar.

Fechei os olhos por um instante. A quarta babá tinha pedido demissão nos mesmos termos. A terceira mal durou quinze dias. A segunda saiu chorando. A primeira alegou “esgotamento emocional”. Todas tentando contornar o mesmo problema: minha filha não aceitava ninguém. Desde junho, desde o divórcio, desde que Delila entrou no meu escritório com um olhar entediado, como se estivesse assinando o recibo de uma entrega qualquer.

Eu inspirei lentamente antes de responder:

— Entendo. Obrigado pelo tempo dedicado. Eu vou providenciar seus direitos. Pode ir.

Ela foi embora apressada, como se fugir da casa fosse um alívio. Eu senti a respiração de Louise acelerada contra meu peito, e percebi que, mesmo sem entender tudo, ela sabia que havia sido deixada mais uma vez.

Levantei-me com ela no colo, andando devagar pelo escritório para tentar acalmá-la.

— Papai está aqui — murmurei. — Eu não vou sair, meu amor. Você está segura comigo.

Ela soluçou mais uma vez, agarrou minha camisa com força e enfim relaxou, mesmo ainda tremendo.

Chamei por Yuko, a governanta. Ela apareceu na porta poucos minutos depois, sempre impecável, com aquela postura contida, silenciosa e eficiente que só quem vive há muitos anos servindo famílias ricas consegue manter.

— Senhor Alpert? — ela falou, inclinando a cabeça.

— A babá pediu demissão. Outra vez. E eu não posso continuar levando Louise para o escritório todos os dias. Ela precisa de alguém. Mas dessa vez… — suspirei, sentindo o peso da responsabilidade esmagar meus ombros — …dessa vez eu quero que você selecione pessoalmente. Quero alguém especializado, Yuko. Alguém que entenda crianças do espectro autista. Que tenha experiência com seletividade afetiva. Que saiba o que está fazendo.

Yuko assentiu, séria.

— E quanto às condições, senhor? A nova funcionária virá todos os dias ou…

— Não. Ela precisa morar aqui — respondi sem hesitar. — Não posso arriscar. Louise não suporta separações. Quero alguém que esteja sempre acessível a ela. Folgas aos domingos. Nesse dia eu cuidarei da minha filha. E mais uma coisa: quero alguém que não tenha filhos. Nem família grande. Quero dedicação integral.

Yuko anotou mentalmente tudo, como sempre fazia.

— Eu entendi, senhor. Começarei a seleção imediatamente. Assim que encontrar a candidata certa, enviarei ao senhor.

— Obrigado, Yuko.

Ela saiu, deixando a porta encostada. E foi nesse silêncio breve que o passado me atropelou como um trem desgovernado.

Eu ainda lembro daquele dia como se tivesse acontecido esta manhã. Delila entrando no meu escritório com as unhas feitas, a maquiagem impecável e uma expressão entediada, como se estivesse sendo obrigada a repetir um script que achava ridículo.

— Precisamos conversar — ela anunciou, jogando uma pasta sobre a mesa. — Já assinei. Só falta você.

Minha mão gelou ao tocar os papéis.

— Divórcio?

— Sim. Estou indo embora. Vou morar na Inglaterra. Não nasci para ser mãe, Morgan. E você sabe disso. A Louise é uma criança… difícil. Chorona. Cansativa. Eu não tenho paciência para isso. Nunca tive.

Meu sangue ferveu.

— Nós temos uma filha de cinco anos. Você vai simplesmente jogar sete anos de casamento fora?

Ela riu. Riu. Como se eu tivesse contado uma piada ruim.

— Morgan, dos sete anos, só vivi dois. Depois da gravidez, minha vida virou um inferno. Você queria filhos, eu te dei um. Mas eu não quero mais essa responsabilidade. Ela não é uma criança normal. Ela não gosta de mim. Ela não se conecta. Eu não tenho estrutura para isso. Eu quero viver.

— E você já tem alguém — concluí, encarando aquele brilho triunfante nos olhos dela.

— Isso não importa. O que importa é que estou pedindo o divórcio. A guarda total é sua. Está no documento. Não quero pensão. Não quero nada. Meu futuro marido é um lorde inglês, ele vai me dar tudo.

Algo dentro de mim se quebrou.

— Não se arrependa — avisei, com a voz baixa, grave. — Porque se você voltar atrás, eu não volto.

— Não se preocupe — ela respondeu, pegando a bolsa e ajeitando os cabelos. — Eu nunca volto atrás.

Assinei.

Ela foi embora.

E o silêncio que ela deixou não terminou até hoje.

Louise puxou minha barba levemente, me trazendo de volta ao presente.

— Papai… — ela murmurou, com os olhos azuis brilhando de um jeito que sempre me desmonta — …eu te amo, papai.

Apertei-a contra o peito, sentindo o calorzinho dela derreter um pouco da dureza que o mundo me colocou nos ombros.

— O papai também te ama, minha menina.

— Papai… você vai trabalhar? — ela perguntou, encostando a testa no meu queixo.

— Vou, meu amor, o papai precisa trabalhar um pouquinho.

— Eu fico aqui? — ela insistiu.

Olhei para o pequeno tapete onde ela sempre montava suas torres, suas fileiras organizadas, seu mundo particular que poucos conseguiam entrar. E sorri.

— Fica aqui com a Bárbara — a bonequinha favorita dela. — Sirva chazinho para ela, o papai termina logo logo.

— Depois você toma chá comigo? — ela perguntou, com aquela esperança tão pura que quase dói.

Acariciei sua bochecha.

— Depois o papai toma chá com você, sim.

E assim começou o dia em que tudo mudaria.

O dia em que Lélia entraria na nossa vida.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####EPÍLOGO FIM

    O TEMPO E O AMOR.Com o passar do tempo, a vida encontrou seu lugar ideal, e os anos se desenrolaram silenciosamente, como um rio que flui tranquilamente, sem pressa de chegar ao seu destino. Louise, já com dezenove anos, continuava a ser uma presença marcante e vibrante, a energia dela no ambiente era como luz do sol atravessando a copa das árvores. — Estudante de Psicologia na universidade, ela se aprofundava nos mistérios da mente humana, fascinada pelas complexidades do comportamento e das emoções, sempre pronta para debater novas ideias com seus colegas ou oferecer conselhos a amigos e familiares. Enquanto isso, Harik, adentrando a adolescência, buscava entender sua verdadeira identidade em meio às inquietações dessa fase transformadora. — Ele frequentemente se via imerso em pensamentos sobre seus sonhos para o futuro, como um navegador em um vasto mar de possibilidades, considerando se tornar um músico que cativa corações com suas letras ou u

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####CAPÍTULO 75

    A família que construímos ao longo de cinco anos foi moldada por momentos emocionais que ganharam um significado profundo, transformando-se em recordações que vão além da rotina diária.— Cada riso compartilhado, cada lágrima enxugada, e cada desafio superado contribuíram para o elo inquebrável que formamos. Naquele fim de tarde, Morgan entrou em casa com um sorriso sereno, uma expressão que se tornou familiar conforme encontramos nosso equilíbrio familiar—como um barco que finalmente navega suavemente após enfrentar uma tempestade. — O calor de seu sorriso irradiava uma sensação de paz, como se dissesse sem palavras que tudo ficaria bem. Hariki, agora com cinco anos, correu pelo corredor ao ouvir meu chamado, seus pequenos pés tocando o chão com a pressa de quem traz uma entrega especial, como um foguete de alegria decolando em meio à vastidão de nossas vidas cotidianas. — Havia uma energia contagiante em seu entusiasmo, um sentimento de que algo

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####CAPÍTULO 74

    A REDENÇÃO Os meses se passaram desde que Delila deixou nossa casa.—  O tempo fez o que os remédios sozinhos não teriam conseguido: trouxe de volta não apenas a saúde dela, mas também um novo sentido para viver. Quando a vi pela primeira vez em seu próprio apartamento, caminhando com facilidade, com um olhar firme e um corpo que já não exibia os sinais da doença, percebi que aquela mulher não era mais a mesma que havia entrado em nossas vidas, repleta de orgulho e ressentimento.—  Algo dentro dela havia sido reconstruído, como se cada uma de suas experiências passadas se transformasse em parte de uma nova fundação.A Fundação Pequena Louise — O Amor Cura Tudo surgiu nesse mesmo espírito.— Não foi motivada por vaidade ou desejo de redenção pública, mas por um compromisso silencioso com aqueles que sofrem. Delila e eu tomamos decisões juntos, Morgan ajudou a angariar investidores, e outras pessoas se juntaram à causa. 

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####CAPÍTULO 73

    Após anos de experiência como professor de Português, pude identificar erros na frase e corrigi-los para garantir que ela se tornasse clara e bem elaborada. — A reflexão sobre minha vida ao lado de Delila revelou o quão imprevisível é o destino. Jamais imaginei que estaria cuidando dela dessa maneira. —Se alguém me tivesse dito, meses atrás, que eu me encontraria ao lado de sua cama, ajeitando o travesseiro e observando sua respiração frágil enquanto Louise lia uma história para ela, eu teria colocado em dúvida a sanidade dessa pessoa. Por exemplo, as conversas que antes eramos capazes de ter sobre suas conquistas e planos para o futuro agora eram substituídas por silêncios cheios de dor. — Entre nós existia uma dor imensa, marcada por palavras não ditas e gestos que feriam mais do que qualquer agressão física. As lembranças de momentos felizes contrastavam com a realidade atual, intensificando ainda ma

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####CAPÍTULO 72

    QUANDO O AMOR SE TORNA CURA ( Lélia) Meses se passaram, e a casa havia se transformado de maneira surpreendente. — O silêncio opressivo, que antes pairava como uma névoa densa sobre todos os cantos, e a tensão constante, que tornava cada interação tensa e repleta de desconfiança, começaram a dar lugar a uma convivência mais harmoniosa. Era como se, após uma longa e tumultuada tempestade interna, a vida daquela família tivesse encontrado um momento de serenidade, permitindo que cada membro descobrisse um novo lugar e um novo propósito dentro do lar, onde cada espaço agora carregava a energia renovadora das reconciliações.— As paredes passaram a abrigar não mais ecos de discussões, mas risos e conversas tranquilas, como se tivessem feito um pacto silencioso de acolhimento. A rotina se ajustou de forma quase natural, fluindo como um rio que se molda ao terreno que percorre. — Esse novo ritmo, mais humano e verdadeiro, incorporava

  • BABÁ PARA MINHA FILHA    ####CAPÍTULO 71

    QUANDO A DIGNIDADE ENTRA EM CASA LÉLIA Quando Delila chegou à nossa casa, ela não era mais a mulher que havia tentado nos destruir, nem a ex-esposa que havia ferido Morgan e abandonado Louise. — Havia algo frágil e abatido nela, quase uma sombra do que um dia fora. O peso da vida tornou-se insuportável, e a doença a privar até do brilho da sua personalidade carismática. — O silêncio que a envolvia falava mais do que qualquer pedido de desculpas poderia expressar, um testemunho sombrio de remorsos e arrependimentos. Observava-a com um olhar atento, decidido a não emitir julgamentos; mas mesmo assim, a compreensão vinha acompanhada de um turbilhão de emoções. — Naquele instante, percebi que cuidar é um gesto genuíno de coragem, que desafia a lógica e confronta os fantasmas do passado. Preparei o quarto com carinho, quase como se estivesse organizando um espaço sagrado, um santuário que oferecesse abr

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status