INICIAR SESIÓNRafael a observou com uma calma cortante.
— Então eu te destruo, Valentina. Com a mesma elegância com que te dei o sobrenome. O vinho no copo dela tremeu, como se o próprio cristal tivesse sentido o impacto. A comida chegou, mas ninguém tocou. O silêncio entre eles não era vazio era vivo, elétrico. O garçom afastou-se rápido, como quem pressente o início de uma tempestade. Rafael tomou um gole de vinho e recostou-se na cadeira. — Não quero guerras, Valentina, não tenho tempo para brincar com você, tenho um império para gerir e você se lembre, seja a mulher perfeita diante das câmeras qualquer movimento em falso seu, você vai mais fundo do que um dia pensou em ir. — Então, não tenho escolhas? Ele sorriu, frio. — Não. Do lado de fora, a garoa engrossava. A cidade parecia desaparecer sob o vidro. Valentina observou o reflexo dele na janela imponente, seguro, e, ainda assim, humano o bastante pra revelar uma sombra de solidão. Por um instante, quis entender quem era o homem por trás do monstro. Mas o pensamento morreu rápido. Duas horas depois do almoço de casamento, Valentina estava parada diante dos portões de ferro da mansão Montenegro. O carro preto, discreto e caro, parou com precisão milimétrica diante da entrada. O motorista não disse uma palavra. O silêncio do trajeto ainda ecoava dentro dela aquele tipo de silêncio que fala mais do que mil insultos. A assistente de Rafael, Clara, abriu a porta com a eficiência de quem cumpre uma tarefa desagradável. — O senhor Montenegro pediu que eu a deixasse em casa. A voz dela não carregava emoção alguma. — A partir de agora, esta é a sua residência. Residência. A palavra soou amarga, quase uma ironia. Valentina olhou o portão à frente, o brasão da família gravado no ferro e polido até brilhar. Um emblema de poder, história e arrogância. E ela, a nova “senhora Montenegro”, parada do lado de fora, com a mala de couro nas mãos e o coração latejando. Sua antiga casa, no Jardim Europa, estava interditada. Um lacre oficial, com letras vermelhas, cobria o portão: EMBARGO JUDICIAL. Aquela tinta vermelha parecia sangue. Nem a morte dos pais, nem o casamento forçado, nem a frieza de Rafael haviam doído tanto quanto ver o nome Diniz apagado por burocracia. Engoliu o nó na garganta e deu o primeiro passo. Os portões se abriram com um estalo seco, o som de um veredito sendo cumprido. A mansão era um monumento ao excesso. Colunas de mármore branco sustentavam varandas imensas. Esculturas importadas decoravam os jardins simétricos demais para parecerem vivos. O ar tinha cheiro de jasmim caro e desdém. Clara caminhou à frente, sem olhar para trás. — Dona Vittoria a espera na sala principal. O coração de Valentina acelerou. Já sabia o que a aguardava. Só não sabia o quanto iria doer. O interior da casa era impecável e gelado. Tapetes persas, cortinas de veludo, vasos que pareciam jamais ter sido tocados. Nada ali tinha cheiro de lar; tudo cheirava a poder. Quando entrou no salão principal, viu Vittoria Montenegro de pé diante da lareira. A mãe de Rafael era a personificação da nobreza que se acredita eterna: um vestido de seda creme, o cabelo preso em um coque que não admitia falhas, joias discretas, mas que denunciavam fortuna antiga. O olhar... o olhar era de quem nasceu no topo e nunca precisou descer para respirar. Vittoria demorou-se antes de falar, observando-a como quem avalia uma obra barata em meio a peças raras. — Então é você. Disse, enfim, com uma calma que gelou o ar. — Ainda não sei por que Rafael te escolheu, com tantas opções melhores que você. O silêncio se estendeu por segundos que pareceram minutos. Ela inclinou levemente a cabeça, estudando-a como se procurasse uma falha visível. — Mais bonitas... acrescentou, saboreando cada palavra — e mais ricas. Valentina manteve o corpo ereto, o queixo erguido, mas sentiu o rosto arder. Tentou sorrir, o tipo de sorriso que disfarça feridas. Virou-se lentamente, pegando uma taça de vinho tinto deixada sobre a mesa. O cristal refletiu a luz dourada do salão, e por um instante Valentina viu ali o reflexo da própria fragilidade. Vittoria bebeu um gole, saboreando como quem encerra uma discussão. — Eu sempre imaginei Rafael se casando com Isabella Moretti. Continuou. — Você deve conhecer o nome. Família italiana, dona de bancos, refinada... e com um sobrenome digno do nosso. Deu outro gole, sem pressa. — Mas, em vez disso, ele me aparece com uma advogada enlutada, falida e sem um centavo. Cômico ou trágico? Valentina respirou fundo. Cada palavra da mulher parecia cuidadosamente afiada. O olhar dela era uma faca envolta em seda. — Aqui dentro, as aparências importam mais do que sentimentos. Cumprir o papel é o mínimo, se fazer meu filho passar vergonha, lembre-se que não tem nem nome, nem dinheiro algum para contar. Valentina quis responder. Quis gritar que não era uma boneca de exposição, que já havia enfrentado o luto, a falência e a solidão, mas ainda estava de pé. Mas algo no tom de Vittoria, naquela autoridade fria de quem comanda impérios e destrói reputações com um telefonema, a fez calar. — Como queira,senhora Montenegro— respondeu, por fim, num fio de voz que ainda carregava orgulho. — Farei o que for necessário para honrar o nome Montenegro. A mãe de Rafael sorriu, satisfeita. — Ótimo. Porque, minha cara, esta casa não tem espaço para escândalos. Aprenda a se comportar. O golpe veio limpo, certeiro. Valentina respirou fundo, mantendo a compostura. Por dentro, cada palavra queimava. Clara se aproximou e indicou discretamente a escada de carvalho. — O quarto da senhora fica no segundo andar. Ao lado do gabinete do senhor Montenegro. Valentina assentiu, mas antes de subir, sentiu o olhar de Vittoria cravado em suas costas. Era como um lembrete: você pode estar casada, mas nunca será uma Montenegro. Começou a subir os degraus, um a um. Os saltos batiam no chão com um som oco, quase ritualístico. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. No meio da escada, parou. Do andar de baixo, ouviu Vittoria conversar ao telefone, a voz suave como veneno diluído: — Sim, Isabella, querida. Ele se casou, mas você sabe como são os homens. Nada é permanente. E você sempre será a verdadeira e única senhora Montenegro. Subiu o resto dos degraus em silêncio. O corredor do segundo andar era longo e perfumado com lavanda. As paredes estavam repletas de retratos da família, homens de terno, mulheres com joias pesadas. Nenhum olhar acolhedor. Nenhum sorriso. Quando abriu a porta do quarto, o ar lá dentro era frio, quase estéril. O lugar era imenso, mas vazio de vida. As cortinas ainda estavam fechadas, o lençol esticado com precisão militar, e havia um vaso de lírios brancos sobre a cômoda, flores de luto. Por um instante, ela pensou em sair correndo. Mas lembrou-se do contrato, do milhão, da casa embargada, e da imagem do pai no caixão. Tudo isso a prendeu ali, mais do que qualquer chave. Sentou-se na beira da cama. O coração ainda batia no ritmo da humilhação. O silêncio da mansão parecia uma coisa viva, um monstro que se alimentava de fragilidade. Pegou o celular, abriu a galeria e viu a foto dos pais mais uma vez. Os olhos deles sorriam. Os dela, agora, não. — Eu vou sobreviver. Sussurrou, quase sem som. — Nem que precise aprender a viver no inferno. O relógio de parede marcou o tempo com pontual crueldade. Valentina ficou ali por minutos que pareciam horas, ouvindo o som abafado dos passos que vinham do andar de baixo. Cada ruído da casa parecia observá-la — o estalar da madeira, o murmúrio distante das vozes de empregados, o chiado do fogo na lareira. Tudo naquela mansão respirava vigilância. Levantou-se e abriu as cortinas. O jardim dos Montenegro se estendia como um quadro pintado em tons de cinza e verde. As estátuas pareciam olhar em sua direção. Um corvo pousou sobre uma das colunas, e por um instante ela teve a sensação incômoda de que o destino estava rindo dela. O espelho no canto refletia sua própria imagem — e nada da mulher que fora em Harvard, nas salas de tribunal ou nos cafés de Boston parecia ter sobrevivido. Ali, diante de seu reflexo, ela não era Valentina Diniz, advogada brilhante e herdeira de um império jurídico. Era apenas um corpo com um sobrenome emprestado. Abriu a mala e começou a guardar as poucas roupas no closet. Tudo ali tinha o cheiro de ordem, de controle, de ausência. Do corredor, ouviu um som metálico: passos. A maçaneta girou. Por um segundo, achou que fosse Rafael. Mas era Clara. A assistente entrou sem cerimônia, trazendo uma pequena bandeja. — O jantar será servido às vinte. Disse pousando o prato sobre a mesa. — O senhor Montenegro pediu que descanse. Amanhã será um dia importante. Valentina observou o prato. Uma sopa e um pedaço de pão. — Não estou com fome. Clara deu um meio sorriso, o tipo de sorriso que carrega desprezo disfarçado. — A senhora vai precisar se acostumar a comer o que for servido. Aqui, as vontades pessoais costumam ter pouca importância. A resposta ficou presa na garganta. Antes que Valentina pudesse reagir, Clara já havia saído. Ao anoitecer olhou para o relógio que marcava 19h47. Do lado de fora, a garoa começava a cair, e o som das gotas contra o vidro era quase hipnótico. Ela foi até a janela outra vez. Lá embaixo, o portão de ferro se fechava devagar. E um carro preto entrava a família Montenegro começava a chegar para o jantar. Aquela visão bastou para entender que não havia saída.Terminou de se arrumar, ela sorriu para o espelho. — Talvez se eu treinar agora, seja mais fácil com o passar dos tempo. Ela riscou no calendário em cima da mesinha de cabeceira o dia de hoje. — Onze de março de dois mil e vinte e cinco. Faltam onze meses e vinte e nove dias. Após isso saiu do seu quarto o relógio já se aproximava das 20h.A sala de conselho da Montenegro estava cheia.Não cheia de barulho — cheia de peso.A mesa oval de madeira escura refletia as luzes frias do teto, e ao redor dela estavam sentados homens e mulheres que não sorriam com facilidade. Diretores. Conselheiros. Acionistas. Gente acostumada a derrubar impérios com uma caneta.Augusto Montenegro entrou primeiro.Sem pressa.Sem pedir licença.Sentou-se na cadeira central — a da presidência — como se nada tivesse mudado. Como se o mundo ainda obedecesse ao gesto simples de ocupar aquele lugar.Rafael entrou logo depois.Não foi apresentado.Não precisou.Sentou-se à direita do pai, postura ereta, expressão neutra. O tipo de neutralidade que não pede aprovação.Enzo e Helena já estavam ali.Helena mantinha o queixo erguido, os olhos atentos demais, calculando tudo. Enzo, relaxado demais para quem dizia não se importar, girava uma caneta entre os dedos com um meio sorriso entediado.O secretário iniciou a reunião.— Senhores, após o evento de on
Valentina acordou devagar.Não foi um despertar brusco — foi como voltar à superfície depois de muito tempo submersa. Primeiro, o calor. Depois, o peso firme de um braço ao redor da cintura. Por fim, o cheiro inconfundível.Rafael.Ela respirou fundo, como se precisasse confirmar que aquilo era real.O peito dele subia e descia de maneira controlada, constante, como se tivesse passado a noite inteira ali, acordado o suficiente para protegê-la até dormindo. O braço envolvia seu corpo com cuidado, não como quem prende, mas como quem sustenta.Valentina se mexeu um pouco.O aperto dele se ajustou automaticamente. Instintivo.— Está tudo bem… — a voz dele veio baixa, rouca de quem dormiu pouco. — Estou aqui.Ela fechou os olhos de novo por um segundo, só para absorver aquilo.— Eu acordei você? — perguntou, num sussurro.— Não. — Rafael respondeu. — Eu não dormi de verdade.Ela virou o rosto devagar, apoiando a testa no peito dele. O coração batia firme. Forte. Presente.— Obrigada… — mur
O escritório parecia maior agora que Rafael tinha saído.Não mais poderoso.Maior no vazio.Augusto permaneceu alguns segundos parado, respirando pesado, o peito subindo e descendo como se ainda estivesse em guerra. A porta fechada ecoava na cabeça dele feito um insulto.Ele precisava sair, ficar ali seria admitir derrota — e ele não fazia isso nem quando perdia.Saiu fechando a porta com força, atravessou o corredor da ala principal da mansão Montenegro com passos duros, o maxilar travado, a raiva ainda quente demais para esfriar em silêncio. As luzes estavam baixas. A casa inteira parecia suspensa, como se soubesse que algo tinha mudado de eixo naquela noite.Parou diante da porta do quarto de Vittória.Não bateu.Empurrou.Vittória estava de costas, diante do espelho, retirando as joias com movimentos rápidos demais. O colar caiu sobre a penteadeira com um som seco quando ela percebeu a presença dele.— Augusto, não agora—— FOI VOCÊ.A voz dele atravessou o quarto como um estalo.
Os dedos dela apertavam a camisa dele com força.O corpo dela tremia.E Rafael a segurou mais.Como se dissesse, sem dizer:Eu estou aqui. Eu aguentei o mundo lá fora. Agora você pode desabar.Valentina chorou no peito dele até ficar sem ar.— Eu tive medo… — ela sussurrou entre soluços. Rafael respirou fundo, e por um segundo, o controle dele vacilou. — Eu devia ter ido com você. — disse. — Eu devia ter te puxado pra perto e te carregado no colo ali mesmo, na frente de todo mundo, e eu não ligaria se o mercado caísse dez pontos.— Você estava tonta. Alguém colocou algo na sua bebida. — ele disse, direto. — Você não tem culpa de nada.Valentina sentiu a garganta fechar.— Eu… eu me senti tão burra. Tão… — ela apertou os lábios, envergonhada. — Eu confiei porque disseram “o senhor pediu”.Rafael soltou uma risada curta.Sem humor.— Ninguém mais vai conseguir usar meu nome pra encostar em você. — ele falou, com uma calma que assustava. — Ninguém.Valentina respirou fundo, tentando se
A porta abriu.Dois policiais entraram primeiro. Postura séria. Sem espetáculo. Atrás, Moreira. E, discretamente, dois jornalistas — os olhos brilhando de fome, mas controlados porque Moreira não era homem de “por favor”.O policial mais velho olhou o cenário, reconheceu os homens feridos, a mulher no chão, a mulher desacordada na cama.E falou com calma assustadora:— Senhorita Isabella Moretti… a senhorita está sendo conduzida para averiguação e prisão preventiva.Isabella arregalou os olhos.— PRISÃO? Não! Não, isso é um engano!O policial continuou, como quem lê uma lista.— A senhorita é suspeita de envolvimento em tentativa de sequestro e atentado contra a vida da senhora Valentina Montenegro, em ocorrência anterior… e, nesta noite, por tentativa de dopagem, restrição de liberdade e tentativa de exposição pública planejada, com potencial dano corporativo e risco à integridade física da vítima.Bianca respirou fundo, a raiva subindo.— Isso tudo… — Bianca sussurrou, olhando para
O quarto parecia pequeno demais para a quantidade de verdade ali dentro.O ar tinha cheiro de cigarro, sangue e vergonha — um tipo de mistura que gruda na garganta e faz o tempo ficar torto.Isabella estava no chão, o rosto vermelho onde o tapa marcou. O vestido caro amarrotado, o cabelo perfeito agora com fios fora do lugar. E mesmo assim… ela riu.Não foi um riso bonito.Foi um riso histérico, quebrado, perigoso — como alguém que percebeu que perdeu o controle e decidiu tentar contaminar o ambiente com veneno.— Você… — ela ofegou, rindo entre soluços — você não pode fazer isso comigo.Rafael não se moveu.Ele ficou em pé, imóvel, como se o corpo fosse apenas um suporte para aquela frieza que voltava ao lugar de origem. O olhar dele foi até Valentina por um segundo — ali, inconsciente, coberta, respirando — e voltou para Isabella como se ela tivesse deixado de ser uma pessoa e virado… um problema.— Eu não posso? — Rafael repetiu, baixo, sem levantar a voz.Isabella tentou se apoiar







