INICIAR SESIÓNRafael Costa Valente
— É sério? Ela falou que assinaria um papel em branco para você colocar os termos que quisesse? — Assinto para o meu amigo Christopher que está estupefato. — Que louca! Poderia cair em uma armadilha perigosa. Sorte dela que estava diante de alguém honesto.
Deixo o garfo sobre o prato da sobremesa e digo:
— Quero sua ajuda para redigir o contrato. Afinal, você foi um grande advogado no exterior antes de se tornar um escritor bestseller anônimo.
Estamos comendo na sua varanda rustica em uma parte de Valdora onde a natureza é mais abundante. Depois que minha mãe declinou do almoço, resolvi almoçar com meu amigo.
— Pode contar comigo. Faço questão de acompanhar essa loucura de perto. — Seu olhar de gato arrisco me encara. — E a garota é gostosa?
— Não reparei, loiro. Estava mais preocupado com a questão de ser forçado a casar. E você trate de se comportar. Você é o anônimo mais famoso que existe.
A gargalhada dele vibra. Seu cabelo, cortado como um ídolo dos anos dois mil, balança com o vento fresco da propriedade.
— Mulher de amigo meu é zona proibida, pode ficar tranquilo.
— Acho bom. Não quero ser corno, nem por contrato.
— Ok. Agora que estamos cientes dos limites, vamos logo ao contrato? Estou ansioso para começar a mexer nisso. Nunca fiz algo tão intrigante.
Diz o autor se romances fantasiosos que cativas leitoras pelo mundo.
Quando estou prestes a concordar em seguirmos para o contrato, meu celular vibra sobre a mesa.
Primeiro toque... levanto uma sobrancelha ao ver de quem se trata. Segundo toque... Christopher me olha claramente questionando com os olhos “é ela?”. Terceiro toque... atendo, já colocando no viva-voz.
— Achei que tinha deixado claro — falo.
— Deixou, mas preciso que venha até a minha casa para que minha família acredite que casei. — A voz dela mostra nervosismo.
Christopher faz um gesto indicando uma forca e acabo rindo.
— Você só pode estar de brincadeira — digo para a mulher do outro lado. Isso que ela me pede é demais, e está longe do que foi combinado.
— Por favor! — É impressão minha ou ela está implorando com voz de quem chorou? Aff! Tanto faz. Fizemos um acordo.
— Não — respondo frio.— Nos vemos na assinatura do contrato, como acordamos.
Antes que meu dedo toque o aparelho encerrando o contato, podemos ouvir seu sussurro:
— Se eu estiver viva até lá.
Meu amigo e eu nos encaramos.
— Você disse que queria acompanhar a loucura de perto.
— O que precisa?
— Dos seus dons para criar personagens.
*
Depois de minutos estou quase irreconhecível. Christopher tinha escolhido algumas coisas para o disfarce e viemos fazendo a transformação no helicóptero. Nada muito gritante. Uma pequena pinta, um óculos, roupas comuns. Se o Superman pode se disfarçar com o mínimo, vamos ver se também consigo.
— Você está parecendo um CLT.
— E o que é isso mesmo?
— Um assalariado. Alguém que vive de salário.
Reviro os olhos para ele.
— E como sabe disso? Nem quando era advogado você vivia de salário, filhinho da mamãe nascido em berço de ouro.
— Pesquisas para criar personagens. — Ele dá de ombros, guardando as coisas que eu me recusei a usar na maleta. Correntes de ouro, brincos... isso já é demais. — Eu vivo meus personagens.
E ele quer dizer literalmente. Tirando a parte dos poderes e magia, que ele não teria nem se quisesse, meu amigo gostava de sentir os personagens vivendo algo deles. Acredite ou não, mas ele já jogou futebol, trabalhou como babá, até mesmo viveu um dia de garoto de programa por isso, entre muitas outras coisas. Às vezes acho que ele ainda vai cair em uma cilada por seus experimentos.
— Sabe para onde estamos indo? — questiona.
— Claro que sei. No momento em que peguei o número dela, já mandei para Kevin rastrear.
— Kelvin! — ele diz o nome fazendo uma careta.
Eu ignoro, meus pensamentos estão na estranha mulher com a qual me casei. Por que será que ela precisa de mim tão urgentemente?
O helicóptero pousa, descemos e vamos de carro que já estava esperando. O caminho é curtíssimo.
Em poucos minutos estamos diante da porta da casa onde o rastreamento do celular dela nos levou. Foi fácil buscar a localização pelo número. Rastrear é uma das especialidades do Kevin, que não ficou nada contente ao saber que eu estava aprontando com Christopher. Eles meio que sente ciúmes de mim, da amizade um do outro.
Depois de tocar a campainha, uma senhora com uniforme típico de empregada doméstica atende a porta.
— Sou o marido de Clara Luz Monteiro. Ela me chamou. — Diante da reação da mulher, ou melhor, a falta de reação, passo por ela e entro em uma sala razoavelmente bem decorada.
— O que é isso? Quem se atreve a invadir a minha casa assim? — Um homem na casa dos cinquenta anos, vestido de terno e gravada dentro da própria casa, questiona levantando do sofá.
— Ele é o marido da senhorita Clara. — A empregada diz. Parece que passou a surpresa.
— Onde está a minha mulher?
— Então você é o sujeito que enganou minha filha dizendo ser Rafael Costa Valente — ele diz me olhando de cima a baixo, com desdém. Isso prova que a fantasia de Christopher fez seu trabalho.
— Esse é o meu nome. Por que? Tenho que prestar contas agora por outra pessoa também ter esse nome?
— Seu atrevido! — ele vem para cima de mim, mas posso ver lhe faltar coragem diante do meu tamanho.
Só que nada disso importa quando ouço um grito, logo em seguida coisas se quebrando. É no segundo andar.
— Isso não é nada. É só a minha filha fazendo birra. — Ele diz claramente tentando evitar que eu suba.
Posso ouvir a voz da minha esposa por contrato gritando “socorro”, “não”, “me solta”.
— Isso não parece em nada com birra. — Christopher diz atrás de mim.
Sem pensar duas vezes, subo correndo as escadas, com eles em meu encalço tentando impedir. A porta de onde vem os gritos está trancada. Se eu estiver sem razão, dou até uma casa nova para eles, porque no momento... enfio o pé nela, quebrando a dobradiça.
— Puta que pariu! — ouço brevemente a voz do meu amigo atrás de mim.
Nesse momento, só vejo e sinto o meu punho indo em direção a face nojenta do velho que acabei de tirar de cima de Clara.
Narrado por RafaelEstou diante da cela onde Hellen e Lucas aguardam julgamento, parado, olhando para os dois. Eles se aproximam das grades.— Rafael, tenha piedade. — Hellen pede. Pouco tempo aqui já a deixou com aparência decadente. Sem suas maquiagens e cremes, a mulher “fatal” sumiu. Muito diferente de Clara, que consegue ser fatal “crua”. Cara, eu estou muito apaixonado.Sorrio, mas paro quando Hellen pensa que é por ela.— Você é muito idiota se acha que terei pena de gente baixa como vocês dois.— Eu realmente achava que você era meu pai. Essa mulher me enganou. — Lucas tenta jogar a culpa toda nela. O azar dele é que nunca senti nada por nenhum deles, então foda-se de quem é a culpa.— Eu sempre senti que você não era meu filho. Todos os envolvidos nessa mentira irão pagar. Vocês irão ficar o máximo que a justiça permitir em uma gaiola. E quando saírem, vou implorar por uma gaiola, pois não terá nada esperando lá fora. Casa, amigos, dinheiro, dignidade... nada. Ou meu nome não
Narrado por Clara LuzEstou tão dividida. Sinto falta de Rafael, dos seus braços, do seu carinho, da sua paixão... Quero muito voltar a viver com ele, mas os Sampaio conquistaram meu coração de tal forma que não consigo simplesmente ir. Doeu meu peito quando voltei do encontro com Rafael e os encontrei ansiosos me esperando, o quanto se alegraram quando eu disse que não tinha decidido sobre ir embora.Agora, quase uma semana depois, ainda estou na casa deles. Rafael vem me ver todos os dias depois do trabalho. E por me ver eu quero dizer, me devorar a noite toda e ir embora depois que o sono me vence. Fico toda envergonhada quando vejo os Sampaio no dia seguinte. Mesmo que eles permitam as visitas e eu esteja na intimidade do quarto, ainda me sinto incomodada. Acho que é hora de voltar para casa do meu marido, por isso estou aqui, diante desse casal que me acolheu.Eles esperam para ouvir o que tenho a dizer. Limpo a garganta e começo:— Primeiramente gostaria de agradecer vocês por m
Narrado por Rafael— Porra!Escuto o barulho de vidro chocando contra vidro e se espatifando. Só quando a porta se abre e a cara de Kevin parece por ela é que me dou conta que quem causou todo esse estardalhaço fui eu. O cheiro de uísque impregna a sala.— Essa deve ser a vigésima nessa semana. — Ele comenta enquanto liga para providenciarem a limpeza. Ando quebrando várias garrafas por não conseguir me entregar ao álcool ao mesmo tempo em que é tudo que desejo.— Eu não consigo mais, Kevin — murmuro.— Se me permite ser sincero, ninguém mais aguenta, meu amigo. Vilão era só seu apelido nos negócios, mas desde aquele dia que está agindo como um. Você demitiu um funcionário excelente porque a voz dele estava te irritando. Sabe o trabalho que deu convencer o cara a não te processar?Olho para ele, pronto para pular no seu pescoço. Ele parece adivinhar.— Se me bater vai te fazer sentir melhor, bora pro soco.Solto um suspiro.— Eu só quero apagar aquela mulher da minha cabeça. Há dias q
Narrado por Clara LuzAcordei assustada com pesadelos da minha infância, onde homens maus gritavam comigo e me arrastava. Faz anos que esse pesadelo havia parado. Talvez seja a essa montanha russa de felicidade suprema seguida por um fim doloroso com Rafael.Eu nunca via a cara das pessoas. Eles estavam com máscaras assustadoras. E quando acordava também não lembrava do que diziam, somente sei que eram maus.Levo outro susto quando olho o relógio na mesa de cabeceira e percebo que são nove horas da manhã.— Dormi demais! — pulo da cama e vou direto tomar banho e vestir a roupa que estava ontem. Mais um vez estou nessa situação.Outro susto quando abro a porta do quarto e me deparo com dona Clarinda, que me olha ansiosa.— Aconteceu alguma coisa? — questiono preocupada.— Não... — Ela limpa a garganta. — Só vim ver se quer tomar café da manhã conosco.— Dona Clarinda, vou fazer uma pergunta e peço que seja muito sincera comigo. Prometo que independente da resposta, ainda vou te conside
Narrado por Clara LuzRafael pode estar de cabeça quente, mas ele não tinha o direito de me humilhar diante das pessoas que convidou para me exaltar, quando isso era algo que eu nem queria. Achar que nosso bebê não é dele. Achar que já estive com outro homem. Tudo isso só demonstra que ele nunca confiou totalmente em mim. Ele me fez viver um sonho para me acordar friamente. Se ele acha que vou ficar pelos cantos lamentando e implorando, está muito enganado. Agora eu tenho um filho com o qual me preocupar. E não há ninguém que vá me impedir de dar uma vida de amor a essa criança. Ela não vai crescer como eu. Nem que para isso eu precise dar todo meu sangue.— Clara, o que realmente aconteceu? — A voz de dona Clarinda penetra meus pensamentos. Eu estava tão perdida quando sai da casa que só me deixei levar pelo casal.Solto um longo suspiro.— Eu estava surtando com aquilo que vimos. Aquela mulher estava me tirando do eixo. Então, antes de acabar falando na frente de todas aquelas pesso
Narrado por Rafael— De novo não. — Kevin resmunga quando oriento ao motorista que nos leve para almoçar no shopping.Me viro para ele e mostro a língua. Ele ri. Rio de volta e respondo:— De novo sim.Ando sorrindo muito, rindo e agindo como um tolo desde que Clara me contou sobre nosso bebê. Diferente da dúvida e falta de amor que me apossou quando soube de Lucas, essa criança no ventre dela me deixou de quatro, assim como a mãe. Por isso Kevin não aguenta mais passar em loja de bebê.— Quando essa criança nascer nem vai caber no quarto dela se o pai continuar comprando assim.Olho para ele, franzindo o rosto como quem não acredita no que está ouvindo.— Não se preocupe. Vou proibir os padrinhos de comprarem coisas. Assim sobra mais espaço.— Não se atreva. Já não basta colocar o idiota como padrinho também. Tinha que ser só eu.Entre provocações e discussão sobre o nome da minha filha — nenhum de nós acredita na ideia de ser menino — almoçamos em um restaurante conhecido no shoppin







