INICIAR SESIÓNA escuridão não foi um fim, mas um mergulho sufocante onde o tempo deixou de existir, reduzido ao eco do riso de Ricardo e ao gosto de cobre do próprio sangue. Até que algo a puxou de volta.
O ar invadiu seus pulmões com força, queimando. Seu corpo reagiu em um solavanco, fazendo-a sentar-se na cama com o coração disparado. Seus olhos piscaram diante da luz suave que preenchia o quarto. Tudo era tão diferente do porão que, por um instante, pareceu irreal. Aos poucos seus sentidos se ajustaram, e ela reconheceu o perfume de lavanda e o aroma das velas, substituindo o mofo e a umidade que ainda assombravam sua memória.
Com as mãos trêmulas, tateou os lençóis de seda. Ao perceber seus pulsos livres e sem marcas, sentiu as lembranças voltarem de uma vez, trazendo o veneno, a traição de Juliana, o plano contra seus pais e o segredo envolvendo o General Caspian. Seu estômago se revirou. Maia levou a mão à boca, ainda sentindo o leve resquício da alquimia em sua língua.
Ela se levantou e foi até o espelho, encarando o próprio reflexo intacto e jovem. No entanto, seus olhos já não eram os mesmos; carregavam um brilho frio e afiado que não existia antes.
Ao olhar para o calendário sobre a escrivaninha, compreendeu tudo.
“Consegui! Realmente deu certo!”, pensou com clareza.
A realidade se organizou, transformando o medo de um erro em certeza absoluta. Agora ela conhecia cada passo dos traidores e cada mentira que eles tentariam repetir. Maia endireitou os ombros, sentindo a determinação vibrar sob sua pele, enquanto encarava o próprio reflexo com um olhar firme.
— Eles acham que podem me descartar como lixo? — murmurou para si mesma. — Mal sabem que já não sou mais a mesma.
Desta vez, não haveria piedade. Ela tinha tempo suficiente para desmontar a conspiração e garantir que, quando o contrato fosse assinado, o sangue derramado não seria o seu.
Um leve rangido na porta a colocou em alerta imediato. Seu corpo se enrijeceu instintivamente enquanto seus olhos se voltavam para a entrada, ainda carregados da tensão que não havia se dissipado por completo.
— Quem é? — Sua voz saiu mais firme do que esperava, embora ainda carregasse um resquício da inquietação que a dominava.
— Senhorita, sou eu, Ana… por que não me chamou? — respondeu a criada ao se aproximar com cuidado, a expressão marcada por uma preocupação genuína.
Ao vê-la, Maia sentiu um aperto inesperado no peito. Ana havia crescido ao seu lado, sempre leal, sempre presente. E, mesmo assim, fora afastada injustamente por influência de Juliana na outra vida, substituída sem que Maia tivesse percebido o erro a tempo. O arrependimento veio como uma pontada silenciosa. Ela se levantou e, quase sem pensar, estendeu os braços e puxou a criada para um abraço apertado, como se precisasse confirmar que ela realmente estava ali.
Ana, surpresa, demorou um instante para reagir. Afastou-se logo em seguida com um olhar confuso.
— Senhorita… o que houve? A senhora está diferente.
Maia respirou fundo, contendo a emoção que ameaçava transparecer, e levou a mão ao rosto para limpar discretamente a lágrima que havia escapado.
— Não foi nada… apenas tive um pesadelo — respondeu, tentando recuperar a compostura, embora sua voz ainda carregasse um peso que não passou despercebido. — Ana… não se afaste de mim.
A criada franziu levemente a testa, mas logo assentiu com naturalidade, sem questionar além do necessário.
— Claro que não! Deve ter sido um pesadelo assustador… venha, beba um pouco de água, isso vai ajudar — disse, guiando-a de volta até a cama com cuidado, enquanto pegava um copo e o estendia em seguida.
Maia aceitou, mais pelo gesto do que pela necessidade. Manteve o olhar atento a cada movimento de Ana, como se quisesse gravar cada detalhe.
— Quer que eu chame a Juliana? — perguntou a criada, sem qualquer malícia, apenas seguindo o hábito de sempre.
— Não — respondeu Maia de imediato, rápido demais para parecer natural.
Ana hesitou por um instante, coçando levemente a cabeça. Percebeu que algo estava diferente, embora atribuísse aquilo apenas ao efeito do pesadelo.
— Está bem… posso ficar aqui até a senhora se acalmar, depois a Juliana pode assumir.
Antes que ela pudesse continuar, Maia estendeu a mão e segurou o pulso de Ana, impedindo-a de se afastar. O gesto carregava uma urgência silenciosa.
— Prepare tudo para irmos à fazenda. Partiremos logo após o café. Leve minha roupa de montaria — disse com firmeza, já assumindo o controle da situação.
— Certo… vou avisar a Juliana e o cocheiro — respondeu Ana, automaticamente.
— Não — interrompeu Maia, agora mais controlada, porém igualmente decidida. — Iremos apenas nós duas. Juliana tem outros assuntos para resolver e não virá conosco.
Ana a encarou por um breve instante, surpresa com a mudança repentina, mas acabou concordando com um leve aceno, mesmo sem compreender totalmente.
— Como desejar, senhorita… então vou preparar tudo.
— Faça isso — completou Maia, soltando sua mão aos poucos.
Ainda estranhando o comportamento da patroa, Ana se retirou, lançando um último olhar curioso antes de fechar a porta com suavidade. O quarto mergulhou novamente em silêncio.
Maia sabia que precisava de provas e, acima de tudo, de aliados em quem pudesse confiar. Ela não podia se dar ao luxo de errar enquanto não soubesse quem mais, dentro da sua própria casa, estava jogando ao lado de Juliana e Ricardo. Era essencial fazer uma limpeza em seu espaço particular, eliminando cada sombra de dúvida antes de dar o próximo passo.
Ao sentar-se na escrivaninha, ela mergulhou em suas próprias lembranças em busca de qualquer detalhe útil. Forçou-se a reviver conversas, gestos e situações que antes pareciam sem importância, mas que agora gritavam a verdade. À medida que reconstruía esses momentos, sentiu o estômago revirar. As memórias vinham carregadas de traição e do gosto amargo do veneno, trazendo um mal-estar tão real que era impossível ignorar o peso de tudo o que tinha vivido.
Sentindo uma onda forte de enjoo, Maia se levantou abruptamente, sabendo que não conseguiria ficar parada nem mais um segundo.
O silêncio de Maia pesou na tenda mais do que qualquer resposta. Ela não encarou a criada; manteve os olhos cravados no pergaminho amarrotado sobre a mesa de madeira.— Rainha? — Maia soltou um riso curto, destituído de qualquer humor, enquanto ajustava as fivelas de suas luvas de montaria. — Para ser rainha, Ana, primeiro preciso garantir que continuemos vivos amanhã. Não pense num futuro que sequer existe. Pense em sobreviver à noite de hoje.Sem esperar por mais questionamentos, Maia deixou a tenda.Lá fora, a escuridão do início da noite começava a cobrir o acampamento. Caspian a aguardava junto aos cavalos. A luz vacilante das tochas projetava sombras longas sobre seu rosto, mas não conseguia disfarçar a mudança drástica em sua postura. Ele já não parecia apenas o guerreiro cauteloso e distante de poucas horas atrás; havia um peso sombrio em seu olhar, o fardo de um homem que acabara de descobrir que toda a sua vida fora erguida sobre uma mentira de Estado.Seguindo as ordens rec
O capitão adiantou-se, querendo acalmar os ânimos:— Senhorita, mandei homens investigarem o local da emboscada. Deixei claro que deveriam refazer todo o percurso, desde o momento em que seus pais saíram do acampamento.Ao ouvir isso, Maia apoiou as duas mãos sobre a mesa rústica, cravando o olhar no tampo de madeira.— Se eles querem guerra, é exatamente o que terão — declarou, com a voz gélida. — Não terei piedade de ninguém.Caspian a observou em silêncio por um instante e falou, pausando cada palavra:— Seus pais não cairiam em uma emboscada tão facilmente. Pelos feitos que ouço sobre o marquês, ele sabia que você não estava na capital. Existe algo nessa história que não está claro.Passando a mão pelo cabelo, Maia absorveu o raciocínio dele.— Ele tem razão, Maia — disse Ana, apressada.— Guerreiro? Quem é este homem? — o capitão perguntou, franzindo o cenho em surpresa ao notar a postura de Caspian.Lançando um olhar discreto de advertência para Ana, Maia interveio:— Não leve a
A poeira subia alta na trilha enquanto viajavam a galope. Maia atiçava sua montaria com uma urgência quase desesperada, como se tentasse escapar de um inimigo invisível. Caspian a seguia a uma curta distância, com um sorriso discreto no canto dos lábios, enquanto Ana, logo atrás, mantinha o semblante carregado de preocupação diante daquele ritmo acelerado.Após algum tempo de corrida intensa, Caspian emparelhou seu garanhão ao cavalo de Maia.— Nesse ritmo, é melhor dar um descanso aos cavalos — avisou ele, a voz firme sobrepondo-se ao som dos cascos.Maia reduziu a velocidade aos poucos. Embora sua vontade inicial fosse contrariá-lo e continuar, olhou para o próprio cavalo e percebeu que havia exigido demais da montaria. Tomada por uma pontada de culpa, ela puxou as rédeas e esperou que Ana se aproximasse.— Vamos parar um pouco à beira do rio — disse Maia, tentando disfarçar o cansaço na voz. — Os cavalos precisam descansar e se refrescar.— Valha-me Deus... Achei que estávamos fugi
As palavras de Maia pairaram no ar fresco da manhã como uma névoa densa. A insinuação de que ele desconhecia coisas sobre si mesmo havia tocado em uma ferida invisível, e Caspian não era homem de recuar diante de enigmas ou provocações.Dando um passo lento e intimidador em direção a ela, ele estreitou os olhos, a voz descendo uma oitava, fria e direta:— Inclusive a você?Maia sentiu o peso da presença dele. Ela desviou o olhar por uma fração de segundo, fingindo ajustar a manga de seu vestido para disfarçar o próprio desconforto. A proximidade física de Caspian a lembrava de que, apesar de toda a sua mente calculista, ele ainda era uma força da natureza implacável — e que ela estava jogando um jogo perigoso ao atiçar o passado que ele sequer lembrava de ter.Ela caminhou alguns passos pelo pátio, afastando-se daquela pressão sufocante. Após alguns segundos de silêncio, onde apenas o farfalhar das folhas e o som distante de um cavalo podiam ser ouvidos, ela se virou para encará-lo co
Assim que a porta pesada se fechou após a saída de Caspian, o silêncio no salão principal durou pouco. Maia respirou fundo, contendo a descarga de adrenalina que aquela negociação exigira, e chamou Ana e Marcos imediatamente.— Tudo está acertado — anunciou ela, cruzando os braços. — Agora precisamos organizar o próximo passo. Marcos, vou precisar que contrate guardas de confiança para proteger esta propriedade. Eu, Ana e Caspian partiremos o quanto antes ao encontro de meus pais.— Continuo achando essa ideia um perigo sem tamanho — Ana interveio, com a franqueza habitual estampada no rosto preocupado.— Concordo com a Ana, senhorita — Marcos deu um passo à frente. — Sabemos que a senhorita possui um dom especial. Por que se arriscar dessa maneira se pode resolver as coisas de outra forma?Maia olhou para os dois, os únicos em quem realmente podia confiar naquele mundo de aparências.— Sim, eu tenho meus recursos. Mas tudo tem um preço nesta vida — explicou Maia, com a voz baixa e sér
O silêncio que se seguiu à pergunta de Caspian pesou no salão principal. Ele permanecia de pé, com os braços cruzados e o corpo tenso, esperando uma resposta que justificasse aquela aliança. Maia não se moveu. Mantendo os dedos entrelaçados sobre a mesa de madeira rústica, ela o encarou com a mesma tranquilidade de quem antecipava cada movimento do oponente.— Minha proposta é simples, senhor Caspian, embora exija coragem — Maia começou, a voz num tom baixo e firme que ecoou pelas paredes de pedra. — Você quer uma garantia de que meus homens o seguirão e de que terá os recursos necessários para erguer seu exército. Eu preciso de um escudo legal que impeça a corte de Telrion de confiscar os bens de minha família e o comando de nossas tropas através de um matrimônio forçado. A solução para ambos está diante de nós.Caspian inclinou a cabeça levemente, os olhos semicerrados em pura desconfiança.— E qual seria essa solução?— Nós dois vamos nos casar.A declaração caiu no ambiente com a







