Compartir

Capítulo 5

last update Fecha de publicación: 2025-03-08 23:51:17

Não demorou muito para minha prima descer as escadas, ainda com os cabelos levemente bagunçados e um sorriso acolhedor no rosto. A casa começava a se movimentar à medida que a manhã avançava. Rosa já circulava pela cozinha, o cheiro de café fresco e pão assado preenchendo o ambiente. Do lado de fora, pela janela entreaberta, observei a rotina pulsante da fazenda: funcionários caminhavam apressados em direção à hípica, outros seguiam para a plantação de café, enquanto os caminhões da transportadora iam e vinham carregados de insumos. Era um mundo muito diferente da minha rotina no Rio, mas algo naquela energia movimentada me trazia uma sensação estranha de pertencimento.

Lena se aproximou e se sentou ao meu lado no sofá, com uma xícara de café na mão, puxando os joelhos para perto do corpo, como fazia quando queria uma conversa mais longa.

— Como foi sua primeira noite aqui? — perguntou, olhando para mim com curiosidade genuína.

— Foi tranquila. Talvez esse lugar seja exatamente o que eu estou precisando. Me desconectar um pouco, respirar ar puro e, claro, focar na minha tese de mestrado. — Respondi, girando distraidamente a xícara de café entre as mãos.

— E o seu consultório terapêutico no Rio? — ela perguntou, inclinando a cabeça levemente.

Soltei um suspiro leve antes de responder.

— Já faz algum tempo que dei uma pausa nos atendimentos para me dedicar exclusivamente ao mestrado. Mas o consultório continua funcionando. Tem outras psicólogas por lá, e a Cristina está cuidando de tudo. — Dei um meio sorriso ao mencionar minha amiga.

Cris e eu nos conhecemos na faculdade e, desde então, nossa amizade só se fortaleceu. Quando decidimos abrir o consultório juntas, sabíamos que seria um desafio, mas ela sempre foi a pessoa mais organizada e confiável que eu conhecia. Se alguém podia manter tudo sob controle na minha ausência, era ela.

Lena assentiu devagar, apoiando o queixo na palma da mão.

— Acho que fez bem em tirar esse tempo para si. A vida no Rio é uma loucura, e aqui as coisas acontecem num ritmo completamente diferente. Pode ser bom pra você.

Olhei pela janela novamente, acompanhando o movimento dos trabalhadores. Era um mundo tão distante do que eu estava acostumada, mas, de alguma forma, não parecia errado estar ali. Talvez Lena estivesse certa. Talvez esse tempo na fazenda realmente fosse necessário para mim.

Mas então, minha mente, como um relógio desregulado, me traiu e voltou para a conversa que tive com o Bernardo há menos de uma hora. A lembrança do toque sutil de Bernardo afastando meu cabelo, do tom provocador da sua voz e da forma como suas palavras ainda ecoavam na minha cabeça.

“Espero que tenha uma resposta pra me dar quando eu voltar, Laura.”

Engoli em seco. Por mais que eu tentasse afastar aquilo da minha mente, sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que encarar o que aquela proposta realmente significava para mim.

Lena suspirou, mexendo distraidamente na borda da xícara de café. A manhã seguia seu ritmo na fazenda, o cheiro de café fresco misturando-se ao ar levemente frio. Mas algo na expressão dela me dizia que aquela conversa tomaria um rumo mais sério.

— A fazenda demanda muito do Diogo, sabe? E agora com a transportadora crescendo, ele vive na estrada ou no escritório. Às vezes, sinto que passamos mais tempo nos organizando do que realmente juntos. — Ela sorriu sem humor. — Acho que isso acontece com todo casal, não é?

Fiquei em silêncio por um instante. Eu não era a melhor pessoa para falar sobre relacionamentos, e Lena sabia disso. Mas era evidente que ela não queria um conselho técnico, apenas alguém que a ouvisse.

— O que você quer dizer com “se organizando”? — perguntei, observando-a com atenção.

Ela apertou os lábios, desviando o olhar para a varanda, onde a movimentação da fazenda seguia como se o mundo lá fora não tivesse espaço para crises conjugais.

— Tentamos ajustar horários, encontrar tempo um para o outro, mas… sei lá. Parece que tem alguma coisa errada. Ele anda distante, às vezes desconcentrado. Não sei se é só o trabalho ou se tem mais alguma coisa.

A palavra não dita flutuou no ar entre nós.

Desconfiança.

Cruzei as pernas e respirei fundo. Parte de mim queria dizer que era isso que acontecia quando alguém confiava demais em outra pessoa, quando se entregava ao conceito abstrato e ilusório do amor. Lena tinha sido essa pessoa — se apaixonou, casou, acreditou que construiria uma vida sólida com alguém. Agora estava ali, insegura, sentindo que algo escapava por entre os dedos.

E, no fim das contas, talvez escapasse mesmo.

— Você já conversou com ele sobre isso? — perguntei, mantendo meu tom neutro, ainda que internamente eu achasse tudo aquilo uma perda de tempo.

Ela riu sem humor.

— Já tentei. Ele sempre diz que estou imaginando coisas, que estou cansada e que tudo vai melhorar. Mas não melhora.

Observei minha prima por um instante. Ela estava diferente. Havia algo na forma como falava, na forma como segurava a xícara, como se temesse que a qualquer momento fosse soltar e quebrar tudo.

— E o que você sente? Quero dizer, o que sente quando está com ele?

Ela franziu a testa, pegando minha pergunta de surpresa.

— Sinto que ele não está completamente ali. A voz dela saiu em um sussurro quase hesitante, como se admitir aquilo em voz alta tornasse a situação mais real do que gostaria.

Lena mexeu na alça da xícara, o olhar perdido em algum ponto da mesa, e eu percebi que ela não estava apenas contando sobre um problema conjugal. Estava confessando um medo.

— Eu amo o Diogo, Laura. Mas às vezes me pergunto se ele ainda sente o mesmo por mim… ou se apenas se acostumou comigo.

Minha primeira reação foi revirar internamente os olhos. Não porque não me importasse com ela mas porque a situação era óbvia para mim: o amor era uma ilusão bem-intencionada. No fim das contas, tudo se resumia a conveniência, rotina e necessidade.

Cruzei os braços, escolhendo as palavras com cuidado.

— Você acha que ele poderia… — hesitei, mas decidi ir direto ao ponto — estar interessado em outra pessoa?

Lena ergueu os olhos para mim rapidamente, surpresa com minha franqueza.

— Eu não sei. — A confissão veio quase como um suspiro, e ela passou as mãos pelo rosto. — Nunca pensei nisso de verdade, mas às vezes… às vezes tenho a sensação de que ele está distante demais, de um jeito que não parece apenas cansaço.

Inclinei-me levemente na cadeira, tentando entender por que aquilo me incomodava tanto. Talvez porque reforçasse tudo o que eu já acreditava: o amor era apenas um ciclo, e no final, alguém sempre ficava sentindo que algo estava errado.

— E se você estiver certa? O que faria?

Lena me encarou por um momento, seus olhos cheios de dúvida.

— Eu não sei, Laura. Não sei se quero saber a resposta para essa pergunta.

E ali, naquele silêncio carregado, tive certeza de que Lena amava Diogo mais do que deveria. E que isso, inevitavelmente, um dia custaria caro.

Lena desviou o olhar, brincando com a borda da xícara de café entre os dedos. Eu a observei, sentindo uma mistura de pena e frustração. Ela estava presa a essa ideia de amor, investindo em algo que claramente a estava corroendo aos poucos. E o pior? Ela nem queria enfrentar isso de verdade.

— Você já tentou conversar com ele? — perguntei, mais por obrigação do que por acreditar que isso resolveria alguma coisa.

— Já… mas sempre acabamos nos desviando do assunto. Ele fala do trabalho, da transportadora, dos problemas da fazenda, e quando percebo, estamos falando de tudo, menos do que realmente importa.

Eu suspirei. Esse era o problema de basear a vida inteira em um relacionamento. Um dia, a paixão inicial se esgotava, e tudo o que restava eram duas pessoas dividindo o mesmo espaço, tentando não admitir que algo tinha se perdido pelo caminho.

— Talvez seja isso, Lena. Talvez ele esteja apenas focado no trabalho. A rotina pesa, desgasta. É natural.

Ela sorriu de lado, mas seus olhos estavam distantes.

— Você sempre tem essa visão prática das coisas, né?

— Porque é a única que faz sentido. — Cruzei os braços. — Não dá para esperar que as pessoas nos completem ou nos façam felizes o tempo todo. É exaustivo demais.

Lena ficou em silêncio por um tempo, pensativa. Eu sabia que ela não concordava comigo, mas também não tinha forças para rebater. Talvez, no fundo, uma parte dela começasse a se questionar também.

Ela bebeu um gole do café e mudou de assunto, mas sua mente ainda parecia presa na conversa anterior. E eu? Bem, eu só confirmei o que sempre soube: o amor não passava de uma promessa bonita, mas insustentável.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Agradecimentos e nota da autora

    Queridas leitoras que chegaram comigo até aqui… Obrigada. Obrigada por caminharem ao meu lado até o fim de mais uma história. Esse livro ficou guardado por anos. Escondido em mim. E só agora eu consegui dar vida a ele. E confesso… foi difícil. Muito. Difícil começar, difícil continuar… e ainda mais difícil colocar um ponto final. Parte de mim queria escrever mais, ir além, não soltar a mão da Laura tão cedo. Mas as histórias têm vida própria. E essa me mostrou que, às vezes, o rumo que a gente imaginou lá no começo não é o que o coração escolhe no fim. A trajetória da Laura foi intensa. Dolorosa, bonita, humana. Ela sangrou, calou, gritou, renasceu. E o Bernardo… ele foi um sopro de paz. Escrevê-los me curou em muitos lugares que ainda doíam. E se, de alguma forma, essa história também tocou você — então tudo valeu a pena. Não deixem de acreditar no amor. Mesmo quando parecer improvável. Mesmo quando a gente jura que não quer mais. O amor salva. Sempre. E com o fim deste

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Capítulo 69

    Eu havia defendido minha tese na UFRJ.Era oficialmente mestre em Psicologia.Fechei os olhos por um instante ao lembrar da banca, das perguntas, da minha voz sustentada pela força de tudo que vivi até aqui. O auditório já estava vazio, mas o eco daquela conquista ainda reverberava dentro de mim. Não era apenas o fim de um ciclo acadêmico era o encerramento de uma versão minha que eu já não carregava mais.De volta ao apartamento, abri as janelas da sala e me deparei com a vista que por tantos anos foi o meu abrigo — e também o meu campo de batalha. A cidade se estendia à frente, pulsando viva e indiferente como sempre. As luzes dos carros, o burburinho dos prédios, o cheiro leve de café vindo de algum lugar da rua de baixo.Esse lugar tinha me visto quebrar, me reconstruir, fingir força, descobrir minha verdade. Tinha me visto sozinha, acompanhada, esperançosa e em ruínas. Era estranho pensar que, embora tudo ainda estivesse igual ao que sempre foi, eu já não era mais a mesma.— Você

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Capítulo 68

    Minha mãe e a Cris haviam chegado apenas no dia anterior, mas a presença delas já ocupava espaços em mim que estavam adormecidos fazia tempo. A alegria da Cris, o jeito observador da minha mãe, os comentários rápidos entre uma refeição e outra… Era como se, de repente, duas partes esquecidas de mim estivessem sentadas à mesa, caminhando pelo quintal, percorrendo os corredores do casarão como se pudessem, de algum jeito, recuperar o tempo que ficou pra trás.À noite, depois do jantar, contei a elas sobre a chácara — que era onde Bernardo e eu pretendíamos morar assim que a reforma terminasse. Falei com calma, tentando não transformar o assunto num anúncio oficial, mas numa partilha verdadeira.— E vocês vão morar sozinhos lá? — minha mãe perguntou, com a voz baixa, quase distraída, enquanto mexia a xícara de chá nas mãos.— Sim. A casa vai ficar pronta em breve. Estamos decorando tudo juntos. A ideia é termos nosso espaço… algo que seja realmente nosso, sabe?Cris lançou aquele olhar t

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Capítulo 67

    Minha mãe e a Cris me ouviram atentamente, absorvendo cada palavra com um silêncio respeitoso. Às vezes trocavam olhares entre si, como se estivessem tentando montar um quebra-cabeça do qual haviam perdido as peças centrais. Minha tia Helô, por mais que soubesse de parte da história, ficou visivelmente surpresa ao descobrir que meu casamento com Bernardo havia começado por meio de um contrato.Essa não era uma história que eu compartilharia com qualquer pessoa. Era íntima, complexa, delicada. Minha história. Só as pessoas verdadeiramente importantes para mim tinham o direito de conhecê-la por completo.A conversa se desdobrou com calma, entre perguntas contidas e respostas sinceras. E, apesar do choque inicial, senti que o julgamento começava a ceder espaço para compreensão.Perto do horário do almoço, Bernardo chegou no casarão. Bernardo entrou com o ar confiante de sempre, camisa social dobrada até os cotovelos, a expressão serena — até perceber que a sala estava cheia.— Ei — disse

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Capítulo 66

    Os dias estavam passando depressa, engolidos pela correria das últimas semanas. A reforma da clínica seguia a todo vapor — havia poeira, barulho, decisões para tomar a cada instante, mas tudo isso trazia um tipo de exaustão boa, como se cada martelada nas paredes também ajudasse a reconstruir algo dentro de mim. Era emocionante ver o projeto sair do papel, tijolo por tijolo. Pela primeira vez em muito tempo, eu voltava a me enxergar fazendo o que amo: cuidando, acolhendo, reerguendo não só outras pessoas — mas a mim mesma também. Enquanto isso, na chácara, os últimos detalhes da decoração estavam sendo ajustados. Bernardo e eu fazíamos escolhas juntos, e mesmo com estilos diferentes, conseguíamos encontrar um equilíbrio. Cada cantinho estava ficando com a nossa cara, como se aquela casa fosse, de fato, o reflexo do que estávamos construindo — devagar, mas com verdade. Eu me pegava estranhando esse sentimento bom. A calma. A sensação de pertencer. Por tanto tempo, viver com levez

  • Contrato de Amor com o Fazendeiro   Capítulo 65

    Na noite anterior, durante o jantar, a Sara agradeceu a todos pela estadia no casarão. Sua voz estava serena, segura. Disse que iria morar com o Felipe — apenas isso. Nenhuma grande explicação, nenhum discurso elaborado. Foi simples, direto. E inesperadamente definitivo. Ninguém fez perguntas. Talvez porque, de alguma forma, todos já soubessem. Havia algo inevitável na forma como os dois se olhavam, como se tivessem encontrado um lar um no outro, mesmo em tão pouco tempo. Eu não sentia raiva da Sara. Não havia mágoa, nem ressentimento. Pelo contrário — o que eu sentia era uma pontada silenciosa de inveja. Não por ela ter ficado com o Felipe. Isso não importava. Mas pela coragem. Pela capacidade que ela tinha de se lançar inteira, de se permitir viver um sentimento sem ficar criando grades em volta do coração. Sara não tinha medo de amar. De quebrar a cara, se preciso fosse. De se machucar, se fosse o preço de viver algo verdadeiro. Ela havia conhecido o Felipe há poucas semana

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status