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Amor Na Linha de Fogo

last update Fecha de publicación: 2025-08-05 05:03:45

Lorena

Não existe sono profundo quando o homem que tu ama tá em guerra com os próprios demônios.

E os dele… ainda respiram.

Cada noite era uma roleta russa. Um tiro que não vinha, mas que a gente sentia o tambor girando.

Desde que Kaíque decidiu voltar pra favela, eu sabia.

Sabia que era questão de tempo até os fantasmas tirarem o capuz e baterem na nossa porta.

Eu implorei pra gente continuar na vila. Tava tudo arranjado. Aluguel pago, oficina quase de pé, a vida pedindo pra começar de novo.

M
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Último capítulo

  • Coração Bandido – Morro –   Epílogo

    Dez Anos DepoisFavela da Rocinha – Rio de JaneiroSol rachando o cimento, céu azulzão, gritaria de criança ecoando como música da vida— Mããããe, ele me bateu! — berrou Luca, o menor, correndo com o pé descalço e o beiço tremendo, suor escorrendo na testa e uma folhinha grudada no cabelo.— Mentira! Foi sem querer! — respondeu Miguel, com aquela cara safada que só os irmão mais velhos sabem fazer quando tão encobrindo travessura.Lorena saiu na varanda da casa reformada — agora com reboco certo, cerâmica no chão e grade nova pintada de branco — segurando uma toalha e um olhar que sabia o que era viver o inferno e ainda sorrir.— Se quebrar mais um vaso da minha avó, vão catar cocô de cachorro lá na laje do seu Jorge o mês inteiro, ouviram?!Os dois pararam na hora. Se entreolharam. E saíram correndo de novo, rindo alto, a chinela batendo no chão quente, subindo poeira. Futebol na laje era religião. E naquele morro, criança ainda podia ser criança.Kaíque chegou logo atrás. Chinelo arr

  • Coração Bandido – Morro –   Bônus

    Presídio Bangu 1 – Três anos antes da liberdade de Kaíque e LorenaA cela de Jonas Duarte era a última do corredor. Isolado, como um rei derrotado que já não comanda nem as próprias fezes. O tempo, a culpa e os inimigos tinham corroído tudo nele: a pose, o poder, o respeito. Era só mais um. Só mais um nome apagado nas paredes mofadas. Mas do lado de fora, o nome dele ainda fazia eco — e não de admiração, mas de ódio. Porque Jonas não caiu sozinho. Levou parceiros, entregou comparsas, ferrou aliados. E na cadeia, dedo-duro e traidor pagam com carne.Naquela noite, os gritos abafados começaram depois da troca de turno.Ninguém viu.Ninguém quis ver.Três detentos invadiram a cela com faca artesanal feita de escova de dente e lâmina de barbear. Entraram no escuro, com o ódio antigo e a missão encomendada.Jonas nem teve tempo de levantar.O primeiro golpe veio seco, na garganta.Silêncio. Depois, o som da respiração falhando, do corpo se debatendo, do sangue espirrando na parede.— Isso

  • Coração Bandido – Morro –   Final

    Cinco Anos DepoisMiguel corria descalço pelo quintal de terra batida, com o joelho ralado, os pés encardidos de pó e o riso solto como quem nunca soube o que é medo. A camisa rasgada no ombro, o cabelo desgrenhado, a alma leve. Naquele riso morava tudo o que a gente sangrou pra conquistar.A casa era pequena. Dois quartos mal rebocados, varanda de cimento rachado, uma antena torta no telhado e o cheiro eterno de café passado no coador de pano. Mas era nossa. E o mais importante: era longe do sangue.Interiorzão do Rio. Cidade tão pequena que mal aparece no mapa, daquelas onde a polícia só passa quando tá perdida ou com vontade de comer coxinha na venda da esquina. Aqui, o silêncio não vem antes do tiro — vem depois da luta.Kaíque vinha chegando da oficina. Uniforme suado, boné torto, mão encardida de graxa e cheiro de trabalho honesto. O peito largo já não carregava pistola, mas ferramenta. Ele tava mais velho, mais marcado, mais homem. Mas os olhos…Ah, os olhos dele tavam limpos.

  • Coração Bandido – Morro –   Miguel "O anjo do morro"

    Cinco Meses DepoisO tempo passou como passa na quebrada: arrastado, desconfiado, sempre esperando o próximo tiro, o próximo baque. Mas, naquela casinha esquecida pela civilização, o mundo lá fora parecia distante.Cinco meses se passaram desde que Kaíque matou o Cobra. Cinco meses de silêncio, de cuidado, de noites mal dormidas e promessas sussurradas. Cinco meses em que minha barriga cresceu como se fosse uma bandeira hasteada dizendo: ainda tem vida aqui, apesar de tudo.O chalé já não cheirava mais a mofo.Cheirava a café pela manhã, a sabonete barato, a esperança improvisada. A gente reformou com o que dava. Kaíque fez conserto no telhado, eu bordei panos velhos pras janelas. Transformamos o abandono em abrigo. Um lar meio torto, mas nosso.E naquela noite, quando a chuva caiu grossa e a luz acabou de vez, eu soube.O bebê ia nascer.A dor veio seca. Crua. Rasgando por dentro como se meu corpo soubesse que a vida só podia vir no grito. Kaíque entrou correndo, suado, ofegante. Tin

  • Coração Bandido – Morro –   Entre Cicatrizes e Promessas

    LorenaA estrada se estendia como uma ferida aberta, e cada quilômetro que a gente deixava pra trás era mais um pedaço de vida que não voltava. O silêncio dentro do carro era sufocante. Não aquele silêncio leve, de paz. Era o silêncio tenso de quem sabe que ainda não tá salvo. De quem ouve a morte no retrovisor.Kaíque dirigia com uma mão só, a outra pressionando o ombro encharcado de sangue já seco. A camisa colada na pele, o rosto pálido, os olhos fixos na pista. O cheiro de ferro impregnava o carro, misturado com o suor do medo e da adrenalina que ainda grudava na pele da gente. Eu queria gritar. Chorar. Rasgar o mundo no meio.Mas não podia.Porque se eu desmoronasse ali, ele vinha junto. E se a gente caísse, não levantava mais.A gente não tinha pra onde ir. O barraco da Dona Lurdes já era. A favela, um campo minado onde o tráfico e a milícia trocavam tiro como quem troca "bom dia". Lá, não existia mais espaço pra nós. Nem pra erro. Nem pra sonho.Fomos rumo à serra. A estrada er

  • Coração Bandido – Morro –   Só Vai Ter um de Pé no Final

    KaíqueEu tentei correr. Tentei apagar o passado com fuga, silêncio e esperança. Tentei recomeçar, mas a rua me ensinou que guerra não tem pausa. Ela te encontra até no esconderijo mais longe.O nome dele corrói por dentro igual ácido: Cobra.Traíra. Falso. Judas de fuzil.Cresceu do meu lado, mamou do mesmo barraco, dividiu o último arroz, segurou arma comigo nos beco da vida… e depois tentou me apagar. Me enterrar vivo. Como se eu fosse lixo.Mas lixo é ele.E agora ele tá atrás de mim. Atrás da Lorena. E do nosso filho.Vai pagar. Com sangue. Com cada osso quebrado. Com cada lágrima que ela já derramou por minha causa.O dia nem tinha clareado quando eu abri o olho. Lorena dormia colada em mim, o corpo cansado, mas sereno. O rosto encostado no meu peito, os cabelos bagunçados, a respiração leve… e a barriga dela já denunciando o futuro. Ali dentro, tá meu mundo. Minha redenção. Meu pedaço mais puro.Eu pensei em sair calado. Ir resolver essa guerra sozinho. Mas, quando fui levantar

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