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Capítulo 3 — A Casa Que Não Perdoa

last update Petsa ng paglalathala: 2026-05-18 00:18:36

Complicado — Enzo murmurou.

Não gosto dessa palavra.

Então escolha outra. Perigoso. Sujo. Conveniente demais.

Dante apoiou-se na cadeira.

Conveniente?

Antonio é acusado de trair você. Morre antes de ser interrogado. A filha aparece com documentos apontando para um inimigo que já queremos destruir. Parece quase uma história feita para nos distrair.

Dante pensara o mesmo.

O que o irritava era Enzo ter dito em voz alta.

A menina estava assustada — Dante disse.

Medo também pode ser encenado.

Não por ela.

Enzo olhou para ele.

Dante percebeu o erro antes que a frase terminasse de pesar no ar.

Não por ela.

Que certeza era aquela?

Ele não tinha nenhuma.

Sofia Ricci poderia ser exatamente o que parecia: uma jovem enlutada, assustada, inocente, jogada num jogo grande demais para suas mãos pequenas.

Ou poderia ser a arma mais delicada que a Mano Nera já enviara para dentro de sua casa.

O problema era que Dante tinha olhado nos olhos dela.

E havia visto dor.

Não a dor performada de quem tentava comover um inimigo. Dor crua. Raiva verdadeira. Luto ainda sangrando.

Ele conhecia mentiras.

Tinha sido criado entre elas.

Sofia Ricci não mentia sobre o pai.

Mas isso não significava que soubesse toda a verdade.

Quero todos os passos de Antonio nos últimos seis meses — Dante ordenou. — Contatos, ligações, contas, reuniões, amantes, médicos, padres, qualquer maldito café que ele tenha tomado fora da rotina.

Enzo assentiu.

E a garota?

Dante olhou para a taça de uísque, ainda cheia.

Fica aqui.

Como prisioneira?

Como garantia.

Dante...

O tom de Enzo mudou. Pouca coisa. Mas Dante ouviu.

Diga.

Uma mulher inocente dentro desta casa pode virar problema.

Uma mulher culpada fora dela vira guerra.

E uma mulher bonita perto demais de você vira fraqueza.

O silêncio caiu.

Dante se levantou devagar.

Escolha melhor suas próximas palavras.

Enzo não recuou. Talvez por ser velho demais. Talvez por conhecê-lo desde menino. Talvez por achar que tinha esse direito.

Seu pai morreu porque amou a mulher errada.

A frase atravessou o escritório como uma lâmina antiga.

Dante sentiu a velha ferida abrir, mas não deixou que o rosto mostrasse. Nunca deixava.

Seu pai, Salvatore Bellucci, havia sido um homem temido, respeitado, brutal. Mas tivera uma fraqueza: a esposa. Elena Bellucci. A mãe de Dante.

E os inimigos descobriram.

Dante tinha dezessete anos quando encontrou a mãe caída no jardim de inverno, usando um vestido claro manchado de sangue, os olhos abertos para o teto de vidro. Lembrava do cheiro das flores. Lembrava da mão dela fria entre as suas. Lembrava do pai gritando ordens, prometendo vingança, quebrando o mundo em pedaços.

Depois daquela noite, Salvatore nunca mais fora o mesmo.

E Dante aprendera a lição.

Amor era uma porta aberta.

E portas abertas convidavam assassinos.

Sofia Ricci não significa nada para mim — Dante disse.

Enzo o estudou por um instante.

Ótimo. Então não será difícil usá-la como isca, se necessário.

Algo escuro e imediato se moveu dentro de Dante.

Pequeno.

Violento.

Irracional.

Ele se aproximou de Enzo com calma demais.

Você não usará ninguém nesta casa sem minha ordem.

Enzo ergueu as sobrancelhas.

Naturalmente.

Dante sustentou o olhar dele.

Principalmente ela.

A segunda frase não deveria ter sido dita.

Dante percebeu.

Enzo também.

Mas o conselheiro apenas inclinou a cabeça.

Como quiser.

Um ruído discreto soou no corredor. Passos rápidos. Uma batida na porta.

Entre — Dante ordenou.

Marco apareceu.

Seu primo por parte de mãe e chefe da segurança interna da mansão. Forte, leal, impulsivo. Tinha uma cicatriz fina atravessando a sobrancelha esquerda e o hábito irritante de dizer o que pensava quando deveria calar.

Temos um problema — Marco disse.

Só um? A madrugada está generosa.

A garota Ricci tentou sair do quarto.

Dante não se surpreendeu.

Na verdade, algo parecido com diversão ameaçou tocar sua boca.

Já?

Pela janela.

Enzo soltou um som baixo, quase um riso.

Corajosa.

Dante lançou-lhe um olhar frio antes de voltar a Marco.

Ela se feriu?

Marco piscou.

A pergunta saíra rápido demais.

Não. Mas quase quebrou o pescoço tentando alcançar a varanda lateral. Lucia a segurou a tempo.

Dante saiu do escritório sem dizer mais nada.

Os corredores da mansão estavam silenciosos, mas não vazios. Homens armados se moviam discretamente pelas sombras. A casa Bellucci parecia dormir apenas para quem não conhecia seus segredos. Na verdade, a mansão nunca dormia. Sempre havia olhos. Sempre havia armas. Sempre havia alguém pronto para matar ou morrer.

Ao se aproximar do quarto leste, Dante ouviu a voz de Sofia antes de vê-la.

Eu não sou uma criminosa! Não podem me trancar aqui como se eu fosse um animal!

Lucia, a governanta, respondeu com a calma de quem já sobrevivera a três gerações de Bellucci.

Signorina, ninguém a trancou.

Tem dois homens na porta!

Exatamente. Na porta. Não dentro do quarto.

Que gentileza. Devo agradecer?

Dante parou por um segundo do lado de fora.

Não deveria gostar daquela insolência.

Não gostou.

Não exatamente.

Mas sentiu o canto da boca querer se mover outra vez.

Isso o irritou.

Ele abriu a porta.

Sofia estava no meio do quarto, descalça, usando ainda o vestido preto simples que vestira ao chegar, embora agora estivesse seco. O cabelo castanho caía solto pelos ombros, ligeiramente bagunçado. As bochechas estavam coradas de raiva. Os olhos verdes brilhavam como se ela preferisse incendiar a mansão a permanecer ali.

A janela atrás dela estava aberta.

A cortina balançava com o vento frio da madrugada.

Lucia estava ao lado da cama, impassível.

Dois seguranças ocupavam a entrada.

Sofia virou-se para Dante.

Por um instante, o quarto inteiro pareceu perder importância.

Ela era pequena demais para a fúria que carregava.

E bonita demais para a paz dele.

Dante odiou perceber.

Tentando fugir? — ele perguntou.

Tentando ir embora. Fugir é o que prisioneiros fazem.

Então estamos de acordo.

Ela apertou os lábios.

Você é arrogante.

E você é imprudente.

Eu tinha uma vida ontem de manhã.

Ontem de manhã seu pai ainda estava vivo.

A frase foi cruel.

Ele soube assim que disse.

O rosto de Sofia perdeu parte da cor. A raiva nos olhos dela tremeu, cedendo espaço à dor.

Dante sentiu algo incômodo no peito.

Não remorso.

Ele não tinha esse luxo.

Mas algo próximo o suficiente para desagradá-lo.

Saia, Lucia — ele ordenou.

A governanta hesitou apenas um segundo.

Signore.

Lucia deixou o quarto. Os seguranças também.

Sofia ficou mais rígida ao perceber que estava sozinha com ele.

Dante notou.

Tem medo de mim?

Ela ergueu o queixo.

Tenho bom senso.

Não foi o que pareceu quando me bateu.

Quer que eu peça desculpas?

Não.

Ela franziu a testa.

Não?

Prefiro desculpas sinceras. Você não está arrependida.

Não estou.

Dante caminhou devagar pelo quarto. Era amplo, decorado em tons de creme e dourado antigo, com móveis elegantes, uma cama grande demais e uma lareira apagada. Um quarto feito para hóspedes importantes. Ou reféns valiosos.

Você entende o risco que correu tentando sair pela janela?

Entendo o risco que corro ficando.

Não entende nada.

Ela soltou uma risada amarga.

Então explique, senhor Bellucci. Explique como manter uma mulher trancada em sua casa é para protegê-la.

Dante parou diante dela.

Dois homens seguiram seu táxi até aqui.

Sofia congelou.

O quê?

Você não percebeu porque estava ocupada demais tremendo no banco de trás.

Está mentindo.

Não preciso mentir para assustar você. A verdade faz isso melhor.

Ela desviou o olhar por um instante. Pela primeira vez, a raiva vacilou.

Quem eram?

Ainda não sei.

Homens da Mano Nera?

Talvez.

Ou seus homens?

Dante estreitou os olhos.

Cuidado.

Não. Eu estou cansada de ter cuidado. Meu pai está morto. Minha casa está revirada. Eu trouxe os documentos para você porque ele confiou em você. E agora você me acusa, me prende e espera que eu aceite tudo calada?

Sim.

A resposta, seca e simples, a deixou ainda mais furiosa.

Você é impossível.

E você é ingênua.

Pare de me chamar assim.

Pare de agir assim.

Sofia deu um passo na direção dele.

Ingênua seria acreditar que um homem como você pode proteger alguém sem querer algo em troca.

Dante baixou os olhos para ela.

E o que acha que eu quero de você?

A pergunta mudou o ar.

Sofia percebeu.

Ele também.

O silêncio entre os dois deixou de ser apenas raiva. Tornou-se outra coisa. Mais quente. Mais perigosa.

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