FAZER LOGINO dia começou cedo. Mesmo depois de tudo que tinha acontecido na noite anterior, Rafaela voltou para a lanchonete. Precisava daquilo. Precisava se manter firme. O movimento estava intenso. Pratos indo e vindo. Pessoas entrando e saindo. Rafaela mal teve tempo de pensar. E talvez… aquilo fosse bom. Porque quando ela parava… A saudade vinha. À noite, já cansada, sentou-se nos fundos da lanchonete com um prato simples de sopa. O vapor subia devagar… E, por um instante, ela se perdeu. Lembrou da mãe. Dos poucos momentos bons. Dos sonhos que tinha… Faculdade. Uma vida diferente. Uma chance. Seus olhos se encheram. Uma lágrima caiu silenciosa. Mas ela limpou rápido. — Eu preciso ser forte… — sussurrou. Depois de comer, voltou para a rodoviária. Sentou no mesmo banco. O mesmo frio. A mesma incerteza. Mas dessa vez… ela já sabia. Não demorou muito. O carro vermelho apareceu. Parou. A porta abriu. Rafaela respirou fundo… E entrou. Dentro do carro, o silêncio dominava. Até que chegaram. A boate brilhava ainda mais à noite. Imponente. Quase intimidante. Dessa vez, Rafaela não hesitou tanto. Entrou. Lá dentro, a mulher estava esperando. Elegante era uma morena do cabelo cacheado e corpo perfeito uma mulher muito bonita. — Vejo que voltou — disse, com um leve sorriso. — Voltei… — Meu nome é Lorrane — ela se apresentou — e aqui… tudo tem regra. Rafaela prestou atenção, séria. — Você dança, ganha dinheiro, tem onde dormir e comer. Mas precisa seguir o que eu mando. Ela se aproximou um pouco mais. O olhar agora mais analítico. — E me responde uma coisa… você falou a verdade ontem? Rafaela engoliu seco. — Sim… — Você é mesmo… inexperiente? Rafaela ficou um pouco sem jeito, mas assentiu. Lorrane sorriu de canto. — Interessante. Deu um passo para trás. — Uma garota bonita como você… com esse perfil… tem muito valor aqui. Rafaela não gostou muito do jeito que ela falou aquilo… mas ficou em silêncio. — Relaxa — disse Lorrane — ninguém vai te obrigar a nada. Aqui, você só dança. Ela bateu palmas. — Levem ela pro quarto. Rafaela foi conduzida por um corredor elegante. Portas fechadas. Luzes baixas. Até que chegaram a um quarto. Quando a porta abriu… Ela se surpreendeu. Era bonito. Limpo. Organizado. Muito diferente do que ela imaginava. — A comida já vai chegar — disse a funcionária. Sozinha no quarto, Rafaela sentou na cama. Passou a mão pelo tecido macio. Era real. Ela não estava mais na rodoviária. Minutos depois, a comida chegou. Ela comeu em silêncio. Cansada. Confusa. Mas, pela primeira vez em dias… Segura. Sem perceber, acabou adormecendo. Na manhã seguinte… Uma batida leve na porta. — Pode entrar… — disse, ainda sonolenta. Uma faxineira entrou, simpática. — Bom dia… trouxe seu café. Rafaela sentou na cama. — Obrigada… — A Lorrane pediu pra você conhecer o pessoal depois. Rafaela assentiu. Depois de se arrumar, saiu do quarto. O ambiente durante o dia era diferente. Mais calmo. Menos intenso. Ela foi levada até um espaço onde outras garotas estavam. Algumas conversavam. Outras se arrumavam. Os olhares se voltaram para ela. — Nova? — perguntou uma delas. — Sou… Algumas sorriram. Outras apenas observaram. — Lorrane quer falar com você — disse uma funcionária. Rafaela respirou fundo. E seguiu. Ao entrar na sala… Lorrane estava sentada, analisando alguns papéis. Levantou o olhar lentamente. — Dormiu bem? — Sim… — Ótimo. Ela cruzou as pernas. — Agora… vamos ver se você tem o que precisa pra ficar aqui. O coração de Rafaela acelerou. Ela sabia. Aquilo era só o começo. E que cada passo… Ia mudar ainda mais o seu destino.
Às vezes eu penso em tudo que aconteceu.E sinceramente?Parece outra vida.Outra Valéria.Outra história.Outra garota.Porque quando olho para trás e lembro da menina de dezesseis anos andando pelo morro atrás do meu pai, querendo aprender tudo, querendo provar que era forte...Eu mal consigo acreditar que era eu.Muita coisa aconteceu desde então.Muita coisa mesmo.Eu amei.Eu perdi.Eu chorei.Eu sobrevivi.E principalmente...eu aprendi.Aprendi que algumas dores nunca vão embora.Mas a gente aprende a viver com elas.Aprende a carregar.Aprende a continuar.Porque a vida continua.Mesmo quando a gente acha que não vai conseguir.E foi exatamente isso que aconteceu.Os anos passaram.Roberto terminou os estudos.Virou médico.Um médico respeitado.Do jeito que sempre sonhou.E eu?Eu construí uma nova vida ao lado dele.Uma vida longe dos tiros.Longe das guerras.Longe de tudo que meu pai queria que nosso filho não conhecesse.E Deus sabe o quanto eu lutei para cumprir aquela p
A noite já tinha tomado conta de tudo.As luzes espalhadas pelos morros brilhavam ao longe, mas pareciam mais fracas agora.Como se até elas estivessem de luto.Sentados na varanda da antiga casa de Macário, Roberto e Valéria permaneciam abraçados em silêncio.O vento soprava devagar.E pela primeira vez em muitos dias não havia tiros.Não havia correria.Não havia rádios chiando.Só existia o som da dor tentando encontrar um lugar dentro deles.Roberto continuava com a mão sobre a barriga de Valéria.Ainda era estranho pensar que existia uma vida crescendo ali.Uma vida que não fazia ideia da quantidade de sofrimento que tinha acontecido antes mesmo de nascer.Ele ficou alguns segundos olhando para frente antes de finalmente falar.— Eu senti tanta raiva.A voz saiu baixa.Rouca.Valéria levantou os olhos para ele.Roberto respirou fundo.— Quando minha mãe morreu...As lágrimas voltaram imediatamente.— Eu queria matar todo mundo.Valéria apertou sua mão.Sem dizer nada.Ele continu
O silêncio que veio depois da guerra foi pior do que os tiros.Muito pior.Porque os tiros terminavam.O silêncio não.O silêncio deixava espaço para a dor.Para a ausência.Para a realidade.E a realidade era cruel.Cruel demais.O sol já começava a desaparecer no horizonte quando os homens finalmente conseguiram organizar tudo ao redor.Os corpos estavam sendo retirados.Os feridos recebiam atendimento.Os rádios continuavam transmitindo informações.Mas para aquela família...Nada mais importava.Porque Tiago já não estava mais ali.E Macário ainda respirava.Mas cada vez com mais dificuldade.Roberto permanecia ajoelhado ao lado do pai.Segurando sua mão.Sem coragem de soltar.Como se largar aquela mão fosse aceitar o inevitável.Como se ainda existisse alguma forma de impedir aquilo.— Pai...A voz dele saiu falha.Quebrada.Macário abriu os olhos lentamente.O rosto estava pálido.Cansado.Mas havia uma paz estranha em sua expressão.Talvez porque soubesse que o responsável por
O dia chegou.Durante semanas, Tiago havia se preparado.Durante semanas, Diógenes levantou informações.Durante semanas, homens de confiança investigaram cada passo, cada movimento e cada esconderijo ligado a César Preto.E naquela manhã, ninguém precisou dizer em voz alta o que todos sabiam.Era o dia que decidiria tudo.O ar parecia pesado.Difícil de respirar.Como se o próprio mundo estivesse esperando o que aconteceria nas próximas horas.Valéria acordou antes do amanhecer.Não conseguiu dormir direito.Roberto também não.Os dois permaneceram sentados na varanda durante boa parte da madrugada, em silêncio.Observando as luzes da cidade.Pensando em tudo que tinham perdido.Pensando no futuro.Pensando no filho que estava chegando.Até que Tiago apareceu.Já vestido.Já preparado.O olhar sério.Mais sério do que Valéria já tinha visto.— Vocês dois não vão entrar.Valéria levantou imediatamente.— Pai...— Não.A resposta veio firme.Sem espaço para discussão.— Eu já tomei min
Enquanto o enterro de Priscila terminava e o sol começava a desaparecer no horizonte, havia alguém sofrendo a mesma perda em outro lugar.Macário.Preso havia dias.Machucado.Cansado.Mas ainda vivo.Os sequestradores não faziam questão de esconder as notícias dele.Muito pelo contrário.Queriam que ele sofresse.Queriam que ele sentisse cada golpe.Cada perda.Cada derrota.Foi assim que ele soube.Um dos homens entrou no cômodo improvisado onde ele estava preso e simplesmente contou.Contou sobre o ataque.Contou sobre a invasão.Contou sobre a morte de Priscila.No primeiro momento, Macário não acreditou.Depois ficou em silêncio.E por fim desabou.Chorou como poucas vezes havia chorado na vida.Chorou pela mulher que amava.Pela companheira de tantos anos.Pela mãe do seu filho.Pela única pessoa que sempre esteve ao seu lado quando tudo dava errado.As lágrimas escorriam sem controle.E nem mesmo os sequestradores zombaram daquela dor.Porque havia sofrimentos que até os homens
O amanhecer chegou cinzento.Pesado.Como se até o céu soubesse que aquele seria um dos dias mais dolorosos que o Morro do Macário já vivera.Durante toda a madrugada, moradores continuaram chegando.Alguns levavam flores.Outros levavam comida para os familiares.Outros simplesmente apareciam para prestar respeito.Porque Priscila era uma daquelas pessoas raras que conseguiam ser amadas por todos.Ela não era lembrada apenas como a esposa de Macário.Era lembrada pelos conselhos.Pelas ajudas discretas.Pelas visitas que fazia às famílias mais necessitadas.Pelas vezes em que pagou remédios para alguém.Pelas vezes em que acolheu pessoas dentro daquela própria casa.E agora sua ausência parecia impossível de aceitar.O salão onde acontecia o velório estava lotado.Silencioso.Tomado por lágrimas e tristeza.O caixão permanecia cercado por flores.Brancas.Delicadas.Como se tentassem suavizar uma dor impossível de ser suavizada.Roberto estava sentado na primeira fileira.Vestido de