FAZER LOGINIsabela puxava sua mala de rodinhas com esforço pelo corredor de mármore branco da embaixada brasileira em São Paulo. Os rodízios já gastos guinchavam a cada passo, e o tecido puído denunciava o quanto aquele era um item herdado de tempos difíceis. Dentro da mala, além dos itens essenciais, estavam as poucas roupas que ela havia conseguido comprar em um brechó do centro da cidade — peças básicas, discretas, nada de grife. Tudo planejado para economizar até o último centavo daquele contrato temporário que, se cumprido com sucesso, significaria três meses de respiro para ela, Amélia e Enzo.
Respirou fundo ao chegar à recepção interna. O lugar fervilhava de movimentação. Funcionários iam e vinham, carregando caixas, pastas, tablets e documentos. A segurança havia sido reforçada, e os membros da equipe de protocolo pareciam estressados o suficiente para começar uma terceira guerra mundial caso algum detalhe saísse errado. — Você deve ser a intérprete — disse um homem com crachá azul-marinho e expressão impaciente. — Isabela, certo? Ela assentiu com um sorriso tímido. — Siga-me. Vamos levá-la até o alojamento. O Sheik chegará às seis da manhã em seu avião particular. Todos devem estar de prontidão às cinco. Isabela acompanhou o funcionário pelos corredores até o andar superior, onde ficavam os quartos de apoio. Nada luxuoso, apenas acomodações básicas para casos como o dela. O cômodo que lhe foi designado era pequeno, com uma cama de solteiro encostada à parede, um armário estreito, uma mesinha e um ventilador no teto que rangia levemente. A janela dava para um jardim interno silencioso. Deixou a mala ao lado da cama e, por um instante, permitiu-se fechar os olhos. Pensou na mãe. Antes de sair, havia contratado dona Ivonete, uma senhora do bairro, para cuidar de Amélia durante os dias em que ela estaria fora. Alguém de confiança. Deixou os remédios organizados, o número da farmácia pregado na geladeira, e os horários escolares de Enzo anotados em um papel colado no armário da cozinha. Ainda assim, o coração apertava. Ela nunca ficava longe dos dois. — Vai valer a pena — sussurrou para si mesma, sentando-se na cama. — Precisa valer. A campainha interna da embaixada tocou com um som agudo, alertando para o início da última reunião antes da chegada do Sheik. Isabela levantou-se imediatamente. Apesar do dia puxado, ainda não havia sido apresentada oficialmente à equipe que atuaria diretamente com o visitante ilustre. Na sala de reuniões, vários rostos já ocupavam os lugares. Homens de terno, mulheres em ternos elegantes, e uma presença que se destacou assim que Isabela entrou: Lorena Camargo, loira, olhos cinzentos, maquiagem impecável, postura ereta. Ela se virou ao ver a nova integrante e arqueou uma sobrancelha. — Ah... você deve ser do suporte administrativo? — disse Lorena com um sorriso sutilmente venenoso. — Na verdade, fui contratada como intérprete do Sheik Zayn Al-Rashid — respondeu Isabela, educada, mas firme. Lorena congelou por um segundo. Seus olhos faiscaram antes de voltar ao controle. — Intérprete? Curioso, achei que o posto feminino mais próximo ao Sheik seria o meu. — E virou-se novamente, como se não fosse nada. O coordenador da recepção oficial deu início à explanação, apresentando a todos os envolvidos na recepção do príncipe do deserto. Tinham seguranças locais, membros da diplomacia, um assistente de agenda pessoal vindo de Al-Qadar, além de dois motoristas, um chefe de protocolo, e uma equipe de catering especializada em gastronomia halal. Tudo milimetricamente organizado. — E, por fim, temos Isabela Vasquez, intérprete designada para acompanhar o Sheik Zayn em todos os compromissos. Ela será responsável por traduzir qualquer interação dele com a imprensa, autoridades e funcionários locais. Estará à disposição integral dele — explicou o diretor com clareza. Lorena apertou os lábios, mas manteve a postura. Internamente, a ideia de que não seria a única mulher próxima ao Sheik já criava uma tempestade em sua mente. Ela havia investido horas — e dinheiro — em roupas novas, sessões de estética e até aulas rápidas sobre os costumes de Al-Qadar. Estava pronta para ser notada. Para ser desejada. E agora... outra mulher? Após a reunião, Isabela voltou para seu quarto. Lavou o rosto no pequeno banheiro conjugado, vestiu um pijama de algodão e sentou-se para revisar as anotações sobre o protocolo real. Os olhos ardiam de cansaço, mas ela se obrigou a manter-se acordada por mais um pouco. Na mesinha de cabeceira, uma foto de Amélia e Enzo sorrindo, impressa em papel comum, lembrava-a do porquê de estar ali. Mesmo exausta, mesmo temerosa, ela faria dar certo. O silêncio que pairava no quarto de Isabela não era de tranquilidade, mas de expectativa. O som abafado de passos apressados nos corredores da embaixada se misturava ao zumbido baixo do ventilador no teto, que girava preguiçosamente como se já sentisse o peso da madrugada que se aproximava. Ela tentou se deitar, mas o colchão fino rangia sob qualquer movimento, tornando impossível relaxar. Mesmo que conseguisse, a mente inquieta não permitiria. Levantou-se e foi até a pequena pia do banheiro, lavando o rosto mais uma vez. O espelho refletia seus olhos castanhos levemente vermelhos pela exaustão, mas havia uma centelha neles — a mesma que acendia sempre que o medo dava lugar à força. Ela precisava aguentar. Pela mãe. Pelo irmão. Por ela mesma. Voltou à mesinha e pegou seu caderno. Tinha o costume de escrever suas emoções desde adolescente. Era uma forma de colocar para fora tudo o que a sufocava sem precisar dizer em voz alta. "Primeira noite. Ainda nem o conheço, e já sinto o peso de ser a única responsável por traduzir cada palavra, cada gesto. Será que ele vai olhar para mim com aquele ar de desdém que os poderosos têm? Será que vou conseguir me manter firme diante dele? Não sei. Mas sei o que está em jogo. Por isso, vou ficar." Fechou o caderno ao ouvir uma leve batida na porta. — Pode entrar — disse, um pouco assustada. Era uma funcionária jovem, de cabelos presos e jaleco branco. Trazia uma bandeja simples com um lanche: pão, frutas, um copo de suco. — A senhora precisa comer algo antes de dormir. Amanhã será intenso. — Muito obrigada. Qual seu nome? — Marilda. Estarei aqui durante toda a semana também. Ajudo na enfermaria e no suporte emergencial. Qualquer coisa, é só me chamar. Seu quarto tem um botão de alerta — disse apontando para um discreto botão azul ao lado da cama. — E... boa sorte com o Sheik. O jeito como ela disse "Sheik" fez Isabela arquear uma sobrancelha. — Ele é tão... difícil assim? — Não é só difícil. É... magnético. Mas também... perigoso. Não que vá fazer mal a alguém. Mas ele tem uma aura. Uma presença que domina qualquer ambiente. Só... cuidado. E não se assuste se ele não olhar diretamente para você. Ele costuma ignorar o que não considera necessário. Isabela assentiu em silêncio. Quando Marilda se foi, comeu lentamente o pão com queijo e as fatias de maçã, enquanto encarava o teto. Aquela noite parecia interminável. Em outro ponto da embaixada, no andar dos altos funcionários, Lorena revisava cada peça de roupa que havia levado. Trocava os brincos pela terceira vez e retocava a maquiagem, mesmo sabendo que o Sheik só chegaria de manhã. Sua obsessão não era apenas pelo poder, mas pela promessa de uma vida fora do comum. Al Qadar, riqueza, luxo, ascensão. E agora, aquela morena comum aparecia para atrapalhar seus planos? — Não posso deixar ninguém me tomar o que é meu— murmurou para si mesma, encarando o espelho como quem ensaiava um papel. Na sala de controle, os seguranças acompanhavam a movimentação no aeroporto militar. O jato particular já cruzava o espaço aéreo brasileiro. Era maior que qualquer avião comercial, com bandeiras douradas nas laterais e o brasão de Al Qadar em alto-relevo. O comandante da equipe reforçou os últimos pontos: — O Sheik não gosta de atrasos, não tolera incompetência e despreza bajulações. Sejam profissionais. Sejam discretos. E, acima de tudo, silenciosos. Já passava da meia-noite quando Isabela finalmente conseguiu deitar-se. Apagou a luz, mas a escuridão do quarto não trouxe descanso. Ela abraçou o travesseiro, tentando relaxar, mas os pensamentos não cessavam. O peso da responsabilidade misturava-se à curiosidade sobre o homem que todos pareciam temer e admirar ao mesmo tempo. Lentamente, o cansaço venceu. O som do ventilador virou trilha de um sono leve e interrompido. Sonhou com areia. Com um deserto imenso. E com olhos negros como a noite a observando no meio do nada, silenciosos, inquisidores. Acordou assustada, com o coração acelerado. Olhou o relógio: 3h46. Voltou a dormir novamente.📖 Capítulo 240 – Trinta Anos depois.Cinco anos depois do nascimento de Tariq, Rayan e Salma, Amélia partiu serenamente. Os médicos no Brasil haviam lhe dado meses; ela roubou dez anos ao prognóstico e os gastou do melhor jeito: cantando baixinho, mandando áudios matinais, ensinando canções antigas para os netos e lembrando a Isabela que amor não se mede em calendário. No fim, pediu luz suave, janela entreaberta e a certeza de que a filha estava inteira. Enzo segurou sua mão até o último suspiro. Elyas cuidou de tudo, como prometera — “é lá que mora meu coração; onde sua mãe está, está a minha vida” — e, cumprido o luto, voltou a Al-Qadar. Primeiro para ajudar discretamente nos assuntos de inteligência; depois, por escolha, apenas avô e pai por afinidade de Isabela, contando histórias que não cabiam em livro.A casa aprendeu a falar baixinho por um tempo. As crianças — cinco anos de assombro e travessura — olharam para os adultos tentando decifrar a linguagem do adeus. Isabela explic
O quarto voltou ao volume normal das coisas depois que a equipe saiu: bipes estáveis, o tecido das cortinas roçando discreto, o sussurro da respiração de três recém-nascidos que ainda aprendiam a caber no próprio corpo. Isabela manteve a mão sobre a coberta, como quem guarda fogo. Zayn, sentado ao lado, tinha o olhar de homem que finalmente entendeu a palavra legado.— Falta nomear o que já é nosso — disse ela, calmo, sem pressa.— Falta só batizarmos o que Allah já escreveu — respondeu Zayn.Nos berços, as fitas pensadas por Enzo — azul, dourada, rosa — ainda marcavam os punhos minúsculos. Enzo, ali perto com Lasmih, segurava a pastinha de papelão como um intendente; se dependesse dele, até as nuvens seriam protocoladas.Amélia entrou conduzida pela própria firmeza. O oxigênio portátil, discreto, pendia no ombro; a mão livre pousou no acrílico de um berço, depois do outro, como quem aprende um alfabeto novo. Sorriu.— Três caminhos, filha. E todos chegam aqui.Yasmeen veio logo atrás
📖 Capítulo 238 – Os Três Primeiros ChorosA ala médica do palácio trabalhava em compasso de rotina: mãos higienizadas, campos abertos, instrumentos alinhados em bandejas de aço. Ninguém corria. Cada pessoa ali parecia já ter ensaiado aquela manhã na cabeça dezenas de vezes.Isabela chegou apoiada no braço de Zayn. Vestia o avental claro, os cabelos presos sem pressa. Cumprimentou a médica com um aceno curto e recebeu de volta o mesmo gesto, profissional e afetuoso.— Seguimos o combinado — disse a médica. — Exames finais, anestesia, e vamos começar.No quarto de preparo, os números apareceram um a um: pressão, saturação, frequência. Isabela manteve a postura. Não havia frases de efeito; havia respiração medida. Zayn não largou sua mão.— Está firme? — ele perguntou, baixo. — Estou pronta — ela respondeu, simples.Amélia entrou com a ajuda de uma serva. Ficou ao lado da filha por alguns minutos, o aparelho respiratório zumbindo discreto. Não quis discurso; preferiu o que sempre soube
Os meses avançaram em Al-Qadar como páginas viradas com cuidado. Cada dia trazia consigo um novo detalhe, um novo sinal da vida que crescia no ventre de Isabela. Não havia pressa, mas tampouco descanso: a espera pelos trigêmeos se transformara no verdadeiro centro do palácio.As servas caminhavam pelos corredores com um cuidado incomum, como se o menor ruído pudesse perturbar o equilíbrio daquela gestação. Guardas se mantinham atentos, mas, em seus olhares, havia mais ternura que rigidez. Até os ministros, acostumados ao peso das decisões políticas, baixavam o tom da voz quando falavam diante de Isabela, como se cada palavra devesse ser suave.Ela, por sua vez, permanecia serena. O corpo sentia o peso, é claro — três vidas exigiam espaço, energia e fôlego — mas os médicos garantiam que tudo seguia dentro do esperado. O parto, no entanto, seria planejado para antes do tempo natural. Precaução, não urgência.Na biblioteca, Isabela passava horas lendo, ou simplesmente ouvindo as história
📖 Capítulo 236 – O Peso da EternidadeO sol do deserto descia lentamente sobre Al-Qadar, tingindo o céu com tons de cobre e violeta. O palácio refletia as últimas luzes do dia, como se fosse feito de ouro derretido. No coração daquela fortaleza, Isabela sentia que o tempo tinha outro ritmo: cada minuto era contado em passos lentos, em respirações profundas, em batidas que não eram apenas as do próprio coração, mas também as três novas que carregava consigo.Ela estava sentada no terraço, os pés descalços sobre os mosaicos frios. O vento soprava, brincando com os véus claros de sua túnica. À sua frente, a imensidão do deserto parecia infinita — mas, pela primeira vez, ela não via apenas areia. Via caminhos, destinos, possibilidades.Zayn aproximou-se em silêncio, as sandálias abafando os passos no mármore. Ele a observava com o olhar grave, mas havia algo de raro: um leve traço de serenidade. Sentou-se ao lado dela, deixando a espada de lado, como se naquele momento o rei não tivesse
📖 Capítulo 235 – Vozes do FuturoO palácio de Al-Qadar parecia respirar diferente. Cada corredor, cada jardim, cada pedra que antes ecoava apenas o peso da disciplina agora parecia pulsar com uma expectativa silenciosa. O rumor dos trigêmeos já tinha atravessado os muros dourados e se espalhava como areia levada pelo vento.Isabela sentia o peso desse sussurro em cada olhar que recebia. Das servas que lhe traziam água fresca às mulheres que vinham com pequenos presentes embrulhados em tecidos simples, todos pareciam olhar para seu ventre como se ali repousasse o destino do deserto. Às vezes, isso a assustava; outras, lhe enchia de um orgulho silencioso.Zayn, por outro lado, parecia mais feroz. Não em gestos de dureza, mas em cada palavra dita diante do conselho, em cada decreto assinado, em cada olhar lançado a quem ousasse levantar dúvida. Ele havia transformado a chegada dos filhos em bandeira política: ninguém podia esquecer que o trono de Al-Qadar não era mais apenas dele, mas d







