Compartir

4. O BEIJO

last update Fecha de publicación: 2025-06-03 08:43:51

Roberto mudou de assunto de maneira tão súbita e calculada que parecia ter ensaiado aquela transição. Com a leveza de quem domina a cena, ele desviou o olhar de Deise e fixou-se em um pequeno objeto sobre a mesinha lateral. Seus dedos longos e firmes tocaram uma caixa vermelha, de veludo macio, e com a mesma solenidade de um ritual, ele a abriu, revelando o conteúdo com um brilho quase hipnótico.

No interior, repousava uma joia delicada, de um tom profundo e vibrante que remetia diretamente ao olhar enigmático de Deise — como se tivesse sido lapidada com a essência da alma dela.

— Trouxe isso para você — disse ele, a voz firme, mas envolta em uma doçura quase teatral. — Da cor dos seus olhos... Permite que eu coloque?

Ela hesitou por um segundo, tomada de surpresa pela gentileza incomum vinda de alguém que sempre agia com controle milimétrico. Por mais que estivesse desconfortável, assentiu com um gesto sutil.

— Claro... mas o senhor não precisava — respondeu, sua voz quase sussurrada, abafada por um constrangimento que ela mesma não conseguia explicar.

Roberto se levantou lentamente, como quem dança com o tempo, e se aproximou. Suas mãos ergueram o colar com precisão e, ao colocá-lo em seu pescoço, seus dedos roçaram a pele dela com uma suavidade que fazia cada músculo do corpo de Deise se enrijecer.

— Preocupar-me com você é um prazer raro, Deise... — murmurou ao pé do ouvido, a voz carregada de um calor estranho, que parecia mais ameaça disfarçada do que carinho genuíno. — Gosto de vê-la sorrindo. Embora hoje, confesso, seus olhos escondam algo mais denso... algo que me intriga.

Deise sorriu por obrigação, os lábios arqueados com esforço. O colar, por mais leve que fosse, pesava como grilhões em sua pele. Ela sentia o peso não do ouro, mas da intenção por trás dele. Aquela conversa tinha camadas — e nenhuma delas era realmente sobre um presente.

Mais tarde, sozinha em seu quarto, Deise encarava a caixa deixada sobre sua cama. Demorou a abri-la, como quem sabe que algo ali dentro poderia alterar seu estado de espírito — e, talvez, até o rumo daquela noite.

Quando finalmente retirou a tampa, encontrou um vestido de seda vinho, de corte sofisticado, porém revelador. Um decote profundo, uma fenda lateral provocante e um caimento que desenhava cada curva do corpo. Era o tipo de vestido feito para atrair olhares... ou, pior, para prender atenção. Ao lado, um par de sapatos de salto da mesma tonalidade e um colar de rubis cintilantes compunham o conjunto.

Ela segurou o vestido diante do espelho e, por um instante, teve a nítida sensação de estar sendo transformada em vitrine — uma boneca adornada para impressionar uma plateia que ela desprezava. Mas algo dentro dela despertou. Se teria que vestir aquela armadura, que fosse com orgulho. Se seria exposta, que fosse com força.

Lavou o rosto, ajeitou os cabelos em ondas suaves, fez uma maquiagem discreta que ressaltava a intensidade de seus olhos. Quando se olhou no espelho, viu mais do que uma mulher aprisionada: viu alguém decidida a resistir, mesmo com poucas armas.

Já passava das 20 horas quando deixou o quarto. A mente inundada de pensamentos, o coração em sobressalto. Miguel viria? Ou ela enfrentaria tudo sozinha?

Antes de terminar de descer, notou o ambiente repleto de pessoas. Rosto após rosto, sócios, investidores, esposas arrumadas com brilho nos olhos. Algumas feições lhe eram familiares, outras completamente estranhas. E, no meio de todos, estava ele — Roberto Duarte — em pé, erguendo uma taça de vinho com um entusiasmo enigmático.

— Para quem ainda não conhece — anunciou, com voz calorosa e autoritária — esta é minha nora, Deise Duarte. Esposa de meu filho, Lucas.

O olhar dela congelou. O peso das palavras caiu como um chicote em seu orgulho. Antes que pudesse reagir, Lucas apareceu ao seu lado, pegando suavemente sua mão.

— Você está linda — murmurou com um sussurro venenoso. — Seguir meu conselho só lhe faz bem.

Ela puxou discretamente a mão de volta, ignorando o comentário, e varreu o salão com os olhos em busca de um único rosto: Miguel. Mas ele não estava ali. Seu coração afundou e, por um instante, desejou que a noite acabasse antes mesmo de começar.

O jantar prosseguiu. Cerca de quinze pessoas à mesa, entre risos contidos e conversas artificiais. Deise permaneceu em silêncio, como uma sombra ao lado de Lucas, suportando o teatro social, a bebida constante e os olhares de julgamento velado.

Horas depois, já com mais álcool no sangue do que gostaria de admitir, ela escapou para o terraço. O ar da noite a envolveu como um bálsamo. Observava o jardim abaixo — silencioso, com luzes tênues e sombras que dançavam com o vento. Estava ali, à deriva, quando ouviu uma voz baixa e conhecida atrás de si:

— Estive à sua procura...

Ela se virou num reflexo. Seu coração deu um salto. Miguel.

— Eu sabia que te encontraria aqui — disse ele com um sorriso cúmplice.

— Pensei que não viria... — murmurou ela, sentindo o peito se apertar.

— Não te deixaria sozinha no meio dos tubarões — respondeu ele, tocando-lhe suavemente o rosto. — Está tudo bem?

Ela não respondeu. Apenas o abraçou com força, como quem se agarra ao único respiro de liberdade. Seus corpos se encaixaram como peças que o tempo separou à força. Quando Miguel pousou as mãos sobre o vestido dela, o mundo pareceu silenciar. Os rostos se aproximaram, e ele a beijou com intensidade contida — um beijo que começou como sopro e virou incêndio.

A língua dele buscava a dela com desejo incontido, e Deise entregava-se como quem esperava aquele momento há séculos. Quando se afastaram, ofegantes, Miguel murmurou, tomado pelo conflito:

— Não podemos... não deveríamos...

— Você quer parar? — perguntou ela, esperando ouvir algo que não a ferisse.

Miguel permaneceu em silêncio, desviando o olhar como quem trava uma guerra interna. E então recuou.

— Sinto muito... Não devia ter feito isso.

Ela virou-se de costas, tentando se recompor, mas ele voltou, puxando-a pela cintura. Seus beijos incendiaram o pescoço dela, e um arrepio involuntário percorreu sua espinha. Estava prestes a perder o controle novamente, quando uma voz cortou o ar como uma lâmina:

— Deise, você está aí?

Lucas.

Ela respirou fundo, alisou os cabelos, tentando parecer intacta.

— O que você quer? — perguntou, indo ao seu encontro com firmeza.

— Precisamos conversar. Meu pai está nos esperando no escritório — disse ele, tocando-lhe o braço com falsa ternura.

Ela se afastou bruscamente.

— Não encoste em mim!

Deise o acompanhou até a sala. Os convidados já haviam ido embora. O silêncio da casa agora era mais pesado do que o som das vozes havia sido.

— Venha, ele te espera — repetiu Lucas.

— Vou ao banheiro primeiro. Encontro vocês lá.

Trancada no banheiro, os olhos fixos no reflexo, Deise sorriu. Um sorriso pequeno, verdadeiro, pela primeira vez em muito tempo.

Ela havia sido beijada por Miguel. E por um instante, mesmo cercada de lobos, havia sentido o gosto da liberdade.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   64. EPÍLOGO – O SILÊNCIO ANTES DA TEMPESTADE

    O vento frio de Seattle varria a varanda envidraçada do apartamento de Miguel e Deise, trazendo consigo a sensação de que algo invisível rondava o ar. Um ano havia se passado desde a prisão de Roberto Duarte, e a vida deles parecia enfim ter encontrado um raro equilíbrio. As manhãs eram preenchidas com risos, os fins de tarde com longos passeios à beira-mar, e as noites com a paz de um amor consolidado.Mas tudo mudou no exato dia em que Deise, com lágrimas de emoção e mãos trêmulas, revelou a Miguel a notícia que ambos sonhavam: ela estava grávida. A promessa de uma nova vida, de um recomeço pleno, parecia selar o destino de ambos. Porém, no mesmo instante em que a esperança brotou, a escuridão voltou a rondar.Primeiro, foi um incêndio repentino em um dos hospitais administrados pela empresa. Depois, um acidente de carro inexplicável que quase custou a vida de Miguel numa estrada vazia, onde os freios do veículo simplesmente falharam. Em seguida, relatórios falsificados, movimentaçõe

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   63. UM NOVO AMANHECER

    Na sede do FBI em Seattle, os criminosos foram separados em salas diferentes. O agente Kurt Weller e a agente Trash Marfai tinham sobre a mesa uma pasta volumosa, recheada de provas: contratos falsificados, registros de lavagem de dinheiro, evidências de suborno, transações ilegais com terroristas internacionais.Kurt encarou Roberto fixamente.— Você sempre se achou intocável, não é? — disse o agente, sua voz carregada de desprezo. — Mas chegou o dia em que o caçador virou presa.Roberto se manteve calado, tentando parecer frio, mas gotas de suor denunciavam o peso da situação.Na sala ao lado, Andrew gritava, tentando invocar sua autoridade.— Eu sou juiz federal! Isso é um absurdo, uma armadilha política! —A agente Tash respondeu com calma, quase com desprezo:— O senhor é apenas mais um criminoso agora. E criminosos respondem perante a lei.Algumas horas depois, os dois foram levados ao estacionamento do prédio. Algemados nos pulsos e tornozelos, com capuzes negros sobre as cabeç

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   62. CADA UM TEM O DESTINO QUE MERECE

    Quando já se preparavam para sair, Telles apareceu, sorrindo ao ver Deise.— Fico feliz em vê-la de volta. — Ele olhou para os dois. — Agora acredito que tudo ficará bem. Kurt fez um bom trabalho. Logo encontrarão o Roberto.Miguel franziu o cenho.— Eu nem sabia que meu pai estava foragido.— Pois é… — Telles suspirou. — Ele se escondeu em algum lugar. Mas o FBI vai achá-lo. Porque, se a CIA chegar primeiro… bom, você sabe. Nunca mais ele verá o sol.Ele olhou para Deise com certa preocupação.— Sei que você precisa descansar… mas temos alguns assuntos urgentes.— Tudo bem — respondeu Miguel. — Tem uma cafeteria perto daqui. Podemos conversar lá.Pouco depois, já sentados à mesa e com os pedidos feitos, Telles começou:— Primeiro ponto: você e Deise são os acionistas majoritários. Kurt me ajudou a encontrar documentos que eu precisava para encerrar o caso dela. Descobrimos que o pai da Deise tinha 42% das ações da empresa. Roberto, apenas 20%, já que quase dois anos atrás, após um aci

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   61. REENCONTRANDO DEISE

    Na manhã seguinte, a cidade ainda acordava sob uma névoa fria quando Miguel e Telles saíram de casa. O céu estava encoberto, refletindo o peso que Miguel carregava no peito. Ele praticamente não havia pregado os olhos. Durante toda a noite, a imagem de Deise desaparecendo diante dele, envolta em mistério e perigo, o perseguira como um fantasma implacável.No banco do passageiro, Telles observava o amigo com discrição. O silêncio entre eles era denso, quebrado apenas pelo som abafado do motor do carro e o ocasional suspiro de Miguel, que parecia lutar para manter a calma.Ao chegarem ao prédio do FBI Seattle Division, foram recebidos por um ar de formalidade e urgência. Uma mulher alta, de cabelos presos em um coque impecável e terno escuro, os aguardava logo na entrada.— Senhor Euler, esses homens são do caso Duarte — disse ela ao abrir a porta para um corredor interno.Do outro lado, o agente Kutt Euler aguardava. Era um homem de expressão severa, cabelos grisalhos bem cortados e ol

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   60. O DESESPERO DE MIGUEL

    Já era noite em Nova Jersey quando Miguel entrou em casa, acompanhado por Telles. O peso das últimas horas parecia ter deixado cada passo mais lento, e o ar no ambiente parecia carregado de tensão e desespero. Assim que cruzou a porta, Miguel largou o paletó sobre o encosto de uma cadeira e afundou no sofá, como se suas forças tivessem se esgotado por completo. O olhar estava perdido, fixo em um ponto qualquer, mas sem realmente enxergar nada.— Onde será que ela está? — a voz dele saiu trêmula, embargada pela angústia. — Meu Deus… o que pode estar acontecendo com ela agora? — completou, levando as mãos ao rosto, tentando conter as lágrimas que já deslizavam.Telles se sentou na poltrona ao lado, observando o amigo com preocupação. Ele próprio estava inquieto, mas tentava manter a calma para não piorar o estado de Miguel.— Já fizemos tudo o que podíamos hoje, Miguel — disse com um tom sereno, mas firme. — Agora, por mais que doa, só nos resta esperar. O FBI está com todas as informaç

  • APAIXONADA PELO MEU CUNHADO - Livro 1   59. APROVEITANDO ENQUENTO PODE

    Enquanto Deise e Miguel eram arrancados brutalmente de seu breve paraíso, a centenas de quilômetros dali, no luxuoso aeroporto de New Castle, um homem caminhava despreocupadamente, como se estivesse no auge do mundo.Roberto sorria. Seus passos eram leves, quase dançantes, e ele cantarolava uma melodia antiga, daquelas que os homens cantam quando sentem que venceram uma guerra sem precisar sujar as mãos. Seus olhos ocultos por um par de óculos escuros caríssimos escaneavam o ambiente como um predador satisfeito. O terno de linho impecável, a gravata frouxa e o relógio de ouro reluzente em seu pulso completavam o quadro de um homem que, aos olhos do mundo, parecia intocável.Do lado de fora, um carro de luxo o esperava com o motor ligado. O motorista — sério, rígido, profissional — abriu a porta com um aceno respeitoso. Roberto entrou como quem entra em seu trono, cruzando as pernas com elegância e puxando do bolso um charuto cubano. Sem pedir, o motorista ofereceu o isqueiro e, com um

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status