INICIAR SESIÓNO clube não precisava de placas nem de nomes. Luzes baixas, vozes contidas, copos caros. Rafael estava afundado na poltrona de couro, o terceiro uísque da noite pela metade.
Ou o quarto.
Ele não contava mais.
- Você perdeu completamente a noção - Nelson disse, apoiando os cotovelos na mesa. - Rafael… você amava aquela mulher de um jeito doentio.
Rafael riu, um riso curto, amargo, e levou o copo à boca.
- Amava? - repetiu. - Eu ainda a amo.
- Então explica isso - insistiu o amigo. - Desde o primeiro dia da faculdade você perseguiu a Lorena. Cinco anos. Cinco. Até ela aceitar você. E agora você tem um filho com outra mulher… e deixa sua esposa doente num hospital sem ter como pagar a conta?
Rafael bateu o copo na mesa com força suficiente para chamar atenção.
- É exatamente por isso que ela vai ter que voltar - disse, os olhos escuros, injetados. - E vai ter que me provar que merece o meu amor.
Nelson respirou fundo.
- Ouve o que você está dizendo.
- Eu a mimei como um tesouro - Rafael continuou, ignorando-o. - Dei tudo. Tirei ela do nada. Do mundo pequeno dela. E ela não consegue aceitar meu filho.
Ele riu de novo, sem humor.
- O que ela espera? Que eu aborte o meu filho?
- Rafael…
- Eu nem dormi com a Nina - ele interrompeu. - Foi uma FIV. Nada além disso. E mesmo assim ela age como se eu fosse um monstro.
Ele virou o copo e fez sinal para outro.
- Ela é ingrata.
Nelson passou a mão pelo rosto, cansado.
- Você devia ter conversado com ela antes. - disse, firme. - Devia ter sido honesto. Planejar esperar o bebê nascer pra contar foi errado.
Rafael estreitou os olhos.
- Eu não toquei nesse assunto pra não magoá-la - respondeu, ríspido. - Você acha que eu não sei que não poder ser mãe é um espinho cravado no coração dela?
- Justamente por isso - Nelson rebateu. - Justamente por isso você devia ter sido mais cauteloso.
O silêncio caiu pesado entre eles.
Rafael apertou o maxilar. O humor, já péssimo, escureceu ainda mais. Nelson percebeu e recuou. Conhecia o amigo o suficiente para saber quando insistir deixava de ser prudente.
- E então? - Nelson perguntou, mais baixo. - Você vai deixá-la no hospital desse jeito?
Rafael apoiou o copo na mesa, lentamente.
- Não seja ridículo - disse. - Desde que ela deu entrada, eu falei com o diretor do hospital. Ela está tendo o melhor atendimento possível.
Nelson franziu a testa.
- Então por quê…
- Porque eu quero que ela venha me procurar - Rafael o interrompeu. - Quero que ela reconheça o erro que cometeu pedindo o divórcio como se tudo o que eu fiz por ela não significasse nada.
Ele se inclinou para frente, a voz baixa, controlada demais.
- O filho já é um fato consumado. Se eu não der uma lição nela, como ela vai voltar. Vai aceitar. Sem reservas.
Nelson sentiu um arrepio.
- Você já pensou que talvez ela não aceite? De jeito nenhum.Rafael ergueu o olhar. A expressão era tão sombria que fez o amigo recuar.
- Isso não é uma opção.Ele voltou a encarar o líquido âmbar no copo.
- Às vezes, as pessoas precisam de um choque de realidade para aprender.Nelson não respondeu.
No fundo, ele sabia: quando o assunto era Lorena, Rafael sempre fora extremo. Tão extremo que um dia quase desistira da própria vida por não tê-la.
E agora…
Agora ele não fazia ideia de até onde o amigo seria capaz de ir para trazê-la de volta.
Seis anos depoisO salão do evento estava lotado.Luzes de cristal pendiam do teto, mesas redondas cobertas por toalhas brancas se espalhavam pelo espaço, e o som de taças tilintando se misturava ao burburinho de centenas de convidados. O prêmio de melhor advogado do ano era um dos mais cobiçados da área, e a lista de indicados era longa.Dante estava na mesa da frente, João no colo, Julia sentada ao lado.- A mamãe vai ganhar? - Julia perguntou, os olhos esverdeados brilhando.- Vai - Dante respondeu.- Como você sabe?- Porque a mamãe é a melhor.João, de três anos, estava mais interessado no guardanapo de que ele vinha transformando em um avião há dez minutos.- Pai, olha - ele disse, erguendo o guardanapo amassado. - Avião.- Muito bom, filho.- Ele voa?- Só se você jogar.João jogou. O guardanapo voou três metros e caiu no colo de uma senhora à mesa ao lado. Dante pediu desculpas com um aceno.Quando o nome de Lorena ecoou pelo salão, por um segundo ela não reagiu.Como se não ti
A capela estava cheia.Não era uma igreja grande. Dante escolhera uma capela simples, no alto de uma colina tranquila, cercada por jardins. Nada de luxo. Nada de exageros.Apenas as pessoas que importavam.Julia usava um vestido branco com pequenos bordados de rosas. A mantinha de renda era a mesma que Laura usara no batizado de Lorena muitos anos antes.- Ela está linda - Lorena sussurrou, ajeitando uma dobra do tecido.- Está com a mesma expressão que você faz quando alguém fala uma besteira.Lorena lançou um olhar indignado ao marido.- Ela tem três meses.- Nunca é cedo demais para julgar os outros.A pequena, como se quisesse participar da conversa, soltou um resmungo sonolento.Os convidados já ocupavam os bancos de madeira. Laura mostrava no celular orgulhosa as fotos que havia tirado da neta, em todas as poses possíveis com o vestido de batismo. Jonas ao lado, sorrindo e apontando cada detalhe das expressões da neta.Alexandre estava sentado no banco de trás.Os olhos não saía
Durante a estadia no hospital, o quarto da pequena Julia e seus pais eram os mais visitados de toda a maternidade, mas uma visita foi diferente.O corredor da maternidade estava silencioso.As luzes eram baixas, os passos dos enfermeiros abafados, o som dos monitores bipando ao fundo. O cheiro de antisséptico e lençóis limpos se misturava a algo novo, o perfume discreto dos primeiros cuidados com um recém-nascido.Jorge Menezes caminhou devagar.A bengala já não era mais um adereço de poder. Era uma necessidade. As mãos, que outrora comandaram impérios com um gesto, agora tremiam levemente. O terno ainda era impecável, mas o corpo não acompanhava mais a elegância da roupa.Ele parou diante da porta do quarto.Pela janela de vidro, viu a cena.Laura e Jonas estavam ao lado da cama, Laura com os olhos marejados, Jonas com a mão no ombro da mulher. Alexandre estava no fundo, recostado na parede, os braços cruzados, um sorriso discreto no rosto.Dante segurava Lorena pela cintura.E no co
O rosto dele perdeu a cor.- O quê? Quando, que horas começaram as contrações?- Começaram há pouco.- Você sentiu durante a audiência?- Talvez.- Talvez? - ele repetiu, a voz subindo. - LORENA, RESPIRA!- Não precisa gritar. Eu estou bem.- Você esta tendo um bebê. - Dante baixou a voz mas o pânico ainda estava lá - Dante...- Não. Não. Calma. Tudo bem. Eu estou calmo.Ele claramente não estava.Lorena riu do desespero do marido, ele falava com ela, mas era ele quem estava fazendo os exercícios de respiração.Cinco minutos depois já corria em direção ao hospital com tanta pressa que Lorena precisou lembrá-lo mais de uma vez que a filha ainda não nasceria no banco traseiro.Ele apertou o volante, os nós dos dedos brancos.- As malas já estão no porta-malas.- Amor se acalma.- Eu estou calmo.Ele a olhou de lado.O rosto estava tenso, preocupado.Mas os olhos estavam brilhando.O hospital já estava preparado.Quando a equipe de paramédicos viu Dante chegar carregando quatro malas en
A gravidez foi tranquila. Um verdadeiro milagre, considerando tudo o que Lorena havia passado para chegar até ali. Os médicos acompanharam cada semana com atenção redobrada. Havia consultas frequentes, exames repetidos e recomendações que Dante levava mais a sério do que a própria equipe médica. Mas, contra todos os medos, tudo corria bem.O coração da bebê era forte.Os exames vinham perfeitos.E a cada ultrassom, a pequena parecia encontrar uma nova forma de lembrar aos pais que estava ali.No terceiro mês, Lorena anunciou que voltaria ao trabalho presencial.- Nem pensar - foi a primeira resposta de Dante.Ela cruzou os braços.- Eu nem terminei a frase.- Não precisava.- Dante...- Lorena...Ela respirou fundo, já acostumada.- Minha gravidez é saudável. O médico liberou. Eu me sinto bem. Eu fiquei anos parada. Anos. Não vou ficar mais tempo em casa só porque estou grávida Dante abriu a boca para argumentar.Não encontrou nada.Porque, no fundo, sabia que ela tinha razão e ele
As duas semanas seguintes foram as piores da vida de Lorena.Ela acordava todas as manhãs com o coração na mão, o estômago embrulhado, a mente girando. Tentava não criar expectativas. Tentava não pesquisar sintomas na internet. Tentava não projetar o futuro em cada pequena sensação do corpo.Falhava em todas as tentativas.Dante também não dormia direito.Ele ficava acordado à noite, olhando para ela, os olhos fixos no rosto que a luz do abajur deixava ainda mais suave. Torcia. Torcia como nunca tinha torcido por nada na vida.- Você está me olhando - ela disse, numa madrugada.- Estou.- Não consigo dormir pensando no resultado.- Eu também não.- E se não der certo?Ele segurou a mão dela.- Aí a gente tenta de novo.- E se não der certo de novo?- Aí a gente tenta de novo.Ela fechou os olhos.- Você não vai desistir de mim?- Nunca.No décimo quarto dia, Lorena acordou antes do sol.Dante ainda dormia um sono pesado, dos que vinham depois de muitas noites mal dormidas. Ela se leva







