FAZER LOGINO veículo parou com um leve solavanco, puxando-me de volta à realidade. Meu coração batia descompassado, minha mente girava entre planos de fuga e o medo paralisante do desconhecido.
Minha loba, sempre inquieta, agora permanecia em silêncio. Mas eu a sentia… Atenta. Avaliando. Farejando o perigo.
O ar estava carregado com o cheiro de terra úmida, cascalho, pinheiro e… lobos. Muitos lobos. Não precisava vê-los para saber que estavam ali, escondidos entre as árvores. Sentindo meu cheiro como eu sentia o deles.
Um aviso mudo: eu era uma intrusa.
— Nem tudo é o que parece, criança. — A voz de Eme quebrou o silêncio, num sussurro quase maternal.
Virei o rosto, percebendo que já estávamos só nós duas na caminhonete. Perseus havia descido sem que eu notasse.
— Sei muito bem disso. — A resposta escapou antes que eu pudesse conter o tom amargo.
Ela apenas assentiu, como se compreendesse mais do que dizia.
Mas como poderia? Ela não fazia ideia do que era acordar sozinha numa ilha, ferida e traída. Por anos, alimentei raiva o suficiente para incendiar aquela floresta inteira.
Memórias pesadas me atingiram com força. Lembrei do rosto dele. Dos planos que fizemos juntos. Dos beijos prometendo futuro… E depois, do vazio. Do abandono.
A dor de lembrar era tanta que, por um segundo, perdi o fôlego.
— Você está bem? — Eme me olhava com preocupação.
Forcei um sorriso. Não daria a ela o gosto de ver o quanto eu estava quebrada.
— Estou acostumada a lidar com os meus fantasmas.
Ela suspirou. Por um instante, pareceu querer insistir. Mas apenas disse:
— Há coisas que só conseguimos contar quando estamos prontos.
Por alguma razão, o jeito dela me lembrava o meu pai. Isso me fez engolir em seco.
— Você parece ser uma boa pessoa, Eme. Então… por favor… não me faça passar por isso. Me deixa ir. Eu só quero ir para casa.
Ela desviou o olhar, mexendo no coque bagunçado que segurava seus cabelos grisalhos.
— Eu sinto muito. — Sua voz soou carregada de um peso que não consegui entender. — Não posso fazer o que você pede. Mas posso garantir… não é o que você pensa. Fale a verdade para o nosso Alfa. Ele vai entender.
Antes que eu respondesse, ela abriu a porta e saiu.
Fiquei ali, respirando fundo, tentando ignorar a dor latejante no tornozelo e o desespero crescendo no peito.
Se eu quisesse reencontrar meu pai… minha irmã… eu teria que enfrentar o tal Alfa.
Fechei os olhos, tentando reunir coragem. Só que meu momento de concentração foi interrompido por uma voz.
— Ora, ora… O que temos aqui?
Assustada, virei para a janela. Uma garota sorria para mim, encostada no vidro.
Ela era baixinha, com cabelos castanhos claros que quase tocavam o loiro. Seu olhar, por outro lado… tinha uma intensidade que me deixou alerta.
Duas coisas me chamaram atenção de imediato: o anel dourado ao redor das íris, sinal de que era acasalada com um Beta, e a saliência arredondada de sua barriga.
Pelo que meu olfato indicava, ela estava grávida.
— Você é a fêmea que meu pai encontrou na Ilha das Devas? — perguntou, animada.
Assenti, sem vontade de estender conversa.
Ela riu, exibindo dentes perfeitamente alinhados.
— Você deve ter uma história interessante, mas preciso pedir que saia do carro, tudo bem?
Minha loba relaxou um pouco. Uma grávida nunca seria enviada como ameaça. Elas nem podiam se transformar naquela fase, o risco para o bebê era alto demais.
Respirei fundo, puxando a manta sobre os ombros, e desci da caminhonete. O chão estava frio e áspero sob meus pés descalços. Meu tornozelo machucado me fraquejou, mas me forcei a ficar em pé.
— Meu nome é Dahlia. Mas pode me chamar de Lila, como todo mundo.
— Padgett. — Respondi com a voz seca.
Ela sorriu mais ainda.
— Nome bonito. Sabe… Lila soa como um nome de criança de sete anos, né? — acrescentou, rindo da própria observação.
Sorri de canto, surpresa com a sinceridade dela.
— Pensei o mesmo.
A risada dela foi leve, quase contagiante. Mas minha loba me lembrou de uma coisa essencial: simpatia não significava segurança.
Antes que a conversa prosseguisse, um rosnado violento cortou o ar.
— Dahlia! Afaste-se agora!
A expressão da garota mudou num instante. Ela recuou com olhos arregalados.
Um macho enorme, de cabelos escuros e expressão sanguinária, marchava em minha direção. O olhar dele era feito de puro ouro derretido: dourado, queimando de raiva.
Eu nem o conhecia, mas sabia que só podia ser ele: o Beta acasalado com aquela fêmea.
— Que porra vocês têm na cabeça? — Sua voz cortou o ar como uma lâmina, mirando Eme e Perseus. — Trazer uma desconhecida para o nosso território?
— Cassian, calma… — Eme tentou intervir. — Podemos explicar…
— Não quero explicações! — A rispidez da sua voz interrompeu a fala da anciã. Suas íris quentes e perigosas se direcionaram a mim em seguida. — Você. Você vai usar os braceletes lunae até o nosso Alfa te interrogar.
O mundo girou.
— O quê?! — Dei um passo atrás. — Não sou uma ameaça!
Os braceletes lunae eram acessórios cruéis para os lobos, forjados de prata pura combinada com runas das bruxas lunares para impedir que um lobo se transformasse. Elas me deixariam vulnerável e eu não podia permitir isso, muito menos em um território hostil como aquele.
Aquilo era uma armadilha para a minha loba.
— Isso quem vai decidir é o nosso Alfa. — O tom dele era puro desprezo. — Acha que vou acreditar na palavra de uma fêmea imunda?
Meu instinto gritou. Minha loba rugiu dentro de mim.
Eu não estava ali para atacar ninguém. Mas também não usaria aqueles malditos braceletes.
O sussurro de um vento frio passou por mim, a manta que eu segurava caindo logo em seguida. Minha loba estava pronta e eu também. Fizemos a coisa mais irracional possível, corremos.
Ignorei a dor, ignorei o terreno irregular, ignorei tudo. Corri com cada fibra do meu ser gritando por sobrevivência.
Mas não cheguei longe.
Algo — não, alguém — me atingiu como um raio. Caí no chão com força, o impacto me arrancando o ar.
Tentei me desvencilhar, rolei, chutei, empurrei. Senti a mão grande do Beta agarrar minha perna… exatamente sobre o tornozelo lesionado.
A dor foi insuportável.
Meu grito rasgou a noite. Um som selvagem, primitivo… seguido por um uivo.
Quando meu sofrimento se uniu ao uivo da minha loba, a floresta pareceu ficar em silêncio para nos ouvir.
Saí da tenda de Fenwick sem rumo certo, as botas afundando na neve com uma força que não era necessária, como se cada passo pudesse descarregar um pouco do que fervia dentro de mim.“Vá até a fonte”, ela tinha dito. “Pergunte a ele”.Mas eu não conseguia. Não ainda. Não sabia se conseguiria olhar para Lorcan sem que toda aquela raiva explodisse antes mesmo de ele abrir a boca.Andei sem prestar atenção onde meus pés me levavam, a mente presa entre a imagem da cicatriz de Fenwick e a lembrança do próprio Lorcan, gentil demais, cuidadoso demais, para ser o mesmo homem capaz daquilo.Foi só quando o silêncio ao redor mudou de qualidade que percebi onde tinha parado.O casarão dos órfãos erguia-se à minha frente, cinzento contra o céu ainda mais cinzento, e o ar ali parecia sempre mais pesado que no resto do acampamento.Aproximei-me sem pensar muito, meus sentidos ainda à flor da pele pela discussão de minutos atrás. Foi por isso, talvez, que os ouvi antes de os ver.Uma voz baixa. Calma
O interior da tenda era simples, mas diferente das outras que eu já tinha visto na matilha — havia algo ali que lembrava permanência, como se aquele pequeno espaço fosse habitado há décadas e não apenas montado às pressas em mais um acampamento de guerra.Potes de ervas secas pendiam do teto, misturando cheiros amargos e doces. Um caldeirão pequeno fervia sobre brasas baixas, exalando vapor que cheirava a canela e algo mais amargo que eu não reconhecia.— Sente-se. — A anciã apontou para uma pilha de peles dobradas perto do fogo, ela mesma se acomodando devagar do outro lado, os ossos velhos rangendo com o movimento.Obedeci, o calor do fogo bem-vindo depois do frio cortante lá fora.Ela serviu duas canecas de um líquido escuro, entregando uma pra mim sem pressa. O gosto era forte, amargo, com um travo de mel no fim.— Sabe por que te chamei aqui? — perguntou, os olhos opacos fixos nas chamas.— Imagino que tenha a ver com eu estar bisbilhotando a reunião do conselho.Um som seco esca
A tenda vermelha destoava do resto do acampamento mesmo à distância, o pano escuro contra a neve branca era como uma ferida aberta na paisagem.Fiquei parada atrás de uma fileira de barracas, longe o suficiente pra não ser vista, perto o bastante para que meus ouvidos apurados captassem fragmentos da conversa lá dentro.Eu sabia que não deveria estar ali. Sabia que, se descoberta, qualquer confiança que tinha conquistado nos últimos dias evaporaria como fumaça. Mas alguma coisa dentro de mim, talvez o resquício da filha de Alfa que um dia fui, a raiva pelos cinco anos perdidos e ter meu posto arrancado de mim, não conseguia me convencer a ficar de fora.— ...não podemos esperar dois meses parados aqui, Alfa. — A voz era de Cassian, tensa, rápida. — Se o Aiden já garantiu metade do sul, cada dia que passa é um dia a menos de vantagem.— E o que você sugere, Cassian? Que ataquemos às cegas? — A voz de Lorcan cortou o ar como sempre, mas havia um cansaço por baixo da autoridade que rara
O segundo dia de treino começou com um sorriso que eu não esperava encontrar no meu próprio rosto.— Se continuar sorrindo assim antes de eu nem ter atacado, vou achar que está subestimando meu treino de novo — disse Lorcan, girando o bastão com aquela facilidade irritante que fazia tudo parecer fácil demais.— Estou só me divertindo antecipadamente com sua cara quando eu finalmente te acertar.— Isso vai levar um bom tempo pra acontecer.— Veremos.O ar gelado da manhã mordia meu rosto, mas o corpo já não doía tanto quanto no dia anterior. Vesti a capa mais grossa que ele tinha mandado através de Sofia, e mesmo com o frio cortante, senti algo parecido com disposição.A verdade é que eu segurava mais do que mostrava. Meus músculos ainda lembravam movimentos antigos, de uma vida inteira atrás, quando eu era a filha mais velha do Alfa Alistair e cada tarde da minha infância tinha sido moldada para um dia ocupar o lugar dele. Anos de instrução, de disciplina, de mestres contratados só
— O Alfa quer te ver. Agora.Troquei um olhar com Marius, que apenas ergueu as sobrancelhas e voltou a mexer o caldeirão, como quem já esperava esse tipo de convocação repentina fazer parte da rotina.— Disse o motivo? — perguntei, limpando as mãos na túnica.— Não. Só falou pra te levar até o pátio de treino.Pátio de treino.Segui Joe através do acampamento, a neve estalando sob as botas, tentando adivinhar o que aquilo significava. Não me lembrava de ter feito nada que justificasse uma bronca — pelo menos não nos últimos dois dias.Quando chegamos, encontrei Lorcan no centro de um espaço aberto cercado por estacas de madeira, sem camisa apesar do frio cortante, testando o peso de dois bastões de treino nas mãos.Alguns lobos observavam de longe, curiosos.— Chamou por mim? — perguntei, parando a uma distância segura.— Chamei. — Ele jogou um dos bastões na minha direção sem aviso.Consegui pegá-lo por puro reflexo, quase deixando cair pela surpresa do peso.— O que é isso?— Treino.
As palavras da Mãe Delra giravam na minha cabeça como um sino quebrado. Havia algo naquele tom que me incomodava fundo, mas eu não sabia dizer exatamente o quê.Minha loba se remexeu, inquieta, como se quisesse voltar e arrancar a porta das dobradiças.Mas o que eu tinha, realmente? Uma boneca. Uma criança calada. Um tom de voz que me incomodou.Ninguém mais parecia notar nada de errado ali.Balancei a cabeça, tentando convencer a mim mesma de que talvez estivesse enxergando fantasmas onde não havia nenhum.Só que minha loba não sossegava.— Você está bem?A voz me fez virar tão rápido que quase escorreguei no gelo. Joe se aproximava com as mãos enfiadas nos bolsos, o sorriso de sempre um pouco mais contido.— Estou. — Forcei um meio sorriso. — Só pensando.— Você tem essa cara de “pensando demais” com frequência. — Ele parou ao meu lado, seguindo meu olhar até o casarão. — Foi lá dentro?— Fui.— E?Hesitei. Não sabia bem o que dizer, ou se deveria dizer alguma coisa.— A matriarca de







