FAZER LOGINO jeito como ele pronunciou meu nome soou mais como uma ordem do que como um chamado. Minha garganta secou, e engoli em seco.
— Estávamos falando sobre a minha avó — tentei justificar, a voz vacilando mais do que eu gostaria. — Ele a conheceu na biblioteca, só isso.
Gael inclinou-se, aproximando-se de mim de maneira dura, como se invadisse o espaço que eu tentava proteger. Seu olhar era pesado, frio, incapaz de transmitir qualquer traço de gentileza.
— Você é minha esposa — disse, e cada sílaba soou como gelo rachando. — Por contrato ou não, é minha esposa. Me dê respeito e obediência.
As palavras bateram em mim com a força de um soco invisível. Minha primeira reação foi prender a respiração, tentando não deixar transparecer o impacto. O peito doía, como se a cada batida do coração uma corda fosse puxada mais apertada. Tive vontade de retrucar, de jogar no rosto dele que eu não era uma marionete. Mas me calei. Discutir naquele momento seria entregar a ele o que parecia querer evitar: cena, escândalo, fragilidade exposta.
— Entendido — murmurei, e me surpreendi com a firmeza da minha própria voz.
Ele me encarou demoradamente, como se buscasse no meu rosto algum sinal de desafio. Os olhos eram lâminas afiadas, prontos para cortar qualquer resquício de rebeldia. Depois de alguns segundos de silêncio, soltou minha mão com brusquidão, ajeitou a postura e fez um gesto seco em direção ao salão.
— Vamos. Eles estão esperando.
Segui ao lado dele. Cada passo ecoava no mármore, pesado demais para caber nos meus saltos. A cada movimento, sentia os olhares curiosos que nos acompanhavam. O ambiente estava impregnado de sussurros silenciosos, como se todos estivessem apenas aguardando o deslize que nos transformaria em assunto principal.
Voltamos ao salão, e a roda de conversas retomou seu ritmo como se nada tivesse acontecido. Para mim, porém, as vozes eram abafadas, distantes, como se eu estivesse presa atrás de um vidro. Gael, por outro lado, exibia sua máscara social impecável. Cordial, simpático na medida exata, equilibrando risos e palavras como quem domina um tabuleiro.
Ao lado dele eu parecia apenas um adereço. Sorria mecanicamente, concordava com acenos, sustentava a aparência de quem pertencia àquele círculo.
Levei a taça de água aos lábios, tentando disfarçar o nó na garganta. O líquido gelado desceu amargo, metálico, como se carregasse o gosto da tensão que me sufocava.
Enquanto ao redor o riso ecoava, minha mente viajou até minha avó. Se ela estivesse ali, teria percebido o peso que escondi por trás do sorriso. Ela sempre enxergava além. Eu podia ouvi-la perguntar: “Você está feliz, minha menina?”
Teria respondido que sim, claro. E ela teria me fitado com aqueles olhos que não admitiam mentiras, até que eu desabasse, confessando entre lágrimas o que sentia.
Mas ela não estava ali. Só havia copos tilintando, palavras vazias, e a sensação incômoda de estar aprisionada em uma gaiola dourada.
— Está tudo bem? — uma voz delicada sussurrou ao meu lado.
Era a esposa de um dos sócios. Vestia um azul-marinho impecável, os cabelos presos com cuidado. Seus olhos pousaram em mim com suavidade, mas havia curiosidade também, talvez até pena.
— Sim — respondi rápido demais, escondendo-me atrás de um sorriso ensaiado. — Só um pouco cansada.
Ela assentiu, educada, mas percebi que não se convenceu. Aquela troca breve me deixou desconfortável. Era como se minha fragilidade tivesse cheiro, fácil de identificar. E, naquele salão repleto de lobos, eu não queria ser o sangue fresco que despertaria o apetite deles.
Abaixei os olhos para o prato. A comida diante de mim parecia mais um enfeite. Empurrei-a com o garfo, fingindo interesse. Ao meu lado, Gael continuava como se nada tivesse acontecido: tranquilo, controlado, bebendo seu vinho, sorrindo, respondendo com elegância. Ele parecia pertencer a tudo aquilo. Eu, não.
A sensação de deslocamento aumentava a cada minuto. Era como se eu tivesse sido encaixada em um quebra-cabeça ao qual não pertencia, e todos ao redor percebessem a peça fora do lugar.
Um dos convidados contou uma piada, e o salão explodiu em risadas. Olhares recaíram sobre mim, esperando que eu acompanhasse. Então forcei um riso. O som saiu frágil, vazio, e até para mim soou falso.
Tomei outro gole de água, mais para preencher o silêncio dentro de mim do que por sede.
Foi quando senti, por baixo da mesa, a mão de Gael tocar a minha. Não era carinho. Não era violência. Era um aviso silencioso. Um lembrete cruel de que eu deveria me manter no papel que ele havia me dado.
Mantive minha mão parada, gélida. Não ofereci resposta.
As horas seguintes pareceram se arrastar como um castigo. O brilho dos lustres refletia nas taças, nos talheres prateados, em cada detalhe de ostentação, mas nada daquilo me encantava. Tudo parecia um teatro de luxo encenado para convencer ao mundo de que vivíamos em perfeita harmonia.
Por dentro, me sentia cada vez menor.
De novo, minha mente buscou refúgio na lembrança da minha avó. As tardes na biblioteca, os livros que líamos juntas, o silêncio confortável que compartilhávamos… tudo aquilo era tão diferente deste ruído social sufocante. A saudade bateu forte, queimando por trás dos olhos. Respirei fundo, ergui o queixo e, com esforço, segurei as lágrimas que queriam escapar.
Sorri. Sorri como se estivesse plena, como se tudo fizesse sentido. Um sorriso que doía mais do que qualquer palavra fria de Gael.
Ele, ao meu lado, erguia a taça. Brindava como se estivéssemos em perfeita sintonia. Como se fôssemos exatamente o casal que todos acreditavam ver.
A cada olhar que eu precisava sustentar, a cada frase que não dizia, eu sentia uma parte de mim se apagando.
E então, quando levei novamente a taça de água aos lábios, uma voz atravessou o salão, firme e clara, rasgando o burburinho como uma lâmina:
— Leandra!
Quinze anos depois Às vezes eu paro no meio do corredor, respiro fundo e deixo esse número ecoar dentro de mim. Quinze anos desde que tudo aquilo que um dia pareceu impossível se transformou exatamente nisso: vida. Cheia, barulhenta, caótica, imperfeita… e absolutamente minha. A casa estava em festa. Balões coloridos ocupavam cada canto da sala, o cheiro de bolo recém-assado se espalhava pelo ar e as risadas ecoavam como se quisessem ultrapassar as paredes. Era aniversário dos gêmeos. Mais um. E, ainda assim, parecia sempre o primeiro. — Para de mexer nas minhas coisas, Bruno! — Breno gritou do pé da escada, segurando o chapéu de aniversário como se fosse um troféu. — Suas coisas? — Bruno respondeu, indignado. — Tudo aqui é nosso! Até porque você nasceu depois de mim por dois minutos! Revirei os olhos, rindo sozinha, enquanto ajeitava a bolsa no braço. Dois minutos. Quinze anos depois, eles ainda discutiam por isso. Bruno e Breno eram idênticos no rosto, mas completam
Leandra Felix Um ano depoisÀs vezes eu repito esse número em silêncio, como se ele precisasse ser testado, confirmado, validado. Um ano desde que tudo finalmente começou a se encaixar. Não porque a dor tenha desaparecido algumas feridas não somem, apenas aprendem a respirar conosco, mas porque, pela primeira vez, a sensação de justiça deixou de ser uma promessa distante e passou a ser realidade.Rafaelky e Juliana foram condenadas.Escrever isso ainda me causa um arrepio estranho, uma mistura de alívio e um peso que só quem esperou demais por respostas consegue entender. A sentença foi alta, proporcional a tudo o que fizeram, a cada decisão cruel, a cada consequência ignorada. Quando ouvi o juiz ler as palavras finais, não comemorei. Não chorei. Não gritei.Eu apenas fechei os olhos… e pensei na minha mãe.Pensei em seu sorriso cansado, no jeito como ela sempre arrumava meu cabelo atrás da orelha quando eu estava nervosa. Pensei no cheiro do perfume que ela usava só em ocasiões esp
Gael LubiancoO telefone tocou cedo demais para ser algo banal. Não precisei olhar a tela para saber que aquela ligação carregava um peso diferente. Ainda assim, olhei. Murilo. O nome piscando como um ponto final que se aproximava.Atendi no primeiro toque.— Pegaram — ele disse, sem rodeios. — Juliana Pacheco foi presa há menos de uma hora. Tentava deixar o país.Fechei os olhos por um instante, apoiando a mão na bancada da cozinha. O ar entrou nos pulmões de um jeito diferente, mais profundo, mais livre.— Tem certeza? — perguntei, mesmo sabendo que Murilo não ligaria para dar falsas esperanças.— Flagrante — confirmou. — Documentos falsos, dinheiro, tentativa clara de fuga. Não tem mais como escapar.Um silêncio breve se instalou entre nós. Não era incredulidade. Era assimilação. Anos de tensão, desconfiança e vigilância finalmente encontravam um desfecho concreto.— Obrigado — respondi, por fim. — Por tudo.— Ainda não acabou — Murilo ponderou. — Mas agora o jogo virou de vez.A l
Juliana PachecoSempre soube que o fim não viria com aviso prévio. Pessoas como eu não recebem despedidas elegantes nem oportunidades de redenção. O que existe é fuga. Antecipação. Frieza. E, acima de tudo, controle.Ou pelo menos era nisso que acreditava.O espelho do quarto refletia uma mulher impecável. O cabelo preso com precisão, a maquiagem discreta, escolhida não para agradar, mas para não chamar atenção. Nada extravagante. Nada memorável. Um rosto comum o suficiente para desaparecer em meio a outros tantos em um aeroporto internacional.A mala estava aberta sobre a cama. Apenas o essencial. Roupas neutras, documentos falsos guardados no fundo duplo, dinheiro em espécie dividido em compartimentos diferentes. Tudo planejado há semanas. Meses, talvez. Desde o momento em que percebi que Rafaelly havia se tornado um risco maior do que um trunfo.Filhos são assim. Úteis enquanto obedecem. Perigosos quando começam a querer existir por conta própria.O celular vibrou sobre a bancada d
Leandra FelixA decisão nasceu pesada, densa, como tudo que vinha se acumulando dentro do peito desde que as verdades começaram a aparecer. Não foi impulso. Foi necessidade. Havia perguntas que não aceitavam mais o silêncio como resposta, e feridas que só cicatrizariam depois de serem expostas à luz.Gael percebeu antes mesmo que as palavras fossem ditas. Bastou o olhar fixo demais, a inquietação contida, o jeito de quem respirava fundo como se estivesse se preparando para atravessar uma tempestade.— Preciso ir à delegacia — a frase saiu firme, apesar do nó na garganta. — Preciso vê-la.Ele não perguntou quem. Não precisou.O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado. Gael encostou-se à bancada da cozinha, cruzou os braços e analisou cada traço do rosto à sua frente, como se buscasse qualquer sinal de hesitação que justificasse uma negativa.— Tem certeza? — perguntou, por fim. A voz calma, mas os olhos atentos demais.— Tenho — respondi, sem desviar o olhar. — Se não for agora
Gael LubiancoO dia amanheceu cinza, pesado, como se o céu tivesse decidido refletir exatamente o que se passava dentro de mim. Eu estava acordado antes mesmo do despertador tocar, encarando o teto do quarto enquanto Leandra dormia ao meu lado, exausta, o corpo ainda tenso mesmo durante o sono. Uma das mãos dela repousava sobre o travesseiro, a outra sobre o peito, como se precisasse se certificar de que ainda estava respirando.Aquilo me atingiu de um jeito que nenhuma palavra seria capaz de explicar.Levantei-me com cuidado para não acordá-la. Caminhei até a janela e afastei levemente a cortina. O jardim estava silencioso, bonito demais para contrastar com o caos que se desenhava fora daqueles muros. Meus filhos dormiam tranquilos nos quartos ao lado, alheios ao fato de que alguém tinha tentado, mais de uma vez, destruir tudo aquilo.E eu não ia permitir uma terceira tentativa.Ainda estava parado ali quando o celular vibrou na minha mão. O nome de Murilo apareceu na tela, e eu soub







