MasukAmélia, assim que desceu do táxi, atendeu o celular, com a voz falsamente irritada.
— Se for para me dar uma bronca por não ter atendido ontem à noite, já aviso que estou ocupada, ela brincou. — Ontem à noite eu estava ocupado demais arrumando malas para me preocupar com seu sumiço, Méli, a voz de Connor era profunda e trazia o conforto de uma amizade de décadas. — Estou ligando para me despedir. O táxi para o aeródromo chega em dez minutos. Amélia sentiu um leve aperto no peito. Connor era o fotógrafo mais talentoso que ela conhecia e o único homem em quem confiava plenamente desde que o mundo desabou quatro anos atrás. — Já? Para onde é dessa vez? — Uma aldeia isolada no interior da Amazônia. Vou documentar um ritual que acontece uma vez a cada década. O sinal lá é inexistente, Méli. Vou ficar totalmente fora do mapa pelas próximas semanas. — Sem sinal? — ela suspirou. — Vou sentir falta das suas piadas ruins no W******p. — Eu sei que vai. Mas escute, eu prometo que assim que eu terminar as fotos, volto direto para casa. Volto para as minhas meninas. Cuide da Lizzy por mim. E dê um beijo na Isabel e na Emma. Diga para a Isabel estou levando um kit para a Emma pintar as paredes da sala. - Cony! Isso não acabou bem na minha casa... ela não tem idade ainda... - Estou levando um novo para Lizzy também! Amélia riu com um gemido impotente, imaginando a cena. Connor não era apenas o melhor amigo, ele era o porto seguro daquela família improvisada que haviam construído. Antes eram apenas três, ela, Connor e Isabel Rollsbrook, agora Hawksmoor. Ela se casou com Patrick Hawksmoor, era uma grande amiga, e a pequena Emma, sua afilhada de dois meses, eram o complemento perfeito para a vida de Amélia e Lizzy. — Pode deixar, Cony. Estaremos te esperando com um jantar especial. Tome cuidado, por favor. — Sempre tomo. Até logo, Méli. Ao desligar, Amélia entrou na Aura Art Gallery. Um prédio de arquitetura moderna e imponente que se destacava na paisagem urbana. A fachada, um painel de vidro e aço, refletia a luz do sol de maneira a criar um jogo de sombras e reflexos, dando ao local sofisticação e mistério. O interior era igualmente impressionante, com tetos altos, paredes brancas imaculadas e obras de arte estrategicamente iluminadas, criando um ambiente minimalista e inspirador. Ao cruzar a entrada, o som dos seus saltos no chão de mármore ecoou. O ambiente era silencioso, cheirando a tinta fresca e luxo discreto. — Bom dia, Srta. Harrison, cumprimentou a recepcionista. — Traidora! - Vamos lá Meli! - Você me ligou no meio da sua transa Amber! - É foi... Desculpa, foi... errado! Mas para me redimir eu prometo que vou compensar. Vou ser a sua serva obediente. O cliente chegou ontem de Mônaco! E confirmou a reunião. Prometo que vou levar ele até sala VIP e te avisar imediatamente para a curadoria da nova exposição. Amélia ajeitou o blazer e estreitou os olhos, então com um suspiro ela aceitou a oferta. — Obrigada. Peça que tragam um café expresso, ah e os catálogos da série "Sombras e Luz". Enquanto caminhava até os escritórios, ouviu um som que não estava acostumada a ouvir naquele ambiente. Eram vozes alteradas. Não eram gritos, mas um sussurro ríspido e carregado de tensão que vinha do corredor dos escritórios, atrás das telas monumentais de arte contemporânea. Amélia caminhou com passos leves, o som de seus saltos abafado pelo tapete da antessala. Ao dobrar o corredor, deparou-se com a cena. O Senhor Montenegro, o proprietário da galeria e um homem que Amélia sempre admirou pela elegância e gentileza, estava com o rosto fechado. À sua frente, estava Dante, seu filho, que atualmente estava auxiliando na gestão da galeria. — ...você não tem escolha, meu pai. Os contratos foram assinados, Dante dizia, a voz baixa e cortante. Ao perceberem a presença de Amélia, o silêncio caiu como uma guilhotina. O Senhor Montenegro recompôs-se imediatamente, mas seus olhos estavam úmidos e cansados. — Ah, Amélia... bom dia... disse o velho senhor, a voz levemente embargada. Dante, por outro lado, abriu um sorriso lento, cujos olhos escuros percorreram Amélia com uma intensidade desconfortável. — Bom dia, Srta. Harrison. É um prazer revê-la, ele disse, com uma polidez que não alcançava o olhar. Visivelmente constrangido e sem forças para continuar o embate, o Senhor Montenegro ajeitou o paletó. — Eu... eu já vou indo. Eu preciso... Sem esperar resposta, o patriarca retirou-se com passos rápidos, deixando um vácuo de mal-estar no corredor. Dante observou o pai sair e então voltou-se para Amélia, gesticulando para a porta do escritório principal. — Entre, Amélia. Preciso ter uma palavra com a nossa melhor merchant. Dentro da sala, o ambiente parecia ter esfriado. Amélia sentou-se na cadeira de couro à frente da mesa de carvalho, mantendo a postura impecável e profissional. No entanto, em vez de ocupar a cadeira de autoridade do outro lado, Dante caminhou até ela e sentou-se na borda da mesa, bem à sua frente, invadindo seu espaço pessoal. — Como você está, Amélia? - Bem. Ele perguntou, a voz agora num tom insinuante, quase um ronronar. — E, me diga sinceramente... você gosta do seu trabalho aqui na Aura? Amélia sentiu um arrepio gélido na nuca. Era um sinal de alerta. — Gosto muito, Sr. Montenegro. A arte é minha vida e sou muito grata a oportunidade que seu pai me deu. - Ótimo! Você pode ir agora. Sei que tem muito trabalho... - Certo... Tenha um bom dia, Sr. Montenegro. Amélia saiu rapidamente,a proximidade com Dante a fazia lembrar do ex. Asqueroso. Melhor trabalhar.Dmitri tocou em seus cabelos, acariciando de leve.— Olha para mim, ele pediu, em um tom mais baixo, mas impositivo. — Hm? Amélia. - Não...Ela tentou se esquivar, o corpo rígido, mas ele foi mais rápido.— Chort(Droga)! Vem aqui! Dmitri a trouxe ainda mais para perto, o corpo dela colado ao seu. Foi então que ele percebeu o rastro de lágrimas em seu rosto e a vermelhidão ao redor de seus olhos. Sua expressão endureceu instantaneamente. — O que houve? Por que... - Não... é nada!- Não?! Me diga, quem te fez chorar? Eu vou espancar até a morte!Amélia tentou secar as últimas lágrimas, um gesto desajeitado com as costas da mão, soltando um pequeno suspiro.— Você não vai fazer isso...— Vou, é claro que vou! Não vou permitir que ninguém faça você chorar e saia impune.Ela soltou um riso fraco.- Acredite em mim... você não vai!- Apenas diga. Quem foi? — Você vai ter que esperar... Ela respondeu, com um sorriso fraco, se espalhando pelo rosto. — Não entendi. Onde ele está?— Aqu
A manhã começou com um sol brilhante e um clima ameno, refletindo o ânimo incomum com que Dmitri abriu as portas do escritório. Ele vestia um terno impecável, e, ao contrário do semblante sério e impenetrável que os funcionários estavam acostumados a ver, um sorriso leve e simpático brincava em seus lábios. Cumprimentou o segurança na entrada com um aceno de cabeça e um "bom dia" claro, o que deixou o homem visivelmente surpreso. Ao caminhar pelo corredor em direção à sua sala principal, Dmitri exalava a leveza de quem havia passado uma noite impecável. A primeira reunião da manhã, era a tortura do dia para todos os diretores, hoje foi agradável e eficiente. Ao entrar em sua sala, encontrou Yuri revisando alguns relatórios na poltrona à frente da mesa. Yuri levantou o olhar, segurando uma caneca de café, e percebeu a aura de bom humor do chefe. — Bom dia, Bratan! Yuri comentou, ajeitando o colarinho. — Vejo que a noite foi boa. — Melhor do que isso, Yuri. Dmitri respo
O silêncio dentro do carro era denso, quase sólido. Dmitri mantinha os olhos fixos na estrada, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Amélia, ao seu lado, soltou um suspiro pesado e frustrado, mas ele sequer desviou o olhar. — Sério, Dmitri? Vai continuar assim? Amélia explodiu, a irritação vencendo a paciência. — Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime por apenas comentar o que você fez com os Harrison. Eu não me importo! Eles nunca foram uma família para mim. Por que esse silêncio punitivo? Dmitri freou bruscamente, jogando o carro para o acostamento. O som dos pneus no cascalho foi o único aviso antes de ele se virar para ela, os olhos em chamas.— Você está louca?Ele rosnou, a voz carregada de uma fúria contida. — Isso foi há quase dois anos, Lia! Eles não importam! Estão enterrados no passado, onde devem estar! — Sim, exatamente! Não importam!Ela rebateu, gesticulando com as mãos. — Então, por que você está tão irr
O sol do fim de tarde banhava o jardim com uma luz dourada e suave, transformando o gramado em um cenário que parecia saído de um sonho que Amélia nunca permitiu ter. Ao estacionar o carro, ela parou por um instante, apenas observando a cena diante de si. Dmitri, o homem que muitos temiam e cujas mãos já comandaram um império de sombras, estava agora com Lizzy montada em seus ombros, as perninhas balançando com entusiasmo, agindo como um verdadeiro general em meio a uma batalha campal. — Mais rápido, papai! Para a esquerda! Atacar! Comandava a pequena, com sua pistola de água azul neon em punho. Dmitri obedecia com uma agilidade impressionante, correndo pelo gramado enquanto soltava risadas roucas. O alvo era Alexander, que se esquivava entre as árvores do jardim, tentando revidar com sua própria arma de água. Amélia encostou-se no portal de pedra, sentindo um calor no peito. Por muitos anos, ela acreditou que a felicidade familiar era uma ficção, algo reservado para os outro
Clarisse implorou, segurando os braços de Peter, as unhas cravando-se no tecido da camisa. — Me diz o que você gosta, o que aquelas mulheres fazem que eu não faço. Eu faço qualquer coisa, Peter. Eu aprendo. Fique comigo! Peter olhou para ela com uma mistura de pena e desprezo, segurou o queixo dela com uma força desnecessária, obrigando-a a encará-lo. — Você acha que pode aprender, Clarisse? Ele soltou um sorriso de canto, sombrio. — Cuidado com o que você pede. Clarice assentiu freneticamente, entregue ao desespero. Peter apenas a soltou e caminhou em direção ao quarto. — Venha... E comece tirando essa roupa ridícula de socialite, eu quero ver o que você tem aí! Disse sem olhar para trás. Clarisse engoliu em seco, se desistisse agora não poderia recuperar o casamento. Impulsionada por suas ilusões românticas acreditava que poderiam voltar ao relacionamento de antes com Peter, ele poderia amá-la de novo. Clarisse começou a desabotoar a camisa, enquanto caminhava
Amélia parou. Ela não recuou, nem demonstrou surpresa. Apenas o observou com uma neutralidade que era mais cortante do que qualquer insulto. Não havia respeito, nem o reconhecimento de sua mãe. Ela não disse uma palavra, mantendo as mãos cruzadas calmamente à frente do corpo, esperando que ela esgotasse seu fôlego. — Você está me ouvindo? Elena continuou, a arrogância subindo de tom diante do silêncio dela. — O Peter cometeu um erro, sim, um erro de garoto, mas o Dmitri está usando isso para nos destruir! Ele quer tudo, ele quer as casas! Você tem o dever de falar com ele. O sobrenome Harrison está em jogo, Amélia. É a nossa história, a nossa linhagem. Você não pode permitir que ele arraste o nosso nome pela lama por causa disso... Mexa-se! Faça alguma coisa! - Eu não me importo. - O, o que você está dizendo?! Amélia inclinou levemente a cabeça. O olhar dela, antes vazio, agora brilhava com uma faísca de satisfação contida. — Eu não posso ajudar vocês. Ela disse, a voz







