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####CAPÍTULO 04

last update Data de publicação: 2026-02-27 22:56:46

ACORDEI

Samir

Voltei à vida de uma forma que parece mais um milagre do que um acaso.

— Embora não compreenda como fui trazido de volta deste abismo, aqui estou, lutando contra a sombra da morte que ainda parece me envolver.

Minha respiração é como se o punhal estivesse sendo executado novamente em meu peito; o ar que entra é carregado de dor e resistência, e meu corpo clama em protesto contra o sofrimento, mas, todas as probabilidades, de ainda está aqui, pulsando com uma centelha de vida.

— Ao abrir os olhos, sou imediatamente confrontado por um mundo indefinido, um espaço vago cercado por rostos estranhos que se inclinam sobre mim com expressões de preocupação genuína.

Embora esses espíritos generosos não me conheçam, eles se tornaram os responsáveis por me resgatar daquelas garras mortais que ameaçavam me consumir.

—Quem são essas almas valentes que, desafiando o destino, me tiraram daquela armadilha mortal?

Fui alvo de uma tentativa de assassinato, um ato que foi meticulosamente planejado, longe de ser mera casualidade ou o simples ato de um ladrão desavisado.

— Foi uma execução, realizada com frieza e precisão, como se minha vida não valesse mais do que um mero peão em um jogo cruel.

A mente por trás desse crime, acredita firmemente que eu já estou morto, e sua intenção sádica é que assim permaneça para sempre.

— Cada minuto que encontro uma fração de paz, a verdade de que não posso permitir que minha verdadeira identidade seja descoberta me atormenta, como uma sombra persistente.

Se revelarem quem sou, não será somente a minha vida que estará em perigo—todos aqueles que se importam comigo, especialmente eu, estarão também em risco.

— A primeira etapa que devo enfrentar é a cura das feridas que me consomem, tanto físicas quanto emocionais.

Somente após alcançar essa recuperação poderei planejar meu retorno.

—Como uma fênix que renasce, buscarei descobrir quem armou essa emboscada traiçoeira e fundirei minha dor em uma busca incessante pela verdade oculta que se esconde nas trevas da traição.

Com cada respiração difícil, estou determinado a reagrupar minhas forças e enfrentar a tempestade que se aproxima, armando-me não só com a vontade de sobreviver, mas também com a determinação de fazer justiça.

— Fecho os olhos por um momento e sinto as mãos que cuidam de mim, Zara e Sara, mãe e filha, duas mulheres simples, cuja presença é a razão pela qual ainda respiro, apesar da ausência de luxo e poder.

O toque suave de Zara, como se um bálsamo fosse aplicado às minhas feridas mais profundas, transmite uma sensação de segurança que não conhecia.

— Ouço tudo: cada sussurro que Zara acredita estar dirigindo a um homem inconsciente, toda lágrima presa em sua garganta e cada medo que ela expõe, sem saber que alguém a ouve em silêncio.

Ela está sendo vendida, e essa palavra pesa em meu íntimo.

— Uma jovem vendida, como se fosse um objeto, sem alma ou escolha, e o sofrimento que ela enfrenta atravessa meu ser de maneira inesperada, acendendo um fogo de indignação e empatia que me obriga a repensar minha própria situação.

Enquanto ouço sua dor, sinto que, de alguma forma, parte de mim também está sendo vendida—vendida ao silêncio, à inatividade, à impotência diante de uma realidade horrenda.

— Penso em minhas irmãs e em seus casamentos—arranjados, silenciosos e resignados.

Nunca as vi realmente felizes, apenas aceitando o destino que lhes foi imposto.

—Sempre eram como peças de xadrez em um tabuleiro que nem mesmo podiam ver, movidas por mãos invisíveis que jogavam com suas vidas.

Contudo, mesmo assim, elas eram esposas únicas, tudo por exigência do meu pai: nenhuma segunda esposa, e abuso não é tolerado.

—Se alguma delas for maltratada, podem voltar para casa, um consolo em meio a uma situação não ideal.

Mas Zara não possui essa liberdade; ela não tem para onde retornar, e sua venda é parte de um grotesco acordo que reflete uma realidade alarmante, onde, segundo dados da ONU, cerca de 12 milhões de meninas são forçadas a se casar a cada ano, sendo submetidas a um destino cruel antes mesmo de compreenderem o que significa realmente viver.

— É um ciclo vicioso que aprisiona muitas jovens, obrigadas a aceitar a servidão sob a forma de um casamento sem amor, com consequências devastadoras para suas vidas e bem-estar.

Essa realidade estrangula sonhos e esperança, transformando crianças em adultas sem que tenham sequer experimentado os encantos da juventude.

— O desespero de Zara ressoa em meu coração, e um desejo ardente por justiça e mudança brota em mim, uma chama que se recusa a se apagar diante da escuridão que nos cerca.

Qual é a tragédia da tribo dela? — Zara não sabe o que aconteceu comigo, ignora minha identidade e o fardo que carrego, um peso que está atrelado à minha alma como se fosse uma sombra persistente.

— Apesar disso, ela deposita sua confiança em mim, numa entrega que eu nunca esperei.

Cuida de mim com uma ternura quase maternal, fala de seus medos e sonhos com uma sinceridade que me toca profundamente, chora com uma vulnerabilidade que me quebra por dentro e divide sua dor com um desconhecido, me fazendo sentir como se eu fosse a única pessoa em quem ela pode confiar neste mundo hostil.

— Ela não sabe… mas eu a escuto como um confidente silencioso, absorvendo suas palavras com a urgência de quem busca entender a essência da dor alheia.

Enquanto as palavras dela ecoam em minha mente, algo se quebra dentro de mim, uma fenda que revela o quão distorcido é o mundo que fomos forçados a aceitar.

— Isso não é correto, é uma injustiça gritante forçar meninas a se casarem com homens velhos sob o pretexto de tradição, acordos ou dinheiro, todas as justificativas que a sociedade arranja para perpetuar essa crueldade insana.

Um exemplo disso pode ser percebido em muitos lugares, onde meninas são tratadas como mercadorias, em vez de seres humanos com sonhos e desejos próprios; segundo a UNICEF, mais de 12 milhões de meninas são casadas antes de completarem 18 anos a cada ano, uma estatística que enche meu coração de desespero e revolta.

— Isso não é justiça, mas sim uma violação horrenda da dignidade, rotulada como costume em uma sociedade acomodada.

Quando eu voltar, essas leis precisarão mudar, e não apenas como uma promessa vazia, mas como uma necessidade urgente.

— Não agora, enquanto estou ferido, mas um dia, quando a cicatriz da dor se transformar em uma motivação arrojada. Porque sobrevivi por um motivo.

Um motivo que tem um nome: Zara, é a representação de uma nova esperança, um farol de luz que promete um futuro onde meninas como ela terão a liberdade para sonhar sem correntes a prender seus pés.

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Último capítulo

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####NOTA DA AUTORA

    NOTA DA AUTORA & AGRADECIMENTOS Olá, meus queridos leitores e queridas leitoras! É com o coração transbordando de gratidão e com aquela sensação indescritível de dever cumprido que chego junto com vocês ao final de mais uma linda e intensa jornada. Escrever a história da ZARA e ver o crescimento dela ao lado de seu grande amor foi uma experiência única, e eu espero, do fundo do meu coração, que cada capítulo tenha tocado a alma de vocês da mesma forma que tocou a minha enquanto eu dava vida a essas linhas. Ver a trajetória de superação da ZARA e o apoio que ela deu à sua nova amiga na cozinha nos mostra a força que as mulheres têm quando decidem estender a mão umas às outras. Eu sei perfeitamente bem que algumas partes e resoluções dessa reta final da nossa história parecem um tanto utópicas. Sou uma escritora de dramas da vida real e tenho os pés bem fincados no chão. Sei que, na realidade das sociedades mais tradicionais do deserto, as

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####EPÍLOGO

    ZARA AL-RASHIDO vento da noite sopra suave pelas dunas de Alkamar, trazendo o frescor reconfortante que as areias guardam para o fim do dia. Encosto a cabeça no peito largo de Samir, ouvindo as batidas firmes do seu coração — o ritmo seguro que se tornou o meu porto seguro e a minha maior certeza ao longo de todos estes anos. Fecho os olhos por um instante, deixando-me envolver pela imensidão desse deserto que um dia testemunhou a nossa dor e que hoje é o palco do nosso império de amor.Olho para baixo, em direção ao vale iluminado pelas fogueiras do acampamento real, e sinto o peito se encher de um orgulho indescritível. O tempo passou como um sopro poético. Os nossos filhos mais velhos já deixaram para trás a infância e entram agora na adolescência; vejo-os caminhando entre as tendas, altos e fortes, conversando com o tio e com a nossa doce tia americana. Eles carregam no olhar a altivez e a nobreza de Samir, mas também a leveza de uma geração que nunca conheceu

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####CAPÍTULO 99

    NAS AREIAS DO TEMPO E O IMPÉRIO DO AMORSAMIR AL-NAYEFO vento morno do entardecer sopra suave, desenhando ondas douradas nas vastas areias do deserto. Estou de pé no topo da duna mais alta, observando o horizonte distante onde o sol começa a se deitar vagarosamente, tingindo o céu infinito de Alkamar com tons profundos de púrpura, rubi e ouro reluzente. Olho para os meus próprios pés, fixando os olhos sobre essa terra árida que quase foi a minha sepultura definitiva, e um sorriso inevitável e grato surge em meus lábios. Já se passaram dez anos. Dez anos inteiros desde o dia mais crucial da minha existência, o dia em que o destino implacável me jogou ferido, sangrando e desenganado no meio do nada, e a minha vida foi salva pelas mãos da mulher mais extraordinária que já pisou neste mundo. Zara me resgatou da morte, cuidou das minhas feridas com paciência divina e, com a sua coragem indomável de guerreira nômade, curou as cicatrizes mais profundas da

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####CAPÍTULO 98

    SAMIR AL-NAYEFCinco anos depois...O sol do fim de tarde tinge os tetos e cúpulas do palácio central de um tom rosa e dourado, soprando uma brisa suave que carrega o perfume dos jasmins cultivados nos jardins suspensos. Do alto do balcão da grande sala de recepções, observo o pátio transformado. Não há mais a rigidez protocolar cinzenta que sufocava Alkamar no passado. O que se ouve agora é uma mistura vibrante de risadas, música tradicional tocada ao alaúde e conversas animadas em mais de um idioma.Sinto um puxão leve na minha túnica de seda e, ao olhar para baixo, deparo-me com os grandes olhos castanhos e curiosos de Luna, agora com cinco anos, correndo de um lado para o outro com a energia indomável das crianças do deserto. Ao lado dela, sua irmã mais velha a orienta com doçura. Sorrio, sentindo o peito se expandir com aquela paz que outrora parecia um sonho inalcançável. A promessa sob as estrelas foi cumprida: minhas filhas crescem livres.

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####CAPÍTULO 97

    ZARA AL-RASHIDOs dias que se seguem ao nascimento de Luna transformam o palácio central num verdadeiro santuário de paz e contemplação. O deserto lá fora parece celebrar a chegada da nova princesa, enviando brisas suaves que amenizam o calor da estação e carregam o aroma dos jardins internos por todas as galerias de mármore. A minha recuperação é rápida, impulsionada pelo cuidado obsessivo e amoroso de Samir, que se recusa a sair do meu lado por mais de algumas horas consecutivas, delegando a maior parte dos assuntos burocráticos do Estado ao seu irmão, que desempenha as suas funções com uma dedicação impecável, como se buscasse uma redenção diária através do trabalho honesto pelo reino.Luna dorme tranquilamente num berço esculpido em madeira nobre e adornado com pedras semipreciosas, posicionado bem ao lado da nossa imensa cama. Cada pequeno suspiro da nossa filha é monitorado por nós dois. Ver Samir, um guerreiro implacável cujo nome faz os inimigos tremerem na

  • GRÁVIDA E MARCADA PELO SHEIK    ####CAPÍTULO 96

    CLÃ DA LIBERDADE E O NASCIMENTO DE LUNAZARA AL-RASHIDAs semanas seguintes passam com a calmaria profunda e revigorante que o nosso reino tanto merecia após tempestades tão severas. O palácio central, antes um ninho de sussurros venenosos, intrigas de bastidores e conspirações sombrias alimentadas pela ambição desmedida de Feride, agora ressoa com uma energia completamente renovada, preenchido pelo som de preparativos alegres, risadas ecoantes e passos leves. As minhas novas servas, Samira e sua mãe, trabalham ao meu lado no dia a dia com uma dedicação e uma lealdade que nascem da mais pura e genuína gratidão. Elas andam agora de cabeça erguida pelos longos corredores de mármore, vestidas com as sedas finas e coloridas da corte que realçam sua beleza, exibindo nos lábios sorrisos sinceros que apagaram de vez as marcas e as humilhações dos anos difíceis em que viveram marginalizadas na cidade baixa. Elas deixaram de ser apenas empregadas do palácio; ganharam a minh

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