INICIAR SESIÓNAnita Narrando
Aí, Senhor... que barulho irritante é esse? Droga, meu despertador maldito. Me estiquei toda, ainda de olhos fechados, tateando no escuro até encontrar o celular. Desliguei o alarme e soltei um suspiro cansado. Segunda-feira de novo. O corpo pedia mais sono, mas a vida não dava trégua. Franzi o cenho ao lembrar do motivo da minha insônia. Os vizinhos da casa ao lado decidiram fazer uma festa de domingo, e o volume do som parecia um convite para uma rave no meu próprio quarto. “Bem-vinda ao bairro”, pensei meio irônica, já acostumada com o caos e o barulho. Sentei na cama e passei as mãos no rosto, tentando espantar o sono que insistia em me abraçar. Quando resolvi levantar, é claro que tropecei nos lençóis e fui direto para o chão. — Ai, Anita, caramba! — murmurei para mim mesma. — Será que um dia paro de ser tão desastrada? Me levantei rápido, ajeitando o pijama meio amassado, e fui ao banheiro checar se não tinha aberto a testa no tombo. O reflexo no espelho mostrou apenas um rosto amassado, mas inteirinho. Suspirei aliviada e entrei no chuveiro. O banho foi rápido — o suficiente para espantar o sono e lembrar que eu tinha uma filha para acordar e uma escola para enfrentar. Depois, escolhi uma roupa simples: confortável, mas arrumadinha, e fiz uma maquiagem leve — aquele tipo que mal se percebe, mas que me ajudava a encarar o dia. Segui até o quarto de Chun-hee, que dormia tranquilamente. Encostei com delicadeza a mão no ombro dela. — Vamos, princesa... já são seis horas. Hora de levantar para o colégio.Ela murmurou meio sonolenta, com o rosto enfiado no travesseiro: — Tá bem, mamãe... só mais um pouquinho.Sorri para aquela preguiça da minha pequena e me aproximei para enchê-la de beijinhos na bochecha. — Vou acordar essa princesa com beijos, porque é assim que as princesas de verdade acordam!Ela riu, se contorcendo. — Ai, mamãe! — Pronto! Agora que a princesa preguiçosa acordou, bora pro banho? — perguntei, e ela pulou da cama animada. — Vamos! Enquanto me seguia, disse lembrando: — Mãe, não esquece que hoje tem aula de balé com a Ana Laura e a Michelle! Ah, o balé. As Segundas e quartas, às quatro da tarde. Era o momento favorito dela, e confesso, o mais cansativo para mim. Eu a levava e esperava até o fim da aula, para depois voltarmos juntas para casa. Era um daqueles momentos de paz na correria da vida. Mas as coisas tinham mudado. Suspirei fundo enquanto penteava seu cabelo e tomei coragem para contar uma novidade. — Filha... a mamãe vai precisar trabalhar também à tarde agora. Ela ficou me olhando confusa. — Então... eu não vou mais para a dança? — Vai sim, meu amor. Só que a mamãe não poderá te levar. Conversei com a vizinha Sulamita, e ela conseguiu uma moça para te acompanhar. A menina se chama Aline, tem vinte anos, é super simpática e vai cuidar bem de você, tá? Chun-hee ficou em silêncio por um momento. Depois assentiu, baixando a cabeça. Aquilo doeu mais em mim do que eu esperava. Beijei sua testa e forcei um sorriso. — Obrigada, meu anjinho. Agora vamos descer, que eu ainda preciso falar com a dona Sula antes de ir para o colégio. Ajudei-a a se vestir e descemos. O cheiro delicioso de café e panquecas recém-feitas inundava a casa. Sorri aconchegada por aquele aroma. — Bom dia, Martina! Já levantada, hein? A senhora, com o avental amarrado na cintura, sorriu largo. — Ah, menina, sabe como é... Na minha idade não consigo mais ficar na cama depois das cinco. Parece que a cama tem espinhos! — riu alto. Olhei para Chun-hee e brinquei: — Igualzinha a você, né, preguiçosa? Rimos as duas, e por um momento, a carga da rotina pareceu mais leve. Peguei uma xícara de café enquanto observava minha filha rindo com Martina. Pequenos momentos como aqueles me lembravam por que eu aguentava tanta coisa. Mas no fundo, sabia que aquela segunda-feira seria só o começo de uma nova maratona. Contei para Martina sobre a babá que viria ficar com Chun-hee até eu chegar, e ela aceitou de bom grado. Foi um alívio, para ela, porque não dava para cuidar da pequena e trabalhar na casa ao mesmo tempo. Martina sempre fazia o que podia para ajudar, mesmo com pouco, e isso me emocionava. Batidas na porta nos interromperam, e Martina foi atender. Chun-hee, com os olhinhos ainda apertados pelo sono, pediu com voz manhosa: — Mamãe, eu quero cereal! Assentiu sorrindo e fui direto para a despensa. Nada. Revirei tudo e aí lembrei: no dia anterior, Martina tinha colocado o cereal no alto do armário. Alto demais para meu metro e cinquenta e quatro! Mas minha teimosia falou mais alto, então arrastei uma cadeira e subi. Assim que fiquei em pé, senti a cadeira pender para o lado. Só não cai porque Martina e Sulamita correram para me segurar. — Anita! O que faz em cima dessa bendita cadeira?! — ralhou Martina, séria, mãos na cintura. Peguei o cereal com sorriso amarelo. — Estava pegando para a Chun-hee! — Por que não pediu para mim, mulher? Quando digo que você mesma se mete em confusão, você não acredita! — disse, cruzando os braços. Desci da cadeira com cara de inocente, mas sabia que ela tinha razão. Não era a primeira vez que me metia em confusão digna de novela. Lembro bem do dia em que meu lenço ficou preso na máquina de xerox do colégio. Não me pergunte como. Para tentar soltar, acabei de quatro em frente àquela coisa arcaica — e justo naquele momento, o professor Carlos apareceu e ainda teve coragem de dizer: — Não imagina a bela visão que está me proporcionando daqui, Anita! Quase morri de vergonha. Também teve a vez que derrubei o diretor Batista com uma trombada. Eu estava atrasada para buscar Chun-hee e não o vi vindo. Caímos os dois no chão. Os alunos riram tanto que eu quis sumir. Só não levei advertência porque me desculpei dez vezes e expliquei a correria. Mas nada superou o "incêndio acidental". Eu, animada, batendo palmas para comemorar a entrada da mini escola de samba do colégio, bati justo no cigarro do pai de um aluno. O cigarro caiu num carro alegórico e... pronto: fogo. Desde então, ganhei o apelido de professora Anita Furacão. Um apelido que me persegue até hoje e que, sinceramente, detesto. Depois de rir lembrando dessas trapalhadas, despedi-me das meninas. Sulamita avisou que Aline buscaria Chun-hee no colégio, e Martina me alertou sobre os boatos do morro. — Dizem que dois novos traficantes querem tomar o comando do Pivô — sussurrou, olhando para os lados. — São cruéis... já mataram alguns homens dele. Arregalei os olhos. — Meu Deus, Martina... isso é assustador! — É, querida. Por isso, se cuide. Eu vou ficar aqui orando por você e sua filha. Nada de mal vai acontecer, tá bem? — fez o sinal da cruz na minha testa e na da Chun-hee. Abracei as duas e saí de mãos dadas com minha pequena. Chun-hee acenou, sorrindo: — Tchau, Tina! Martina respondeu com seu sorriso de mãe emprestada, e eu segui para o ponto de ônibus, sentindo um calorzinho no peito. Eu não tinha muito, mas tinha o essencial: uma filha maravilhosa, pessoas boas ao meu redor e uma coragem que, embora vacilante às vezes, nunca me deixava desistir. A vida podia ser difícil... mas eu era teimosa demais para acreditar que ainda ia dar certo.Narrado por Yuri O aeroporto de Guarulhos era um caos de pessoas, malas e sons. Eu odiava isso. Odiava a imperfeição. Odiava o Brasil. Já tinha vindo aqui algumas vezes a trabalho, mas nunca permanecia mais que alguns dias. Era um país simplesmente insuportável. Mas estava aqui. Pela minha filha. Pela minha esposa. E eu as teria novamente. Afinal, agora podia dizer que Anita estava bem mais estável. Poderíamos finalmente ser uma família feliz. Já que ela tinha uma filha minha, inventaria qualquer coisa. Mas teria Anita novamente comigo, junto com minha filha. — Senhor Ryang — meu advogado, Dr. Park, apareceu ao meu lado. — A comitiva está pronta. Temos os documentos. Temos os contatos. Mas… — Mas o quê? — A situação é mais complicada do que pensávamos. Aquele delegado… ele é bem conectado. Contratou uma firma de advocacia muito poderosa. A Mendonça & Associados. Meu sangue ferveu. Mas minha expressão não mudou. — Mendonça. Nunca ouvi falar. — É uma firma brasileira, mas com fi
Narrado por Yuri Há duas semanas atrás… O escritório em Seul era um reflexo perfeito de quem eu era: mármore frio, linhas retas, nenhuma imperfeição. Assim como eu. Assim como tudo que eu construí. Meu celular vibrou sobre a mesa de vidro. O nome na tela era de um dos meus informantes no Brasil. — Fale. — Senhor Ryang, temos novidades. A situação mudou. Inclinei-me para frente na cadeira de couro. Meus dedos tamborilaram uma vez. Um único toque. Preciso. — Explique. — O avô dela, Ninho Jeong, está no Brasil. E… ele mudou de lado. Está apoiando Anita. E há um homem. Além disso.. há um delegado. Henrique Macedo. Ele está… envolvido com ela. Ambos estão tendo um caso. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Não houve grito. Não houve explosão. Isso seria vulgar. Isso seria extremamente medíocre. Eu não era medíocre. Eu era Yuri Ryang. Um sorriso lento, gélido, curvou meus lábios. Não era um sorriso de alegria. Era um sorriso de cálculo. De um predador que acabou de identificar
Narrado por Henrique Saímos do galpão, mas infelizmente não podia seguir com a Anita como falei. Ainda tinha que resolver o problema com Madalena. E um outro problema que precisava ser resolvido o quanto antes. "Yuri." Peguei meu celular. Disquei um número que não gostava de discar, mas que estava virando uma constante, depois da entrada de Anita em minha vida. — Júlio. Sou eu. Silêncio do outro lado. — Henrique? — A voz da pessoa do outro lado estava carregada de surpresa. — Você está… bem? — Não. E preciso da sua firma para algo de extrema importância. — Minha firma? Para quê? — Para o caso mais importante da sua vida. Você vai me ouvir. E vai aceitar. — Fechei os olhos, sentindo o gosto amargo das palavras. — Ou eu entro com uma ação para reivindicar o que é meu. E os seus cinquenta por cento congelam. Você não pode comprar minha parte sem meu acordo. — Você está me chantageando? — A voz dele subiu de tom. — Seu… — Sim. Estou. — Minha voz não vacilou. — E não me importa o
Narrado por HenriqueA zona leste de São Paulo era um labirinto de galpões abandonados, ruas sem saída e becos escuros. O tipo de lugar onde o mundo esquecia que havia lei.O tipo de lugar que eu odiava, mas também era exatamente o tipo de lugar perfeito para encurralar ratos.— Alfa, posição — ordenei pelo rádio.— Alfa posicionado. Vista do galpão 47 desobstruída. Dois suspeitos na entrada.— Bravo?— Bravo na cobertura. Sem movimento nas laterais.— Snipers?— Sniper um, pronto.— Sniper dois, pronto.Respirei fundo. Sabia que não poderia estar usando a minha equipe para aquela ação pessoal, mas se não tivesse a chance de salvar a minha garota e sua filha, eu não era digno de ser um delegado. Era o que eu pensava naquele momento. Suspirei e olhei novamente para o galpão. A chuva havia voltado, uma garoa fina que transformava o chão em lama. Cada passo era um ato de vontade.— Santos, me dê o mapa.Ele estendeu o tablet. As amizades que eu havia construído com pessoas específicas me
Narrado por Henrique O carro cortava a noite da zona leste em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado pela chuva fina que teimava em cair. Ivan estava ao meu lado, verificando o mapa no tablet, enquanto eu mantinha os olhos fixos na estrada. — A emboscada foi limpa — ele disse, sua voz carregada de tensão. — Três mortos e dois feridos. Nenhum dos nossos. — Bom. — Minha voz saiu seca, metálica. Não havia espaço para emoção agora. Apenas cálculo. — E o Pivô? — Não estava lá. Era isca. Maldição. O galpão que havíamos invadido naquela noite tinha sido um banho de sangue. Quando chegamos com a E.I.E., já sabíamos que algo estava errado. Os homens que encontraram não eram traficantes de baixo escalão. Eram mercenários. Profissionais. E isso significava apenas uma coisa: alguém com muito dinheiro e muita influência estava por trás daquilo. A troca de tiros foi brutal. Eles atiraram primeiro, sem hesitação. Nós revidamos com a precisão que anos de treinamento nos de
Narrado por AnitaA manhã chegou cedo, e com ela, a partida de Henrique. Ele me beijou a testa antes de sair, seus olhos ainda carregados da ternura da noite anterior, mas já assumindo a frieza do delegado.— Vou para a delegacia. Ivan tem novidades sobre possíveis esconderijos do Pivô. Se conseguirmos chegar às pessoas ligadas a ele, podemos descobrir onde está.— Toma cuidado — eu disse, segurando a lapela do seu casaco. — E me avisa se não puder almoçar.— Vou avisar, coisinha pequena. Prometo.Ele saiu, e eu fiquei observando a porta se fechar, meu coração dividido entre o medo e o orgulho. Meu delegado. Meu protetor. Cuidadoso até nos silêncios.Eu, por outro lado, teria que ir para a comunidade. Ainda estava me arrumando e me preparando para levar Shun-he ao colégio quando meu celular vibrou. Era ele novamente.— Anita, não vou conseguir voltar para almoçar. Ivan e eu estamos seguindo uma pista. Um dos contatos do Pivô pode estar em um galpão na zona norte. Vamos verificar.— He