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Autor: Liliene Mira
last update Fecha de publicación: 2025-01-14 06:20:20

— Porque não tinha essa opção de curso quando concorri a bolsa pelo Sisu.

E como uma pessoa que nem tem condições em comprar roupas decentes fará moda? Questionei-me em pensamento.

Quero ser uma “design”, ditar a moda, criar roupas que todos queiram usar, mas parece um sonho tão grande para mim.

Sim, eu poderia começar costurando, colocando meus desenhos em prática, mas tecido está caro, eu não tenho condições e Mainha nunca tinha o suficiente, então deixei esse sonho de lado.

— Ah! Você fez pelo Enem.

— Sim, não tenho condições de pagar uma faculdade. — Digo com pesar.

— Entendo! — Ela fica em silêncio e eu me sinto no dever de quebrar o silêncio constrangedor que se formou entre nós.

— Eu e Lourdes fazemos... Quero dizer, fazíamos a aula de saúde pública juntas, no início eu e ela nos sentíamos deslocadas, ela por ser a mais velha e eu por ser a única negra cotista na sala. Nós meio que criamos uma proximidade e ficamos amigas. Ela só me contou ser uma… — Calo-me sem saber como continuar.

— Uma puta aposentada? Não tenha vergonha de falar Beatriz, a Lourdes não tem.

— Sei disso, ela sempre falava abertamente, mas confesso que no início pensei que fosse brincadeira dela. — Rir ao lembrar de minha cara quando ela afirmou ser verdade. — Eu nem acreditei de início. — Confessei ainda sorrindo.

— Imagino. — Ela rir também. — Mas, me diga, você realiza as diárias aqui, não vão te atrapalhar nos estudos?

— Não, eu tranquei, estou no último ano, talvez consiga terminar ano que vem. — Eu nem acreditava em minhas palavras, sinto que nunca mais estudarei.

— Mas porque isso menina?

— Perdi a minha mãe a seis meses, ela tinha câncer, fiquei com a guarda de meu irmão, ele só tem nove anos, meu pai também é falecido, então fiquei com a responsabilidade de cuidar dele e da casa. O serviço está difícil, não sei mais o que fazer, então falei com a Lourdes e pedir ajuda.

— Você queria trabalhar como puta? — Afirmei com a cabeça, sentindo-me sem graça e ela me olhou surpresa.

— Mas a Lourdes disse que antes eu poderia tentar outra coisa, talvez limpeza, ou camareira. Admito que fiquei bastante aliviada. Eu sempre fui uma menina centrada nos estudos, nunca fui de me importar com sexo, minha mãe dizia: Bea, só abra as pernas para um homem que te faça se arrepiar da cabeça aos pés, se te fazer arrepiar, pode te fazer gozar. Nunca encontrei essa pessoa, então não liguei muito.

E ainda não ligo.

Porém, isso não digo em voz alta, ela não precisa saber que tenho uma baixa auto estima que só fez piorar no decorrer dos anos, às vezes eu me sinto uma mulher assexuada, não sinto atração por ninguém, nem mesmo me tocando sinto algo.

Só pode ter algo errado em mim, só pode! Mas, dona Cláudia não precisa saber disso também.

— Você cogitou em se entregar por dinheiro? — A voz dela me traz de volta a realidade.

— Isso vai contra tudo que a minha mãe me ensinou, mas pelo meu irmão, eu faria, ele é mais importante que qualquer coisa.

— Você é tão novinha, querida, deveria estar estudando, curtindo, transando muito por aí.

— Eu não sou assim dona Cláudia, sou careta demais, não sei flertar. Acredito que me perdi no tempo, perdi meu tempo de juventude.

— Credo, garota, você fala como se fosse uma velha. — Riu sabendo que ela está certa.

— Agora sou mãe dona Cláudia, irmã e mãe.

— Isso não quer dizer que você tem que se descuidar. Acredite, você ainda pode fazer a faculdade que quer, conhecer alguém e ainda cuidar de seu irmão, positividade sempre. — Diz levantando as duas mãos para o céu e rindo.

Diferente de mim, ela age mais como jovem do que eu.

— Ultimamente não tenho sido muito positiva, a realidade me pegou em cheio.

— Otimismo é tudo! Agora chega desse negativismo, ficarei de olho em meus contatos, se eu souber de algum emprego te digo.

— A senhora faria isso? — Perguntei com um largo sorriso surpresa por suas palavras. Sorrir com alívio pela primeira vez após meses.

— Claro, gostei muito de você! Agora venha, ela se levanta e eu a imito. — Vou te mostrar o lugar. — Afirmei. — Hoje quero que você apenas limpe às duas suítes principais.

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Último capítulo

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