INICIAR SESIÓNAurora Mancini
Acordei com o cheiro de café recém-passado atravessando a porta do meu quarto como quem ignora ordens. Por dois segundos, o perfume quente quase me enganou, pareceu aconchego. No terceiro, lembrei que não havia ninguém autorizado a fazer café na minha cozinha às seis e meia da manhã. Levantei como uma flecha. Entrei na cozinha ainda de penhoar de seda, cabelo preso num coque alto, e encontrei ele. De costas para mim, mangas arregaçadas, ombros largos desenhando a camiseta preta, olhando atentamente agora vejo tatuagens, movendo-se com a naturalidade de quem decora louças e ritmos de casa. A chaleira sibilava. A cafeteira italiana, que só eu sabia usar direito, trabalhava nas mãos dele como se tivesse nascido ali. — Você perdeu o juízo. — anunciei, cruzando os braços — E, por extensão, perdeu a porta de saída. Pode usá-la agora. Aleksei nem se virou. Apenas inclinou levemente a cabeça, como se meu tom fosse uma rajada de vento na noite que pertence a ele. — O açúcar fica à esquerda, no armário alto. — disse, calmo — Mas você não usa açúcar. Gosta do amargor inteiro. Pisquei. Eu odeio quando um estranho acerta detalhes que deveriam ser íntimos. E mais ainda quando me dá a impressão de que eu é que cheguei de visita à minha própria casa. — Tire essa camiseta. Vista outra coisa. — Apontei com o queixo — E saia, antes que eu chame a segurança do prédio. Ele se virou, finalmente. Os olhos muito escuros e, ainda assim, luminosos demais para aquele horário. O rosto limpo, como se a surra da noite anterior fosse apenas lembrança distante num corpo que não conhece hematomas. A voz veio baixa, mas firme, com uma suavidade que irrita. — Eu agradeço o abrigo. E peço desculpas por invadir sua cozinha. Mas não vou embora. — Vai. — Dei dois passos. Seda contra mármore — Agora. — Não posso. — respondeu, e pousou duas xícaras brancas sobre o balcão — Você não entende agora, mas vai entender. Eu sou seu protetor. Ri. Alto, quase gostoso, como quem ouve uma piada bem contada. — Você está delirando. Eu salvei você. Se alguém é protetor nessa equação, sou eu. E eu não contratei guarda-costas. — Mesmo que tivesse contratado, não seriam suficientes. — replicou, sem elevar a voz — Há coisas que querem o que é seu. E o que é seu, Aurora, não é só a empresa, o nome, a cobertura. É você. O silêncio ficou denso. Eu poderia ter bancado a cínica, mas havia algo naquela frase que roçou meu estômago. Irritação disfarça medo com eficiência. Endureci a postura. — Sabe qual é o problema de homens como você? — Fui até a pia, lavei as mãos devagar, deixando a água correr como aço — Confundem obsessão com cuidado. Invasão com proteção. Destino com desculpa para não ouvir “não”. — Eu ouço. — disse ele — Só não obedeço quando o “não” te expõe ao risco. A propósito, me chamo Aleksei. — Aleksei… — provei o nome na língua como se fosse vinho caro que eu decidi recusar — você passou a noite no quarto de hóspedes por acidente estatístico. Hoje de manhã, sai pela mesma porta em que entrou. E nunca mais volta. Ele empurrou a xícara para o meu lado. O café estava perfeito. Odiei por um segundo a tentação de beber. Mantive as mãos ao lado do corpo. — Se eu sair… — disse — ainda assim estarei do lado de fora. A diferença é que você não vai ver. — Isso se chama perseguição. — rebati — Em alguns países, dá cadeia. Um traço de sorriso tocou a boca dele, não de deboche, de paciência. — Em todos os países, chama-se destino quando se trata de nós dois. — Nós dois? — repeti, mordendo a palavra — Não há “nós”. Há eu. E um intruso permanente que precisa reaprender o que “limite” significa. Ele respirou fundo. Foi estranho perceber que o peito dele quase não se movia. — Dê-me uma manhã. — pediu — Se, ao meio-dia, você ainda quiser que eu suma, eu desapareço da sua vista. Mas até lá… me permita fazer o que vim fazer. — Que é? — Manter você viva. A frase ficou suspensa no ar. Eu não acredito em ameaças veladas, nem em promessas heróicas. Acredito em termos. — Meio-dia. — cedi, não pela súplica, mas pela certeza insolente com que ele me serviu café como se eu bebesse. Peguei a xícara, o aroma explodiu no ar, quente e amargo — Depois disso, você sai. E, se a minha sombra tiver a sua forma, eu corto fora. — Entendido. Bebi. O primeiro gole queimou a língua e acalmou o coração. Ele me observava com uma tranquilidade antiga, de quem espera marés. — E, por favor… — acrescentei, indo em direção ao corredor — pare de falar como se a gente fosse personagem de profecia. No meu mundo, quem escreve a minha história sou eu. — Foi isso que me trouxe até você. — respondeu. Fechei a porta do quarto com mais força do que gostaria de admitir. Meia hora depois, terno escuro, camisa branca, cabelo impecável. O espelho me devolveu a imagem que acostumei a amar, a mulher que ninguém derruba. Peguei a pasta, atravessei a sala. A cozinha estava vazia, xícaras lavadas, bancada seca, nenhuma marca de homem. Por um instante, achei que ele tivesse ido embora sem teatralidades. Respirei. Talvez ainda existisse ordem no universo. O elevador abriu. Entrei, apertei o térreo. Duas portas, um sussurro de aço, e eu já era a Ceo outra vez. O motorista trouxe o carro. Sentei no banco de trás, passei mensagens para Luiza e Chiara, revisei a pauta. O vidro espelhado da torre refletiu meu rosto e… um vulto. Familiar. Alto. De preto. Cabelos longos e platinados. — Não. — disse em voz alta, sozinha — Não. Não ouse. O carro desceu a rampa, pegou a avenida. Eu, que odeio olhar para trás, olhei. No retrovisor, dois faróis discretos atrás de mim. E, no ponto cego, um passo a pé, rápido, preciso, do outro lado da calçada. Ele não precisava de carro. — Senhora? — o motorista perguntou — Rota habitual? — Sim. — Endireitei a coluna — E… não mude a velocidade. Quem corre é quem deve. A gente não deve. A cidade passava em blocos de vidro e concreto. Eu tentei me convencer de que era coincidência. Mas cada semáforo parecia fazê-lo aparecer em novo ângulo, no reflexo do café, na vitrine do joalheiro, na sombra que se alongava na parede de tijolos do prédio antigo. Como uma constante que minha matemática cética se recusava a aceitar.Aurora Mancini Os dias seguintes viram ouro reluzindo sobre as pequenas coisas. Há fraldas, há banho, há o choro acordando a casa de madrugada. Há uma cantiga que eu não sabia que sabia. A voz sai macia sem aula nenhuma. Talvez venha das mulheres da minha família. Talvez venha da versão de mim que viveu há séculos e que agora ri, reconhecendo-se em cada gesto que faço. Eu balanço o berço e canto baixinho. Aleksei encosta na parede e me olha como se olhar fosse devoção.Klaus se revela um mestre do colo. Diz que aprendeu observando aldeias no interior há muitas décadas. Matteo faz o papel do tio barulhento que compra presentes em exagero. Às vezes, quando todos estão ocupados, eu caminho pela casa e sinto a mansão inteira se organizando ao redor de um coração do tamanho de uma mão pequena.No meu escritório, os contratos esperam. Eu os reviso com o bebê dormindo no meu peito. Sou Ceo. Sou mãe. Sou esposa. Sou dominadora quando quero. Sou submissa àquilo que escolhi que me domine. T
Aurora ManciniA vida aprendeu um novo ritmo dentro de mim. Primeiro era um sussurro. Depois virou batida. Agora, meses depois do fim do Círculo, é um tambor que dita meus dias e minhas noites. Eu caminho pela mansão e sinto a casa interagir comigo. O chão já não é frio. As janelas não parecem muralhas. Há plantas, há risos, há cheiro de pão vindo da cozinha porque Klaus insiste em assar toda manhã, dizendo que o aroma humano ajuda a espantar tristezas antigas mesmo que não precisemos comer. Matteo finge implicar, mas sempre é o primeiro a roubar um pedaço ainda quente só para fingir humanidade.Eu e Aleksei vivemos uma rotina que nunca pensei desejar. Ele me acompanha em reuniões por vídeo, silencioso, sentado no sofá do escritório. Às vezes só me olha. Outras vezes aponta com o queixo um contrato que merece ser lido pela segunda vez. Quando desligo, ele me puxa para perto e eu apoio a cabeça no peito dele. O coração lento marca o tempo de um jeito que me acalma. É como contar maré
Aleksei VasilievO galpão cheirava a fumaça, pólvora e medo. O Círculo nos cercava como hienas, mas não era o exército deles que importava. Era Andrei. Sempre ele. Um fantasma do século XIX, um traidor que escolheu a faca de prata em vez da irmandade.— De novo, Vasiliev. — disse, a voz carregada de desprezo — Sempre trazendo mulheres para a morte. É tão prazeroso te ver sangrar por um amor.Aurora, ao meu lado, segurava a faca como se tivesse nascido para ela. Havia sangue no rosto, suor nos olhos, mas firmeza no corpo. Ela não vacilou.— Eu não sou “mulheres”. Eu sou Aurora Mancini Vasiliev. E não vou morrer pelas mãos de ninguém.Eu avancei. Andrei era rápido, mas eu era mais. O choque de nossos corpos ecoou como trovão. Ele puxou correntes banhadas em prata, queimando a pele dos meus braços quando me prendeu por segundos. A dor era fogo vivo. Eu rugi e parti o ferro com as próprias mãos.Aurora atacou por trás, cortando a coxa dele. Andrei gritou, o som mais humano que já fez em s
Aurora ManciniA mansão estava silenciosa, mas dentro de mim o barulho era ensurdecedor. A noite se aproximava como um aviso. O cerco não era mais metáfora, era realidade. Andrei Sokolov e o Círculo já estavam em movimento.No salão principal, Aleksei me esperava. O corpo dele parecia esculpido na penumbra, imponente, mas os olhos denunciavam algo que raramente vi: medo. Não dele. Medo por mim.— Você não vai lutar. — ele disse, sem rodeios.Cruzei os braços, firme.— Eu vou.— Aurora… — sua voz quebrou por um segundo — se algo te acontecer…— Se algo me acontecer, você continua. — retruquei — Foi isso que você me disse no terraço, lembra? Agora, devolvo a mesma moeda.Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse uma lâmina contra a própria pele. Klaus e Matteo se aproximaram, observando à distância, mas não interferiram. Sabiam que aquela batalha não era apenas contra o Círculo. Era também contra os nossos medos.Aleksei tentou um último apelo.— Você não entende o que significa es
Aleksei VasilievAurora já não era apenas a Ceo feroz ou a dominadora que me fez curvar os joelhos pela primeira vez em séculos.Agora ela era minha companheira de eternidade. Minha esposa.Ainda soa estranho, mesmo para alguém que caminhou entre impérios e revoluções: esposa. Uma palavra simples que carregava mais força do que todos os títulos que um vampiro pode acumular.Naquela manhã, os papéis foram assinados no cartório. Nada de igrejas, nem de véus. Apenas sua mão firme segurando a minha, seu olhar queimando como brasas, e a frase que me arrancou um sorriso:— Agora não há cláusula de contrato que te livre de mim.Sorri de volta, e meus caninos roçaram o lábio por dentro.— Eu nunca quis cláusulas. Só você.Ela revirou os olhos como sempre, mas o rubor em sua pele denunciou o quanto aquelas palavras a tocavam.Deixamos o prédio sob chuva fina. Ela segurava a bolsa como quem segura um troféu. Eu carregava dentro de mim uma certeza: Andrei Sokolov já sabia. O Círculo sentiria o c
Aurora ManciniEu sempre pensei que conhecia os limites do meu corpo. Conhecia os limites da dor, do prazer, do controle. Sempre fui senhora de mim mesma, e nos clubes, nas masmorras, nos contratos, essa era minha coroa invisível: o poder de decidir. Mas quando olhei para Aleksei naquela noite, senti que pela primeira vez não havia contrato, não havia teatro, não havia máscaras. Só a eternidade esperando que eu dissesse sim.Ele estava diante de mim com os olhos escuros, profundos, como se guardassem um século inteiro em cada piscada contida. O silêncio entre nós era uma afronta à falta de toque. Eu já tinha dito. Eu já tinha pedido. Agora restava a ele acreditar e me dar o que sempre segurou com os dentes.Aproximei-me. Toquei o peito dele. A pele fria, o coração batendo lento demais, como se o tempo fosse refém.— Aleksei… — minha voz falhou, mas insisti — eu quero.Ele fechou os olhos por um instante, e foi como se segurasse o peso do mundo. Quando os abriu, não havia mais dúvidas