FAZER LOGINAurora Mancini
Há dias em que minha mente é uma salada bem elaborada, capaz de pegar e prender qualquer distração. Hoje não era um desses dias. Desde que Aleksei atravessou minha vida, ou melhor, desde que eu mesma o trouxe para dentro dela, cada passo meu carregava a sombra do incômodo. Ele aparecia em reflexos, nos corredores, no silêncio da madrugada. Sempre ali, nunca pedindo nada, mas ocupando tudo. Um invasor silencioso da minha paz. Por isso decidi que precisava daquilo que sempre me devolveu ao eixo, a masmorra. O lugar onde ninguém ousava questionar quem eu era, onde eu tinha o controle absoluto. Escolher a roupa foi quase um ritual de exorcismo. Corselet de couro preto justo, saia com fenda lateral, botas de salto agulha, luvas que subiam até os cotovelos. O batom vermelho fechou o pacto. No espelho, não havia espaço para fragilidade. Era a versão de mim que nunca se curva: a Senhora. Dirigi o meu carro e parei em frente ao clube discreto. A porta de ferro não tinha placa, o reconhecimento era pelo olhar. Desci as escadas de pedra como quem desce a um templo. Lá embaixo, o ar era denso, cúmplice, com música grave e couro polido. — Noite cheia, Senhora Mancini. — disse Mauro, o gerente, inclinando a cabeça — Sala dois está livre. Quer que eu avise a casa? — Não anuncio, Mauro. Eu apareço. — respondi, e ele sorriu como quem reencontra a ordem natural das coisas. Cruzei o salão principal e os olhares se acenderam. Alguns homens já se ajoelharam só com a minha presença. Outros me seguiram com a respiração suspensa, esperando a minha decisão. Reconheci rostos, submissos fiéis, curiosos eventuais, conquistadores fracassados em busca de redenção. Parei diante de um deles, executivo que vinha às sextas. Bom em negócios, péssimo em silêncio. Hoje, nervoso. — Palavra de segurança? — perguntei. — “Âmbar”, Senhora. — respondeu, olhos no chão. — Bom. Fique de joelhos. Ele obedeceu. Ajustei a coleira em seu pescoço, prendi a guia, caminhei pelo salão puxando-o com a mão firme. As conversas desceram um tom. Ao fundo, ouvi alguém sussurrar: — Ela voltou. — Não sorri. Rainhas não sorriem por tão pouco. Na sala dois, fechei a porta. Pus o sub no centro, mãos apoiadas no chão, respiração alta demais. — Você veio buscar o quê? — questionei, circulando-o. — Silêncio. — respondeu, sincero. — Vai recebê-lo quando aprender a calar por dentro. — Ajustei seus ombros — Coluna reta. Olhar baixo. Respire no meu tempo. Ele tentou. Eu marquei o ritmo, como sempre. O chicote estalou no ar, som mais de aviso do que de dor. A noite, generosa, entendeu. Na parede, o metal brilhava, as cordas estavam alinhadas, cada instrumento no lugar. Tudo sobre controle. Exceto eu. Porque, cada vez que meu olhar se fixava no homem ajoelhado, a memória me traía. Eu via Aleksei. Via o cabelo longo, os olhos intensos, a calma insolente. Via o corpo que parecia pertencer à noite. — Mais firme. — ordenei ao sub — Não pense. Sinta o comando. Ele obedeceu e, ainda assim, foi o nome que eu não disse que me incendiou a língua. Aleksei. Sempre ele, atravessando máscaras que antes me protegiam. Bati com a palma da mão no ombro do sub, um toque somado a outro, à medida exata para trazer foco. Ele suspirou mais leve. — Melhor. — concedi — Agora permaneça. Cinco minutos sem mover um músculo. Girei de costas. O espelho largo me devolveu uma Aurora perfeita, couro, sombra nos olhos, boca de vermelho preciso. E por trás da imagem, algo que não era erro, era guerra. Eu, que sempre fui dona do silêncio alheio, começava a perder o meu. — Senhora? — o sub oscilou — Posso falar? — Não. — Andei até ele, baixei o queixo dele com dois dedos — Eu falo. Você existe. O tempo escorreu. Quando encerrei, fiz aftercare como sempre, água, mão no cabelo, um pano frio na nuca, uma frase simples. — Você foi bem hoje. Ele sorriu como quem ganha medalha. Eu vesti o casaco, e o sub perguntou, vacilante: — Posso agradecer? — Pode. — Inclinei a cabeça, e ele beijou minha mão com respeito. Atravessei o salão sem pressa. Mauro se aproximou: — Precisa que eu chame o carro? — Não. Tenho o meu. — respondi — E peça para trocarem o fecho da guia três. Está frouxo. — Sim, Senhora. Troquei a roupa no camarim, mas não o rosto. No espelho, vi uma rainha perfeita pelo hábito, e por baixo da coroa, uma mulher em guerra. A masmorra me deu ordem, mas não me deu paz. Aleksei atravessava tudo. Dirigi meu carro de volta a cobertura. No corredor luxuoso do meu andar, a respiração ficou mais leve. Eu girei a chave, e então vi a sombra. Ele estava encostado à parede ao lado da minha porta. O cabelo prateado caía sobre os ombros, a camisa escura semiaberta, a pele ainda lembrando o aço da madrugada. Não disse nada. Apenas me observou. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Não de perigo, de raiva e… algo que não ouso descrever. — Espiando, Aleksei? — forcei ironia — Ou esperando sua dona chegar em casa? Os olhos dele, verdes claro, e, de algum modo, luminosos, sustentaram os meus. Não havia culpa ali. Nem súplica. — Eu não julgo. — disse — Quem você é lá embaixo só confirma quem você sempre foi. Ri, mas o som saiu mais nervoso do que eu gostaria. — Não ouse fingir que entende. Você não suportaria. Ele deu um passo lento, como se o corredor fosse um altar. — O quê? Ser seu submisso? As paredes pareceram chegar mais perto. — Você nunca suportaria de verdade. — respondi — Homens como você só sabem se fingir de fortes. Ele ergueu um canto da boca, insolente, sedutor. — Experimente. A palavra golpeou o ar. “Experimente.” Minha mão apertou a chave dentro da bolsa. Eu, que raramente hesito, senti meus próprios limites vacilarem. A lembrança da sala dois ainda queimava nos dedos. Uma parte de mim quis provar que ele não passava de um fantasma de arrogância. A outra parte quis… outra coisa. Aproximei-me até sentir o calor do corpo dele. O corredor estava silencioso, só a respiração contida. Eu ergui o queixo, prendi o olhar dele e deixei a ordem escapar com a força de quem não recua. — Ajoelha! E o mundo suspendeu o fôlego.Aurora Mancini Os dias seguintes viram ouro reluzindo sobre as pequenas coisas. Há fraldas, há banho, há o choro acordando a casa de madrugada. Há uma cantiga que eu não sabia que sabia. A voz sai macia sem aula nenhuma. Talvez venha das mulheres da minha família. Talvez venha da versão de mim que viveu há séculos e que agora ri, reconhecendo-se em cada gesto que faço. Eu balanço o berço e canto baixinho. Aleksei encosta na parede e me olha como se olhar fosse devoção.Klaus se revela um mestre do colo. Diz que aprendeu observando aldeias no interior há muitas décadas. Matteo faz o papel do tio barulhento que compra presentes em exagero. Às vezes, quando todos estão ocupados, eu caminho pela casa e sinto a mansão inteira se organizando ao redor de um coração do tamanho de uma mão pequena.No meu escritório, os contratos esperam. Eu os reviso com o bebê dormindo no meu peito. Sou Ceo. Sou mãe. Sou esposa. Sou dominadora quando quero. Sou submissa àquilo que escolhi que me domine. T
Aurora ManciniA vida aprendeu um novo ritmo dentro de mim. Primeiro era um sussurro. Depois virou batida. Agora, meses depois do fim do Círculo, é um tambor que dita meus dias e minhas noites. Eu caminho pela mansão e sinto a casa interagir comigo. O chão já não é frio. As janelas não parecem muralhas. Há plantas, há risos, há cheiro de pão vindo da cozinha porque Klaus insiste em assar toda manhã, dizendo que o aroma humano ajuda a espantar tristezas antigas mesmo que não precisemos comer. Matteo finge implicar, mas sempre é o primeiro a roubar um pedaço ainda quente só para fingir humanidade.Eu e Aleksei vivemos uma rotina que nunca pensei desejar. Ele me acompanha em reuniões por vídeo, silencioso, sentado no sofá do escritório. Às vezes só me olha. Outras vezes aponta com o queixo um contrato que merece ser lido pela segunda vez. Quando desligo, ele me puxa para perto e eu apoio a cabeça no peito dele. O coração lento marca o tempo de um jeito que me acalma. É como contar maré
Aleksei VasilievO galpão cheirava a fumaça, pólvora e medo. O Círculo nos cercava como hienas, mas não era o exército deles que importava. Era Andrei. Sempre ele. Um fantasma do século XIX, um traidor que escolheu a faca de prata em vez da irmandade.— De novo, Vasiliev. — disse, a voz carregada de desprezo — Sempre trazendo mulheres para a morte. É tão prazeroso te ver sangrar por um amor.Aurora, ao meu lado, segurava a faca como se tivesse nascido para ela. Havia sangue no rosto, suor nos olhos, mas firmeza no corpo. Ela não vacilou.— Eu não sou “mulheres”. Eu sou Aurora Mancini Vasiliev. E não vou morrer pelas mãos de ninguém.Eu avancei. Andrei era rápido, mas eu era mais. O choque de nossos corpos ecoou como trovão. Ele puxou correntes banhadas em prata, queimando a pele dos meus braços quando me prendeu por segundos. A dor era fogo vivo. Eu rugi e parti o ferro com as próprias mãos.Aurora atacou por trás, cortando a coxa dele. Andrei gritou, o som mais humano que já fez em s
Aurora ManciniA mansão estava silenciosa, mas dentro de mim o barulho era ensurdecedor. A noite se aproximava como um aviso. O cerco não era mais metáfora, era realidade. Andrei Sokolov e o Círculo já estavam em movimento.No salão principal, Aleksei me esperava. O corpo dele parecia esculpido na penumbra, imponente, mas os olhos denunciavam algo que raramente vi: medo. Não dele. Medo por mim.— Você não vai lutar. — ele disse, sem rodeios.Cruzei os braços, firme.— Eu vou.— Aurora… — sua voz quebrou por um segundo — se algo te acontecer…— Se algo me acontecer, você continua. — retruquei — Foi isso que você me disse no terraço, lembra? Agora, devolvo a mesma moeda.Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse uma lâmina contra a própria pele. Klaus e Matteo se aproximaram, observando à distância, mas não interferiram. Sabiam que aquela batalha não era apenas contra o Círculo. Era também contra os nossos medos.Aleksei tentou um último apelo.— Você não entende o que significa es
Aleksei VasilievAurora já não era apenas a Ceo feroz ou a dominadora que me fez curvar os joelhos pela primeira vez em séculos.Agora ela era minha companheira de eternidade. Minha esposa.Ainda soa estranho, mesmo para alguém que caminhou entre impérios e revoluções: esposa. Uma palavra simples que carregava mais força do que todos os títulos que um vampiro pode acumular.Naquela manhã, os papéis foram assinados no cartório. Nada de igrejas, nem de véus. Apenas sua mão firme segurando a minha, seu olhar queimando como brasas, e a frase que me arrancou um sorriso:— Agora não há cláusula de contrato que te livre de mim.Sorri de volta, e meus caninos roçaram o lábio por dentro.— Eu nunca quis cláusulas. Só você.Ela revirou os olhos como sempre, mas o rubor em sua pele denunciou o quanto aquelas palavras a tocavam.Deixamos o prédio sob chuva fina. Ela segurava a bolsa como quem segura um troféu. Eu carregava dentro de mim uma certeza: Andrei Sokolov já sabia. O Círculo sentiria o c
Aurora ManciniEu sempre pensei que conhecia os limites do meu corpo. Conhecia os limites da dor, do prazer, do controle. Sempre fui senhora de mim mesma, e nos clubes, nas masmorras, nos contratos, essa era minha coroa invisível: o poder de decidir. Mas quando olhei para Aleksei naquela noite, senti que pela primeira vez não havia contrato, não havia teatro, não havia máscaras. Só a eternidade esperando que eu dissesse sim.Ele estava diante de mim com os olhos escuros, profundos, como se guardassem um século inteiro em cada piscada contida. O silêncio entre nós era uma afronta à falta de toque. Eu já tinha dito. Eu já tinha pedido. Agora restava a ele acreditar e me dar o que sempre segurou com os dentes.Aproximei-me. Toquei o peito dele. A pele fria, o coração batendo lento demais, como se o tempo fosse refém.— Aleksei… — minha voz falhou, mas insisti — eu quero.Ele fechou os olhos por um instante, e foi como se segurasse o peso do mundo. Quando os abriu, não havia mais dúvidas