FAZER LOGINClarke
Eu nunca fui homem de me apaixonar fácil. Aos cinquenta e seis anos, já tinha vivido o suficiente para saber que o desejo queima, mas o amor verdadeiro… esse raramente aparece duas vezes na vida. Pelo menos foi o que eu pensei até a noite em que entrei na sala da mansão dos Carmichael. Foi naquela reunião íntima que ela entrou na minha vida. Mary Anne. Eu a vi e algo acendeu dentro de mim. Um desejo cru, urgente, inexplicável. Ela tem o fogo que não via há anos. O riso alto, a energia cigana, o jeito de ocupar o espaço como se o ar pertencesse a ela. Mas é mais quente, mais selvagem, mais perigosa. Os cabelos longos caindo em cascata, o corpo que parece feito para ser tocado, os olhos que me desafiam sem dizer uma palavra. Vinte e oito anos de diferença. Eu menti na primeira conversa que tivemos horas depois, disse que tinha quarenta e oito e ela acreditou. Melhor assim. Se soubesse que são cinquenta e seis… talvez recuasse. E eu não quero que ela recue. Eu preciso esconder isso de Anthony e Magda. Eles me veem como o padrinho eterno, o amigo de juventude. Se descobrirem que estou obcecado pela sobrinha deles, a menina que tem idade para ser minha filha… as críticas viriam pesadas. “Clarke, você enlouqueceu?” “Ela é da família.” “Você é velho demais.” Eu sei. Eu sei de tudo isso. Mas o medo não é suficiente para me afastar. Não quando ela me olha daquele jeito. Naquela primeira noite, depois que ela fugiu para o quarto, eu fiquei no jardim esperando. Quando ela desceu, eu quase perdi o controle. O quase-beijo no happy hour… meu Deus. Ela chegou tão perto que senti o calor da boca dela. Meu pau ficou duro na hora, latejando dentro da calça. Eu quis agarrá-la ali mesmo, prensar contra a parede e foder até ela gritar meu nome. Mas ela se afastou, sorrindo como quem sabe exatamente o poder que tem. E eu fiquei louco, não queria me afastar, e o único jeito foi firmar um compromisso assinado com ela. Ela será a musa da Aurora. No bar, dias depois, foi pior. Eu não avisei que iria. Descobri pelo Logan onde ela estava e fui. Quando entrei no bar e a vi dançando… porra. Vestido preto curto, corpo se movendo como se a música nascesse dentro dela. Rindo alto, jogando o cabelo. E então aquele idiota a puxou. Mão na cintura dela, quadril roçando. Ela riu para ele e eu vi vermelho. Atravessei o salão em segundos. Meu sangue fervia. O ciúme não é uma palavra forte o suficiente. Era posse. Era raiva de ver outro homem tocando o que eu já considerava meu, mesmo que ela ainda não tivesse dito sim. — Mary Anne. Minha voz saiu rouca. Ela virou, ergueu a sobrancelha, me desafiando. Quando ela me enfrentou, cruzando os braços, dizendo que não era propriedade minha, eu quase a beijei ali na frente de todo mundo. Segurei o pulso dela. Senti a pele quente, o pulso acelerado. Queria arrastá-la para o banheiro, levantar aquele vestido e enterrar dois dedos nela até ela gozar tremendo. Queria que ela soubesse que ninguém mais pode tocá-la assim. Mas ela me provocou de volta. Roçou o braço no meu pau de propósito, e eu vi estrelas. Sussurrou que eu podia ficar louco. E foi embora dançando. Eu fiquei ali, pau duro, coração martelando, imaginando mil maneiras de fazê-la pagar por aquilo. Voltei para casa e me masturbei pensando nela duas vezes, gemendo o nome dela no escuro. No dia seguinte, no ensaio fotográfico, foi o inferno. Eu tinha descoberto a agência dela por acaso, dois dias antes. Liguei para eles me apresentando como cliente e exigi: “Quero Mary Anne como rosto da campanha Aurora. Ninguém mais.” Eles aceitaram na hora. Dinheiro resolve muita coisa. Agora eu podia vê-la trabalhando, e interferir. Cheguei ao estúdio sem avisar. Quando a vi no set… lingerie de renda, corpo colado no de outro modelo Rafael, o nome dele. Ele atrás dela, mãos descendo pela cintura, dedos roçando a curva da bunda. Ela gemeu baixinho, jogou o cabelo, olhou direto para mim. Depois sentou no colo dele, pernas abertas, seios quase saindo do sutiã, roçando o quadril devagar. — Mais forte, Rafael… quero que pareça real. A voz dela era pura provocação. Ela sabia que eu estava ali. Estava fazendo de propósito. Meu ciúme explodiu. O desejo também. Eu a queria tanto que doía. Imaginava arrancando aquela lingerie, colocando ela de quatro no chão do estúdio e metendo até ela esquecer o nome do outro cara. Queria marcar ela. Queria que ela soubesse que cada gemido, cada olhar, cada movimento do corpo dela agora me pertencia. — Chega! Eu interrompi. Voz alta. Todo mundo parou. Caminhei até o set, segurei o cotovelo dela e a puxei para o canto. Meu corpo tremia de raiva e tesão. — Você está fazendo isso de propósito — rosnei, encostando-a na parede. — Roçando nele, gemendo, olhando pra mim como se quisesse que eu te fodesse aqui na frente de todo mundo. Ela sorriu, maliciosa. Chegou o rosto tão perto que nossos lábios quase se tocaram. — E se eu quiser? — sussurrou. — E se eu estiver molhada só de te ver sofrer? Eu quase gozei ali. Senti o pau pulsar contra a calça, prensado na barriga dela. Queria beijá-la, morder aqueles lábios, descer a mão por baixo da lingerie e sentir o quanto ela estava encharcada. Mas ela se afastou, ajustou o robe e voltou para o set como se nada tivesse acontecido. Eu saí batendo a porta. No carro, no caminho de volta, liguei para a agência de novo e confirmei: a viagem para a Itália estava marcada. Dez dias no meu vinhedo. Só nós. Eu ia ter ela lá, no meu território. Semanas antes na casa dos Carmichael, eu fiz uma coisa para conseguir o número dela. Magda estava na cozinha, eu me aproximei, abracei ela por trás como sempre faço para provocar Anthony, dei um beijo estalado no rosto dela. — Preciso fazer uma ligação rápida, o meu celular descarregou. Posso usar o seu? Ela riu e me entregou sem desconfiar. Eu abri os contatos, encontrei “Mary Anne” e mandei o número para o meu telefone. Apaguei o histórico. Devolvi o aparelho com um sorriso inocente. — Obrigado, linda. Anthony tem sorte! Magda riu. Anthony revirou os olhos do outro lado da sala. Nenhum dos dois desconfiou de nada. Agora eu tenho o número dela. E em duas semanas estaremos na Toscana. Eu vou esperar. Vou provocá-la de volta. Vou deixar ela me deixar louco todos os dias até o momento em que ela finalmente ceder. Porque Mary Anne não é só desejo, é fogo, é vida. É a segunda chance que eu não sabia que precisava. E eu não vou desistir.Mary Anne No dia seguinte ao encontro com Cecil, a casa amanheceu quieta demais. Eu acordei antes de Clarke de novo. Fiquei deitada de lado olhando o teto de vigas, ouvindo a respiração dele e tentando entender o que eu sentia. Não era mais raiva pura. Era uma coisa mais fina, mais irritante: o resto. Como cinza que ainda quente depois que o fogo apaga. Desci descalça. Fiz café. O cheiro encheu a cozinha e trouxe Clarke atrás de mim quinze minutos depois, cabelo bagunçado, só de cueca e camiseta velha. Ele parou no vão da porta e me observou em silêncio. — Você está com cara de quem ainda quer brigar — ele falou. — Estou com cara de quem não consegue parar de brigar. Ele soltou uma risada baixa, veio até a bancada e roubou minha xícara. Tomou um gole e fez careta. — Você colocou açúcar demais. — É o meu café. — Falo emburrada. — Agora é o nosso café. E está doce demais. — Fala tentando não sorrir. Eu limpei a mão no pano e encarei ele. — Você está tentando me fazer
Mary AnneClarke combinou o encontro para o final da tarde, num escritório alugado em Florença. Neutro. Sem testemunhas além do advogado dele. Eu fiquei no carro, como combinado, o celular na mão e o coração batendo rápido demais. Ele tinha pedido que eu não entrasse. Eu tinha aceitado. A contragosto. Quarenta e três minutos. Foi o tempo que a reunião durou. Eu contei cada um deles olhando o relógio do painel. Quando a porta de vidro do prédio se abriu e Clarke saiu, o rosto dele estava cansado, mas sereno. O advogado veio logo atrás, apertou a mão dele e foi embora. Clarke caminhou até o carro sem pressa, abriu a porta do motorista e entrou. — Acabou — foi a primeira coisa que ele falou. Eu virei o corpo inteiro para ele. — Como assim “acabou”? — Ela admitiu que soube da garrafa. Não foi ela quem colocou a substância, mas soube e não avisou. Achou que eu “precisava relaxar”. A versão dela. O advogado registrou tudo. Ela assinou um termo reconhecendo a omissão e se comprometendo
Mary AnneO segundo dia na Toscana começou com luz demais e silêncio demais. Eu acordei antes de Clarke. Fiquei olhando o perfil dele contra o travesseiro, a respiração funda, a marca antiga de um chupão que já amarelava no pescoço, cabelos metade castanhos escuros e grisalhos, que desciam peloa costeleta emendando com a barba por fazer. Por um momento quis acreditar que o mundo lá fora podia esperar. Que a gente tinha direito a mais algumas horas só de casa, vinhedo e corpo. O telefone dele vibrou na mesa de cabeceira. Clarke abriu os olhos na hora. Não era o toque de alguém qualquer. Eu vi a forma como o maxilar dele endureceu antes mesmo de atender. A conversa foi curta, em italiano rápido, a voz baixa. Quando desligou, ficou alguns segundos parado olhando a tela. — O que foi? Ele se sentou na beira da cama, as costas nuas viradas para mim. — Informações novas sobre aquela noite. A noite da bebida. O nome não precisou ser dito. Cecil. O estômago revirou. Eu me levantei tamb
Mary AnneO carro subiu a estrada de cascalho com o barulho familiar das pedras sob os pneus. Eu reconheci cada curva antes mesmo de vê-la. A fileira de ciprestes à esquerda. O portão de ferro forjado que Clarke abria com o controle remoto. O cheiro que entrou pela janela entreaberta do carro, terra úmida, folhas de videira, um leve toque de fumaça distante de alguma queimada controlada. Eu fechei os olhos por um segundo e respirei fundo. — Chegamos enfim ao nosso lar — Clarke falou, a voz baixa. Não era só uma frase. Era um alívio. A mansão apareceu no alto da colina exatamente como eu lembrava, e ao mesmo tempo diferente. As paredes de pedra pareciam mais douradas sob a luz da tarde. As janelas da suíte principal estavam abertas, as cortinas brancas balançando. Alguém (provavelmente a empregada que Clarke mantinha em tempo parcial) tinha preparado a casa. Havia vasos de lavanda fresca na entrada. Descemos do carro em silêncio. Clarke tirou as malas do porta-malas sem pressa. Eu
Mary Anne O avião já tinha cruzado a costa há um tempo. Lá embaixo o mar se estendia como um tapete escuro e brilhante. Eu segurava a taça de champanhe com as duas mãos e olhava pela janela, o corpo ainda carregando o cansaço gostoso da noite anterior, do casamento, do almoço em família e da madrugada inteira em que Clarke me fez pagar cada segundo da abstinência. Os músculos das coxas reclamavam. O pescoço ardia nos lugares onde ele tinha chupado forte demais. Eu sorria sozinha. Ao meu lado, Clarke estava inclinado sobre o tablet. O sorriso no rosto dele era pequeno e distraído. De vez em quando ele aumentava o zoom em alguma foto. — Vem cá — ele chamou baixinho. Eu me incline. Na tela havia imagens da festa: a fogueira, Magda descalça, Anthony com cara de quem tinha desistido de lutar, as crianças correndo, eu de vermelho com o véu sendo levantado. Ele parou numa foto em que eu estava rindo de cabeça jogada para trás, as moedas do vestido capturadas no movimento. — Você e
Mary Anne A casa ainda cheirava a fogueira e tempero. No dia seguinte ao casamento o quintal continuava cheio. Mesas desorganizadas, restos de comida sendo reaquecidos, crianças dormindo em redes e parentes que simplesmente não tinham ido embora. A festa não tinha acabado de verdade. Só tinha mudado de ritmo. Clarke e eu voltamos de manhã, ainda com o corpo marcado da noite. Eu usei de propósito um cropped preto que deixava à mostra as marcas dos dedos dele na minha cintura. As moedas do vestido de ontem tinham sido trocadas por jeans e o cabelo curto ainda carregava o cheiro de fumaça. Clarke, mais conservador, tentou esconder os três chupões escuros no pescoço com a gola da camisa. Não adiantou muito. — Você está roxo — eu comentei, rindo, enquanto ele ajustava o colarinho pela quinta vez. — Seu tio está de olho. Eu não preciso dar motivo. — Ele já sabe o que acontece numa lua de mel, Clarke. — Saber é uma coisa. Ver estampado no meu pescoço é outra. — Isso porque ning







