Compartir

Capítulo 4

Autor: CERCIE
last update Fecha de publicación: 2025-01-26 13:06:38

Eu não sabia o que esperar da cerimônia. Sabia apenas que seria um marco na minha vida, e não um marco qualquer. Era o tipo de evento que mudaria tudo. Ou, pelo menos, era o que o Clã esperava. O casamento de Rafael e Selene não seria apenas uma celebração de união. Seria uma afirmação do poder, da hierarquia, da separação entre os que pertencem e os que estão destinados a viver à margem.

Minha mente estava um turbilhão de pensamentos enquanto eu me preparava, ou melhor, enquanto tentava me preparar para o que estava por vir. O vestido que me deram era simples, sem brilho, sem luxo. Nada mais do que um reflexo de minha posição dentro daquele mundo. Eu não era importante o suficiente para merecer algo especial.

Naquela manhã, antes de sair para me juntar ao Clã, o silêncio no meu interior foi quebrado de maneira inesperada. Freiren, minha loba, a presença que eu sempre mantive escondida, que raramente falava comigo, apareceu em minha mente com uma clareza que me assustou. Sua voz era suave, como uma brisa na noite fria, mas firme e cheia de uma determinação que eu não sabia que ela possuía.

— Isadora... — Sua voz, embora serena, carregava algo inusitado. Algo... urgente.

Eu congelei, meus dedos tocando o tecido do vestido. Freiren raramente se comunicava diretamente comigo. Na verdade, nossa conexão era mais silenciosa. Eu sentia sua presença dentro de mim, mas raramente ouvia palavras. Por isso, a súbita clareza em sua voz me fez parar.

— O que está acontecendo? — Perguntei mentalmente, a preocupação tomando conta de mim. Eu sabia que algo estava diferente. Eu sentia isso na maneira como a energia em meu corpo vibrava. Algo estava prestes a acontecer. Algo que não poderia ser evitado.

— Fuja. — A palavra ecoou em minha mente, simples, mas tão carregada de significado que me fez tremer. — Fuja enquanto há tempo, Isadora. Durante a cerimônia, quando todos estiverem distraídos, podemos escapar.

Eu fiquei em silêncio, a palavra fugir reverberando em meu cérebro. Fugir. Não era uma palavra que eu usava facilmente. Eu era um espectro entre os lobos, alguém sem uma identidade clara. Não pertencia a lugar algum. E, no entanto, essa sugestão de Freiren... parecia impossível, mas ao mesmo tempo, tentadora. Fugir de tudo. Fugir do Clã, de Rafael, de Selene. Fugir da dor. Fugir da realidade que me aprisionava.

— Mas... como? — Perguntei, ainda sem acreditar no que estava ouvindo. — Como podemos fugir? Onde iríamos?

Eu senti a presença de Freiren aumentar dentro de mim, uma sensação quente e reconfortante, como se ela estivesse me envolvendo com um abraço silencioso, mas poderoso.

— O Clã é uma prisão, Isadora. Sempre foi. — A voz dela parecia mais firme agora, como se suas palavras carregassem uma verdade universal, algo que ela tinha guardado dentro de si por tanto tempo. — A liberdade está além dos muros. A floresta, a noite... está esperando por nós.

Eu respirei fundo, absorvendo o peso das palavras de Freiren. Parte de mim desejava acreditar nela. Parte de mim queria estar livre. A dor do vínculo, a rejeição de Rafael, a humilhação de ser apenas uma sombra na vida dele... tudo isso me empurrava para esse desejo urgente de escapar, de encontrar um lugar onde eu pudesse ser mais do que apenas a companheira rejeitada de um Alfa.

Mas havia uma sombra de dúvida que se infiltrava em meu coração. A ideia de fugir, de romper com tudo o que eu conhecia, me deixava apreensiva. Eu não sabia o que me aguardava do lado de fora dos muros da mansão. Não sabia o que me aguardava na floresta ou na noite. E a pergunta que martelava em minha mente era: "E se nós falharmos?"

— E se nós falharmos? — Perguntei, a dúvida se infiltrando entre as palavras. — E se eu me perder ainda mais, sem um lugar para ir, sem saber para onde ir?

A voz de Freiren foi suave, mas cheia de confiança.

— A falha é permanecer onde você não pertence, Isadora. A falha é aceitar que alguém ou algo tenha o poder de decidir o seu destino. O Clã... Rafael... eles não podem nos prender. Não mais.

A certeza na voz de minha loba me fez engolir a ansiedade crescente dentro de mim. Eu nunca imaginei que Freiren, tão silenciosa e observadora, tivesse tal força em suas palavras. Mas, de alguma forma, tudo o que ela dizia parecia certo. Eu já não sabia o que mais me prendia ali. O que mais havia para perder?

Ficar no Clã significava uma vida de submissão, de dor, de uma existência sem identidade, onde eu jamais seria mais do que a sombra silenciosa ao lado de Rafael e Selene. A ideia de seguir em frente, de sair daquela prisão, mesmo que o futuro fosse incerto, parecia agora uma opção muito mais atraente do que continuar vivendo como uma espectadora da vida deles.

Eu não queria mais viver para eles. Eu finalmente disse isso em voz baixa, para mim mesma, mas com uma resolução crescente.

— Então, você deve ir. Agora. — Freiren respondeu, sua voz cheia de urgência, mas também de uma estranha tranquilidade. — Durante a cerimônia, enquanto eles estiverem distraídos com os votos, você terá uma chance. Não será fácil, mas você precisa tentar. O tempo é agora. Não há mais desculpas, Isadora. Nós dois sabemos que você não pertence àquela vida. Não mais.

Eu fechei os olhos, sentindo o peso de sua decisão pesando sobre mim. Eu não podia mais voltar atrás. Fugir. Era o único caminho que me restava. E a sensação de liberdade, embora assustadora, era mais atrativa do que qualquer coisa que o Clã pudesse me oferecer. Era uma chance de recomeçar, uma chance de ser algo mais, de ser alguém por mim mesma.

Olhei uma última vez para o espelho. O vestido simples, sem brilho, refletindo um rosto cansado, uma mulher que havia sido derrotada, mas que agora estava pronta para lutar pela sua liberdade. Meu reflexo mostrava alguém que nunca havia tido escolha, mas que agora tinha o poder de decidir seu próprio destino. A dor do vínculo, a humilhação e a rejeição de Rafael... tudo isso poderia ser deixado para trás. Eu não seria mais uma sombra. Eu não seria mais a companheira rejeitada.

O que quer que o futuro me reservasse, eu não sabia. Mas, naquele momento, estava clara para mim uma verdade: o vínculo, a dor, as correntes invisíveis que me prendiam àquele lugar, poderiam ser rompidas. Eu não era mais a mesma mulher. Eu não tinha mais medo de desafiar a ordem do Clã. Eu não tinha mais medo de fugir.

Com um suspiro profundo, me virei para a porta. A cerimônia estava prestes a começar. O peso da decisão que eu tomava era imenso, mas ao mesmo tempo, a leveza da liberdade parecia me envolver. E, com isso, minha fuga, minha jornada para a liberdade, também começava.

Eu sabia que o caminho não seria fácil. A floresta, o desconhecido, as incertezas... tudo isso me aguardava, mas havia uma coisa que eu sabia com certeza: eu estava prestes a deixar para trás a vida que me aprisionava. O grito silencioso da minha alma, que sempre buscou ser livre, agora tinha um caminho a seguir.

A porta se abriu, e eu dei o primeiro passo. O futuro ainda era uma grande incógnita, mas uma coisa estava clara para mim: finalmente, a liberdade não era mais um sonho distante. Ela estava ali, ao meu alcance. Eu iria lutar por ela, acontecesse o que acontecesse.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Epílogo

    Dez anos depois O vento sopra suave no alto das colinas, trazendo consigo o perfume das flores silvestres que cobrem o campo. O céu está limpo, azul como as águas sagradas do lago da Lua, e o sol brilha com generosidade. As crianças correm entre as árvores, gargalhando, e seus risos se misturam ao som distante de tambores em celebração. Hoje é um dia de festa. Hoje celebramos paz. Estou de pé na varanda da mansão, observando os pequenos pés descalços cortarem a relva. Meus filhos, agora com dez anos, crescem com a força da linhagem que carregam no sangue e o brilho da magia ancestral nos olhos. Aurora tem o olhar de Caelum — firme, profundo — mas a sensibilidade da minha linhagem, capaz de sentir a energia do mundo como se fosse um segundo coração. Ela ainda prefere as flores às armas, mas Lis já a treina com feitiços antigos. Sua conexão com a Lua é intensa. Quando ela dança sob o luar, até os espíritos silenciam para assistir. Já Auren... ele é pura chama. Um guerreiro em cada

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 82

    O silêncio depois da batalha era mais ensurdecedor que o próprio caos da guerra. Meus passos eram lentos enquanto caminhava de volta pela trilha marcada por magia queimada e terra revirada. O cheiro de sangue ainda pairava no ar, misturado ao aroma mais sutil das ervas que Lis deixara atrás de si — sinais da proteção mágica que ela conjurara para manter o campo seguro. Atrás de mim, cambaleante, o feiticeiro seguia preso por correntes encantadas. As runas brilhavam num tom prateado-violeta, selos ancestrais trançados por minha magia com a força de gerações. Ele não dizia uma palavra. O olhar vazio, como se finalmente compreendesse o peso de sua derrota. Ao longe, ouvi os primeiros sons do nosso acampamento. Vozes. Risos abafados. O choro de um bebê que provavelmente havia sido retirado às pressas durante o ataque. O som da vida persistindo, mesmo diante da morte. Respirei fundo. Atravessamos o último trecho de floresta até emergir na clareira onde nossos aliados estavam reuni

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 81

    A terra parecia pulsar sob meus pés. O cheiro de magia corrompida se espalhava como veneno, encharcando o ar, pressionando contra minha pele como um peso invisível. Eu sentia Freiren se agitar sob minha carne, inquieta, pronta. Meus dedos apertavam com firmeza os cabos das espadas gêmeas, cada uma pulsando com minha energia, respondendo ao chamado do sangue. À minha frente, o campo se abria em um círculo silencioso. Os sons da guerra haviam se distanciado, como se o mundo entendesse que aquele instante exigia respeito. E ali, no centro de tudo, ele me esperava. O feiticeiro. Alto, magro como um galho seco, com olhos tão negros que pareciam fendas no tecido do mundo. Seu manto esvoaçava sem vento. A presença dele curvava o ar ao redor. Havia algo de impossível em sua forma — como se ele pertencesse a outro tempo, ou a nenhum. — Finalmente — ele disse, a voz ressoando como um sussurro dentro do meu crânio. — A herdeira do sangue antigo. A mãe das luas renascidas. Dei um passo

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 80

    O cheiro de magia corrompida enchia o ar. Denso. Podre. Uma neblina púrpura rastejava pelo campo de batalha como uma serpente viva. Eu a sentia tentar se enroscar nas raízes da minha alma, mas a empurrei de volta com um rugido vindo do meu centro. Meu olhar atravessou o caos até encontrá-lo. Ele. O homem que um dia partilhou comigo o ventre. O mesmo rosto, os mesmos olhos. Mas tão diferentes agora. Eu era lobo. Ele era sombra. Ele me viu também. E sorriu. Aquela curva fria dos lábios, que nunca pertenceu a mim. O sorriso que um irmão não deveria dar ao outro. Ele caminhou entre os corpos, abrindo espaço como se o próprio campo de batalha o temesse. — Caelum. — Sua voz era baixa, mas ressoava nos ossos. — Eu sabia que nos encontraríamos aqui. Parei à sua frente, firme. Os sons da guerra sumiram. Como se o mundo prendesse o fôlego. — Sempre soube que terminaria assim entre nós, irmão. — Ah, você sempre foi bom em prever tragédias, não é? — Ele deu um passo adiante. — Mas nunca

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 79

    O primeiro clarão no céu não veio de raios naturais — mas de magia. Um estrondo ressoou como se o próprio firmamento estivesse rachando. Um feixe de energia púrpura e escarlate desceu da colina onde os inimigos estavam agrupados, cortando o ar como uma lâmina dos deuses. Era o primeiro ataque. E um aviso. — Escudos agora! — gritou Lis. As bruxas ao nosso lado — as aliadas que atenderam ao chamado de Lis — levantaram as mãos em uníssono. Círculos rúnicos surgiram no ar, formando camadas de luz dourada e prateada. Uma cúpula mágica envolveu a linha de frente do nosso exército momentos antes da explosão atingir. O impacto fez a terra tremer. Eu senti a vibração subir pelas minhas botas, ecoar nos ossos, sacudir os galhos ao nosso redor. Mas a barreira resistiu. As bruxas aliadas, lideradas por uma mulher de olhos de âmbar e cabelos trançados com penas lunares, mantinham as mãos erguidas, os olhos brilhando. Cânticos antigos saíam de suas bocas em uníssono, enquanto uma delas sangra

  • NO CORAÇÃO DA LOBA BRANCA   Capítulo 78

    O som dos cascos ecoava pela terra úmida como um tambor de guerra que se aproximava mais a cada batida. A névoa matinal ainda rastejava sobre o chão, envolvendo as árvores em véus de silêncio. Mas não havia mais paz. Não havia mais tempo. Eu caminhava com os outros, sentindo o peso da armadura sobre meus ombros, ajustada ao meu corpo pela forja de Freiren e encantada com runas traçadas por Lis. Era negra como obsidiana, com detalhes prateados que cintilavam à luz mortiça. Nas costas, as duas espadas cruzadas pulsavam com a minha magia — lâminas que respondiam à fúria que eu carregava no peito. Ao meu lado, Lis caminhava em silêncio, a capa azul prateada esvoaçando atrás dela. Seu diadema com os símbolos da Lua brilhava sobre a testa, e seus olhos estavam tão atentos quanto os de um predador. Ela carregava seu bastão rúnico em uma das mãos e algumas poções presas ao cinto. Sua magia vibrava no ar, tão viva quanto o fogo de uma estrela. Caelum liderava a linha, imponente em sua arma

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status