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CONHECENDO O RUIVO

Penulis: Kally Hathor
last update Tanggal publikasi: 2026-04-13 08:47:43

Capítulo 6

Ruivo Narrando.

Meu nome não é Ruivo é Jeferson.

Mas ninguém aqui no Vidigal lembra do meu nome de verdade.

Na favela, apelido vira nome de verdade. E o meu apelido pegou fácil. Cabelo avermelhado desde criança, pele clara mais já bronzeada pelo sol do morro, e um temperamento que sempre pegava fogo rápido.

Então ficou assim.

Ruivo.

Tenho trinta anos e sou o homem que manda nesse morro.

Pelo menos é assim que o pessoal fala.

Mas ninguém nasce mandando em nada.

Eu nasci foi na merda mesmo.

Cresci aqui no Vidigal.

Mas não foi uma infância dessas bonitas que o povo gosta de contar em história.

Minha mãe foi embora quando eu tinha cinco anos.

Eu ainda lembro do rosto dela… mas cada ano que passa a memória fica mais borrada.

Lembro do cheiro do perfume barato.

Lembro do cabelo preto comprido.

Lembro dela cantando às vezes enquanto lavava roupa.

Mas lembro também de uma coisa que ficou gravada na minha cabeça.

Ela nunca parecia feliz olhando pra mim.

Como se eu fosse um peso.

Um erro.

Um dia acordei e ela simplesmente tinha sumido.

Sem beijo.

Sem abraço.

Sem explicação.

Eu fiquei sentado na cama esperando ela voltar.

Esperei o dia inteiro.

Ela nunca voltou.

Nunca mais.

Depois disso fiquei só com meu pai.

E meu pai era o tipo de homem que devia ter sido proibido de ter filho.

O nome dele era Afonso, mas no morro todo mundo chamava ele de Ferrugem.

Bebia desde cedo.

Cheirava.

Arrumava briga com qualquer um.

E quando chegava em casa… descontava em mim.

Eu aprendi cedo que criança não tem muita escolha na vida.

Ou aguenta… ou quebra.

Eu não quebrei.

Com oito anos eu já sabia quando ele ia chegar bêbado só de ouvir os passos subindo o beco.

Com nove eu já sabia correr quando a polícia entrava no morro.

Com dez eu já tinha visto gente morrer.

Com doze… já sabia segurar uma arma.

Algumas pessoas falam que a favela rouba a infância da gente.

No meu caso, ela nem deixou começar.

Mas também me ensinou uma coisa importante.

Sentimento demais só atrapalha.

Quando fiz quatorze anos eu entrei de vez pro movimento.

Não foi escolha bonita.

Foi sobrevivência.

No começo eu era só mais um moleque fazendo corre.

Leva isso.

Busca aquilo.

Fica de olho ali.

Mas eu sempre observei muito.

Falava pouco.

Pensava antes de agir.

E isso chamou atenção.

O dono do morro na época era um cara chamado Cabelo.

Ele era esperto.

Percebeu que eu tinha cabeça.

a me chamar pra resolver algumas coisas.

Eu resolvia.

Sem erro.

Sem drama.

Sem fazer barulho.

O respeito começou a vir assim.

Devagar.

Sem eu pedir.

Meu pai morreu quando eu tinha dezoito anos.

Briga de bar.

Faca no peito.

Acabou ali mesmo.

Quando me deram a notícia, eu fiquei olhando pra cara do cara que contou.

Esperando sentir alguma coisa.

Tristeza.

Raiva.

Qualquer coisa.

Mas não senti nada.

Só pensei:

"Agora acabou."

E segui a vida.

Algumas pessoas acham que isso é frieza.

Eu acho que é sobrevivência.

Os anos passaram e eu fui subindo no movimento.

Não porque eu era o mais violento.

Mas porque eu era o mais controlado.

Aqui no crime, quem perde a cabeça morre cedo.

Eu nunca perdi.

Até que um dia aconteceu o que sempre acontece nesse mundo.

Polícia entrou.

Tiro pra todo lado.

O Cabelo morreu naquela operação.

E quando um chefe morre… começa a guerra.

Todo mundo quer o lugar.

Todo mundo acha que merece.

Mas dessa vez foi diferente.

Os mais antigos chamaram uma reunião.

Conversaram.

Discutiram.

No final… decidiram.

O morro precisava de alguém que não fosse louco.

Alguém que pensasse.

Alguém que mantivesse ordem.

E o nome que saiu foi o meu.

Eu tinha vinte anos quando virei dono do Vidigal.

Dez anos se passaram desde então.

Agora tenho trinta.

E posso dizer uma coisa:

Mandar em um morro não tem nada de glamouroso.

É pressão o tempo inteiro.

É polícia.

É inimigo.

É traição.

É gente dependendo de você.

Todo dia.

Toda hora.

Mas eu faço o que precisa ser feito.

Aqui tem regra.

Quem respeita vive em paz.

Quem não respeita aprende rápido a respeitar.

Muita gente acha que eu tenho tudo.

Poder.

Dinheiro.

Respeito.

Mulher.

Mas ninguém entende uma coisa.

Eu vivo sozinho.

Minha casa fica lá no alto do morro.

Dá pra ver o mar inteiro.

Mas quase nunca fico lá.

Prefiro ficar andando pelo Vidigal.

Observando.

Sentindo o clima do lugar.

Mulher nunca faltou.

Sempre aparece alguma querendo ficar perto do dono do morro.

Algumas por interesse.

Outras por curiosidade.

Mas nenhuma fica.

Eu não deixo.

Porque eu não acredito nessas coisas.

Amor.

Família.

Promessa.

Já vi tudo isso quebrar cedo demais na minha vida.

Então prefiro manter distância, tenho uma fixa que escolhi para ficar a minha disposição, ela pensa que é minha fiel ja avisei para ela eu sou livre ela tem que servir só a mim.

É mais simples.

Naquela noite eu estava sentado numa cadeira de plástico numa laje.

O vento do mar batia forte.

Lá embaixo o Rio de Janeiro brilhava cheio de luz.

Magrão estava ali comigo.

Ele é meu braço direito.

O único cara em quem eu confio de verdade.

— Movimento tranquilo hoje — ele disse.

Eu só balancei a cabeça.

Ficamos em silêncio um tempo.

Depois ele falou:

— A Bárbara comentou de uma amiga dela hoje.

Eu olhei pra ele.

— E daí?

— Uma trancista da Bahia. Vai vir morar aqui no morro.

Eu dei de ombros.

— Tem gente chegando aqui todo dia.

Magrão riu.

— Diz que a mulher passou por muita coisa.

Voltei a olhar pra cidade.

— O mundo tá cheio de gente quebrada.

Ele ficou quieto.

Lá embaixo dava pra ouvir música de pagode vindo da quadra.

Gente rindo.

Vivendo.

Passei a mão no cabelo bagunçado pelo vento.

Naquele momento eu não fazia ideia.

Nem de longe.

Que em algum lugar de Salvador uma mulher estava fechando malas.

Uma mulher forte.

Teimosa.

Arretada.

Uma mulher que em poucos dias pisaria nesse morro.

E ia fazer uma coisa que ninguém nunca conseguiu.

Mexer comigo de verdade.

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