INICIAR SESIÓNSamanta
Três meses depois... O som rítmico dos teclados e o murmúrio constante de chamadas de vídeo em inglês e alemão haviam se tornado a minha nova trilha sonora favorita. Eu não estava mais em um cubículo abafado de telemarketing ouvindo reclamações de faturas atrasadas, nem correndo entre arquivos empoeirados de uma repartição pública. Agora, eu estava no trigésimo andar da SafeTech Solutions, cercada por painéis de vidro que revelavam a imensidão da cidade e uma cafeteira que moía grãos selecionados na hora. Minha vida havia mudado de uma forma que eu ainda tinha dificuldade de processar. Graças à indicação do Professor Carvalho, Emma e eu havíamos passado no rigoroso processo seletivo para o departamento administrativo comercial. No começo, achei que meu coração fosse sair pela boca quando assinei o contrato, mas o foco no trabalho e a necessidade de sobrevivência me empurraram para frente. O reflexo que eu via no espelho do banheiro da empresa hoje era diferente daquela Samanta de três meses atrás. Minhas olheiras diminuíram, minhas bochechas ganharam um pouco mais de cor e eu finalmente pude aposentar o cardápio fixo de miojo com ovo. Com o salário de estagiária avançada, eu conseguia pagar meu aluguel sem atrasos, mantinha as contas em dia e até sobrava para comprar um iogurte de marca ou uma fruta fresca. Eu estava, pela primeira vez na vida, respirando. — Sam, você viu a planilha de projeção para o Q4? — Emma deslizou sua cadeira de rodinhas até a minha mesa, com os olhos brilhando. — Se batermos essas metas, o bônus de fim de ano vai dar para a gente fazer aquela viagem para a praia que planejamos! — Foca no trabalho, Emma! — brinquei, embora estivesse tão empolgada quanto ela. — O Gustavo já chegou? — Sim, ele está na sala dele. E parece estar nas nuvens hoje. Gustavo, nosso chefe imediato, era a antítese de tudo o que eu imaginava sobre executivos de alto escalão. Ele foi paciente, nos ensinou os processos da SafeTech com uma calma paternal e nunca nos tratou como "apenas estagiárias". Ele estava vivendo um momento especial: sua esposa estava nos últimos dias de gravidez, e ele passava o dia checando o celular a cada cinco minutos, ansioso pela chegada do primeiro filho. — Meninas, podem vir até aqui um minuto? — Gustavo apareceu na porta da sala envidraçada, com um sorriso largo e o celular na mão. Entramos na sala, que era decorada com fotos de ultrassom e livros sobre gestão de tecnologia. — Sente-se, por favor — ele disse, indicando as cadeiras de couro. — Eu queria conversar com vocês sobre o desempenho desses últimos três meses. Eu e a diretoria estamos impressionados. Vocês não só se adaptaram rápido, como trouxeram uma visão analítica que muitos veteranos aqui não têm. Eu senti um calor subir pelo pescoço. Era o reconhecimento que eu sempre busquei. — Por causa disso — Gustavo continuou, pegando duas pastas azuis sobre a mesa — a SafeTech quer fazer uma proposta que guardamos apenas para os talentos que queremos reter a longo prazo. É o nosso Programa de Aceleração de Carreira. Ele nos entregou as pastas. Abri a minha com as mãos levemente trêmulas. — A empresa se propõe a custear integralmente o restante da graduação de vocês, além de cursos de especialização em segurança e criptografia que vocês escolherem — ele explicou. — Em troca, pedimos um compromisso de permanência na SafeTech por três anos após o término dos estudos. Eu li as cláusulas rapidamente. Era o sonho de qualquer estudante. Ter a faculdade paga e um emprego garantido em uma gigante do setor? Parecia bom demais para ser verdade. Meus olhos, treinados pela desconfiança que a vida me ensinou, focaram diretamente na seção de rescisões e multas. Cláusula 12.4: Caso o colaborador solicite o desligamento voluntário antes do término do período de carência (3 anos), deverá arcar com uma multa rescisória equivalente a 6 (seis) meses de seu salário bruto vigente à época, além do ressarcimento proporcional dos valores investidos em educação. Por outro lado, o contrato deixava claro que, se a empresa decidisse me dispensar por iniciativa própria (sem justa causa), eu estaria livre da multa. Era um risco, mas comparado à segurança que eu sentia ali, parecia um risco calculado. Eu adorava aquele lugar. Os colegas eram profissionais, o ambiente era meritocrático e as oportunidades de crescimento eram infinitas. — Eu aceito — eu disse, sem hesitar muito. — É a oportunidade que eu precisava para focar 100% nos estudos sem me preocupar se o dinheiro vai dar para o xerox ou para o ônibus. — Eu também topo! — Emma exclamou ao meu lado, já pegando a caneta. Assinamos os documentos sob o olhar satisfeito de Gustavo. — Parabéns, meninas. Vocês agora fazem parte oficialmente do futuro da SafeTech. Eu vou precisar me ausentar um pouco mais a partir de amanhã, meu filho pode nascer a qualquer momento, então vocês vão responder diretamente para o nível acima enquanto eu estiver de licença. — Pode deixar, Gustavo. Vamos cuidar de tudo por aqui — prometi, sentindo um orgulho imenso de mim mesma. Saí da sala dele sentindo que o chão sob meus pés finalmente era sólido. Eu tinha um plano, tinha suporte e, o melhor de tudo, estava longe da sombra de Lorenzo. Nesses três meses, eu nunca o vi no nosso departamento. A SafeTech Solutions era um império com milhares de funcionários e vários prédios interligados; a chance de cruzar com alguém do alto escalão e fazer merda no dia a dia era quase nula. Eu estava segura ali. Finalmente segura. Trabalhei o restante da tarde com uma energia renovada. Enviei relatórios, organizei a agenda de reuniões e até ajudei um colega com uma dúvida sobre um software de gestão. Eu estava feliz. Perto do horário de saída, o elevador privativo do andar, que raramente era usado, soltou um sinal sonoro. Eu estava de costas, organizando minha bolsa, quando o ar ao meu redor pareceu ficar mais pesado. Uma corrente elétrica familiar, que eu tentei enterrar nas profundezas da minha memória, subiu pela minha espinha. O cheiro de poder inundou o corredor, cortando o aroma de café e produtos de limpeza. E de lá saiu a assessora da diretoria, Elisabeth saiu sorridente do elevador e parou na nossa mesa. — Olá meninas como estão? Preciso dos relatórios da auditoria para a apresentação de amanhã, onde está o Gustavo? — A voz dela era sempre feliz, e calma. — O Gustavo precisou sair mais cedo para acompanhar a esposa na reta final da gravidez. — Falei ainda olhando para o elevador. — Entendi, então passo aqui amanhã... antes que meu chefe surte e derrube metade da diretoria... — Ela sempre brincava falando do estado de homens das cavernas do CEO. O som de passos ecoou atrás dela. Lentos. Firmes. Autoritários. Meu coração simplesmente parou. Não. Não podia ser. Mas quando me virei lentamente em direção ao elevador privativo, encontrei exatamente os mesmos olhos escuros que haviam me destruído naquela cobertura. Lorenzo Bellini. O homem que me perguntou o meu preço. Era o CEO da SafeTech Solutions. E naquele instante horrível, eu percebi uma coisa: eu tinha acabado de assinar um contrato que me prendia a ele pelos próximos três anos.LorenzoQuando o SUV do Matteo encostou em frente à alfaiataria tradicional no centro da cidade, senti como se pudesse finalmente puxar o ar para dentro dos pulmões com um pouco mais de leveza. A frustração de ter encontrado a casa de Chiara vazia ainda queimava no meu peito, mas a proximidade do dia seguinte exigia que eu deixasse a raiva do lado de fora. Eu precisava resgatar a minha paz. Pela Samanta, pela Valentina e por mim.Entramos no estabelecimento de fachada clássica e portas de vidro jateado. Assim que o sino da porta tocou, avistei Alessandro sentado em uma das poltronas de couro do ambiente. Ele usava uma camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos e mantinha um copo de uísque entre os dedos.— Já estava achando que vocês tinham sido engolidos pelo trânsito — disse Alessandro, levantando-se com um sorriso largo assim que nos viu. — O meu terno já está provado, aprovado e devidamente embalado no balcão. Estava só esperando o noivo dar o ar da graça.— Tivemos uns
LorenzoO trajeto até a casa de Chiara foi consumido por um silêncio pesado e claustrofóbico. Dentro do carro do Matteo, o único som que se ouvia era o ronco surdo do motor e o barulho dos pneus cortando o asfalto. No banco da frente, eu mantinha meus punhos fechados sobre os joelhos, enquanto Heitor, no banco de trás, encarava a janela com o olhar fixo e o maxilar rígido.Quando Matteo reduziu a velocidade para entrar no condomínio de alto padrão, não precisamos sequer passar pelo processo burocrático da portaria. Aquele era o mesmo condomínio fechado onde o tio do Matteo morava há anos; o guarda na guarita apenas reconheceu o rosto dele, acenou com a cabeça e liberou a cancela imediatamente, sem solicitar autorização prévia para o endereço da Chiara.Matteo acelerou pela alameda arborizada e dobrou à esquerda, parando o carro logo em frente à fachada moderna e imponente da residência.— É aqui — avisou Matteo, desligando o motor.Saltamos do carro praticamente ao mesmo tempo. O ar d
LorenzoA sexta-feira finalmente nasceu. Faltavam exatamente vinte e quatro horas para o momento mais importante da minha vida: o nosso "sim".Abri os olhos com a luz do sol atravessando as frestas da cortina do nosso quarto. O peso do dia anterior ainda reverberava nos meus ombros, mas antes mesmo que eu pudesse me sentar na cama, o visor do meu celular acendeu na mesinha de cabeceira. Ergui o aparelho e vi uma sequência de mensagens do Alessandro enviadas logo ao amanhecer:“Irmão, os homens da segurança privada já estão cientes e vão acompanhar o trajeto da Samanta e das meninas. Como vocês estão? Fique calmo. Vai dar tudo certo hoje e amanhã.”Soltei um suspiro profundo, expelindo o ar acumulado no peito que eu nem sabia que estava prendendo. A solidariedade do meu irmão me dava um ponto de apoio necessário no meio daquela turbulência.Virei o rosto para o lado esquerdo do colchão. Samanta dormia profundamente, o rosto sereno finalmente desprovido das sombras de terror que o consu
LorenzoA sexta-feira finalmente nasceu. Faltavam exatamente vinte e quatro horas para o momento mais importante da minha vida: o nosso "sim".Abri os olhos com a luz do sol atravessando as frestas da cortina do nosso quarto. O peso do dia anterior ainda reverberava nos meus ombros, mas antes mesmo que eu pudesse me sentar na cama, o visor do meu celular acendeu na mesinha de cabeceira. Ergui o aparelho e vi uma sequência de mensagens do Alessandro enviadas logo ao amanhecer:“Irmão, os homens da segurança privada já estão cientes e vão acompanhar o trajeto da Samanta e das meninas. Como vocês estão? Fique calmo. Vai dar tudo certo hoje e amanhã.”Soltei um suspiro profundo, expelindo o ar acumulado no peito que eu nem sabia que estava prendendo. A solidariedade do meu irmão me dava um ponto de apoio necessário no meio daquela turbulência.Virei o rosto para o lado esquerdo do colchão. Samanta dormia profundamente, o rosto sereno finalmente desprovido das sombras de terror que o consu
SamantaSofia sentou-se bem ao meu lado no sofá, envolvendo minhas mãos trêmulas entre as suas. Ela tentava a todo custo me acalmar, transmitindo uma firmeza que o meu peito desesperado mal conseguia absorver naquele momento.— Sam, olha para mim... tenta puxar o ar devagar — pediu Sofia, acariciando meus dedos com carinho. — Vai dar tudo certo, a polícia já está cuidando disso. E o Lorenzo está coberto de razão, amiga. Com a segurança da sua família não se brinca! Se for preciso colocar homens armados em cada canto, que coloque.Engoli em seco, limpando uma lágrima teimosa que escorria pela minha bochecha. O terror de ter visto aquele animal peçonhento se mexer dentro da caixa ainda fazia meu coração desacelerar e acelerar em impulsos desordenados.Sofia virou o rosto na direção de Lorenzo, que andava a passos largos pela sala, a mandíbula tão travada que parecia prestes a quebrar.— Lorenzo... pelo amor de Deus, quem no mundo seria capaz de mandar uma monstruosidade dessas para a Sa
Samanta A porta da frente se escancarou com violência, e a figura de Lorenzo surgiu no hall de entrada. Mas antes mesmo que ele pudesse dizer um "boa noite", seus olhos bateram na minha figura encolhida contra o sofá e no pavor estampado no rosto de dona Sônia. — Samanta?! O que está acontecendo?! — o tom de Lorenzo veio carregado de um alarme imediato. Ele deu três passos largos para dentro da sala, mas congelou no lugar assim que olhou para a mesa de centro. Saindo de dentro da caixa preta, um corpo espesso, escamoso e sinuoso deslizava devagar sobre a madeira de demolição. Era uma cobra. Uma serpente viva, erguendo a cabeça e sibilando no silêncio perturbador da nossa sala de estar. — Meu Deus! — esbravejou Lorenzo, movendo-se com uma rapidez impressionante. Ele avançou sem hesitar, puxando-me para trás do seu corpo com um braço firme, blindando-me com o próprio peito. Eu tremia tanto que minhas pernas mal sustentavam o meu peso, agarrada com força ao tecido do seu terno, com







