Mag-log inMavie Ramos Recuei dois passos cambaleando, abraçando o meu próprio braço dolorido, com o coração disparado na garganta.Sérgio estava ali.A luz fraca das luminárias do jardim iluminava o seu terno impecável, mas o que realmente assustava era a aura que irradiava dele. Sérgio irradiava uma raiva primordial, um ciúme visceral, primitivo e escuro que eu nunca, em hipótese alguma, tinha visto em toda a minha vida. Suas narinas dilatavam, os punhos cerrados batiam levemente nas laterais das coxas, e os olhos escuros pareciam lâmpadas acesas de pura carnificina, encarando o homem caído no chão como se estivesse prestes a matá-lo com as próprias mãos.Domênico gemia no chão, tossindo e tentando apoiar o cotovelo, com o nariz sangrando copiosamente e o rosto completamente desfigurado pelo soco.— S-Sérgio... — Domênico gaguejou, cuspindo um filete de sangue no cascalho, tentando recuar enquanto se arrastava para trás. — Calma... foi apenas um... um mal-entendido... a sua esposa... ela co
Mavie Ramos Quando levantei a cabeça e os meus olhos finalmente conseguiram focar na pessoa que estava à minha frente, eu simplesmente não pude acreditar. O sangue congelou nas minhas veias por um segundo antes de voltar a ferver com uma violência avassaladora.Era Domênico.O magnata venoso, o dono daquele vinhedo luxuoso e o homem que havia passado a noite inteira me medindo com olhares de predador e destilando veneno sobre o passado de Sérgio. Ele estava ali, parado bem no meio das videiras escuras, com um sorriso cínico e prepotente colado nos lábios finos, segurando-me pela cintura com uma intimidade que me deu ânsia de vômito.— Cuidado para não cair, gracinha... — Domênico murmurou, a voz pingando um falso cuidado carregado de malícia. — Não quero que o seu marido venha atrás de mim com uma arma e me mate só porque o troféu favorito dele quebrou o pé por descuido.Eu não pensei duas vezes. Assim que processei o peso da palavra troféu saindo da boca dele, agi por puro instinto
Mavie Ramos Tudo naquele lugar parecia girar em torno de Sérgio Ramos e da lembrança fantasma de uma mulher que teve a coragem de fugir dele.O vinhedo de Domênico era deslumbrante, banhado por luzes amareladas que pendiam como vaga-lumes entre as videiras e preenchido pelo som discreto de taças de cristal lapidado se chocando. Mas, para mim, o ar ali dentro era simplesmente irrespirável. Eu não conseguia dar três passos sem capturar fragmentos de conversas venenosas. Os comentários circulavam tão livremente quanto o champanhe caro de safra especial, passados de boca em boca acompanhados por risadinhas disfarçadas por trás de leques e taças erguidas.À medida que eu caminhava com Sérgio, o salão ao ar livre parecia um mar de cobras vestidas em alta-costura. Os olhares daquela elite aristocrática me mediam da cabeça aos pés, desacelerando na fenda do meu vestido vermelho e na audácia das joias de diamantes negros que eu ostentava no pescoço.— Quem é ela mesmo? — sussurrou uma mulher
Sérgio Ramos O coquetel de gala não seria em um salão fechado de hotel, como a imprensa e os colunistas sociais tanto especularam, mas nas terras particulares de Domênico, um dos acionistas mais influentes, venenosos e ardilosos da alta sociedade espanhola. A propriedade ficava a apenas vinte minutos da nossa mansão, cobrindo colinas inteiras com uma iluminação cênica impecável e milimetricamente planejada. O vinhedo dele era o puro suco do luxo ostentativo: fontes de mármore esculpido, garçons servindo safras raríssimas em taças de cristal lapidado e uma multidão de empresários, banqueiros, políticos e especuladores de mercado — o tipo exato de gente superficial e nojenta que Mavie claramente desprezava à primeira vista.No carro, o silêncio entre minha mãe e Catalina tinha sido constrangedor, quase insuportável. Dona Cecília e minha irmã ainda se sentiam profundamente culpadas pelo desastre de mais cedo no quarto, quando tiveram a infeliz e desastrosa ideia de oferecer a Mavie o
Mavie Ramos O reflexo no espelho do provador me mostrava uma mulher que eu quase não reconhecia. O vestido de cetim vermelho-sangue desenhava cada curva do meu corpo com uma ousadia que eu mesma me espantava em possuir; o cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros e a maquiagem nos olhos escuros dava o tom exato de quem não estava ali para pedir desculpas ou abaixar a cabeça. Eu me sentia poderosa, intocável, armada até os dentes com a minha própria marra, pronta para enfrentar qualquer olhar torto ou julgamento velado que a alta sociedade de Sevilha pudesse lançar sobre mim naquela noite.Até a porta do quarto se abrir com um rangido suave e Dona Cecília entrar acompanhada por Catalina, carregando nos braços uma caixinha de veludo escuro que parecia pesar séculos de tradição.— Querida, você está simplesmente deslumbrante — minha sogra elogiou, com aquela suavidade aristocrática que parecia vir natural a quem nasceu dono de meio mundo. Ela caminhou com passos firmes até a pente
Sérgio Ramos A luz do sol de sexta-feira entrou rasgando pelas frestas das cortinas de linho pesado do quarto, anunciando que o dia do julgamento — ou melhor, do coquetel de gala — finalmente havia chegado. Abri os olhos sentindo uma leve dor de cabeça latejar nas têmporas, consequência direta do uísque da véspera e das horas mal dormidas pensando na mulher que dormia a poucos centímetros de mim. Virei o rosto no travesseiro. O lado da cama de Mavie já estava vazio. O lençol amassado e o cheiro suave de jasmim e baunilha que impregnava o travesseiro dela eram os únicos vestígios de que ela havia estado ali. Levantei sem pressa, fiz a minha rotina matinal e desci para o escritório particular que mantinha na ala oeste da mansão. O dia seria uma maratona infernal: reuniões com os acionistas majoritários pela manhã, alinhamento com a diretoria de marketing da holding à tarde e, para coroar a insanidade, a apresentação oficial da minha esposa e do meu herdeiro à alta sociedade de Se







