FAZER LOGINMargarida
Eu estava caminhando, logo depois de receber alta, presa em pensamentos, planejando como faria para conseguir me divorciar de João. Ronaldo havia me dado seu cartão com o número pessoal. Estava guardado no meu bolso. Bem... no bolso da calça que peguei emprestada da Anna. Depois que saí do hospital, fui direto para sua casa. Ele me emprestou um celular e me levou até o banco, onde acessei minha conta e transferi todo o dinheiro que havia ali para uma nova conta, uma que João não poderia tocar. Pelo menos isso eu fiz de útil na vida. Durante a caminhada rumo a lugar nenhum, recebi um e-mail familiar. Sempre que um projeto meu é aceito, eles confirmam por e-mail, com a quantidade de peças e a assinatura do designer principal. Meus olhos quase faiscaram quando li o nome de Gabriella como designer principal da coleção que eu mesma desenhei. Cada peça. Pessoalmente. Olhei atordoada para todos os lados, procurando por um... – Táxi! Mal esperei o carro parar e já me joguei para dentro. Passei o endereço da empresa e segui até lá. Isso só pode ser brincadeira. Como se não bastasse tudo o que João me fez, agora isso. Também tirou meus projetos. Tirou o que eu mais amo fazer na vida. Paguei o taxista e desci. Olhei para cima: o prédio grande e imponente. A empresa que meus pais deram duro para construir. Não é hora de abaixar a cabeça. Entrei no saguão, onde todos pareciam muito ocupados com suas vidas para notar a mulher que acabara de sair do hospital entrando de cabeça erguida, mesmo com o coração em frangalhos. – Com licença – falei à recepcionista, que me olhou com um sorriso automático, até reconhecer meu rosto. O sorriso dela se desfez. – Senhora... Margarida? – Ainda carrego esse nome, infelizmente. – falei seca. – Quero falar com João. Agora. Ela gaguejou. – É que... estão em reunião, Gabriella está com ele... – Ótimo, então vou interromper. – respondi, passando por ela antes que pudesse protestar. Eu sabia o caminho. Ainda conhecia cada andar daquele prédio de olhos fechados. Afinal, por anos, aquela empresa foi minha casa. A herança dos meus pais. O que restou deles. Quando a porta da sala de criação surgiu diante de mim, respirei fundo, o sangue ainda fervendo. Girei a maçaneta e entrei. Gabriella estava sentada à cabeceira da mesa, esparramada numa pose artificialmente elegante, rindo com dois executivos que pareciam encantados com cada palavra dela. Quando me viu, a expressão congelou. João também. Ele pediu para que os dois homens nos dessem licença. Os dois passaram por mim com certa relutância, confusos. Mas fecharam a porta. Eu encarei os dois. – Que ousadia... – ela murmurou. – Não. Isso se chama justiça. – respondi, jogando sobre a mesa o celular emprestado, com o e-mail ainda aberto. – Reconhece isso, não é? É a coleção que eu mesma desenhei. Cada rascunho, cada prova, cada escolha de tecido. João se aproximou. – Você tem provas de que foi você que criou? Quem vai acreditar em você? As vezes, como agora, realmente achou que fui muito burra. Não é possível que João esteja me perguntando uma coisa assim, quando tenho tudo salvo em minha contra de email. Mas, eu não diria isso ali. – Você abandonou tudo, Margarida. Sumiu. O mundo da moda não espera ninguém. – debochou. – Eu estava hospitalizada! – esbravejei. – E ainda assim, vocês acharam que podiam roubar meu trabalho? Me apagar das criações como se eu fosse... descartável? – Eu assinei. – ela rebateu, fria. – Está feito. Os direitos são da empresa. Você não tem mais nada aqui. – A empresa foi fundada pelos meus pais. – Afirmei. Então, olhei para João e disse: –Você acha mesmo que eu não guardei provas de tudo? Aliás, você sabe desenhar pelo menos um boneco de palito, sua imbecil? Como vai sustentar suas falsas criações? – debochei. – Você não sabe de nada – apontou o dedo para mim, sua postura mudando. – Está com ciúme porque João me preferiu. A risada que saiu de mim foi alta o bastante para deixá-los confusos. – Você e ele se merecem. Um, é um usurpador que não conseguiu nada sozinho, a outra, um carrapato que vive grudada ao usurpador. Mas quer saber de uma coisa? Eu sei tudo sobre essa empresa e cada ramo dela, cada criação minha, acha que não tenho como derrubar essa sua assinatura? E você, João, tem certeza que tem o controle de tudo? Só existe uma herdeira para tudo que meus pais deixaram. O silêncio que seguiu foi denso como concreto. – Isso é uma ameaça? – Gabriella se levantou. – Não. – sorri. – Isso é uma promessa. Você não vai apagar minha existência como ele tentou apagar meu filho. Como vocês tentaram apagar minha história. Peguei o celular da mesa e caminhei até a porta. Antes de sair, me virei. – E se preparem. Porque se vocês acham que fui embora sem lutar, é porque nunca me conheceram de verdade. Saí de cabeça erguida, mesmo com o coração disparado. Eu tremia, mas não de medo. Era a fúria de quem cansou de ser colocada de lado. Do lado de fora, meus pensamentos começaram a clarear. Eu sabia que seria difícil me vingar e derrubar João e Gabriella sozinha. Muito difícil. Foi então que a proposta de Ronaldo voltou à minha mente. Mas... será que ele estava falando sério? Eu não queria ser uma marionete em suas mãos, pelo contrário, queria lutar ao lado dele, de igual para igual. Queria manter minha autonomia, minha voz. Várias dúvidas passaram pela minha cabeça, misturadas com um desejo crescente de aceitar. Estava tentador demais. Olhei uma última vez para o prédio que foi minha casa por tantos anos e, em voz baixa, fiz uma promessa: — Eu vou recuperar tudo o que vocês construíram, mamãe e papai. Eu prometo. Então me virei e fui embora dali, voltando para a casa de Anna, onde com calma, pensaria em tudo e traçaria o melhor plano.— Mamãe, mamãe — Jake correu até mim, com as perninhas ligeiras e um sorriso aberto. — Oi, meu amor — sorri, me abaixando levemente. Ele agarrou minhas pernas e estendeu os bracinhos. Eu o peguei no colo e beijei suas bochechas macias. Jake estava a cada dia mais esperto e mais apegado a nós. Desde que as gêmeas nasceram, eu e Ronaldo tentávamos dar atenção a todos de forma equilibrada, mas principalmente aos mais velhos. As gêmeas ainda eram bebês; sentiam nossa falta de uma forma diferente. Emocionalmente, Emma e Jake compreendiam muito mais as mudanças. Jake apoiou a cabeça em meu ombro e ficou ali, quietinho, como se só aquele gesto já fosse suficiente. Ronaldo estava mais à frente no jardim, com Emma e as gêmeas. — Não quis brincar com suas irmãs? — perguntei em voz baixa. — Quero a mamãe — respondeu manhoso. — Oh… a mamãe está aqui, meu amor — murmurei, apertando-o um pouco mais contra mim. Lembrei da primeira semana com as irmãs em casa. Jake queria estar
— Vamos começar — avisou o médico, com a voz firme e serena. Eu estava deitada na sala de cirurgia, as luzes fortes acima de mim, o coração acelerado e a alma transbordando. Ronaldo permanecia ao meu lado, segurando minha mão com força, como se aquele simples gesto fosse capaz de me ancorar ao mundo. Estávamos prontos para viver o momento mais intenso de nossas vidas: o nascimento das nossas gêmeas. Os últimos meses tinham sido perfeitos. A barriga crescendo, os chutes sincronizados, as risadas em família, até uma sessão de fotos que eu jamais imaginei fazer e eu, que antes tinha tanto medo do futuro. Agora, o futuro estava ali, a segundos de existir. Ronaldo não parava de olhar para mim, os olhos marejados, repetindo baixinho, como um mantra: — Vai ficar tudo bem… eu estou aqui… você é incrível, meu amor. Sorri para ele, mesmo com o coração quase saindo pela boca. Apertei sua mão com toda a força que tinha. — Nós conseguimos chegar até aqui — sussurrei. — Elas já estão p
MESES DEPOIS — Tem certeza? — perguntei, surpreso. — Acabei de receber a confirmação. É verdade. Nos últimos meses, a vida dele foi miserável lá dentro, cheia de humilhações. Pelo que soube, ele foi… — Marcus pigarreou. — Você sabe, esnobes não costumam durar muito na cadeia. Fiquei em silêncio por alguns segundos. A notícia era inesperada, até perturbadora de certa forma, mas não despertava tristeza alguma. Tentei me sentir uma pessoa ruim por não lamentar aquela morte. Tentei buscar culpa, pesar, qualquer coisa. Mas não senti nada. — Tudo bem. Obrigado por avisar — respondi, por fim. Desliguei a ligação e soltei um suspiro profundo, como se algo antigo e pesado finalmente tivesse sido deixado para trás. Margarida estava sentada no tapete da sala, cercada pelos nossos filhos. A televisão exibia um filme qualquer, daqueles leves, e o som se misturava às risadas e comentários empolgados de Emma. A barriga dela, enorme e redonda, se destacava sob a blusa confortável. Emma e
Estar grávida novamente era como a realização do maior sonho da minha vida. Havia algo de profundamente mágico em tocar o ventre e saber que existia ali um serzinho que ainda nem havia nascido, mas que já significava tudo para nós. Quando descobrimos a gravidez, meses atrás, senti uma mistura intensa de euforia e medo. Tive receio de que Ronaldo não estivesse preparado para viver tudo aquilo outra vez. Afinal, este já seria o nosso terceiro filho. Agora, estávamos sentados lado a lado, aguardando sermos chamados para a consulta de rotina com uma médica nova, muito bem indicada por uma amiga. — Senhora Valvani, é a sua vez — anunciou uma mulher educada no corredor. A médica sorriu de forma acolhedora assim que entramos no consultório. Tinha a voz calma, o semblante sereno e um olhar atento, daqueles que inspiram confiança logo no primeiro instante. — Bom dia, eu sou a doutora Helena — apresentou-se, estendendo a mão. — Fiquem à vontade. Sentamos juntos, e Ronaldo apertou de leve
O dia começou com aquela sensação boa de casa cheia e o coração apertado de felicidade. Tudo havia sido pensado nos mínimos detalhes por Margarida e Anna, e ver Jake encantado com os balões, os bichinhos e as pessoas ao redor fazia cada esforço valer a pena. Um ano. Parecia impossível que o tempo tivesse passado tão rápido. Emma estava radiante, orgulhosa do irmão, como se a festa também fosse dela. E Jake… Jake era pura energia, curiosidade e risadas. Vê-lo tentando subir nos balões, batendo palmas durante o parabéns e, principalmente, dando seus primeiros passos, ainda desajeitados foi um daqueles momentos destinados a ficar gravados para sempre. O jeito como ele se lançou nos braços da irmã deixou claro quem era seu porto seguro, arrancando risadas, emoção e suspiros de todos. Aquilo, sem dúvida, tornou o dia ainda mais especial. Agora, ele dormia sereno em seu berço, o rostinho ainda manchado pela cobertura azul do bolo onde havia enfiado o rosto sem nenhum medo. Margari
Meses depois Dei uma boa olhada no espelho, o dia inteiro foi uma correria. Não, na verdade, a semana inteira foi uma correria. Eu e Anna trabalhamos muito para fazer deste dia algo memorável. Era o aniversário de um ano do meu filho Jake. Fizemos docinhos, balões, uma decoração de bichinhos que encantou o menino desde o momento em que ele viu. Os pais de Ronaldo chegaram de viagem só para nossa comemoração. E ainda tinha Emma; ela estava eufórica desde que o dia amanheceu. Ronaldo apareceu na porta e sorriu. — Amor, você está linda. Ele sempre fazia isso. Acabei sorrindo como uma boba, como sempre. — Você também, papaizão. — Vamos descer. Jake está tentando subir pela parede de balões e está um pouco frustrado porque não consegue; você tem que ver. Gargalhei. Olhei para Ronaldo e pensei se deveria contar a ele sobre a novidade ou se esperava pelo fim da festa. Por fim, decidi que o dia seria apenas de Jake. Quando desci, encontrei nossa família e alguns amig







