FAZER LOGINOs olhos dela voltaram a lacrimejar quase ao mesmo tempo em que deixava o rapaz ajudá-la a se levantar, puxando-a com toda a delicadeza do mundo para sua “casa”. E Kylie se surpreendeu um pouco ao perceber a linda casa de campo em meio a tantas árvores grandes e bonitas. Era algo bem rústico. A casa era toda em tijolos em tons claros, as janelas e portas eram de vidro, os degraus que levavam a porta de entrada eram de madeira. Era tudo muito simples e delicado.
O moreno de olhos azuis-petróleo pediu gentilmente para que a filha pegasse um copo de água e então seguiu para a sala, instruindo Kylie a sentar-se no sofá após — claro — pegar uma camisa que estava sobre a poltrona, vestindo-se rapidamente.
— Obrigada. – Murmurou, fitando a garotinha logo em que ela chegou até si. – Obrigada, querida. – Lhe sorriu fraco.
— Filha, vá procurar por seus irmãos, por favor.
A menina fitou ao pai e então a loirinha, levando um tempo até finalmente se virar para fazer como o pai pediu.
— Sou Nicholas Cavendish.
— Kylie Bellerose.
Ele balançou a cabeça; não era necessário ela dizer, afinal, ele a conhecia de todas as capas de revistas. O pai dela era o melhor arquiteto do país; havia uma grande empresa com o nome dele na placa gigantesca no centro da cidade.
— Eu percebi que não está em um momento muito bom.
— O pior. – Sua voz embargou. – O pior dia da minha vida.
Um silêncio reinou até Kylie respirar fundo e se pronunciar.
— Eu sinto muito pelo que houve a pouco.
— Alice está bem, e você se apressou em ajudá-la, então tudo bem.
Ela apenas balançou a cabeça.
— Quer ligar para alguém?
— Não!
Ele viu o desespero nos olhos dela.
— Por favor, eu peço, ninguém pode saber que estou aqui. Eu não quero e não posso ver ninguém agora.
— Tudo bem. – Diz. – Você... – Pensou, fitando o andar de cima por um momento antes de fitar a loirinha novamente. – Pode ficar aqui por hoje. Pode tomar um banho, descansar e... amanhã pensa para onde vai.
— Obrigada. – Inclinou a cabeça. – Você é muito gentil. Ninguém em seu juízo perfeito aceitaria uma estranha...
— Eu te reconheci. – Ele confessou finalmente. – Você é a filha do arquiteto mais importante do país. E é uma modelo internacional, então...
Sim, ela era uma modelo desde os doze anos de idade. Começou como garota propaganda e então passou a ser uma modelo, conhecida por tudo e todos, mas em especial por ser filha de quem era, o que de certa forma a deixava chateada. Ainda assim, continuou modelando; primeiro porque ganhava seu próprio dinheiro e segundo poque gostava muito.
— Mas não é por isso que estou te convidando a ficar.
A loira abriu a boca, mas o outro foi mais rápido.
— Eu vejo como está sofrendo. Seja o que for, eu entendo.
E então Kylie percebeu uma tristeza no olhar do rapaz a sua frente.
— Se precisa de um tempo, tudo bem.
— Obrigada. Eu prometo que conto tudo assim... que eu estiver melhor. – Abaixou os olhos. – Eu só preciso... de um tempo.
— Eu vou te levar até um quarto. – Se levantou, fazendo-a fitá-lo. – Vou te dar uma roupa, toalha, objetos pessoais, e amanhã podemos conversar, se quiser.
Kylie balançou a cabeça e o seguiu até um quarto grande — ainda que não tanto quanto o dela —, muito bonito, com cortinas em um vermelho extremamente escuro, uma cama de casal, duas poltronas e um banheiro que tinha até mesmo uma banheira. Ela achou tudo com um toque simples, mas muito lindo.
— Sua chave?
A mulher piscou algumas vezes.
— Do carro.
— Ficou... na ignição.
O outro balançou a cabeça.
— Fique à vontade, eu já volto.
Nicholas saiu e a noiva adentrou um pouco mais, sentando-se devagar na cama com colchas grossas e aveludadas. E então ela voltou a se lembrar de tudo; e sofreu, e chorou, e fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem por seu rosto, sentindo o peso de tudo que passou naquele dia que deveria ser tão perfeito para si.
Ela só conseguia sentir a mágoa naquele momento. Ela não conseguia parar de pensar em tudo que ela havia passado ao lado de Luke, e que foi por água abaixo por culpa dele mesmo. Que ele havia feito aquela escolha maldita de traí-la. E ela não conseguia perdoar. Tudo seria muito mais fácil se ele tivesse sido sincero com ela desde o começo, se tivesse desistido do casamento. Sofreria, mas seria muito menos, e não estaria tão destroçada naquele momento.
— Quem é você e o que está fazendo no quarto da minha mãe?!
Kylie — que soluçava —, se virou para o garotinho de cabelos negros e olhos âmbar que deveria ter uns oito anos. Ele estava raivoso, mas no momento seguinte, ao vê-la com a mão no rosto para limpar as lágrimas, ele mudou sua expressão, e antes que ele ou mesmo a loira pudesse se pronunciar, Nicholas se aproximou.
— Micah.
O menino fitou ao pai.
— Quem é ela, papai?
— Eu vou explicar a você e seus irmãos. Me espere na sala.
O garotinho fitou a moça vestida com aquele vestido branco e bufante antes de fazer como o pai pediu.
— Eu sinto muito, eu não quero ser um problema...
— Não é. – A interrompeu. – Eu prometo, eles vão entender, é só... – Fitou o cômodo por um momento. – Esse quarto... era da minha esposa.
— Era? – Sussurrou.
— Ela faleceu há um ano.
Kylie sentiu seu peito apertar.
— Eu sinto muito.
— Estou superando aos poucos. – Respirou fundo, ficando em silêncio por alguns segundos. – Aqui está a toalha e os objetos pessoais.
Kylie pegou das mãos de Nicholas.
— Essas roupas são de minha cunhada, espero que sirva. – Levou as mãos aos bolsos da bermuda.
— Eu agradeço.
Ele balançou a cabeça e a deixou, fechando a porta antes de seguir em direção a sala, encontrando cada um de seus quatro filhos reunidos, ouvindo-os falar um tanto alto; provavelmente por conta da mulher vestida de noiva no quarto da mãe deles. Mesmo assim, se aproximou calmo — como sempre —, escutando atentamente sua única garotinha dizer que a Bellerose parecia uma princesa — na verdade, a única palavra que havia saído de seus lábios havia sido “princesa”, já que desde a morte da mãe ela quase nunca falava; era raro escutar uma frase inteira de seus lábios. E de certa forma a reação de sua filha fez com que um sorriso ladino aparecesse em seus lábios.
— Papai!
Ele fitou Jonah, irmão gêmeo de Micah; ele tinha os braços cruzados e estava tão sério que pareceu ainda mais a ele mesmo quando era menor.
— O meu irmão já me contou tudo. Por que tem uma mulher no quarto da minha mãe? – Questionou — assim como Nicholas imaginou que ele questionaria —, exigindo de si uma resposta e por isso suspirou.
É, não seria nada fácil. Mas também sabia que por Alice, seus primogênitos e Asher— o filho do meio — faziam o que fosse; e pelo jeito, a loirinha já havia conquistado sua garotinha. Isso era meio caminho andado. Pelo menos ele acreditava que sim, porque por mais que a moça no andar de cima fosse alguém estranha para ele — ainda que tivesse um nome importante —, ele não podia dar as costas para ela, não quando havia percebido a dor nos olhos esmeralda. A mesma dor que sentiu por tantos meses — e ainda sentia em dias especiais — após a perda de sua amada Amber.
TRÊS ANOS DEPOIS — Serenety! A moreninha soltou uma gargalhada, se escondendo atrás da cortina. — Scarllet! — Shi. – Pediu à irmãzinha, levando o dedo indicador a boca, e a loirinha riu baixinho. — Onde é que estão aquelas pestinhas? Ambas as garotinhas de três e dois anos levaram a mãozinha a boca, soltando uma risada baixa, se divertindo com a brincadeira. — E agora? O que eu faço? Eu perdi minhas irmãzinhas. Asher colocou as mãos na cintura. — Isso não é bom, não. Fingiu não perceber quatro pezinhos debaixo da cortina. — É uma pena elas terem sumido. – Fingiu um suspiro. – Ah, mas ao menos eu vou comer chocolate sozinho. — Estamos aqui, irmão. Asher riu, vendo ambas aparecerem rapidamente em seu campo de visão. — Eu quero chocolate. – Serenety diz. — Só se a Scarllet me disser onde está o gatinho. A menina fez um biquinho. — Vamos, Let, você sabe que o papai e a mamãe não podem com gatos. — Ele é fofinho. Asher se abaixou na altura de sua única irmã
DOIS ANOS DEPOIS Kylie olhava para aquele bebê lindo em seus braços pensando em como seria se ele fosse seu. Ela tinha aqueles sentimentos toda vez que uma de suas amigas ficava grávida, o que aconteceu três vezes naquele ano. Uma amiga de cada vez. Primeiro Melody, que teve um garotinho, depois Lori, que teve gêmeos de novo, e agora Sarah, que tinha tido um garotinho lindo e ruivo. O menino era a cara do pai. Como as irmãs. Era impossível não o reconhecer mesmo que ele tivesse acabado de nascer. Tinha os olhos de Ethan também. E se chamava Nathan. Era o milagre de sua melhor amiga, que tinha perdido um filho três anos atrás, meses depois de voltar de sua lua-de-mel. Nicholas havia dito de brincadeira, mas a verdade era que a loira estava mesmo grávida. Mas perdeu após a volta endiabrada de Maya, que provocou um acidente de carro. Foi o momento mais angustiante de sua vida, porque achou que ia perder sua irmã de alma. Ela ficou em coma e por pouco não faleceu junto de seu bebê, e qua
MESES DEPOIS Kylie jamais imaginou encontrar a cozinha naquela bagunça. Sua cozinha. Tinha pós marrom por todo lado. Pelo cheiro, ela imaginou que fosse massa de bolo. Era o que parecia. Não chegou a tocar e levar aos lábios, nem conseguiu reagir quando entrou na cozinha primeiro que seu marido, o culpado de ela ter se atrasado para fazer o lanche para suas crianças famintas. Ela sempre tentava resistir a ele, mas era difícil, principalmente quando ele entrava no banho com ela. Não que dessa vez tivesse chamado ele. Ela já estava de banho tomado, apenas enxaguando os cabelos quando ele entrou e a abraçou por trás. O começo de tudo. Então sim, ele era o culpado de seus filhos estarem no meio daquela bagunça na cozinha. Todos os quatro. Se a massa fosse branca, eles pareceriam fantasmas, porque tinha massa no corpo deles inteiro. Nicholas chamou a esposa, mas não conseguiu terminar de concluir ao ver o mesmo que ela. Estava tão chocado quanto ela. Talvez até mais. Não podia acreditar
Era cedo, bem cedo quando o Cavendish despertou, já energizado. Sim, porque já fazia quase uma semana que Alice se recuperava de uma virose, Asher de uma reação alérgica, que ele, o pai, só descobriu agora porque o menino pela primeira vez experimentou frutos do mar, e Micah e Jonah de uma dengue. Sim, dengue. Descobriram depois de três dias inteirinhos vendo os meninos com sintomas estranhos e preocupantes. E por isso por todos aqueles dias ficou tão cansado. Exausto. Não pisou para fora de casa a não ser para levá-los ao médico e comprar medicamento, e ainda assim foram os dias mais cansativos que ele já teve na vida. Ele não se lembrava de ver seus filhos adoecendo tudo ao mesmo tempo antes. Era preocupante, exaustivo e definitivamente fazia um pai e uma mãe querer nunca mais passar por algo parecido novamente. Primeiro porque era doloroso ver seus filhos sofrendo e segundo porque não era “de Deus” ter que cuidar de quatro crianças doentes tudo de uma vez, mesmo que tivesse tido aj
— Eu sei que você está acostumada com o frio, mas coloca essa touca direito. – Pediu à sua garota, arrumando a toca avermelhada na cabeça dela. – Vai acabar pegando um resfriado. No mínimo. Kylie sorriu antes de beijar os lábios dele rapidamente. — Você fica tão fofo quando está todo preocupado comigo. — Às vezes acho que faz isso só para me ver me preocupar com você. — Você pensa assim da sua esposa? – Deu uma risada. – Se bem que... não seria uma má ideia, né? – Arregalou os olhos de repente. – Olha, Nik, nós chegamos. A confeitaria tem coisas tão gostosas. — Você está mais interessada nas bebidas quentes, não é mesmo? — Você não? Ele soltou uma risada, seguindo-a até uma mesa. — A Sarah disse que eu devia experimentar as massas. — Vamos pegar uma porção de cada. — E chocolate quente. — Eu prefiro o cappuccino. Sabe que evito chocolates. — Você está perdendo as melhores maravilhas do mundo. Nicholas riu. — Não tem coisa melhor que chocolate. — Claro que tem,
Kylie tinha os olhos sobre si diante do espelho. O grande espelho que havia no quarto de luxo daquele hotel maravilhoso de Bariloche. Era época de muito frio. Inverno. Mesmo assim era maravilhoso. Já tinha estado ali uma vez. Uma única vez. Aos quinze anos, como presente de aniversário. Tinha sido incrível, mas não tão incrível como vinha sendo aqueles dias ao lado de seu marido. Ele tinha levado café-da-manhã na cama, a ensinado a esquiar, o que foi uma negação, pois não soube quantas vezes levou tombos, o que de certa forma a lembrava do dia em que teve seu primeiro encontro com ele. Se amaram muito naqueles cinco dias que se passaram. Mas só havia uma coisa que a preocupava, e só porque havia recebido a ligação de sua médica logo em um momento tão especial. Infelizmente, com toda a dor de seu ser, ela teria dificuldade para engravidar. Luke estava certo quando comentou dias antes de se casar. Ele não estava provocando ou querendo magoá-la, ele estava dizendo a verdade, mas só ela n







