INICIAR SESIÓNDarius fechou o livro com um baque surdo, o som ecoando nas paredes de pedra como um tiro de misericórdia. O coração martelava contra as costelas, um tambor desgovernado que parecia querer romper sua carne. Sua mente corria em uma velocidade alucinante, conectando, com uma precisão cruel, as palavras da ancestral com as tragédias sangrentas de sua própria vida.
A Bainha... estava em Ignel. Ele pensou no museu, no ovo estilhaçado
Às 18h, o sol começou a baixar e Marsalla chegou às falésias, como fazia todos os dias. O cabelo curto era seu marco de renascimento e ela sentia o vento salgado bater direto em seu pescoço.— Você acha que ele está bem? — perguntou Ignes, aproximando-se ainda com as vestes pesadas do casamento. — Eu preciso acreditar que sim — Marsalla ajoelhou-se e tocou o chão frio.Começou seu ritual, a voz suave sendo levada pelas correntes de ar: — O mundo está melhor, Darius. Apesar de tudo. Alguns te chamam de monstro, outros de milagre. Dizem que o rei Rhanzur morreu de tristeza dois dias depois, outros falam que um fantasma o buscou. Luciel enterrou os nossos com dignidade. Todos nós choramos. A Rainha Lira se recolheu ao luto, mas ela te defendeu... disse que há mais verdades do que as que o mundo aceita.Ignes olhou para o horizonte, o vento bagunçando seu traje real.— E aí, cabeleira? Eu estou bem. Virei rainha, representante do meu pai aqui em Vórtex e em Stoneval; vamos tentar reconstr
Seis meses foi o tempo que o mundo levou para parar de gritar. Seis meses foi o tempo que levou para as pessoas voltarem a respirar e começarem, passo a passo, a se recuperar do horror. O rastro de destruição foi imenso: dez mil mortos, aldeias que simplesmente sumiram do mapa e o luto que se instalou em cada casa que restou de pé.O silêncio que se seguiu, porém, não trouxe alívio. Arrastava-se entre as ruínas como um lamento contido, mais pesado do que qualquer clamor de guerra. O mundo inteiro saiu do eixo. Nerevia se tornou um deserto de cinzas, uma terra morta sem vida e sem pessoas. Para evitar que o resto do planeta tivesse o mesmo destino, um novo equilíbrio precisou ser forjado às pressas.Stoneval, protegida outrora por sua muralha, foi a única parte da terra que não foi corrompida; por isso, tornou-se o celeiro do mundo, o único solo saudável para o plantio e para a criação de gado. Ignel, com seu terreno vulcânico e sua magia intacta, assumiu o papel de escudo, a força bru
O sorriso se torceu, descendo para algo entre ironia e lamento.Ainda ajoelhado, Rhazer deslizou a mão pelo chão, encontrou a Lâmina Negra caída. E, num gesto que lembrava um abraço distorcido, levou o braço por trás de Darius. O aço negro atravessou as costas de dele rasgando os tecidos e emergindo pelo seu peito, bem no meio do abraço e ponta da espada surgiu entre os dois, brilhando com o sangue entre seus corpos tão próximos.— Acabou de sacrificar o mundo… — sussurrou, a voz quase afetuosa — porque não teve a coragem de me matar.O sangue que escorriam deles caíram no chão entre eles, unindo-se numa mesma poça.— Que se foda o mundo… que se foda tudo. — Darius arfou. — Já te falei. Não existe herói nessa história. Apenas um monstro!O demônio Rhazer sorriu distorcidamente.— Tem razão. Mas você escolheu ser o meu herói. O fardo do fim do mundo… agora é seu.Por um instante, Darius lembrou-se do mestre Guts. Lembrou-se do beijo em Marsalla.Lembrou-se de Elize sua pequena
Um tsunami de trevas desprendeu-se do Demônio, rugindo como um animal vivo. O relâmpagos de Darius ricochetearam, descontrolado. As paredes, o chão e parte do teto do salão se partiram, rachando sob a força do impacto a energia fazia os destroços voarem para longe junto com parte do teto e já era possível ver as estrelas.Darius correu, atravessando a cortina de sombras. Ele acertou o queixo do Demônio com um soco tão forte que o ar estalou, liberando uma explosão de puro Éter VS vácuo.O corpo de Rhazer voou, mas pousou sorrindo, o pescoço virando com um estalo doentio.Eles avançaram e confrontaram punho contrapunho. Eles giraram o quadril, puxaram a perna um do outro e rolaram entre escombros, batendo, se arrastando como quem tentava arrancar o passado do outro à força.A luta não era elegante. Era pessoal. Era cruel.Darius sentiu a costela quebrar com um soco. O Demônio sentiu o nariz virar pó. Eram dois garotos quebrados terminando uma promessa: "Se um dia eu cair… você me leva
Darius recobrou a consciência engolindo poeira e sangue. O ar tinha gosto de pedra moída. Abriu os olhos devagar; a vista estava turva, o ouvido zumbia, algo quente escorria pela têmpora. Levou os dedos até o líquido. Sangue.Virou-se com dificuldade e só então percebeu o cenário ao redor. O chão estava tomado por blocos de pedra quebrada, colunas partidas, pedaços de mármore espalhados como lâminas. O teto, rasgado de dentro para fora, deixava entrar uma luz cinzenta e fria da noite, como um ferimento aberto no palácio.Ainda havia nuvens de poeira negra, misturadas ao cheiro de fumaça, sangue e pedra queimada. O trono estava reduzido à metade. E, perto dos degraus, restava o rei, Rhanzur, mutilado, respirando apenas por teimosia. Sem os braços, sem um dos calcanhares, as pernas cobertas de sangue escuro, tremendo de maneira involuntária.Darius tentou se mover e só então percebeu que metade do corpo estava sob os escombros. A cabeça latejava como se estivesse se afogando.Ergueu o o
Darius permaneceu imóvel, com o corpo sem vida de Gust nos braços. O mundo havia desabado. O silêncio no salão destruído era ensurdecedor, quebrado apenas pelo choro baixo de Darius.Ele sabia que, embora a posse do Vácuo tivesse sido repelida, o Rei Demônio ainda o sentia dentro dele. A fumaça negra o aguardava, faminta. Mas, com o último sacrifício, Gust lhe havia concedido um precioso tempo extra.Ajoelhado diante do corpo de Gust, ele ajeitou o velho mestre com cuidado. Com as mãos trêmulas, limpou o sangue do rosto do mestre, que parecia em paz, apesar das rugas e dos cabelos agora grisalhos. Com uma delicadeza que não parecia pertencer àquele momento de carnificina, Darius fechou os olhos do mestre, inclinou-se e o beijou na testa.— Obrigado... por tudo.O silêncio se partiu com uma risada rouca que ecoou do trono.— Já acabou? — zombou Rhanzur— E eu nem tive tempo de me divertir...Darius se virou lentamente, a mandíbula travada. O rugido de Elize, misturado ao trovão distante