FAZER LOGINParte 7...
Ayla
As batidas na porta ecoaram como se tivessem dado direto no meu peito. BOOM. BOOM. BOOM. Narin me olhou desesperada, as mãos se entrelaçando sozinhas.
— Ayla… É ele.
— Eu sei. - respirei fundo. — Vai pro quarto com a tia. Deixa ela dormindo. Fecha a porta e tenta ficar quieta.
Ela obedeceu imediatamente. Correu. Eu ouvi a porta bater baixinho. Ajeitei o cabelo com a mão tremendo e fui até a porta. Meu coração batia tão alto que parecia mais forte que as batidas dele.
Quando abri, Emir estava lá. Ocupando toda a entrada. Ombros largos, casaco preto, cheiro de noite fria e cigarro caro. Os olhos dele varreram meu rosto, descendo pelo meu corpo como se analisasse cada músculo meu que tremia.
— Bom dia. - disse, a voz baixa e controlada.
Bom dia? Meu estômago revirou. Nada naquela situação parecia um bom dia.
— Você demorou. - ele acrescentou.
— Minha tia… Piorou um pouco. - respondi rápido, forçando a voz ficar firme. — Precisei dar outro remédio.
Emir ergueu o queixo, como se pedisse passagem.
Meu corpo inteiro enrijeceu.— Posso entrar ou não? - perguntou, mas não parecia uma pergunta mesmo.
— Acho melhor não. - coloquei o braço na frente, bem discreto. — Ela está muito mal. Dormiu agora. Qualquer barulho pode acordar e ela tem crises.
Ele me encarou, apertando os olhos.
— Você está tentando me impedir de ver alguma coisa?
— Não. - respondi rápido. — Só não quero que ela acorde. Ontem à noite foi difícil.
Ele deu um passo pra frente, o suficiente pra eu sentir o calor do corpo dele. Me deu frio na barriga, calor no rosto. Nervosismo subindo como febre.
— Eu preciso que venham comigo.
— Eu sei. - respirei fundo. — Mas preciso que Narin fique. Ela cuida melhor dela do que eu… E se as duas saírem, minha tia acorda sozinha e pode acontecer alguma coisa.
Ele franziu a sobrancelha.
— Narin não pode vir. Nem hoje, nem amanhã. Ela precisa cuidar da nossa tia. Por favor!
Emir ficou me observando. O silêncio dele apertava minha garganta.
— Você quer ir sozinha. - ele confirmou.
— Sim.
— Por quê?
O medo bateu forte. Mas eu não podia parecer frágil. Não diante dele.
— Porque a única coisa que importa é que você cumpra sua parte. Você disse que ia resolver… Que depois ia decidir se liberava a gente. - minhas mãos estavam úmidas, mas eu mantive a voz baixa. — Então leve só a mim. Me mostre onde vou trabalhar. O que vou fazer. O que você quer de mim. Mas Narin fica.
Ele inclinou o rosto, devagar, como um predador analisando presa.
— Está com medo de deixar ela aqui sozinha?
Eu engoli em seco.
— Estou com medo de tudo. - fui honesta. — Mas se eu for com você… Ela fica viva.
Algo passou nos olhos dele. Um brilho estranho. Não era piedade. Não era bondade. Era… Acho que atenção. Interesse. Ele me ouviu. Isso, por si só, me desestabilizou.
— Você fez a escolha certa ontem. - Emir disse, a voz mais grave. — E está fazendo de novo agora.
— Eu não tenho escolhas. - sussurrei.
Ele aproximou o rosto do meu. O suficiente para eu sentir o hálito quente, cheiro de hortelã e cigarro, misturado.
— Tem, sim. - murmurou. — Você escolheu proteger sua irmã. Não é qualquer uma que faz isso desse jeito.
Meu coração tropeçou no peito. Eu não sabia se aquilo era um elogio, uma ameaça ou ambos.
Ele deslizou um dedo pela porta, desviando minha mão, abrindo espaço para me observar mais de perto.
— Você vai trabalhar para mim, Ayla. E isso exige… Confiança.
A palavra parecia pesada demais na boca dele.
— Confiança? De um mafioso? - escapou sem pensar.
Ele sorriu de canto, um sorriso lento, perigoso.
E bonito.— Eu gosto de como você fala comigo. - ele confessou. — A maioria gagueja. Ou chora. Ou tenta fugir.
— Você já me fez chorar ontem. - respondi, quase sem querer.
O sorriso desapareceu. Ele respirou fundo.
— Eu sei.
Aquela confissão seca, curta, me atingiu como um tapa. Eu não esperava aquilo.
— Está arrependido? - perguntei, num desafio idiota.
Os olhos dele incendiaram.
— Não. - disse com firmeza. — Mas talvez eu tenha exagerado. Só um pouco.
Só um pouco. Meu corpo estremeceu.
— Vamos. - Emir deu um passo para trás, dando espaço para eu pegar minhas coisas. — Você tem cinco minutos.
— Posso falar com a Narin antes?
— Rápido.
***** *****
Fechei a porta atrás de mim e corri para o quarto.
Narin estava ajoelhada ao lado da cama da tia, segurando sua mão, os olhos desesperados.— Ele vai te levar? - ela sussurrou.
— Vai. Mas você vai ficar. A tia tomou o remédio e está dormindo. Não abra a porta pra ninguém. - ajoelhei ao lado dela, segurando seu rosto. — Preciso que você arrume nossas coisas devagar. Uma mochila ou duas só, pequena. Dinheiro, documentos, roupas leves. Nada demais. Deixe escondido, atrás do tanque. Quando eu voltar, a gente vai escapar.
Os olhos dela marejaram.
— Ayla… Isso é loucura.
— Eu sei. - acariciei o cabelo dela. — Mas é nossa chance.
Ela encostou a testa na minha.
— Você vai voltar viva?
Eu queria prometer. Queria garantir. Mas o medo travou minha garganta. Então respondi o único jeito possível:
— Eu vou voltar porque você e a tia precisam de mim. Só por isso.
Ela me abraçou com força e eu senti o corpo dela tremer inteiro.
— Se ele desconfiar… - Narin começou.
— Ele não vai. Ele acha que eu só quero trabalhar pra salvar você.
— E não é?
— É exatamente isso. - puxei o ar. — Mas ele não pode saber que também é a nossa saída.
A porta bateu na sala. Emir chamou:
— Ayla. Agora.
Soltei Narin devagar.
— Fica com a tia. Silêncio. Me espera.
Ela apertou minha mão uma última vez.
— Volta pra mim.
— Eu volto. - respondi.
Saí do quarto antes que minha voz quebrasse. Emir me esperava na sala com as mãos no bolso, o corpo largo ocupando metade do espaço. Quando me viu, fez um gesto com o queixo.
— Vamos.
Fechei a porta atrás de mim. Ele caminhou ao meu lado, mas um pouco atrás, como se me observasse. Quando chegamos ao carro, ele abriu a porta para mim. Ele. O mafioso cruel que ameaçou jogar minha irmã no mar.
— Entra.
Entrei. Quando ele deu a volta para sentar ao volante, senti o cheiro dele primeiro.
— Ayla. - ele disse, antes de ligar o motor. Olhei para ele. — Se fizer qualquer movimento errado… Eu descubro. Se mentir… Eu descubro. Se tentar fugir…
— Eu não vou. - menti com toda força.
Ele inclinou o rosto, chegando mais perto, tão próximo que pude sentir seu peito subindo e descendo.
— Você vai trabalhar comigo. - repetiu. — Vai ficar colada em mim, entender minhas ordens, organizar minhas coisas, anotar tudo que eu mandar.
Um arrepio subiu pelas minhas costas.
— E o que eu ganho?
— A vida da sua irmã. - respondeu na mesma hora. — E talvez… A sua também.
Parte 79...AylaA varanda estava silenciosa naquele fim de tarde, com o sol já descendo devagar atrás das árvores. Eu apoiava os antebraços no parapeito, sentindo a madeira morna sob a pele, e observava lá embaixo o movimento da casa. — Quatro anos. Às vezes ainda me parecia estranho dizer isso em voz alta, como se o tempo tivesse aprendido a correr diferente desde aquela noite na cabana.Ou talvez tivesse sido eu quem mudou.Vi o carro entrar pelo portão e diminuir a velocidade, como sempre. Emir nunca chegava apressado quando estava voltando para casa. Era um detalhe pequeno, mas que eu tinha aprendido a reconhecer. Como se, ao cruzar aquele limite, ele deixasse o peso do mundo do lado de fora.Sorri sozinha quando a porta se abriu.Ele saiu primeiro, alto, impecável mesmo sem tentar, e então se inclinou para pegar nosso filho no banco de trás. O menino já saiu rindo, braços em volta do pescoço do pai, falando alguma coisa incompreensível com a empolgação típica de quem tem pouco
Parte 78...EmirMinha mão fechou na gola do paletó e o joguei contra a estante. O barulho seco ecoou pelo escritório.— Você encostou nela?! – arregalei os olhos.Ele riu, mesmo com o impacto.— Olha só você… - tossiu. — Exatamente como eu disse. Perdido.O soco veio automático. Forte. Sentido. Ele caiu contra a mesa, derrubando tudo.— Ela não é moeda de troca! - gritei de novo.Ele se levantou cambaleando, o rosto manchado de sangue.— Tudo é moeda nesse jogo, Emir! Sabe bem disso - cuspiu. — Inclusive quem você ama.Aquilo foi o estopim.A briga virou caos. Punhos, móveis quebrando, vidro estilhaçando. Anos de ressentimento explodindo. Veio tudo de vez porque isso foi só o que expurgou uma rixa interna.Ele puxou a arma. Eu fui mais rápido.O tiro ecoou ensurdecedor. O corpo dele caiu pesado no chão. O silêncio veio depois. Brutal. Me aproximei devagar. Ele ainda respirava. Olhos arregalados. Surpresos.— Você… - engasgou. — Sempre foi… Um fraco, sobrinho...Me ajoelhei ao lado d
Parte 77...AylaEsse sorriso dele não caiu bem e dessa vez não havia ironia. Ele parou atrás de mim.— E agora o meu sobrinho está cismado com você... - respirou fundo, quase irritado — É como se tivesse algo a mais, além do que ele diz, sobre apenas estar arrumando as coisas – colocou as mãos em meus ombros — Até porque, se for seguir isso, ele já resolveu a gafe de sua irmã, já sabemos quem era o mandante, você já não teria mais serventia, no entanto... Ele não a deixa ir, não é mesmo?Dessa vez fui eu quem respirou fundo e a merda da corda estava apertada demais. Ele andou para minha frente de novo.— Emir está desfazendo acordos. Ele nem quis dar apoio ao Arden quando ele precisou e isso foi algo combinado de antes.— Não tenho culpa de nada disso. Não foram decisões minhas, reclame com Emir.Meu coração batia tão forte que doía.— Não foi, mas foi por sua causa.— Eu não mandei ele fazer nada. E Arden também não é nenhum santo, pelo pouco que sei.— Não precisa mandar - ele reba
Parte 76...AylaA raiva me subiu de imediato. Eu tenho medo dele, mas no momento estou com mais raiva do que medo. Eu poderia estar no caminho para outro lugar, mas ele atrapalhou.É um inferno ficar indefesa contra alguém como ele. Desde o começo ele foi ameaçador e irônico e agora já sei o motivo. Ele sabia que eu era filha do homem que causou um estrago nos negócios errados dele.Mas eu não tenho culpa, nem mesmo sabia que meu pai participava desse tipo de coisa. Pra mim foi tão absurdo que ainda nem sei o que pensar.— Poderia estar livre disso, eu avisei.A voz dele era calma demais. Não suporto olhar pra sua cara. Engoli seco.— Me solta, por favor. Eu já ia embora pra longe.Ele não reagiu. Deu um passo à frente.— Sabe, eu imaginei que você poderia ser diferente. Mais esperta... Afinal, é jovem, tinha que se virar sozinha – estalou a língua — Mas não, você é burra.— Eu… Eu não fiz nada… - minha voz tremia e isso me irritava — Eu só quero ir embora. Já estava arrumando minhas
Parte 75...Ayla— Anda.— Solta minha irmã! - tentei me virar.Ele me empurrou para fora do apartamento. No corredor, os outros dois já estavam esperando. Um deles limpava sangue da boca. O outro guardava a arma.— Ela escapou - disse o que sangrava. — Desceu pela rua atrás do prédio.O que parecia ser o chefe cuspiu no chão.— Não dá tempo. A ordem é levar essa. A outra não é importante.Me puxaram pelo braço. Saí tropeçando, quase caindo. O prédio parecia distante, estranho. Como se eu estivesse fora do meu próprio corpo. Me sinto até mais quente. Na rua, um carro preto estava ligado. Porta aberta.— Narin!Gritei de novo, olhando em volta, o peito queimando. Não vi ninguém. Fui empurrada para dentro do banco de trás. Um entrou comigo, colando no meu lado. Outro veio na frente. O terceiro dirigiu. O carro arrancou e o mundo ficou para trás em um borrão de luzes. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito.— Quem são vocês? – minha voz falhou — Quem mandou vocês aqui?O homem ao me
Parte 74...AylaDia seguinteFechei a mala com o joelho, forçando o zíper que insistia em travar. O apartamento estava uma bagunça organizada: roupas sobre a cama, caixas abertas no chão, papéis da tia empilhados na escrivaninha, remédios separados em sacolas. Cheirava a poeira, a tecido guardado, a qualquer coisa que me passava pela cabeça, no meu nervosismo e ansiedade de dar o novo passo.Narin estava sentada no chão, dobrando camisetas com um cuidado exagerado, pensativa até demais.— Você tem certeza que não quer levar esse casaco? – disse erguendo um azul claro que eu usava pouco.— No interior faz mais frio à noite. Coloca ali.Ela obedeceu, enfiando o casaco na mala dela. Ficou um tempo em silêncio, mordendo o lábio, os dedos parados sobre a roupa.— Você está estranha desde ontem - disse enfim, sem me olhar.Eu puxei o ar devagar.— Eu falei com o Emir.Ela ergueu o rosto na mesma hora.— Falou… Como assim falou? Você não me disse como foi, depois que saiu daquele jeito, com







