FAZER LOGINNunca havia tido uma crise daquela, nem mesmo durante as cirurgias mais complicadas da minha vida, quando precisei literalmente ter o coração do paciente em minhas mãos. Mas naquele momento, diante da possibilidade de perder meu irmão, entrei em pânico.
— Você está se sentindo melhor, Amanda? — perguntou Julian, visivelmente preocupado. Eu apenas assenti com a cabeça. — Tem certeza? Seu irmão não precisa vê-la tendo essa crise na frente dele.
— Estou melhor, Julian! O que meu irmão tem, Dr. Samuel? — perguntei, encarando o médico que nos acompanhava até aquela sala.
— Preciso confirmar com o mielograma, doutora, mas o exame que tenho até o momento indica que provavelmente é leucemia. Pelas taxas que apareceram nos exames, o caso é bastante grave. Estou indo verificar seu irmão… gostaria de me acompanhar?
— Claro, Dr. Samuel! — respondi, respirando fundo mais uma vez. Levantei-me, um pouco mais recuperada, e segui o médico. Quando chegamos ao quarto, meu irmão já havia recuperado a consciência.
— Precisei passar mal para conseguirmos arrumar tempo para nos ver — brincou ele, mas eu não consegui sorrir em resposta. Então, ele me encarou. — É tão grave assim?
— Sr. Felipe, sou o Dr. Samuel, responsável pelo seu caso. Sinto muito, mas a situação é realmente muito grave. Seus exames indicam que você provavelmente está com leucemia. Se não iniciarmos o tratamento em breve, suas chances de sobrevivência serão bastante reduzidas.
— Imaginei que tivesse sido apenas uma queda de pressão. Não fazia ideia de que fosse algo tão grave. Qual é o procedimento agora, doutor? — perguntou ele, olhando para o médico.
— Vamos realizar um exame específico na sua medula óssea e, assim que recebermos o resultado, o senhor precisará ser internado para iniciar o tratamento o mais rápido possível. Antes disso, será necessário estabilizar suas taxas para evitar que seu organismo entre em colapso — explicou ele.
Felipe apenas assentiu com a cabeça, e o médico se despediu. Acompanhei o Dr. Samuel, e Julian me seguiu. Eu precisava conversar com ele a sós.
— Doutor, quais são as chances do meu irmão?
— Para ser sincero com a doutora, a situação do seu irmão é bastante crítica. O sistema imunológico dele está muito enfraquecido, e precisamos estabilizar suas taxas, como mencionei, para que ele possa começar o tratamento. Quanto mais demorarmos, mais difícil será a recuperação. É crucial que, neste momento, ele não contraia nenhuma infecção. Porém, como médica, a senhora sabe que isso não é uma ciência exata, cada organismo reage de forma diferente.
— Eu sei, sim, doutor. Muito obrigada! — agradeci, e o médico seguiu para solicitar o que era necessário.
Olhei para Julian, e ele logo percebeu o desespero no meu olhar. Sem hesitar, envolveu-me em um abraço reconfortante, que durou pouco, pois seu pager começou a tocar, indicando que ele estava sendo chamado para o seu setor.
— Te encontro mais tarde ou amanhã em casa. Tente descansar e, se precisar de qualquer coisa, me ligue — disse ele, despedindo-se.
Nesse instante, Lara chegou com meus pais, e juntos entramos no quarto de Felipe.
— Como você está, meu amor? Fiquei tão assustada! — Lara falou, preocupada com o marido.
— Estou melhor, querida. Um pouco cansado, mas vou melhorar.
— E então, filha, qual é o diagnóstico do Felipe? — minha mãe perguntou. Felipe me olhou, esperando que, como médica, eu explicasse a situação para todos.
— Felipe está com leucemia em um estágio avançado. Não é uma doença fácil de tratar. Ele precisará passar por um exame específico para determinar o tipo exato e terá que ficar no hospital durante o tratamento — expliquei.
Nesse momento, Lara começou a chorar novamente. Felipe e Lara estavam juntos há cerca de oito anos. Sempre foram muito apaixonados, por isso sei que não está sendo fácil para ela enfrentar essa situação. Mas ela precisará ser forte para apoiá-lo — Felipe vai precisar desse apoio ao seu lado.
— Existe risco de morte? — perguntou meu pai, com a voz tímida.
— Papai, só o fato de estarmos vivos já traz algum risco. No caso do Felipe, a situação se agravou por causa da descoberta tardia. Se esse cabeça dura tivesse me ouvido e feito um check-up antes, talvez não estivesse nessa situação. Como o próprio médico disse, agora é crucial que o organismo dele se recupere um pouco antes de começar o tratamento.
— Por que o tratamento não pode começar imediatamente? Não seria melhor iniciar o quanto antes? — perguntou minha mãe.
— Isso depende do caso, mamãe. No Felipe, o organismo pode não aguentar e entrar em colapso.
— Você não será a médica dele? — perguntou minha cunhada, entre lágrimas.
— Não, Lara. Por questões éticas, não posso ser a médica dele, além de que a minha especialidade é cardiologia. Mas o Dr. Samuel, que está cuidando dele, é um excelente profissional.
— Vou entrar em contato com a clínica de fertilidade para suspender todo o procedimento — disse Lara ao meu irmão, e todos nós o encaramos.
— Acredito que seja o melhor, meu amor! — notei algumas lágrimas se formando em seus olhos.
— Clínica de fertilidade? — minha mãe perguntou, e até eu fiquei curiosa.
— Tínhamos planos de ter um bebê — essa revelação surpreendeu a todos.
Ficamos conversando mais um pouco, mas percebi que Lara continuava chorando silenciosamente. Meu irmão me lançou um olhar, e eu soube que ele estava pedindo ajuda.
Como o médico havia recomendado que ele precisava de descanso, decidi seguir suas orientações e dispensar todos, inclusive Lara, que parecia mais abalada do que meu irmão. Depois que todos saíram, Felipe olhou para mim, visivelmente aliviado.
— Obrigado, Amanda. Amo demais todos eles, mas estava me sentindo um pouco sufocado — disse ele, chamando-me para sentar na cama, perto dele. — Será que esse tratamento vai demorar muito? — perguntou, pensativo.
— Cada organismo reage de um jeito, irmão. É muito difícil para um médico afirma com certeza. Vai depender de como você reagir e do tipo de leucemia que você tem. Por que você não me ligou para fazer o check-up? Poderíamos ter feito um exame de sangue.
— Eu não queria te incomodar com bobagem, irmã. Sei o quanto seu dia é corrido no hospital, não queria te atrapalhar.
— Você nunca teria me incomodado, Lipe. Teríamos só aumentado suas chances de um diagnóstico precoce e uma recuperação mais rápida, irmão. Estou me sentindo uma inútil. Como não percebi seu estado nas nossas chamadas de vídeo? Se tivesse arranjado mais tempo para te visitar, talvez você não tivesse chegado a esse ponto.
— Amanda, você não tem culpa da situação que me encontro agora. Você é médica, não vidente. O culpado sou eu, por não ter ido ao médico. Mas agora não adianta chorar o leite derramado. Temos que ergue a cabeça e usar as armas que temos para sair dessa.
— Eu não posso te perder, Felipe! — falei, com lágrimas nos olhos.
— Você não vai me perder, irmã. Mas já te falei que você precisa estar preparada para tudo, porque na nossa vida existem muitos “sins” e muitos “nãos”. Temos que estar prontos até para o que não dá certo. Não controlamos tudo nessa caminhada.
— Você está certo, mas, nesse momento, tudo que eu quero é que você fique bem.
Um mês havia se passado desde a data do evento beneficente. Conseguimos finalmente equilibrar nossas agendas e aproveitar uma semana de férias que Théo transformou em nossa lua de mel.Ele me levou ao Marulhos Resort, em Pernambuco, Brasil, onde possuía um flat.O lugar era simplesmente incrível, a poucos minutos da famosa Praia de Muro Alto, com suas águas calmas que, na maré baixa, formavam piscinas naturais.As piscinas do hotel eram maravilhosas, com serviço de bar molhado, enquanto as acomodações cinco estrelas e a gastronomia de dar água na boca deixavam a experiência ainda mais especial — principalmente para mim, grávida e ávida por sabores.No entanto, preciso confessar — o local que mais aproveitamos durante toda a estadia foi, sem dúvidas, o quarto.Sei que algumas pessoas podem me criticar por isso, mas estar com um homem como Théo e não aproveitar cada instante ao lado dele seria um desperdício.Claro que aproveitamos um pouco de tudo durante a viagem, e nosso último dia f
Estava nervosa e com medo de falar em público para tantas pessoas, especialmente em um momento tão especial como aquele, e ainda mais assumindo o papel importante de esposa do diretor do Hospital Northbrook.No entanto, nunca me acovardei diante de nada na vida — e não seria agora que isso aconteceria.— Boa noite, pessoal! Tenho uma pequena noção do que essas famílias enfrentam todos os dias. Há dois anos, perdi meu irmão para essa doença. Não é fácil, muito pelo contrário: ela é devastadora. E não atinge apenas o paciente — destrói também todos que estão ao seu redor.Naquele momento, lembrei do Felipe, de sua luta, da nossa batalha juntos e de todos os momentos que compartilhamos.— Diante disso, posso afirmar que a noite de hoje é uma verdadeira celebração de esperança para essas crianças. Não poderia deixar de agradecer a confiança que depositaram em nós e a grandiosidade dos gestos anônimos, feitos sem alarde, sem esperar nada em troca…Cada gesto, por menor que pareça, tem o po
Nesse momento, ela retribuía o beijo dele, e eu me peguei emocionada com a cena. Menos de um minuto atrás estava sorrindo, e agora as lágrimas já rolavam pelo meu rosto.Só podiam ser os hormônios. Saí do quarto, deixando os dois se entenderem. Assim que cheguei à sala, Olívia me olhou com atenção.— Você também tá dodói, mamãe? Não chola, eu cuido de você! — disse, antes de me envolver em um abraço apertado. Eu correspondi, sorrindo diante de tanto carinho.Depois de quase uma hora, meus amigos finalmente saíram do quarto.Eu estava na sala, distraída no celular, quando Manu se jogou no outro sofá, os olhos visivelmente inchados. Logo em seguida, Lucas sentou-se ao lado dela com um sorriso enorme no rosto.— Você está péssima, amiga! — falei, rindo da situação.— Tenho certeza de que vou precisar de uma máscara de pepino mais tarde. Não posso aparecer no evento amanhã com os olhos assim — respondeu, e eu apenas assenti em concordância.— Já decidiram o que vão fazer? — perguntei. Ela
Após me examinar novamente e confirmar que eu estava bem, a médica me deu alta. Julian, ao meu lado, permanecia em silêncio, enquanto eu ainda estava em choque. Quando chegamos à recepção do hospital, ele me fitou.— Quer que eu chame o Dr. Almeida? — perguntou Julian, sem saber exatamente o que fazer.— Não, Julian, não precisa — respondi. — Estou bem, apenas um pouco em choque, mas vai passar. Vou até o consultório da Dra. Ella, preciso falar com ela.— Então vou te acompanhar — insistiu. — Você ainda não parece bem. Tem certeza de que não quer que eu chame o Dr. Almeida?— Não precisa, Julian — afirmei, mais uma vez.— Pelo que parece, essa gravidez não foi planejada, mas tenho certeza de que ele ficará feliz com isso. Eu, pelo menos, ficaria — disse, enquanto percebia o olhar dele fixo em mim.— Realmente não foi, mas não tenho dúvidas de que o Théo ficará feliz com a notícia. Minha vida andou muito agitada nos últimos meses… eu só preciso de um tempo para processar tudo isso — ex
Na verdade, era um vestido de noiva, completamente branco. Nada de volumoso ou cheio de camadas como os vestidos tradicionais de capa de resvista.O vestido era elegante e exuberante, embora claramente de noiva. O busto era todo em renda sofisticada, enquanto a saia caía solta e fluida, com um caimento perfeito. Precisei admitir — era realmente lindo.— Filha, esse vestido é para quem vai se casar. Mamãe vai apenas a uma festa, então não pode ser esse.— Opa, opa, opa. Nada disso, Amanda Bernardes. Você não vai apenas a uma festa — disse Manu, balançando a cabeça enquanto notava a troca de olhares entre minha mãe e a tia Samara. — Você está indo para A festa. E tenho que confessar: minha afilhada tem muito bom gosto. Você vai provar esse vestido, ponto final.— Manu, não inventa — protestei. — Esse é um vestido de noiva. Não faz sentido eu prová-lo.— E se este for o vestido que ficará perfeito em você? — Manu perguntou, insistindo. — Você não paga nada para experimentá-lo, e tenho ce
Com Manu já melhor, voltamos para a sala e retomamos nossa noite em família, entre risadas e conversas animadas. A atmosfera estava leve e acolhedora, e por um momento pude simplesmente aproveitar aquela sensação de pertencimento.Em dado momento, minha mãe se aproximou de mim, com um sorriso suave, mas seus olhos estavam um pouco apreensivos, como se quisesse compartilhar algo importante naquele instante.— Filha, preciso lhe contar uma coisa, mas não quero que se chateie com a notícia — disse minha mãe, e todos nós nos voltamos para ela, atentos e curiosos.— O que aconteceu, mamãe? — perguntei, preocupada e curiosa ao mesmo tempo.— É sobre a Lara — ela começou, hesitante. — Encontrei-a no mercado. Para minha surpresa, estava casada e grávida. Sua barriga bastante saliente.— A notícia não me pegou de surpresa, mamãe, afinal, sempre desconfiei que o problema entre a Lara e o Felipe, na época, estava justamente no fato de ela não querer engravidar.— Mas me diga, filha, por que deci







